Infância perdida
8. Futuro — encaminhamento para saída
"O menor abandonado"
O que se vê por aí são instituições despreparadas, com pessoal desorganizado, em ambiente de promiscuidade e ócio, onde crianças carentes são recolhidas, empilhadas, sem presente e sem futuro. Seu lazer é a fuga, às vezes tentada, às vezes conseguida e, quase sempre, sem volta. Por que os núcleos de criminosos absorvem os menores e os mandam à marginalidade, daí seguem a carreira que o abandono lhes deixou como opção. Porque o governo não interfere para que o que chamam 'futuro do Brasil' tenha pelo menos um presente? Isto é,o governo coloque na presidência da Funabem ou órgãos parecidos pessoas altamente capacitadas para administrar entidades como a citada acima! Para que jovens não se percam no futuro sem antes tentar no presente.
Walter, 18 anos, dos quais quinze internado28
a. Futuro
A vida fora do internato passa a ser uma realidade para o aluno quando ele completa a maioridade, ou antes, quando termina o 2º grau, tendo concluído ou não a sua formação profissional.
A saída definitiva da escola constitui uma preocupação para a grande maioria dos alunos. A questão de "para onde ir e o que fazer" coloca-se para todos, não apenas para os órfãos. Quase todos os alunos estão muito distanciados de suas famílias e, portanto, a volta é considerada problemática. Muitos não querem viver com seus responsáveis por motivos de conflito ou simplesmente pela falta de convívio familiar — passar um fim de semana em casa não é o mesmo que conviver com a família. Na realidade, eles almejam uma independência com relação a ela. Não pretendem voltar para casa antes de ter um trabalho, um ganho mensal que lhes dê autonomia. Em todo caso, nem sempre o responsável pode recebê-los de volta, como acontece com as mães que moram no local em que trabalham.
Vejamos, então, o que os alunos almejam e o que pensam sobre seu futuro, para em seguida ver como os funcionários representam esta postura.
Os dados recolhidos durante a pesquisa, através de entrevistas feitas com 96 alunos, indicam que, quando indagados a respeito do que pretendiam seguir em termos de carreira ou profissão, ao sair do colégio, além de responderem "eletricista" (4), "músico" (6), "bombeiro hidráulico"(2) e "gerente de loja de artigos esportivos" (1), dois terços dos alunos evidenciaram sua vontade de seguir uma carreira militar. Portanto, dos 96 alunos, 64 almejavam ingressar nas Forças Armadas com as seguintes preferências: Exército, 15 alunos; Marinha, 22 alunos e Aeronáutica, 17 alunos. Vejamos alguns dos
motivos que levam os alunos 29 a escolher as Forças Armadas:
Quero ser piloto da Aeronáutica. A escola interna ajuda porque
já estamos preparados para enfrentar, devido à disciplina,
trabalho, horário certo. (Hélio, 16 anos, 7ª série)
Quero ir para as Forças Armadas. Quero sair da gaiola para ir
para o viveiro. Tem mais espaço. (Josimar, 15 anos, 6ª série)
Quando eu sair daqui eu pretendo ser um bom soldado no
Exército. Pretendo seguir carreira para poder ajudar minha
família e eu acho que lá eu ficarei até morrer. (Aleixo, 17 anos,
dez anos internado, 7ª série)
Bom, eu tenho várias opções... Mas acho que vai ser a carreira
militar mesmo. Porque vai me segurar neste tempo que eu não
tenho ninguém, não tenho família, não tenho onde ficar. Então
acho que na carreira militar eu posso me firmar para depois
seguir os outros cursos (piano, guia turístico, professor de
Educação Física). (Soares, 16 anos, treze anos internado,
órfão, 2ª série do 2º grau, passou por cinco escolas)
Eu quero ir para o Exército porque já acostumei a vida preso.
(Renato, 16 anos, 7ª série)
Vou sair daqui e vou direto para outra escola que é o quartel.
(Miguel, 16 anos, 5ª série)
De acordo com o depoimento dos alunos, as Forças Armadas constituem, sobretudo, uma opção que traz "segurança" e que "oferece" um futuro. Eles não têm clareza da opção que fazem, mas sabem que a vida militar se assemelha à vida de colégio interno, à qual estão acostumados. Além de pertencerem à ordem do conhecido, elas representam o ideal de segurança que lhes foi inculcado ano após ano. Vejamos uma parte do "Relatório Mensal de 1983", em que o antigo diretor do Internato IV, e atual diretor do Internato V, descreve um "evento cívico" realizado nestes dois internatos:
Nas palestras que faço constantemente para os alunos, friso a
todos que o estudo da música, embora seja considerado um
semiprofissionalizante, é o mais importante passaporte para os
nossos internos ingressarem nas Forças Armadas. Costumo
acentuar para os meninos que não têm família e
consequentemente são internos desde a mais tenra idade que a
inclusão deles em qualquer uma das Forças Armadas é uma
garantia para um futuro tranquilo e promissor. Além de casa e
comida, terão estudo e tempo para se dedicarem aos seus
progressos musicais, podendo mais tarde tornarem-se
membros até da Sinfônica Nacional, o que já aconteceu várias
vezes.
Alguns, entretanto, conseguem negar esta opção de continuidade:
Não quero as Forças Armadas porque já servi quatorze anos.
(Ricardo, 17 anos)
Eu pretendo mesmo ser soldador. Não quero seguir o Exército.
(Luizinho, 16 anos, tem família, 8ª série, interno há doze anos,
três na Escola VII)
A busca da carreira militar e a vontade de segui-la podem ser compreendidas como uma busca de continuidade, aparentemente natural, à vida no internato. Por muitos anos, os alunos se submetem a uma disciplina rígida que, segundo as explicações fornecidas frequentemente pelos diretores, será fundamental para que eles possam ingressar nas Forças Armadas, quando adultos. Esse ideal existe nos meandros da ação institucional, e é oferecido aos alunos a partir dos seis anos. Vemos em fotos de crianças dessa idade que elas, espontaneamente — "espontaneidade" que é construída no cotidiano da disciplina — fazem continência expressando possivelmente uma identidade prematura com este ideal. Os inspetores, em consonância com as direções das escolas, passam esta mensagem para os internos diariamente, como uma justificativa para o uso das técnicas disciplinares e por acreditarem que este é o caminho possível para os internos:
Se não acata a ordem, chega no quartel e não vai saber. A
maioria deles aqui vão para o quartel! A disciplina para eles lá,
então, vai ser moleza em comparação com os que não
passaram em internato. Prepara-se os meninos, apesar de não
haver ordem da direção, pois que outra coisa esses meninos
podem fazer? (Inspetor Rodrigo — Internato V)
Uma outra visão do problema é apresentada pelos próprios alunos. Para eles, não há muita chance de se conseguir um emprego, um "serviço civil". Antes de sair, eles conseguem notícias de amigos que já haviam deixado o internato há um ou dois anos e sabem o que os aguarda após a saída definitiva do internato. Sabem que existe uma dificuldade geral para se conseguir emprego, mas sabem também que ao se apresentar como exalunos da Funabem a dificuldade será muito maior. O estigma sobre o aluno é percebido por ele mesmo antes de sair da escola.
