Infância perdida
7. Recreação livre: parque "escolinha" e campeão
no imaginário dessas crianças a morte ronda de perto, na forma
de carência e de repressão que se cristaliza na insensibilidade
do sistema.
7. Recreação livre: parque "escolinha" e
campeão
13 horas: aqueles que não dormiram à tarde estão no parque.
Brincam nos brinquedos (balanço, escorrega, etc.), conversam
em pequenos grupos, desenham na terra com pauzinhos e dois
grupos jogam futebol com um carrinho de plástico, que serve
como bola. Depois comentei com a diretora a falta de
brinquedos e citei este exemplo. Ela falou que eles têm duas
bolas novas e que eles brincam com bola.
O que se passa é que no parque não é para jogar bola e por isto elas não dão. Só vejo os internos jogarem bola na parte da manhã, e só quando estão na quadra. De novo há hora determinada para o que deve ser feito, prevendo a brincadeira e o local. Mas alguma improvisação e liberdade é permitida; as crianças se aproveitam desta possibilidade e inventam o jogo de bola com o carrinho.
No recreio da "escolinha", eles brincam sem brinquedos. Apenas com o "zum-zum-zum" — com botão e um pedaço de linha — feito pela "tia". Mesmo no lazer, a "tia" ocupa o tempo fazendo fila.
Ela gosta de trazer as crianças para a "escolinha" ou vai "passear com eles na estrada, ensinando a andar de mãos dadas". Ela me mostra um interno que tem muito "senso de direção" e que vai na frente da fila. "Quando a gente pede para parar, ele para. Assim a fila forma de novo bem. Ele desenvolve seu senso de direção e os outros também. Isto é muito bom. E, quando vou para o campo com eles, é bom também porque lá tem muito espaço e eu gosto de ensinar a eles a fazer forma."
Mesmo dentro da precariedade da organização do brinquedo oferecido, as crianças não são livres para inventar. Por outro lado, percebe-se que delírio de um sistema tão organizado não há uma organização do brinquedo para acontecer a ação do brincar, como vamos observar quando as crianças frequentam o campão.
O campão é mais frequentado pelos meninos do Internato V. Os dos Internatos IV e III utilizam este espaço às vezes, aos domingos, em dia de festa ou para alguma atividade especial no auditório
denominado "grêmio". 16 As crianças gostam muito ele ir para o campão porque o espaço é aberto e porque se encontram com meninos das outras escolas e pessoas da comunidade. É pouco usado aos domingos, entretanto, porque o campo de futebol é sistematicamente alugado para times de futebol — muitas vezes um time composto de funcionários ou filhos de funcionários e um time de fora. Por este motivo, em geral, as crianças ficam presas no internato aos domingos. Observei, entretanto, um domingo em que as diversas escolas foram para o campão e também a Escola III. É neste local que os meninos mais novos se relacionam, têm oportunidade de conhecer os maiores e de encontrar seus irmãos e primos. É também aí que começam a participar da disciplina dos maiores, não só por observar os castigos dados ali — ficar em fila imóvel sob o sol — como efetivamente por ter que obedecer a uma voz de comando do adulto de outra escola — a imobilização pelo apito.
7 horas: no grêmio — a "tia" forma os maiores e avisa que não
podem ir para certas áreas, senão serão castigados. Os mais
novos não formam nem são avisados.
8h20min: chegam as crianças do Internato IV. Ficam à minha
volta e querem dar a mão. Vêm em fila mais muito à vontade.
Conversam com a "'tia" e contam suas estórias. Estão
contentes. Gostam de sair do estabelecimento.
Um menino se aproxima, pergunta se conheço alguns termos e
se orgulha de poder me explicar: "chepa — é roubar coisas;
esparar — é ficar se pendurando nos outros".
Um dos meninos do Internato IV vem com um pandeiro e toca
muito bem.
Um "tio" me mostra e o elogia. Outros vêm ao seu lado e um
deles toca uma lata. Logo chega ao grêmio uma turma de 20
que fica em fila de castigo.
Os meninos falam que os do Internato V lhes tiram a bola. A
"tia" me diz que eles se espalham enquanto não há meninos
grandes. Depois eles só ficam por perto dela.
