Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 26 de 62

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Infância perdida

2. Obediência à repetição

Quando as crianças chegam no Internato III, que atende só a meninos na faixa etária de seis a oito anos, na sua grande maioria já participaram da experiência de vida dentro do internato. Poucos vêm diretamente de casa. Eles vêm da Escola II e de outros internatos que não pertencem à Fundação. Até o Internato II o atendimento é misto. Os meninos, ao completarem seis anos, são transferidos para o Internato III e as meninas ali permanecem até 10 anos, quando

são desligadas 1 ou transferidas para outros internatos que não pertencem à Fundação.

Assim, neste estabelecimento, o grupo de internados é mais homogêneo e, na sua grande maioria, já está habituado à rotina do internato. Aqui como nos outros não há, por parte dos funcionários, qualquer preocupação com a adaptação das crianças novas. Elas chegam em pequenos grupos nos primeiros meses do ano, sobretudo em março, e rapidamente se inserem na disciplina imposta no novo estabelecimento.

Há uma diferença sensível na exigência dos procedimentos disciplinares do internato anterior para este. Existe, por parte dos adultos, a expectativa de que o treinamento anterior já tenha surtido o efeito necessário, no sentido de "combinar as forças para obter um aparelho eficiente" (Foucault, 1977). Já há a consciência nos funcionários de que podem agrupar as crianças numa "massa", com a qual se deve trabalhar usando os instrumentos adequados para controlá-la. Nesta faixa já se observa um sistema de comando mais preciso. O treinamento das crianças é feito com poucas palavras, nenhuma explicação e, como diria Foucault, "no máximo um silêncio total que só seria interrompido por sinais, palmas, gestos, simples olhar do mestre". Cada "tia" tem sua maneira de controlar as crianças e estas conhecem bem a maneira de cada uma. O importante é que "dominem" as crianças, ou seja, que as crianças façam a atividade que devem fazer, dentro do tempo necessário, no espaço considerado adequado, sem que umas machuquem as outras. Vejamos algumas das técnicas de controle que as auxiliares de disciplina narram:

"Tem tia que trabalha de um jeito e outras de outro. Anete, por

exemplo, só de olhar para os meninos, eles já sabem o que ela

quer — se levantar ou sentar. Outras já preferem falar."

"É um pouco difícil o trabalho. É necessário conquistar a turma.

Tem que prometer castigo, mas tem que ceder também. Assim,

explicar por que está internado, o porquê do castigo. Prefiro

ficar a distância e olhar a ficar no meio deles e ter que chamar a

atenção toda hora. As crianças cansam de receber ordens e

então é importante ficarem soltas e se entenderem."

"Tânia e eu sempre preferimos trocar de turma para poder ter

domínio sobre todos os alunos. Lidando sempre com todos,

todos me conhecem e me têm respeito. Se fico só com uma

turma, depois, quando tiver que ficar com os outros, fica mais

difícil deles obedecerem, de ter o controle deles, porque eles

não me conhecem."2

As auxiliares de disciplina se dão conta da necessidade afetiva das crianças e de seus problemas, mas consideram que não há como atendê-los nem como dar uma atenção especial. E elas sabem que a atenção individual faz com que a criança, naquele ambiente, tenha maior dificuldade de fazer parte da "massa" e de obedecer às ordens dadas. Quando pergunto o que acham mais difícil no seu trabalho, dizem:

"No lidar. O mais difícil é compreender as crianças, cada uma

nos seus problemas. Quando voltam de férias, começa tudo de

novo. Tem criança que se adapta rápido. A criança que vem de

casa com a mãe, com o pai, é diferente. Ela dá mais trabalho.

Ela não se adapta aos colegas, às tias, não quer se alimentar.

Mas a atenção tem que ser igual para todo mundo. Se eu der

atenção àquele que chegou de casa, e os outros?"

"Criança nenhuma deveria ser internada. Por melhor que seja o

internato não é igual aos que são criados em casa. Têm mais

contato com os pais mesmo que eles sejam muito rígidos. Aqui

como uma tia pode dar atenção para 100 garotos?"

"Quem trabalha aqui gosta de criança. Quem fala que não

gosta tá ficando doida! Ano passado trabalhei quase o ano

inteiro com 100 crianças dos pequenos! E não matei nenhum!"