O ideal da carreira militar funciona como um antiestigma, pois ela é vista como o caminho pelo qual os indivíduos serão resgatados mais plenamente pela ordem. É como se, ao ser recebido pelas Forças Armadas, o interno fosse purificado do seu estigma de ex-aluno.
A transmissão desses valores por parte da instituição é eficaz. Os alunos que estão prestes a ser desligados consideram que o fato de serem internos é uma vantagem para se alistarem nas Forças Armadas: uma vez que já são disciplinados, já sabem acatar ordens e já estão acostumados à vida dura e distante de seus familiares:
Lá eles já querem garoto de colégio interno! Quando eu fui me
alistar no paraquedista, o homem falou — tu é de colégio
interno? Disse — sou. Lá no paraquedista os homens já gostam
de gente de colégio interno. (Tião, 17 anos)
Eles são mais preparados, mais maduros. Já não sente tanta
falta da família como os filhos de papai e mamãe sente. Está
acostumado a levar a vida no duro e não no mole. (Pedro, 17
anos, 8ª série, internado com 3 anos na Fundação)
O diretor da escola concorda com esta visão:
Eles (os internos) são mais aceitos nas Forças Armadas porque
já são disciplinados aqui. As Forças Armadas são uma
continuidade da escola. Eles encontram mais facilidade de
moldar os meninos. Pelo menos os daqui.
Entretanto, diretor, funcionários e alunos sabem que há, nos últimos anos, uma dificuldade crescente de acesso às Forças Armadas:
Eu pretendia ser marinheiro, mas como sobrei, eu pretendo
trabalhar, estudar, ajudar a minha mãe e me formar como
jornalista. Vou trabalhar em Artes Gráficas. (Gilson, 18 anos,
interno há dezesseis anos na Fundação, passou por dois
internatos, tem mãe)
As próprias Forças Armadas começam a discriminar o ex-aluno da Funabem, seja pelas suas dificuldades de formação (escolaridade), seja pela sua configuração física (estatura muito baixa). O diretor, tendo plena consciência disto, tenta conseguir que os alunos sejam "aproveitados" no local de alistamento mais próximo da escola, através de pessoas de seu conhecimento. Mesmo assim, os militares do quartel mais próximo, para se assegurarem de que não receberão alunos-problema, exigem da direção da escola uma carta de apresentação desses jovens. Para realizar esta tarefa, a escola conta com o trabalho de duas assistentes sociais. Seu trabalho se concentra, principalmente, na preparação de documentos (certidão de nascimento, carteira de identidade) para os jovens que estão completando 18 anos e no seu encaminhamento para o desligamento do internato. Este encaminhamento implica numa pesquisa sobre suas famílias, com intuito de saber que condições elas possuem para recebê-los de volta e encaminhá-los ao serviço militar obrigatório.
O primeiro passo para seguir uma carreira militar é o alistamento. Depois de prestar o serviço militar, o segundo passo é então, estando lá dentro, conseguir permanecer e fazer carreira. O alistamento é importante de acordo com essa perspectiva, pois o aluno tem mais um ano antes de ter que enfrentar a vida com suas próprias possibilidades. O serviço militar é visto como um tempo de transição entre a escola e a vida "civil".
Sempre tem meia dúzia em 50 que eles não aceitam para fazer
o alistamento para servir. Neste ano de 80 alunos sobraram
cinco. Eu pedi porque acho que vai ajudar, mas para enfrentar a
vida com uma disciplina mais rígida, sem a proteção que é dada
ao menor. De qualquer maneira, o aluno tem que ser desligado.
Lá terá que descobrir a vida e não a fantasia. (Diretor)
Se a dificuldade para o alistamento já é grande, o engajamento é ainda mais seletivo e, portanto, muito menos acessível aos "ex-alunos da Funabem". O assistente do diretor cita, a título de exemplo, a porcentagem dos que se engajaram em 1980: dos 19 alunos que se alistaram, permaneceram em 1982 somente oito alunos. Nos últimos anos há uma média de 12 em 40 alunos que fazem o serviço militar e continuam por um ou dois anos. Um dado importante é que a maioria dos alunos que permanece não tem família, o que, segundo a visão da assistente social, significa que eles "passam a não ser mais abandonados". Enquanto isso, os que têm família, dizem eles, depois de um ou dois anos não querem mais ficar em nenhuma das Forças Armadas.
Mas nem todos conseguem fazer o serviço militar sem problemas. Alguns são expulsos antes de terminar o primeiro ano.
Tem aluno que saiu da escola e foi expulso do serviço militar e
hoje está trabalhando como servente de obra e dormindo no
chão da obra porque não tem para onde ir. O que fizeram por
ele durante esses anos todos? (Dentista)
A Fundação só se lembra de citar os ex-alunos bem sucedidos.
Os que se deram mal, não falam. Vão para o Exército e nem lá
não ficam porque não têm estudo. (Funcionário)
Ao completar 18 anos o aluno deve sair da escola. Esta é a norma. Na realidade, este desligamento não é muito simples. Até o início dos anos 80, a Fundação não era muito rígida no que dizia respeito ao cumprimento desta norma, e não havia assistente social ou qualquer outro funcionário que organizasse o processo de desligamento dos alunos. Não havia uma forte pressão sobre o aluno para que saísse quando completasse 18 anos. Sobretudo com relação àqueles que ainda não haviam terminado o 1º grau. Entretanto, o quadro se complicava a cada ano, com o acúmulo de internos acima de 18 anos.