Os meninos pequenos lancham biscoito e voltam para o
internato. Os maiores ficam. A "tia" me informa que os leva de
volta porque havia muita criança no campo e muito carro.
Ficaram com medo de que ocorresse algo.
8h40min: o inspetor do Internato IV apita e todos que ali estão
ficam imóveis, olhando para o "tio". Ele fala que os alunos que
estão no tronco da árvore devem sair de lá. Em seguida todos
se descontraem. Os meninos me perguntam "se vai ter festa
porque veio todo mundo para cá" e explica que não vêm todo
domingo. Vejo muitos irmãos de escolas diferentes andando
juntos e alguns me mostram seu irmão.
Em meio a tantas tensões no cotidiano do internato, é na recreação que há maior possibilidade de diminuir a tensão nas relações entre as "tias" e as crianças. Apesar das funcionárias sempre exercerem seu papel de vigilância e controle, é nessa hora que se pode observá-las mais disponíveis para estar com as crianças e escutá-las. Pode mesmo acontecer alguma troca de carinho, como por exemplo uma criança deitar a cabeça no colo de uma funcionária. No jogo propriamente dito, entretanto, elas dificilmente conseguem ser intermediárias nas relações de conflito. Em geral, interferem para brigar ou para organizar o jogo sem ouvir o que se passa. Foi na recreação que pude melhor perceber as crianças, como se elas se humanizassem, na medida em que era possível uma relação com as funcionárias, na qual era atendido algum de seus anseios individuais.
Como pesquisadora, preferi ter uma atitude participante mesmo que isto pudesse me impedir de observar outras situações que ocorriam. E por estar mais disponível, as crianças sempre me procuravam em busca de atenção. O pedido, em geral, era para ajudar a resolver uma situação de conflito no jogo, para contar algum feito (como um gol por exemplo), para mostrar algum objeto do qual se orgulhavam (por exemplo, o sapato dado pela mãe). Notei também que as funcionárias, algumas vezes, deixavam as crianças inteiramente soltas e elas tinham a maior dificuldade de se organizar para brincar. A impressão que me causou foi muito parecida com a narrada quando dei água para as crianças no Internato I sem exigir fila. Aqui também, na área livre do pátio de cimento entre as varandas, as crianças pareciam ficar muito ansiosas sem o controle explícito das funcionárias. Corriam de um lado para outro, chegando a se atropelar ou a bater com a cabeça na coluna de cimento. As brigas e disputas eram muito mais frequentes sem um clima calmo para brincar.
Nesta escola, como nos internatos do gênero, a escassez de brinquedos e a falta de organização da brincadeira dificultam a ação de brincar. Vimos nos internatos anteriores que esta situação é semelhante. O brinquedo não é utilizado para favorecer a criança em sua livre expressão. Sabe-se que é através do brinquedo e do jogo que a criança se aventura na experiência de constituir-se sujeito singular e diferenciado. Mas, como o jogo favorece sua autonomia progressiva, ele não serve aos interesses institucionais, na medida em que não permite agrupamento e controle das crianças como massa" indiferenciada. E, como diz Navarro Vital Brazil (1987, p. 80),
no ato de jogar encontra-se o espaço atualizado da diferença
onde se realiza o sujeito. O brincar é o espaço criativo que
existe entre as pessoas, é uma forma original de expressar o
desejo. Sem o espaço da diferença, a comunicação é
doutrinação e produz aquiescência e obediência.
1 Na grande maioria, os internos não são órfãos e, com 10 anos, as mães já os deixam ficar em casa enquanto vão trabalhar fora.
2 Nesta escola existem dois dormitórios com 100 crianças e duas auxiliares em cada um, por turno. No dormitório dos pequenos, estas duas auxiliares preferiram se "organizar" desta forma para cuidar das suas crianças no seu turno. Conhecer aqui não implica em relacionamento mais próximo ou individual. Trocar de alunos é somente uma técnica de conhecer para melhor controlar.
