Infância perdida
4. "Achado não foi roubado. Quem perdeu foi relaxado"
4. "Achado não foi roubado. Quem perdeu foi
relaxado"
Também aqui os internos não têm praticamente nada de pessoal que possam manter junto de si. Mas eventualmente há uma peça de roupa (camisa, meia ou cueca) ou um objeto (cordão, saboneteira) que eles guardam com cuidado para não sumir. E para que não suma é comum vê-los carregando consigo para todo canto os "seus pertences". Perereca, um interno conhecido meu, carrega uma saboneteira. Quando lhe pergunto por quê, ele responde:
"Porque ontem, quando fui à missa, eles pegaram tudo meu.
Hoje estou carregando para não roubarem" (ri). Depois amarra
na cintura com barbante, para deixar as mãos livres.
Quando some algo, alguns meninos ficam completamente desesperados e choram muito. Não poder ter nada em seu poder que lhes confira qualquer identidade é terrível e fortalece o sentimento de abandono e desproteção, pois quase sempre o inspetor não consegue tomar qualquer atitude que faça aparecer o que foi perdido, ou não leva a sério a reclamação dos garotos. Vejamos a seguir o depoimento de um menino de 10 anos, que encontrei na secretaria. Ele tentava conseguir que alguém o escutasse e lhe dei atenção. Ele estava muito angustiado.
"Quero sair daqui porque um menino dali só vive roubando as
minhas coisas. Eles viram a meia nova, aí eu queria mudar de
roupa para merendar e o senhor Milton disse: vai lá mudar de
roupa. Fui e mudei e até hoje a meia não apareceu. E no
mesmo dia que ganhei! Foi ontem. Os meninos foi e roubaram
de noite, roubaram à tarde. Eu quero sair daqui porque fica a
maior confusão, ainda o seu, o diretor ali não resolve nada. Eu
mando ele formar os alunos todos para tirar a meia, mas não,
ele não forma não. Então eu prefiro sair daqui do que ficar aqui
sofrendo nas mãos dos adultos." Então ele me descreve como
é a sua meia que perdeu; fala desesperado. Diz que não tem
como achar mais a meia e explica o que os colegas dizem:
"Achado não foi roubado, quem perdeu foi relaxado".11
Não há a quem recorrer, a quem pedir ajuda. E mesmo que consiga falar, não há funcionários que resolvam a situação. Ele se sente, portanto, só e completamente indefeso junto a tantos outros garotos de sua idade. A disciplina, a forma e a autoridade dos funcionários não valem de nada, não são acionados a seu favor. Percebemos nesta escola que as crianças internas começam a diferenciar a disciplina que facilita a convivência e a relação entre eles, no sentido de colocar regras e haver respeito mútuo e a disciplina repetitiva, automática, mas que não organiza o seu convívio.
Talvez a melhor saída que eles encontram para situações como esta, na qual a intermediação do funcionário é necessária, mas muito precária ou inexistente, é levar as coisas na brincadeira e achar graça no que ocorre. Vejamos nesta entrevista com três alunos de 10 e 11 anos:
"O que acontece mais é roubar. Quando a gente tem visita e
ganha coisa, a gente vai e guarda na cama. Tudo bem. Chega
de manhã não tem mais nada do que a gente ganhou."
Sonia: "Vocês não têm armário?"
"Não (coro) Só o 1º e 2º dormitório."
Sonia: "Quer dizer que à noite os colegas pegam uns dos
outros?"
"É [coro]. Eu vou para a missa e deixei a peteca, chaveiro, tudo
em cima da minha cama. Quando eu cheguei lá e olhei embaixo
do colchão — cadê? Sumiu!", conta um rindo.
"E meu irmão! Tava descalço, só de short porque o inspetor
mandou, e depois quando ele chegou na cama fiu [assovia],
largou [sumiu] o conga dele."
Todos riem, acham graça na história do outro.