Segundo informações dadas pelo assistente do diretor, no ano de 1982 permaneciam na escola "entre 80 e 90 alunos com mais de 18 anos, podendo ter até 21 anos". Dentre esses alunos, 8.0% ainda não haviam terminado o 1º grau e somente 20% terminariam naquele ano. Os alunos que haviam terminado seus cursos profissionalizantes continuavam, mesmo assim, a trabalhar numa oficina de sua escolha e nos "serviços gerais", mantendo um ritmo de vida como o de qualquer outro aluno da escola. Outro dado importante é que, entre esses alunos, 15 já estavam com seu serviço militar quitado e 4 já tinham terminado o 1º grau. Permaneciam na escola pois não tinham para onde ir, sendo que muitos deles não possuíam família.
Podemos observar que a porcentagem de alunos com mais de 18 anos é bastante significativa. E o questionamento que se coloca de imediato refere-se à preparação que supostamente é dada para que esses alunos possam viver em sociedade, já que na hora em que isto deve se realizar cria-se um enorme impasse, pois os alunos não sabem como sair da escola e a escola não sabe como mandá-los
embora (vide foto 14).
Foto 14: Na hora em que os maiores de 18 anos têm que sair cria-
se um enorme impasse, pois os alunos não sabem como sair da
escola e a escola não sabe como mandá-los embora
O impasse na hora da saída se coloca tanto para aqueles que têm responsáveis como para aqueles que são órfãos. Isto conduz a um questionamento contundente de toda a trajetória prevista para o "menor", desde pequeno até a maioridade. O questionamento recai não só sobre o ensino formal oferecido como também sobre o ensino profissional, mas principalmente sobre o tipo de organização vigente na instituição total que torna o aluno dependente e sem qualquer conhecimento da vida social. Dessa forma, ele se sente incapaz de sair, não só por ter recebido uma formação deficiente e precária, que não o capacita a enfrentar o mercado de trabalho, mas sobretudo por não lhe ter sido permitido formar-se como sujeito social. Um outro fator importante é o enfraquecimento ou a ruptura dos laços familiares, ao lado da impossibilidade que a instituição total cria para o estabelecimento de relações sociais na comunidade, o que muito dificulta a adaptação fora do ambiente do
internato.30
O depoimento de um aluno, internado com um mês de idade e no momento com 17 anos, tendo passado por todos os internatos da Fundação, expressa com clareza este sentimento:
O que eu acho dos anos que passei no internato? Não acho
bom não. Acho que é ruim porque a gente não aprende como é
a vida. A gente encara a vida de um jeito diferente. Pra gente,
os alunos, parece que a vida tem a maior dificuldade. Parece
que é um bicho. Uma coisa que a gente não vai conseguir
vencer nunca. A gente só fica dependendo do colégio interno.
Envio não gosto dessa vida de colégio não. (João Cláudio, 8ª
série)
Alguns funcionários, profissionais liberais, parecem mais à vontade para tecer críticas ao sistema de atendimento em internato:
Os que têm família desestruturada têm muito medo de sair da
escola. Os abandonados também têm muito medo.
Praticamente se tornaram dependentes. Todo o sistema da
instituição é muito paternalista. Não permite aos meninos
descobrirem as suas potencialidades. (Psicóloga)
Colocam o aluno na cristaleira por 18 anos e então jogam na
rua. Adiam o problema por 18 anos. Todos sabem que este
sistema não funciona, mas não fazem nada. (Dentista)
Apesar do caos, algumas soluções informais são encontradas e dependem, sobretudo, do relacionamento "por afinidade" que os alunos possam estabelecer com alguns funcionários ou pessoas das redondezas. Estas podem porventura encaminhá-los para algum trabalho, ou mesmo empregá-los em suas casas para que façam pequenos serviços, tais como cuidar do jardim, lavar o carro, fazer pequenos mandados e permitir que continuem seus estudos à noite. Dentro da Fundação, cujo estabelecimento fica em um subúrbio do Rio de Janeiro, a solução encontrada para os alunos considerados de "bom comportamento" consiste no oferecimento de moradia, alimentação e algum dinheiro semanal para que possam procurar emprego, continuar os estudos de 2º grau ou fazer o supletivo à noite, em troca de trabalho como office-boy ou de trabalho
profissional na padaria ou na cozinha.31 Alguns acabam sendo contratados depois de certo tempo, outros podem ser encaminhados para trabalhar em algum dos internatos (apesar do número de alunos empregados ser reduzido atualmente, isto ainda ocorre). Outros, ainda, conseguem emprego fora da Fundação e finalmente saem depois de um ou dois anos.
Segundo o diretor, entre os 80 a 90 alunos que saem todo ano, pelo menos 20 ficam em completo abandono. Não tendo família a quem recorrer, pegam o primeiro emprego que surge e, uma vez fora da escola, não podem mais voltar. Frequentemente perdem o emprego e ficam pelas ruas como mendigos, ou se encaminham para a "vida
do crime".32 O problema se torna muito mais complexo quando o aluno é considerado deficiente por distúrbios psiquiátricos ou retardo mental — estima-se que há cinco ou seis deles entre cada grupo de 20 alunos. Os que não têm família podem ser internados num hospital, complementa o diretor.
Como o problema do desligamento não era solucionado, a Funabem passou a exigir da Fundação a existência de um serviço que ajudasse no encaminhamento dos ex-alunos. Entretanto, à própria Funabem não possuía, nessa época, um serviço para realizar este encaminhamento. A Associação dos Ex-Alunos da Funabem — ASSEAF — era a entidade que buscava ajudar os ex-alunos na busca de um trabalho. As assistentes sociais da escola começaram também a agilizar a saída dos alunos que completassem 18 anos e tivessem responsáveis. Passaram a visitar suas casas para apurar se os responsáveis teriam condições de receber o aluno, estimulando-os no sentido de que se responsabilizassem por encaminhá-las a um emprego ou para as Forças Armadas. Os que não tinham família eram então encaminhados para o novo serviço que se instalou na sede da Fundação, na cidade do Rio de Janeiro, local mais próximo para realizar contatos com empresas. Este serviço se iniciou no segundo semestre de 1982, tendo sido desenvolvido por uma assistente social da Fundação.