Assim, a única solução possível é seguir as normas institucionais e enquadrar a criança na disciplina. Já nesta idade se cultiva neles o

ideal de ser um bom soldado (vide foto 9).

 

Foto 9: A única solução possível é seguir as normas institucionais e

enquadrar a criança na disciplina. Já nesta idade se cultiva neles o

ideal de ser um bom soldado.

Os procedimentos disciplinares se confundem com a rotina do internato. Existe uma rotina rígida a ser seguida para que se possa cuidar das crianças com o número de funcionárias disponíveis. Para duzentas crianças há quatro de manhã e outras quatro à tarde, que

trabalham diretamente com as crianças. 3 Segundo a diretora não há possibilidade de que o funcionamento diário não obedeça a uma sequência de atividades iguais.

Nesta faixa etária, oficialmente de seis a oito, mas que na prática é de cinco a nove anos, a diretora tem consciência de seu trabalho de treinamento visando a adaptação futura das crianças nas outras escolas.

Sonia: "O que você acha do seu trabalho aqui? Por exemplo a

faixa etária, o que você pensa disso?"

Diretora: "É uma faixa etária boa de se trabalhar. Eu considero

boa porque, sei lá, é uma faixa etária onde as crianças

assimilam mais as coisas. Eu acho! É uma faixa etária fácil de

se lidar, entendeu? E acho que assimila mais as coisas, atende

melhor, e daí que, nessa faixa ele sendo bem orientado, eu

acredito que na faixa dos 12, 13, 14 anos, ele não vai ter muitos

problemas. Pegando assim dos 5 anos, né, porque a orientação

realmente deve vir lá do berço, da creche. Mas eu ainda pego

uma faixa boa para se trabalhar nela. E a gente procura dar

aquilo que a gente tem, na medida do possível, porque

trabalhar com massa não é fácil. A gente procura dar da gente,

entendeu?"

Como diria Foucault, no adestramento "reina a noção de docilidade" que une, ao corpo analisável, o corpo manipulável. "É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado" (Foucault, 1977). O que a criança mais assimila aqui no Internato III é a disciplina, a obediência à rotina, que vai se repetir nos próximos internatos com exigência crescente.

Mudar uma rotina? Acho que não tem condições não. É um

regulamento de internato. São muitas crianças e pouca gente

que trabalha; horário, tudo né?... A gente acaba acompanhando

a rotina porque o horário que a gente tem, é tudo espremidinho.

Se às 7 horas as crianças têm que estar na escola, como é que

eu vou, com 200alunos, começar a levantar esses alunos,

vamos supor, às 6 horas da manhã? Não dá tempo. Então é às

5 horas. E em todos os colégios o problema é o mesmo: o

tempo. O fator tempo (Diretora).

E, assim, toda tentativa ele mudança de rotina acaba não se efetivando. Pessoas novas que entram, sempre que tentam introduzir alguma novidade, não têm sucesso. E para sair da rotina, como diz a diretora, a única coisa possível são os passeios, quando as crianças saem do estabelecimento e passam parte do dia fora.

As pessoas que ali trabalham, em geral, se dão conta das implicações deste sistema sobre a formação do indivíduo. Ao mesmo tempo, elas próprias estão ali e, apesar de discordar do sistema, não conseguem mudá-lo nem sair dele. É uma constatação que certamente torna difícil o convívio diário com o trabalho. Vejamos o depoimento da diretora:

Eu sou contra o internato porque bitola muito a criança, tolhe

muito e isto é prejudicial. A gente não pode dar à criança, no

internato, a liberdade. No internato ele não tem condição de ter

iniciativa. Ele é tolhido, ele recebe tudo pronto, ele é uma

pessoa que não se prepara para a vida. A gente não prepara

um interno para a vida. Então ele vai cair no mundo

perdidamente. É uma lástima. Nem a capacidade de se

conduzir num emprego ele tem, pois ele nunca teve chance na

vida de ter iniciativa, de ter opção.

(..) Aqui tudo é determinado. Aqui não, em todo internato. Tudo

é determinado! Tem um menino que vai aprender uma profissão

no barbeiro. Você diz: 'Você coloca a máquina ali, você tira,

limpa a máquina'. Então se lá fora ele não encontra uma

pessoa... e não vai encontrar, pois ele tem que ter iniciativa e

responsabilidade. Ele não foi preparado para vida, para luta

não!