Em alguns dormitórios há armários para que o interno guarde as coisas, mas não em todos. Ali a criança só guarda aquilo que pertence ao internato — uniforme, conga, pijama. Mesmo assim as coisas somem. O aluno é sempre chamado à atenção quando perde algo. Nunca ouvi nenhuma conversa dos inspetores com as crianças no sentido de mostrar a importância do respeito pelas coisas dos outros. O tom é sempre de bronca ou incriminação individual ou grupal. Não ficou claro se o dito — "achado não foi roubado, quem perdeu foi relaxado" — surgiu entre as crianças ou entre os inspetores. Mas certamente é útil para os funcionários, na medida em que responsabiliza o indivíduo e exime a organização do internato, em particular dos dormitórios, de qualquer possível intervenção. A culpa do indivíduo é sempre utilizada num sistema de funcionamento de instituição total como esta, gerando situações complicadas, nas quais a criança é marcada e estigmatizada. Esta é uma das situações que se prestam para que algumas crianças sejam desde aqui já marcadas como desviantes, no caso, como "ladras". Vejamos a narrativa espontânea dos meninos:
"Ih, tia, ele é lalau. Pega as coisas de todo mundo no
dormitório." O acusado responde emburrado: "Eh, cara, não!".
Continua: "O seu diz que quando sumir algo no dormitório é ele
que pegou. O seu disse que é para a gente malhar ele." Ele
então diz: "Eu dou para pegar mesmo".
Falei que não achava justo pensar que sempre era ele, pois
outros podiam pegar e sempre pôr a culpa nele. Ele ficou me
ouvindo, o "culpado" parecia contente ao ouvir que havia outra
possibilidade.
Outra forma de tirar algo do colega é "arrasar" a comida do outro, algo que ocorre muito. Comida extra não se tem. Assim, quando alguns deles, sobretudo os mais novos, "estão de bobeira" com algo de comer na mão — biscoito, pão ou doce — é comum que outros tentem tirar um pedaço. Isto acontece sempre no pátio quando estão dispersos e em pequenos grupos. As crianças são duras umas com as outras e as menores e as mais frágeis levam a pior. Sair do refeitório comendo é ter o prazer de saborear devagar o alimento, mas podem ocorrer cenas como a que vi após o lanche — uma briga feia de 15 meninos contra um que chorava e tentava se livrar daqueles que o atacavam. Ninguém foi em sua defesa e um menino me esclareceu: "estão arrasando a merenda dele, porque ele saiu com doce". Vi então os meninos se dispersarem com as mãos sujas de doce. A criança que me explicou o ocorrido, disse que isto é comum. Num outro dia observei outra criança chorar e os meninos me explicaram: "eles estão querendo arrasar a merenda do outro. Aí tem muito menino grande que é ruim, que bate nos pequenos. É sempre assim". As crianças relatam sua realidade numa visão crítica, porém é estranho. É como se aprendessem muito cedo que ali não têm proteção dos funcionários e que eles têm que aprender a se virar como podem, cada um por si. Tudo isto ficou mais claro ainda quando resolvi intervir numa situação já criada, como segue:
Depois do jantar estou andando no pátio quando vejo uma
criança que chora muito e bate o pé no chão. Não há inspetor
por perto. Pergunto o que houve e logo outros correm e dizem
que pegaram o pão dele, por isto ele chora.
Chamo-o e falo que darei outro pão, que não precisa chorar
mais. Vou até o refeitório e consigo o pão. Os meninos que o
acompanham dizem: "você deu sorte, cara! Se não fosse a tia
tu não tinha ganhado outro pão!". Ouvindo isso, trouxe o
menino pelo braço e falei que comesse o pão perto de mim. Ele
comeu e quando terminou perguntou se poderia ir brincar. Seu
rosto transmitia enorme medo.
O inspetor não só não protege os meninos como acha que deve haver um acerto de contas entre os meninos, como se fosse possível uma lei justa entre eles. Esta questão tem a simplicidade dos exemplos acima citados. Poderíamos pensar numa certa desatenção dos inspetores mas, com o exemplo da "malha", vemos claramente que é uma atitude não só intencional como incentivada pelos funcionários. Esta situação muda de figura quando se considera que o interno fez algo errado. Então não há proteção, pelo contrário. Há estímulo para que uns batam nos outros. Veremos isto com maiores detalhes mais adiante. Se a criança tenta se proteger em algum lugar, o funcionário pode intervir, não para ser intermediário na situação de conflito criada, mas para deixar que eles acertem as contas uns com os outros. Alguns funcionários não concordam com esta atitude dos inspetores e tentam dar proteção às crianças. A roupeira em particular é procurada porque sua sala, em geral, está aberta para o pátio. Ela me narra um exemplo de sua discordância quanto aos inspetores deixarem as crianças à sua própria sorte.