A mudança importante que passou a caracterizar o desligamento dos internos, a partir daí, foi a obediência estrita à norma de saída do aluno que atingisse a maioridade. Este requisito passou a preponderar sobre a conclusão do 2º grau e o término da formação profissional. Antes, estes dois requisitos também não eram indispensáveis para o ingresso na vida social. Porém a Fundação facilmente mantinha ali o aluno que tivesse dificuldade de sair e não houvesse terminado os estudos ou a formação profissional. Na medida em que o desligamento passou a incidir sobre a idade de maneira rígida, ficou claro o menosprezo da escola com relação aos aspectos da formação profissional dos internos. Já constatamos anteriormente que a formação profissional não é muito eficiente, que as técnicas ensinadas são arcaicas e que a maquinaria é obsoleta. Mesmo assim, tentava-se transmitir a importância de aprender um ofício para que o interno pudesse posteriormente introduzir-se no mercado de trabalho. Com esta determinação da Funabem, fica claro que a política do Bem-Estar do Menor, ao internar as "menores", não objetiva a formação de profissionais que possam ingressar no mundo do trabalho. A Fundação, apesar de sua tradição histórica (até o início dos anos 60 se orgulhava de formar profissionais), acata a norma da Funabem, sem qualquer esforço de questionamento da mesma e de seu próprio sistema de ensino atual.
b. Encaminhamento para o emprego Para que o interno possa ingressar no mundo social, a primeira necessidade que surge é a obtenção do documento de identidade. Até então, sua principal forma de identificação, quando abordado na rua, era pronunciar-se: "sou de menor, interno da Funabem". Além disso, podia utilizar-se do nome, do apelido e do número que o identificava em cada internato. No momento de tirar a carteira de identidade, surge novamente a questão do seu nascimento, de suas origens e de sua filiação. Também são necessárias uma fotografia e uma assinatura que o identifiquem. Esse é um documento importante que permite o trânsito pela cidade sem que seja considerado suspeito. E, mais do que isto, é o documento que lhe confere cidadania. A Funabem facilita a obtenção da carteira de identidade através de um serviço que executa todos os procedimentos normais, que teriam de ser executados numa repartição pública, exigidos para esse fim. Assim, o interno pode ser desligado. Mas, segundo a assistente social, os problemas já surgem aí:
'As facilidades que ele encontra aqui na escola' — cama feita,
médico, tudo de graça — digo para ele, 'você não terá lá fora'.
Fazemos esta conscientização. Eles perdem muito os
documentos e por isto a gente não dá antes deles saírem. Eles
não têm cuidado com seus objetos. Ande por aí e veja —
chinelo pelo chão, roupas cortadas. Isto ocorre por falta de
cultura. As pessoas não têm orientação também, a família não
dá (Assistente social).
Após a obtenção deste documento, o encaminhamento para o emprego pode ser feito, mas esbarra em várias dificuldades. A primeira é a dificuldade do próprio serviço, feito especialmente por uma assistente social que trabalha na sede, distante do internato e
próxima dos locais que oferecem empregos.33 É um serviço que, em 1982, apenas se iniciava. Outro grande problema é que os internos não saem como profissionais capacitados ou como mão de obra especializada. O chamado aprendizado profissional, com algumas exceções, só permite ao aluno uma pequena iniciação do aprendizado:
Hoje atendemos mais para dar comida. O aluno não sai
preparado para trabalhar no mercado. Não está acostumado
com a máquina. Ele não consegue emprego hoje. Hoje é
demagogia. Hoje os relatórios só querem dados. Não querem
críticas e sugestões para ele poder enfrentar a realidade no
mercado; precisa de máquinas modernas para ele poder
enfrentar a realidade do mercado. Falo, peço, mas ninguém faz
nada. A [Fundação] diz que não tem dinheiro.(Diretor)
Outros preferem se referir à escola sem dizer que se trata de um internato ou que é conveniado com a Funabem.
Uma vez empregado, o aluno continua a ter dificuldades. Dificilmente consegue ficar no primeiro emprego e muitas vezes
passa por vários, num breve período de tempo.34 Com toda a educação disciplinar que recebeu, o ex-interno não consegue, entretanto, atender à disciplina exigida pelo trabalho, não se submetendo às regras como seria necessário para nele manter-se. Vejamos como a assistente social coloca a questão:
No encaminhamento para o emprego, a gente faz orientação e
arranja emprego, mas quase nunca eles ficam. Não ficam por
insegurança, ansiedade no desempenho do novo papel,
problemas de relacionamento com o patrão, temor. Não
conseguem seguir os horários, chegam sempre atrasados.
Quando passam pelo Exército, eles aprendem mais. Os alunos
que saíram, e que voltam para falar com a gente, são os que
estão numa boa. Os que não estão, não vêm. É uma baixa em
relação aos colegas.
c. Solução salvacionista
A provedora, autoridade maior da Fundação, é a figura que melhor encarna a visão salvacionista da instituição, que possui uma visão
messiânica a respeito de si própria.35
As crianças entram, quase que na sua maioria, como crianças
de creche, de berço. Depois vão para o internato de quatro
anos, e depois para o de sete anos e assim por diante. A
criança nos é entregue ainda em berço e sai para servir o
exército; sai para procurar emprego já depois de homem feito,
já com uma profissão. Porque nós temos uma escola
profissional lá em (..) para os meninos de 15 a 18 anos e lá eles
aprendem várias profissões: soldador, mecânico e ainda há
esse serviço que nós chamamos de barbeiro, padeiro. São 11
oficinas. Agora, devo dizer a você que a Fundação (..) trabalha
com muita alma, com muito amor e com muita sorte. Porque
pelo menos 80% dos alunos da Fundação são recuperados e
eu acho um número muito grande para a época de hoje. 80%
nós recuperamos, principalmente porque nós temos crianças
que vêm desde o berço, por isto. Recuperamos, que eu digo,
são esses a quem nós conseguimos dar um diploma de
profissão e colocar num emprego. E são pessoas que estão
hoje casadas e eu até gostaria de reunir um grupo desses
meninos já do meu tempo, que estão casados e trabalhando,
tendo uma vida normal, eu até gostaria de levá-los a um
programa de televisão para ver que nem tudo está perdido
ainda.
d. A "vida do crime"
Um outro caminho que se apresenta para o aluno, ao sair da escola, é a "vida do crime". Esta possibilidade já se delineia dentro do internato para muitos deles, segundo a expectativa dos dirigentes. Mas há casos em que a opção pela delinquência constitui uma surpresa. O assistente do diretor expressa com clareza a possibilidade quando, ao organizar as carteiras de identidade dos alunos, seleciona, vez por outra, uma dentre elas, exibindo-a a todos dizendo:
Guardem bem este rosto aqui. Este menino ainda vai ser
notícia.