Aqui nesta escola, como nas outras, a criança não tem qualquer possibilidade de fazer escolhas, ter opções. Tudo lhe é fornecido na hora que o regulamento determina. Ela não pode desejar nada e se se expressar neste sentido, será novamente enquadrada. Dentro da turma lhe será mostrado que não pode fugir à regra e que não se pode privilegiar uns em detrimento dos outros. Sempre se pensa na "massa" e não no indivíduo. O regulamento é todo-poderoso.

Uma maneira de fazer funcionar o regulamento é o aprendizado da fila. Como já vimos, nos Internatos I e II este aprendizado já foi

iniciado, mas aqui sua exigência é máxima.4 Andar em fila — em linha reta — é uma técnica utilizada para que as crianças aprendam a sua vez sem confusão e sem empurrar, segundo diz a chefe de disciplina. Para que esse aprendizado seja mais facilmente assimilável, elas introduzem jogos, canto e conversa. Depois do banho, por exemplo, as crianças andam em linha reta, sobre o risco do chão, e a tia faz disso uma brincadeira. Todos devem, em fila, estender sua toalha no pé da cama. Vemos a seguir um exemplo da chefe de disciplina sobre a "técnica da conversa" :

Vocês deveriam sentir vergonha por bagunçar. Vocês são

homens, são rapazes, o que querem mais das tias? Que as tias

façam doideiras com vocês? Vocês sabem que eu faço o que

vocês querem de mim e peço que vocês respeitem as tias e as

visitas. Se chegar uma visita, não é para rodear, ficar

agarrando, alisando, olhando. Continuem a fazer o que estão

fazendo. Sejam educados! — Esta é a maneira que eu tenho

para acalmá-las e discipliná-los.

Disciplina então está sempre associada, para as funcionárias, à docilidade das crianças, à obediência, ao respeito e à exclusão do afeto. Este é o treinamento importante: saber obedecer, estar calmo sem fazer perguntas ou demandas e aguardar a sua vez. Aqui, como em geral ocorre nos internatos de "menores", as crianças até nove, dez anos expressam sua demanda de afeto através do contato corporal junto aos estranhos que visitam o estabelecimento. Depois desta idade, eles ignoram ou se aproximam, podendo até tocar com as mãos, mas dificilmente seguram o corpo ou abraçam a perna do visitante como fazem até esta idade.

A expressão mais concreta da intensificação da ordem e da disciplina do corpo é o início de uma técnica disciplinar mais complexa — "a ordemunida". É com seis anos — idade de entrada na escola primária — que se inicia o seu exercício diário — logo após o acordar e antes do almoço — para que as crianças aprendam a controlar seu corpo, seus gestos, suas emoções e a responder com rapidez e presteza à voz de comando articulando vários movimentos com ritmo em perfeita coordenação com a turma; a "ordem-unida" é feita da seguinte maneira: as crianças são "formadas" (várias filas por ordem de tamanho) na quadra e executam certos movimentos quando a inspetora ordena. Ao primeiro grito — "Cobrir" — as crianças esticam o braço direito até tocar no ombro do colega. Na segunda ordem — "Firme" — ficam em posição de sentido e os braços esticados junto ao corpo. Na terceira — "Descansar" — podem relaxar sem sair de sua posição na fila. Antes de executar cada ordem, as crianças devem bater com as mãos na perna, todos ao mesmo tempo fazendo um som único. Esta sequência pode ser repetida várias vezes. Aqui esta repetição se faz de três a cinco vezes. Nas escolas seguintes veremos como sua utilização rotineira é muito mais frequente e a cada vez seu exercitar se repete inúmeras vezes.

Neste internato, como nos anteriores, a disciplina segue sempre na mesma direção, que é a da automatização e do aniquilamento do sujeito.

A observação detalhada, que veremos a seguir, de um dia de semana mostra com clareza o funcionamento institucional. Revela como os rituais disciplinares já se iniciam desde o acordar para bem marcar, a cada dia, que não há possibilidade de, no sono da noite, o sonho trazer alguma ilusão de que estão num local mais acolhedor, onde há lugar para carinho e o amor entre adultos e crianças.

