Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 5 de 62

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Infância perdida

2. Considerações teóricas

Na introdução do estudo de cada internato descrevo o que considero serem os temas dominantes ali encontrados. Durante a própria pesquisa de campo e na análise do material recolhido, alguns temas se tornaram relevantes em cada escola. Procedi da seguinte maneira: à medida que um tema era analisado, como por exemplo, no Internato I, o "ritual de entrada", abordei este tema também no que pudesse se repetir nos outros internatos. Com isso tentei evitar repetições que mesmo assim, muitas vezes, ocorreram. A regularidade, a recorrência, a monotonia fazem parte dos procedimentos disciplinares. São impostas ao pesquisador. Entretanto, não se repetem tal e qual. O trabalho de análise dos internatos chamará atenção para os pequenos deslocamentos que ocorrem nas regras e procedimentos disciplinares de cada estabelecimento nas diversas faixas etárias. Em cada internato abordei os temas que surgiram como dominantes e que ainda não haviam sido tratados nos internatos anteriores. Este estudo se aproxima de uma etnografia, o que permite ao leitor seguir as análises feitas, discordar ou descobrir questões que me passaram desapercebidas.

 

2. Considerações teóricas

A orientação teórica deste estudo se baseia nos conceitos de análise institucional que me têm sido úteis na prática de trabalhos nas instituições. Para a realização dessa análise, aceito uma hipótese de Lapassade (1917) de que "toda análise passa necessariamente pela mediação de certos analisadores. A relação do analista com seu objeto não é imediata. Passa pelo desvio dos analisadores que ele tem como referência ou que constrói no seu campo de intervenção". A noção de analisador é utilizada enquanto elemento que permite a análise e revela a estrutura da instituição.

A análise institucional é entendida no sentido de revelar a transversal idade da instituição, dos grupos e dos seus membros, ou seja, o que determina o funcionamento da instituição. O estudo da transversal idade, presente no decorrer de várias etapas, se atualiza e se expressa nas práticas institucionais e pressupõe um sistema de relações entre as pessoas, membros da instituição. A análise leva em consideração o que é dito, o discurso institucional, ou seja, os depoimentos recolhidos, os estatutos, o regimento interno, e a relação entre este discurso e as práticas institucionais cotidianas efetivas.

O conceito de instituição é fundamental para perceber os níveis em que esta relação se atualiza. Num sentido mais amplo, temos, como define Lourau, ao recordar o essencial deste conceito, estudado em duas obras importantes, uma de Lapassade e outra sua:

Primeiro, as instituições são normas. Mas estas incluem

também a forma pela qual os indivíduos concordam ou não em

participar dessas normas. As relações sociais reais, tanto como

as normas sociais, formam pane do conceito de instituição (..).

Seu conteúdo está formado pela articulação entre a ação

histórica dos indivíduos, grupos, coletividades, de um lado, e,

de outro, pelas normas sociais já existentes.

Segundo, a instituição não é um nível da organização social

(regras, leis) que atua do exterior para regular a vida dos

grupos ou as condutas dos indivíduos; atravessa todos os

níveis dos conjuntos humanos, e forma parte da estrutura

simbólica do grupo, do indivíduo(..).

Em todos os níveis de análise, no individual, no da organização

(hospital, escola, sindicato), no grupo informal, assim como no

formal, se encontra a dimensão da instituição (Lourau, 1977, p.

24).

Num sentido mais estrito, a instituição é definida como "a organização das relações sociais entre os indivíduos ou, mais precisamente, o conjunto de normas que regem esta organização" (Hess, 1978, p. 25).

A definição de instituição leva em consideração que ela é atravessada por vários níveis distintos, o que remete necessariamente ao estudo de sua transversalidade como da de seus membros, com o objetivo de permitir o acesso ao discurso instituído e ao sistema de poder dentro dela.

A importância da transversal idade das pessoas, membros da instituição, é ressaltada por Patrice Ville:

(...) Os participantes são atravessados por pertencimentos ou

referências a instituições diversas. Eles podem se situar

positivamente ou negativamente em relação a estas

instituições. Os elementos da transversal idade influenciam o

comportamento e as falas no curso da análise institucional. O

jogo da transversalidade, que se encontra dentro de todas as

situações da vida cotidiana, se atualiza, de maneira negativa ou

positiva, em relação aos objetivos do estabelecimento (Hess,

1978, p. 28).

A fala de cada entrevistado será percebida como expressão de sua transversalidade, que se atualiza de maneira distinta, particular. Isto permitirá ao leitor seguir a análise feita, podendo perceber o depoimento dos entrevistados levando em consideração seus vários pertencimentos e sua posição dentro da organização e da hierarquia da Fundação.

Para uma compreensão mais clara de minha relação com a instituição e da minha escolha de fazer este estudo, é importante atentar-se para o conceito de

análise implicacional — um dos aspectos mais característicos

da análise institucional é o esforço do militante, do pesquisador

(..) engajado no processo de análise para revelar não somente

o não dito institucional mas também o caminho (gênese) que o

leva, homem ou mulher determinada, a produzir esta análise

(Hess, 1978:21).

Nesta pesquisa, ao se analisar o movimento histórico da instituição e seu funcionamento, o conceito de instituição será apreendido dentro de uma perspectiva dialética. Ou seja, "como produto da luta permanente entre o instituinte e o instituído, a instituição está em perpétua mudança" (Hess, 1978:21). A dialética institucional funciona segundo o esquema seguinte:

a) instituído: apreendido enquanto uma análise organizacional do que é determinado dentro do estabelecimento, seus mecanismos de funcionamento, as relações de trabalho; é também força de inércia, conservadora, que busca preservar a situação tal como ela é;

b) instituinte: são as forças de transformação que contestam o instituído e demandam novas normas;

c) institucionalização: é a fase de resolução da contradição inicial — o instituinte contra o instituído; é também o reconhecimento das novas normas que emergem.

Em relação ao funcionamento dos internatos, mostro que todos têm estrutura semelhante, a de uma "instituição total" conforme definição de Goffman:

Uma instituição total pode ser definida como um local de

residência e trabalho onde um grande número de indivíduos

com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla

por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e

formalmente administrada (Goffman, 1974, p. 11).

Passando em revista alguns aspectos institucionais, posso ressaltar métodos que são mais comumente usados e são a base da organização da vida das crianças e adolescentes no internato. Como define Foucault,

esses métodos que permitem o controle minucioso das

operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas

forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade são o

que podemos chamar as disciplinas (Foucault, 1977, p. 126).

Levei em consideração a literatura específica publicada sobre o tema do "menor", sobretudo no que se refere ao estudo do internato (Guirado, 1980 e 1986 e Campos, 1984) e também os autores autobiográficos como Herzer e Collen, que falam de suas experiências como internos na Febem de São Paulo (Herzer, 1982, Collen, 1987).