Ele aponta seis alunos que, no seu entender, serão marginais. Tece comentários sobre o tipo de rosto, olhar, valoriza traços e expressões do aluno que, segundo seu ponto de vista, "pela experiência de anos", podem chegar à marginalidade. Também aponta aqueles que são "bons meninos" ou "ótimos alunos". Mostra, inclusive, a foto de um aluno que se encaixava dentro dos traços fisionômicos que relacionava aos delinquentes, cuja carteirinha ali permanecia, apesar do aluno já ter sido morto no ano anterior. Este exemplo veio a confirmar suas teorias sobre os traços fisionômicos,
com o uso de conceitos da teoria lombrosiana. 36 A carteirinha ali permanecia, pois o menino ainda era aluno da escola quando foi morto na rua, em luta com a polícia. O assistente do diretor entende como inútil o seu esforço de aconselhamento dirigido a estes rapazes, que acabam "se perdendo".
Cara, a gente te dá oportunidade, veja se aproveita enquanto
tem tempo. Mas nada, no outro dia é a mesma coisa e dá nisso.
A direção da escola, portanto, usa de seu saber sobre os alunos para tentar salvá-los da perdição e do caminho da delinquência. Mas eles, segundo a visão da escola, não sabem aproveitar a oportunidade. Nos seus rostos já está marcado o seu destino. A escola não tem meios de saber o que se passa com os alunos após seu desligamento, a não ser de maneira informal, quando eles voltam para fazer visitas e trazem notícias sobre os outros, ou pelos jornais, através das notícias ligadas ao crime, roubo e drogas. Mesmo assim, considero relevante as informações que obtive na secretaria, através do assistente do diretor, sobre os alunos que "se perdem na vida do crime":
Antes de 1979 uns cinco ou seis alunos se perdiam por ano —
se metiam com roubo, tóxico, bandidos e morriam. De 1979
para cá mais de 20 por ano se perdem na bandidagem e
morrem. Já vêm para cá com problemas; metidos em confusão
fora, eles não melhoram e quando saem, maiores de idade,
perdem-se de vez.
É muito grande o número de meninos que se perdem. Não se
sabe de todos, porque não mantemos nenhum registro. Mas
posso citar alguns através de notícias que chegam até nós [cita
de 1980 em diante alegando que eu poderia conhecer alguns].
1. Carlos — foi expulso do quartel e está assaltando.
2. Jorge — não era mau aqui, mas quando saiu se perdeu.
3. Salgueirinho — morreu assassinado. Era ruim aqui. Ele
entrava no boteco com muita facilidade.
4. Flores — foi assassinado.
5. Francisco — levou um tiro, mas não morreu.
6. Zé — foi expulso do quartel, porque roubou armas. Não
entendo como fez isto. Foi uma surpresa para mim.
Além desses alunos de que se lembrou rapidamente, considerou também os alunos que foram para escolas de "regime fechado", pois estes também são considerados "alunos perdidos": "este ano foram 12 alunos, sendo 11 procedentes do Internato VI. Ano passado foram pelo menos 12 alunos". Segundo um inspetor, que trabalha com os alunos mais velhos, de 1973 até 1981 pelo menos 30 meninos que passaram por seu pavilhão tornaram-se bandidos e morreram. Cita um que recentemente morreu, envolvido com venda de tóxicos. Cita também alguns que encontrou na prisão e outros que são policiais.
Vemos assim como se delineiam as possibilidades desses jovens que, na sua maioria, frequentaram de seis a dez anos escolas internas. Essas escolas que estudamos dão atendimento a menores encaminhados pelo 1º Ofício: são menores "carentes e abandonados". Mas estes internos acabam por apresentar, já dentro do estabelecimento, um "comportamento desviante". Em virtude disso a direção julga improcedente a sua permanência junto aos outros alunos, enviando-os para a "escola de regime fechado". Outros indivíduos que ali permanecem, ao sair ou mesmo antes disso, começam a se envolver, fora da escola, com grupos organizados ligados à "vida do crime".
É necessário assinalar a importância de teorias como a de Lombroso (que considera características craniológicas como relacionadas à propensão ao crime), as quais foram superadas e criticadas pelo conhecimento jurídico e biológico, uma vez que elas voltam a ter força e atualidade na vida social. Verifica-se que as práticas repressivas da instituição total reeditam ideologias já inteiramente sepultadas pelas modernas concepções científicas. É como se essas ideologias tivessem impregnado profundamente a visão e a formação do próprio diretor, dos funcionários e da provedora, marcando também todos os procedimentos administrativos e técnicos, assim como todas as práticas cotidianas e rotineiras da vida institucional. Então, a Fundação continua a ser regida, por mais moderna que pretenda ser, pelo que há de mais conservador no plano das ideias e das ideologias, recuperando concepções racistas e colonialistas, inteiramente anticientíficas, tais como a teoria de Lombroso.
e. Inculcação bem sucedida das normas e pontos críticos dos métodos de inculcação
Os métodos e as técnicas pedagógicas que visam à reprodução de uma dada ordem social derramam-se por todos os domínios da sociedade. Foram institucionalizados e acham-se voltados principalmente para o atendimento de segmentos de classes subalternas. Os internatos ora estudados constituem um dos aspectos dessa institucionalização, posto que os denominados "menores" são oriundos das referidas classes sociais. A ação disciplinar vigente nos internatos, contudo, tanto parece lograr reproduzir a ordem social quanto, paradoxalmente, gera elementos que contêm sua própria negação. A inculcação bem sucedida das normas, que estaria em contradição com o insucesso dos métodos de inculcação, representa, em verdade, o verso de uma medalha cujo anverso lhe seria diretamente oposto. O que me leva a pensar que no nível da eficácia da ação disciplinar nos internatos estamos diante de resultados contraditórios e em permanente tensão. Inútil asseverar resultados positivos e/ou negativos quando as tensões parecem embutir uns dentro dos outros, num estranho emaranhado que coloca em xeque os fundamentos da própria instituição, lançando um mar de dúvidas sobre a eficiência da ação pela qual propugna a Fundação.
Consoante essas reflexões, a partir das demais observações de acompanhamento dos internos na vida social, podem-se levantar para efeito de exposição pelo menos três "opções de vida" ou evasões possíveis à disposição dos internos. As duas primeiras dizem respeito à socialização pelo trabalho e aparentemente podem ser entendidas segundo a visão do senso comum, ou seja, supõe-se que haja um ingresso "harmonioso" na vida social.