Segunda-feira — 19/07/82

Chego às 5h45min e encontro as duas "tias" conversando com

a roupeira que passava roupa na rouparia. Converso um

pouquinho, elas falam que são as primeiras a chegar. Às 6

horas entram no dormitório, acendem a luz e alguns meninos

vão logo se levantando, mas a grande maioria dorme

profundamente. É um dia frio de inverno e apenas agora

começa a clarear. A "tia" chama um e outro e logo um

"ajudante" começa a acordar os outros. Noto que tanto a "tia"

dos maiores quanto a dos pequenos estão mal-humoradas

assim que entram em contato com as crianças. Hoje tem duas

nos pequenos e uma nos grandes. Quem fez xixi na cama tira o

lençol, sem a "tia" mandar, já sabem que devem fazer isto.

Assim que acordam, rapidamente trocam a sua roupa que ficou

no pé da cama e vão se enfileirando sentados no chão do

corredor que dá no banheiro. O chão é muito frio e muitos estão

descalços. Faz muito frio agora de manhã e eles, nesta hora,

não têm blusa de frio. E saíram do cobertor! A "tia" mal-

humorada os acorda e noto que a maioria deles levanta mal-

humorada, expressão zangada. E rapidíssimo vão se

enfileirando. Só ouço a "tia" falar com eles para chamar a

atenção. É horrível. Para alguns, assim que me notam ali, sorrio

e eles sorriem, e seguem a fazer o que têm de fazer. A "tia" fala

coisas do tipo: "Vamos acordar! Já é hora!". Na fila para

escovar os dentes diz: "Meninos da escola estão moles!/Psiu!

Passa para trás!/Estão falando demais! Muita conversa!/Vocês

dois, não mandei entrar no banheiro ainda, o que fazem aí?". O

processo é assim. Eles se sentam e, depois que estão todos

enfileirados, ela vai chamando alguns que, em pequenos

grupos, entram para escovar os dentes — ela dá pasta na

ponta do dedo e eles pegam as escovas lá dentro no armário —

cada um tem a sua com nome.5 Nesse meio tempo ela escuta

alguns que se atrasam no dormitório e fazem bagunça —

pouquíssima: "Não quero ninguém no dormitório!". E chama a

atenção de um na fila: "Vicente, você está passando mal, é? /

Não estou gostando de seus modos!".

Banho: às 6h 15min há 30 meninos enfileirados para tomar

banho — o banho é frio. Faz um frio danado e a água é gelada.

E a "tia" olha para que todos entrem, ensaboa um a um e eles

se enxáguam. Nesta hora percebi melhor a reação à água fria,

mesmo assim muito discreta: contorcem o corpo e esticam a

mão para cima da cabeça, sem emitir qualquer som. Outras

horas vi alguns pulando, a "tia" imediatamente dava um tapa na

cabeça para que parassem. Observo que a maioria está de

sandálias de borracha e alguns descalços. O chão está todo

molhado e é de ladrilho escorregadio. Há cinco meninos que,

na hora de se enxugar, não têm toalha e a "'tia" zanga, mas não

vai pegar. Tudo tem que ser rápido agora para chegar à escola

no horário. Saem dali para pegar roupa e lá terminam de se

enxugar. Ganham toalhas os que não têm. Passam pelo vento

frio do corredor aberto e se embolam na rouparia. A fala dos

adultos é sempre para dar ordens ou zangar. Lá a "tia" dá

roupa, uniforme, para esta primeira turma que vai para a escola,

e ganham também uma blusa de frio azul-marinho. Saem dali

em fila para o refeitório. O mesmo se passa com os meninos

que vão para o grupo escolar. Quando os menores ainda estão

na rouparia, eles sempre riem e brincam um pouco, vejo muitos

tremendo de frio, mas ninguém reclama. Vestem o casaco para

ir à escola — dois têm casaco de casa e pegam na sua

"gaveta"6 — um deles me mostra orgulhoso que tem também

sabonete pessoal.

7 horas: os maiores estão enfileirados no corredor da pia

externa, formam e andam para tomar café — todos estão ali,

mas só têm casaco os que vão para o grupo, e faz um frio

doido.

Refeitório: os menores tomam café com leite e pão. Todos que

vão para a aula têm casaco azul; os que ficam usam branco.7

7 horas no refeitório: os maiores rezam o Pai Nosso. As "tias"

chamam a atenção a todo instante — "psiu". O café com leite é

superdoce. A "tia" penteia os cabelos das crianças enquanto

elas tomam o café da manhã.

7h20min: depois do café todos formam e fazem ordem-unida.

Hoje, excepcionalmente, os menores não fizeram porque o