Infância perdida
Prefácio
As ciências da educação, se têm alguma existência, fazem-nos refletir bastante sobre os fundamentos das ciências sociais. Piaget já o demonstrou bem: tornou-se epistemólogo após ter começado a observar as crianças — suas próprias crianças. Além disso, não percebemos o suficiente a ligação entre ciências da educação e ciências da lógica (ou lógica das ciências) no que diz respeito a Popper ou a Wittgenstein. Karl Popper foi, por muitos anos, um trabalhador social. Todas as suas primeiras publicações falam sobre a educação. Ludwig Wittgenstein, durante muito tempo, ensinou numa escola rural. Os dois grandes lógicos do século XX são obcecados pela infância, pela aprendizagem, pela educação e pela reeducação: Ludwig, depois do Tractatus, Karl, antes da publicação da A Lógica da Pesquisa (frequentemente mal traduzida como A Lógica da Descoberta Científica).
A pesquisa realizada por Sônia Altoé observadora participante e implicada — se insere naturalmente nos campos das ciências da educação e da metodologia das ciências sociais, setor bem quente da filosofia das ciências. Uma sociedade a nossa que aprisiona a infância, a velhice, o desviante, a loucura, se julga ela própria. A sociedade não quer saber. Então aprisiona. Você e eu também, quando não queremos saber, quanto à nossa mulher, nosso marido, nossas crianças, nossos pais, os aprisionamos nas paredes de nossa recusa de compreender, da nossa angústia, do nosso medo. "A insegurança" reina. No Brasil, como em qualquer outro país, essa fobia universal tomou conta de grande parte das classes médias.
Franco Basaglia falava de "crime de paz", a propósito da ação da psiquiatria. Esse conceito pode ser ampliado a muitas outras atividades, pelas quais somos, de perto ou de longe, responsáveis. A criança, como o índio, o negro, não é uma engrenagem da máquina política. Portanto não existe. Qualquer que seja o regime político, ela está, como o velho, o desviante, e o louco, mais próxima do animal do que do gênero humano. É feita para ser observada, classificada, avaliada, julgada, separada, aprisionada. Está "fora do jogo", como um jogador de futebol que, durante uma partida, recebe do juiz três cartões amarelos.
A criança não existe. Nela cuidamos desta doença sexualmente transmissível: a infância. Doença mortal: a criança se torna fatalmente adulto. De preferência, um adulto conforme às normas, ao uniforme. Militar, por exemplo. É o sinal de que se integrou perfeitamente à instituição e de que o Estado-inconsciente controla seu imaginário. Porque tudo está ali: como institucionalizar estes animais selvagens, mentirosos, predadores, perversos, para que o Estado possa dormir em paz?
Nesse país magnífico que é o Brasil, uma psicossocióloga tenta descobrir o segredo das crianças perdidas. Ela não elabora um grande discurso sobre a condição das crianças como outros fazem grandes discursos, grandes teorias sobre a condição das mulheres, dos moradores das favelas, dos delinquentes, etc. Mas, ao contrário, descreve o que lhe aconteceu ao ocupar-se dessas crianças confinadas. De seu lugar — que ela igualmente descreve — Sônia mostra o funcionamento de uma máquina de socializar a infância. Esta máquina é o analisador de uma sociedade. Ela a revela e a interroga, a obriga a reagir. Nos meses e anos que virão, o que seria do estatuto da infância no Brasil? As eleições presidenciais passadas significaram um desafio para a infância? Para sua liberação? O livro de Sônia não tem qualquer pretensão ao profetismo. Ele se contenta em restituir o que existe.
Marx disse em alguma pane que se descrevemos completamente um fenômeno, isto equivale a uma teorização perfeita. Eu acrescentaria: desde que esta descrição englobe também a pessoa que descreve. É o que Sônia faz, praticando a teoria da implicação do pesquisador na sua pesquisa. Esta implicação é institucional: ao mesmo tempo sociológica e psicológica. Ela contém uma espécie de hipercomunicação do pesquisador com a instituição, do pesquisador com as crianças. A instituição que exerce sua monstruosa pressão de dimensão estatal — mesmo obedecendo a um estatuto privado. As crianças que passam pelo que Ferenzci, no final de sua vida, chamou de intropressão do adulto sobre a criança.
Ferenzci teria ficado feliz ao ler esta pesquisa. O leitor brasileiro também ficará, se não massacrou definitivamente a criança que existe dentro dele.
René Lourau
Paris, 1990