Os denominados "menores" são submetidos a um conjunto de regras que têm por objetivo condicioná-los a aceitar um trabalho regular, a obediência aos horários, à hierarquia e às leis instituídas. É sabido que na sociedade capitalista o desenvolvimento de forças produtivas gera a necessidade de determinadas especializações ou funções das mais sofisticadas às menos qualificadas. A Fundação forneceria preparação e treinamento de mão de obra na atividade de qualificação do menor. Pretende neste sentido funcionar como uma instituição produtora de força de trabalho. As oficinas profissionalizantes preparam os internos para exercer profissões tais como auxiliar de mecânico de automóveis, eletricista, bombeiro hidráulico, marceneiro, etc. Não obstante a maquinaria disponível na Fundação ser obsoleta e colocar os internos em posição de "atraso técnico", quando de seu ingresso no mercado, há alguns casos em que logram conseguir desempenhar as atividades para as quais foram treinados. Constituem, entretanto, exceções.
Uma outra vertente da ação pedagógica reside na disciplina exercida para impor a observância das "normas de conduta" ou a
sua "naturalização".37 Os internos são educados para representar ou acreditar como "natural" a ordem dada. Além disso, são treinados para fazê-la vigir,o que significa que não apenas são preparados para o acatamento das disposições legais, mas, sobretudo, são impelidos a uma postura de assegurar a sua imposição. Assim temos um percentual significativo desses internos que abraçam, como ambição maior, o desejo de ingressar nas Forças Armadas, enquanto outro, não menos importante, almeja permanecer no internato passando da situação de comandado àquela de quem dá ordens. Mesmo com as dificuldades de absorção desses internos pelas Forças Armadas, anteriormente já mencionadas, observa-se que muitos deles logram "engajar" principalmente no Exército e nas forças policiais. Os ex-internos se transformam nos vigilantes da ordem. Enquanto guardiões, zelam rigidamente pelo ideal de justiça neles inculcado, porém não sem as tensões que os marcaram no decorrer do internamento e que, por vezes, são paradoxais: subjugar pela força, pelo medo, pelo temor da perda e pela violência frequente.
O terceiro contingente compõe-se de ex-internos que desde o período do internamento desenvolveram a rebeldia e a representam como elemento positivo, cercada de toda uma recusa refletida ao acatamento das ordens. Sempre viram a fuga como solução e a buscaram incontáveis vezes. Sempre foram castigados e punidos com severidade, mas reincidiram nas consideradas "faltas" assinaladas pelas autoridades institucionais. Nesse sentido, a imposição das normas pedagógicas gera também o aguçamento dos antagonismos e produz o que seria a sua própria negação. Os internos que se recusam ao cumprimento das normas apreendidas na escola buscam a "liberdade" pela negação delas e só são submetidos à força, pelo rigor das punições. A Fundação os classifica como "delinquentes" e sob este rótulo são introduzidos na vida social.
Impelidos a se dispor "à margem da sociedade", tanto no que se refere ao mundo do trabalho quanto ao das leis instituídas, estes ex-internos dispõem-se como delinquentes em potencial. As leis são vividas como injustas e a rebeldia, que eles consideram positiva, torna-se um instrumento pela qual forçam sua entrada nos meandros da vida social. Certamente há um domínio comum aos que ingressam nas fileiras das corporações policiais e os que virão a ser combatidos por elas. São interlocutores de uma mesma linguagem de violência. Identificam-se nas posições contrárias e oponentes. Isto porque não se trata de opções de um mesmo nível, como o esquema aqui traçado pode sugerir. Ninguém escolhe entre ser soldado ou bandido. Condicionantes sociais, por vezes, os mesmos, é que os impelem a enxergar "escolha" como vocação. Ocorre que são falados pela própria força que o internato tem em suas vidas e não conseguem se colocar falando como sujeitos. Na caserna, o intramuros continua a abrigá-los, quando não a protegê-los. Em contrapartida, na outra, escolha, que encerra uma ameaça frequente de prisão, lhes resta a infinita tentativa de fugas e evasões. Os chamados marginais não têm sobre si o tempo todo a imposição do cumprimento das regras. Esta é uma evasão que eles vislumbram como possível, pois tentam viver livres dos freios institucionais embora acuados e temerosos face às contínuas perseguições policiais. Relativiza-se assim, com esta reflexão, o peso das oposições que dentro das três aludidas possibilidades ficaram reduzidas em verdade a apenas duas, ou seja, os guardiões
da ordem de um lado e os que a infringem de outro.38 A origem social e os métodos de socialização dispõem, entretanto, os que impõem a ordem e os que propagam a "desordem" num terreno comum, conforme já foi dito anteriormente. Então, de fato são reproduzidas as engrenagens tão bem amparadas das instituições totais, pouco importando o peso da polaridade das posições assumidas.
1 É equivalente ao trabalho do "ajudante" nos internatos anteriores. Só que aqui a organização é mais rigorosa e as atividades se constituem num trabalho mais árduo e com horários mais rígidos.
2 Existe desde 1981 o Senai — Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial — que se destina ao ensino profissionalizante de jovens na área industrial. Para cada aluno, o Senai dá uma bolsa de estudos. O valor desta bolsa é regulado pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Já os internos do VII não ganham semelhante bolsa pelo seu aprendizado profissional, mas pelo conjunto de atividades que desempenham no internato — dentre elas o ensino nas oficinas. E o valor do "estímulo" é muito inferior ao da bolsa de estudos do Senai, que girava em torno de meio salário mínimo, na época.
3 Estabelecimento fundado em 1739, é um dos mais antigos do país, funcionando na época com a "roda", acolhendo até hoje, sobretudo, crianças recém-nascidas. Essas crianças, muitas vezes, têm o consentimento das mães para a adoção, mas infelizmente não há um encaminhamento neste sentido e acabam passando toda sua vida de minoridade dentro das instituições. A questão da adoção é bastante complexa e pouco estudada no Brasil.
4 O trabalho das assistentes sociais se iniciou em 1980, devido à pressão da Funabem para que houvesse um trabalho organizado que facilitasse a saída dos internos quando do seu desligamento. As assistentes sociais, em 1982, já possuíam algum trabalho organizado em termos de dados estatísticos, mesmo que ainda precariamente. Um dos motivos alegados para a imprecisão é o constante movimento de entrada e saída de alunos devido ao "desligamento" e à transferência de alunos em qualquer época do ano. Ressaltamos também que a estatística das assistentes sociais não pode ser lida ao grau de precisão que poderia sugerir.