3 O número de crianças que fica sob sua responsabilidade é 50. Quando eles têm aula, esta quantidade diminui, pois a inspetora fica somente com aqueles que não têm aula no seu turno. Aos domingos, cada "tia" fica com 100 crianças, ou seja, um dormitório todo, pois sua colega folga e não há ninguém para repor a folga. As auxiliares têm direito a uma folga semanal, sendo que a folga é só no domingo, una vez por mês. Elas fazem então um acordo extraoficial para folgarem dois domingos por mês. Sempre que uma colega folga, a outra fica responsável por suas crianças, ou seja, o dormitório todo.
4 Verem INTERNATO I, item "Fila", e em INTERNATO II, item "A condição humana".
5 Algum objeto individual é preservado nos estabelecimentos desta Fundação.
6 Uma parte do armário que é de seu uso exclusivo.
7 É uma forma de diferenciar as crianças e agrupá-las em turmas.
8 Em nenhum dos internatos é permitido o uso de garfo e faca sob a alegação de que podem se tornar instrumentos de agressão. Como vemos, às crianças internas, "menores", precocemente é atribuída a qualidade de violência descontrolada.
9 Como vimos no Internato I, esta questão é importante desde que as crianças começam a ter alguma autonomia com o aprendizado do andar.
10 "Processo Interno" — documentos que a acusam de maus-tratos à criança, assinados por ela e que podem ser usados pela administração para a sua demissão a qualquer momento por "justa causa".
11 A enfermeira parece ter melhor formação profissional. Talvez por trabalhar junto com o médico, um profissional, dos raros na instituição, que tem respeito pelo seu trabalho e pelas crianças. Ele deve influenciar a enfermeira na sua visão. E também, como ela não lida diretamente com muitas crianças ao mesmo tempo, pode ter uma relação particular com elas e a situação de observadora de situação no grupo lhe permite uma posição mais crítica. Quanto à roupeira, que é amiga da enfermeira, tem amizade por mim por ter atendido ao seu pedido de orientar a filha, quando eu ainda trabalhava ali como psicóloga. É uma adolescente que passava por uma fase difícil, a quem atendi algumas vezes. Em geral, eu me negava a atender os funcionários, mas não me negava a conversar informalmente com eles sobre os problemas que me traziam de sua vida familiar. Creio que o depoimento dela ocorreu por gratidão e pela confiança de que eu não falaria disto com a diretora ou outra pessoa, apesar de ficar hospedada na casa da diretora, ao lado da escola. Estas pessoas não gozavam de estima da diretora como outras funcionárias. Deve ser contrastada aí a relação pessoal com a ausência da relação com a criança, ou melhor, a relação de controle. A funcionária tem em relação a mim um traço pessoal (atendi a filha), coisa que não há nas relações institucionais.
12 Meu comparecimento ao internato quando ninguém costuma visitar — nas primeiras horas do dia e à noite — tornava minha presença e observação ainda mais indiscreta.
13 No "caderno de plantão noturno" há os seguintes registros: dia do plantão, número de crianças por pavilhão, medicação a ser dada, observação sobre o plantão; é assinado pelas plantonistas. O controle da diretora sobre o que acontece à noite, salvo algumas interferências pessoais, é feito através do "caderno de plantão noturno", que também serve como veículo diário de comunicação entre a diretora e as plantonistas.
14 Visitei algumas vezes a pré-escola e o grupo escolar que os internos dos Internatos II e III frequentam. Como notei que a exigência de comportamento das crianças era muito semelhante ao sistema disciplinar do internato, perdi todo o interesse em explorar melhor o que este ambiente pudesse oferecer de novo e diferente nas aventuras possíveis da descoberta da leitura e escrita. Ver as questões referentes à escola formal em INTERNATO VI, item "O atraso esperado e fabricado".
15 É uma criança visivelmente problemática, que muito sofre com a vida institucionalizada. Tem sempre uma enorme demanda de afeto, o que o torna "chato". Não consegue brincar ou se interessar por nada. É um exemplo típico de criança que vaga no ambiente do internato e precisa de ajuda de especialista sem, no entanto, receber qualquer atenção da direção e dos "técnicos" (psicólogos e assistentes sociais).
16 Antigamente funcionava como um grêmio, com muitas atividades esportivas, culturais e musicais.