5 Esta concepção pejorativa sobre os meninos de rua marca a filosofia das escolas, desde sua fundação, iniciada na década de 30, onde não só os meninos que ficam nas ruas, como também os mendigos, eram considerados como uma ameaça social. No livro de Pondé sobre a Fundação e seu provedor vemos com clareza essa concepção: "Na década de 30, no Rio, o centro da cidade era o paraíso dos mendigos. Impressionavam pelo número avultado e pela maneira insólita com que exibiam suas úlceras e deformidades. Havia uma classe, porém, à qual traziam mais preocupações por se sentir diretamente atingida pelo transtorno que sua presença causava: a dos comerciantes. Principalmente aos sábados, invadiam os estabelecimentos comerciais, perturbando as atividades dos seus donos e importunando a freguesia." (Pondé, 1977, p. 73) "No decorrer de 1935 era impressionante o número de meninos vagando na ociosidade pelas ruas da cidade. Os jornais chamavam a atenção para o fato e denunciavam que, já afeitos à vadiagem, muitos se recolhiam à noite, nas estruturas dos edifícios em construção na esplanada do Castelo. Estimava-se, então, em cerca de cem mil os 'menores abandonados' na Cidade do Rio de Janeiro." (Pondé, 1977, p. 142)
6 Em "A Geração da Rua" — pesquisa realizada por Irene Rizzini em 1985 foram entrevistados 300 meninos de rua e verificou-se o seguinte:
Atividades dos Menores nas Ruas
Atividades Nº de %
menores
Engraxate 83 27,6 Venda (balas, doces, chicletes, frutas, 79 26,3 etc.) nos sinais de trânsito e ruas
Carreto (nas feiras, supermercados, 68 22,6 etc.)
Esmola 54 18,0 Guardador de carros 09 03,0 Várias 07 02,3
7 Esta denominação surgiu com a publicação do livro "Meninos de Rua" de Rosa M. Fischer Ferreira, 1979.
8 Segundo o diretor, 10% dos alunos levam roupa de cama nova para casa. Ele considera esse número muito elevado.
9 Segundo informação dos alunos, este era o discurso mais frequente do diretor aos domingos quando, após cantarem o Hino Nacional, formados em frente à bandeira do Brasil hasteada, eram obrigados a ouvir a "palestra" de orientação.
10 Abrigada, trabalha no Internato I e mora na Fundação.
11 O diretor e seu assistente moram em frente à escola e assim trabalham praticamente sem descanso, mesmo nos fins de semana. Eles, entretanto, parecem apreciar o que fazem. Já os inspetores, sobre quem recai o peso maior da tensão diária, frequentemente reclamam de estar cansados, e chegam mesmo a sonhar com uma aposentadoria antecipada devido à extenuação causada pelo trabalho.
12 "O primeiro emprego, sobretudo, é marcado pelo estigma — como se todos fossem marginais — de ser um ex-aluno da Funabem. Alguns ex-alunos afirmam que, aliado a isto, coloca-se também o preconceito racial, pois a grande maioria das crianças internas na Funabem, além de pobre, é preta e, segundo eles, 'ser pobre já é uma dificuldade, preto mais uma, agora ser pobre, preto e ex-aluno da Funabem, já pode morrer.'" (Alvim, Altoé; 1987)
13 A referência ao balneário é porque a cidade é de fato utilizada por escolas particulares do Rio de Janeiro como local para colônia de férias.
14 Segundo informações da direção, em 1981, em 421 alunos, a média anual de internos com "saída autorizada" pela família foi de 180. Ou seja, um pouco menos da metade podia sair para ir a casa. Havia ainda "saídas acompanhadas", uma média de 50 alunos. Nas férias de verão (janeiro e fevereiro) ficaram na escola 100 alunos, sendo que 20 destes tinham família, mas preferiam passar as férias no internato. Isto parece demonstrar que um número significativo de internos tem muita dificuldade de relacionamento familiar, como também de sair do ambiente do internato, onde não há riscos ou situações novas a enfrentar.
15 Esses depoimentos foram tirados de uma entrevista feita com os alunos nas oficinas profissionalizantes. Foi sugestão dos alunos a ideia de falarem sobre "inspetor bom e ruim".
16 Dados retirados de um documento de 1982: "Relação de alunos aprovados e que deverão receber o certificado do PIPMO na área de...".
Oficina Nº de Índice de aprovação
inscritos (%)
Torneiro 36 50 mecânico
Serralheiro 42 45 Marceneiro 20 35 Eletricista 13 30 Ajustador 37 59 mecânico
Compositor 16 56 gráfico
Impressor gráfico 16 62 Mecânica de 20 30 carro
Solda oxi- 24 33 acetileno
Solda elétrica 24 25
17 Curioso é que justamente estes meninos, em geral, já são internos há vários anos.
18 Funcionários, conforme tive conhecimento, que utilizam os serviços dos alunos: diretor, professoras, cozinheiro.
19 Trata-se do desfile de escolas na parada do dia 7 de setembro, dia da Independência do Brasil.
20 "Desde 1972 estou na Escola V, antes fui internado no SAM. Sei que as elas foram feitas em 1974, e por qualquer coisa os meninos são presos lá. Antes de a gente receber a punição, o senhor Geraldo espanca dando joelhadas, socos no estômago e bofetões. Muitas vezes, os meninos desmaiam. Uma vez bateram tanto no garoto com a cabeça na parede que ele foi parar na enfermaria." (C.F., 15 anos) (Luppi, 1987, p. 54).
21 Todos comentam o exagero da punição naquela época em que eram alunos. Eu, surpresa com os comentários e pelo fato deles, sendo críticos, mesmo assim, gostarem de trabalhar na escola, pergunto por que trabalham ali como funcionários. Um inspetor me respondeu: "Quem comeu a carne tem que roer os ossos!"
22 Fábio escreveu-me uma carta em que desenhou seu retrato a lápis, como se fosse um bandido, e escreveu em cima: "PROCURA-SE", mostrando assim uma identificação com os ideais institucionais.
23 Raspar a cabeça é uma punição para comportamentos considerados graves. Marca o aluno, distinguindo-o dos outros, seja dentro do internato, onde todos usam uniformes iguais, seja na comunidade. É o castigo mais repudiado pelos internos.
24 Este texto é retirado de um caderno que o inspetor Joca, com mais de vinte anos de trabalho e ex-aluno, oferece aos alunos para que eles registrem impressões de sua vida no internato. O caderno reflete uma cumplicidade entre este inspetor e os alunos. É uma forma que ele encontrou não só para escutá-los, mas também para registrar suas opiniões. O inspetor deu-me o caderno afirmando que eu era a primeira pessoa a quem ele o mostrava e que o seu conteúdo constituía um material precioso para a minha pesquisa.
25 Teoria lombrosiana, que será vista mais adiante.
26 Exemplos retirados das "ocorrências" existentes nos prontuários de dois internos.
27 Ele percorreu a trajetória ideal de um ex-aluno pois, segundo um ex-aluno funcionário, "o ideal de todo ex-aluno é chegar a diretor".
28 Este material me foi dado pessoalmente por Walter em 2 de julho de 1985. Ele fora desligado do Internato VII em março, com 18 anos. Walter ficou interno durante quinze anos. Sem laços familiares, foi morar na casa de funcionários do Internato VI. Após a visita, ainda me escreveu um cartão de Natal. Depois não fez mais contato.
29 A seleção compõe-se de alunos entrevistados nas oficinas (não gravei, fiz anotações) e 15 outros em entrevista feita em oito grupos e gravada. Para evitar repetições, todo primeiro depoimento de cada aluno será seguido de identificação — idade, série escolar, etc. e nos seguintes só será colocado seu primeiro nome ou um nome fictício.
30 Alguns internos, depois que saem, têm críticas muito claras. Helcenir, entrevistado quando ainda era interno, deu outro depoimento dois anos após ter sido desligado, o qual faz parte da pesquisa "Menor em Tempo de Maioridade", realizada em 1987: "...o inspetor e todo o funcionário falava que lá fora você vai passar fome cara. Eles diziam que a rua era uma coisa muito ruim, quer dizer você vai para lá, você vai sofrer. Então os alunos tinha medo de sair. .. no colégio, tem tudo na mão e eles (funcionários) dramatizando a vida do lado de fora. Quer dizer, facilita demais e não prepara para nada. Eles facilita lá para dentro mesmo e não pra vida. Porque quando o aluno vai sair, o aluno leva uma tijolada né, uma coisa que não tá vendo. E ele volta no colégio muito mal arrumado. Aí os alunos que vê aquela visão se recolhe mais com medo, com muito medo. Aí os outros não quer sair do colégio. Tem aluno que chega a repetir de série para poder num sair. Pra você ver, uma pessoa ao invés de pensar em progredir pensa em se prender no colégio. O colégio é uma coisa que prende muito o aluno".
31 Constatei que tanto a exploração da mão de obra do aluno quanto a admissão do ex-aluno como empregado fazem parte da tradição das instituições totais.
32 "... negócio de tráfico de drogas. Pegaram ele no flagrante e aí ele foi preso. Ele saiu, não tinha família, não tinha nada. O que esperava dele. Esperava dele ser um doutor, um técnico, o quê? Não esperava nada disso, né. Ele não tinha família, não tinha nada... É muito comum, mas demais mesmo de acontecer do aluno ficar marginalizado,justamente o aluno que não tem família"
33 Para enfrentar este problema a Funabem chegou a fazer uma propaganda pela televisão em 1987, conclamando os empresários a empregarem ex-alunos.
34 Esta constatação pôde ser feita também em 1985, quando iniciei uma pesquisa intitulada: "Menor em Tempo de Maioridade", realizada na CESME, através de entrevista com vários ex-alunos.
35 Como indiquei no final do capítulo referente às características dos internatos, esta Fundação tem lugar importante entre as instituições filantrópicas e a história de seu fundador mostra claramente como ele ocupava perante todos da Fundação um lugar de "salvador". Este espírito filantrópico ainda marca o funcionamento institucional e é sobretudo encarnado por aqueles que ocupam as posições mais altas na hierarquia.
36 "Lombroso, buscando a explicação científica do crime, asseverou que o delito é um fenômeno de atavismo orgânico e psíquico. A esta conclusão chegou após estudo antropológico e análise confrontativa entre o homem selvagem e o homem delinquente, encontrando num e noutro idênticos caracteres somáticos e psíquicos. O criminoso típico seria uma cópia, uma reprodução nas sociedades modernas, do homem primitivo, aparecido, pelo fenômeno do atavismo, no seio social civilizado, com muitos dos seus caracteres somáticos e os mesmos instintos bárbaros, a mesma ferocidade, a mesma falta desensibilidade moral." Ainda mais, pensava Lombroso que "o atavismo do criminoso, quando lhe falta absolutamente todo traço de pudor e de piedade, pode ir além do selvagem, remontando até aos próprios brutos". E da estreita analogia entre o selvagem e o criminoso, fazendo aplicação da lei de evolução ontogenética e filogenética, pela qual 'o indivíduo atravessa estados análogos ao que atravessa a sua espécie desde a origem até o estado atual', Lombroso concluía que odelinquente, principalmente pelos seus caracteres psíquicos, muito se assemelha às crianças, que, nesta fase da existência, resumem e reproduzem os primeiros graus do desenvolvimento da espécie humana. É a doutrina do infantilismo, cujo fundo de verdade é de uma evidência brilhante e incontestável." (Aragão, 1977, p. 108)
37 Referimo-nos à formação de indivíduos pela disciplina para garantir o cumprimento das "normas" agrupadas pelo código jurídico da sociedade.
38 Mais recentemente tem surgido uma nova variante, a organização, quer dizer, as modernas ideologias políticas levam os ex-alunos a se organizarem em associações que possam debater a sua própria situação e inserção na vida social, como se fossem elementos intermediários que colocam os indivíduos não na instituição, mas num movimento próprio. Temos tambémo surgimento de "movimentos" em defesa da criança organizados por profissionais liberais e projetos alternativos, que atendem aos chamados "meninos de rua" ligados a setores progressistas da Igreja. Herzer e Collen tiveram o apoio desses grupos e assim escreveram suas autobiografias. Herzer, entretanto, teve um fim trágico, suicidando-se poucos dias antes da publicação de seu livro. Esses projetos alternativos têm surgido em função da crítica à internação de crianças.