Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 47 de 62

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Infância perdida

3. "Toque de briga"

valer. Batem mesmo! E os meninos só sabem obedecer no

cacete (Assistente do diretor — Escola VII)

O assistente do diretor do Internato VII, após citar o exemplo do aluno que levava uma surra todo dia, tema explicar por que aqueles alunos são tão difíceis:

É que lá tem um problema muito grande, com muitos meninos

de idade alta e escolaridade baixa, como também a falta de

atividade e de algum trabalho.

Mesmo considerando que a percepção que os funcionários têm desta interligação entre as escolas é parcial, observamos, nos capítulos anteriores, que desde a Escola IV os alunos reclamam frequentemente de que "se bate muito" nos internatos.

 

3. "Toque de briga"

a. Clientela

A rotina desta escola não difere das demais quanto aos horários e à programação de atividades. O que se nota, entretanto, através da rotina diária, são os problemas que, apesar de não serem específicos desta escola, muitas vezes ganham aqui um destaque maior, devido à faixa etária e à clientela atendida, considerada pelo diretor como "refugo da Funabem". O que se entende por "refugo" são aqueles internos sob a responsabilidade da Funabem que, por já estarem com 12, 14 ou 15 anos de idade e por terem muitos problemas, não conseguem mais se encaixar na rotina de um internato comum sem atrapalhar o funcionamento deste em relação ao todo dos meninos internos. Então, busca-se como solução a concentração daqueles numa escola designada pela Funabem entre suas conveniadas, sem no entanto avisá-la ou oferecer-lhe recursos técnicos adequados.

Este "refugo" são os meninos que, em geral, estão internados há muitos anos e que, por diversas razões, sofreram muito, não atingindo o mínimo desenvolvimento necessário para poder responder ao que lhes é exigido dentro da organização de um internato com 200 a 500 internos. São problemas de ordem psicológica, que se refletem especialmente na sua aprendizagem mas também no seu comportamento. Poucos dentre eles poderiam ser considerados "desviantes". O "refugo" é constituído, sobretudo, por aqueles que ficam deprimidos, sem interesse por nada, com aparente retardo mental, ou que perturbam mais ativamente o andamento da rotina, sem entretanto cometer atos considerados "delinquentes".

Há um consenso geral entre os funcionários e o diretor de que a clientela do internato estava mudando muito, e de que era mais difícil trabalhar com esses meninos, uma vez que não se submetiam à disciplina tradicional e exigiam uma preparação dos funcionários que estes não tinham e nem poderiam alcançar, já que não lhes era oferecido qualquer curso. O diretor depõe sobre a diferença entre a clientela da época em que foi aluno e a de agora:

Naquela época o atendimento era mais orientado para o

trabalho. Juntando-se a isto, havia mais civismo. Era importante

que o menino tivesse uma ocupação. Não havia quase castigo.

Eles sentiam a necessidade da escola. Sabiam que os

funcionários gostavam deles. Tinha confraternização, muitos de

nossos funcionários eram exalunos carentes — eles podiam

sentir o problema do menino. Hoje é outra finalidade — o

menino é pago, tem convênio. O menino mudou — hoje não se

pode mentir, ele tem outra vivência, vê televisão. Não é possível

confinar o menino no internato. Hoje ele tem mais consciência.

Fica difícil ter o mesmo tratamento daquela época. Tem que

dialogar mais com ele e fazer ele sentir a realidade da vida. A

gente fala para ele: 'Você vai se libertar daqui'. Mas, na

realidade, não há condição do menino se libertar. Fica muito

tolhido aqui, inclusive no fim de semana.

A clientela enviada pela Funabem, segundo o diretor, mudou muito, sobretudo nos últimos três anos para cada quatro meninos que chegavam, dois eram chamados "píssicos". O recreador também considera que seu trabalho se tornou mais difícil pois, segundo assevera: "só chega no internato preto, bicha e maluco".

Outros funcionários dizem que os alunos são mais "complicados", sem outras explicações. O diretor diz que o problema sócio-familiar é maior.

Hoje a família se esconde e exige tudo da escola. Antes dava

mais orientação ao menino e contribuía mais com a escola.

O diretor responsabiliza também a Funabem por reter o menino muitos meses na triagem, antes de transferi-lo para uma escola. Na triagem, o menino não tem o que fazer e lhe é dada pouca orientação sobre a vida no internato para o qual será enviado. Ele não tem motivação para o estudo e, com todos esses problemas, o internato acaba por ser "um confinamento", segundo afirma o diretor.

O internato, sem muitas atividades para oferecer além da escola, faz com que o garoto "fique de boresta" (à toa, no ócio) grande parte do dia. Cerca de 90 a 100 alunos passam o recreio, à tarde, sem fazer nada. Não há trabalho profissionalizante, mas apenas pequenos trabalhos para ocupá-los, principalmente os serviços de limpeza e de cozinha. Há um consenso entre os funcionários sobre a necessidade de se fornecer ensino profissionalizante para a faixa etária atendida (a maioria tem de 13 a 16 anos, com escolaridade muito baixa), mas é decisão não depende deles, uma vez que são impotentes para influenciá-la. O diretor advoga a existência, sobretudo, de trabalho e ocupação para os meninos com "problemas" e que não se interessam pelos estudos.

b. Rotina

No início de um dia de semana rotineiro, os alunos acordam entre 5 e 5 e meia. Alguns fazem ginástica, todos se banham, tomam café e depois aguardam no pátio o apito para a formatura. Nesta primeira formatura da manhã, os alunos fazem "ordem-unida" e cantam o Hino Nacional. A introdução do hino, como atividade rotineira, ocorre nesta escola e se repete na Escola VII. Está hora é chamada pelos inspetores de "toque de briga". Eles explicam que assim a denominam porque marca o início das atividades. Eles devem "obrigar os meninos a irem às aulas e ao serviço geral, pois sempre tentam escapar".

A organização dos inspetores é muito eficiente, e o chefe de disciplina tem uma ascendência clara sobre eles, não se limitando a fazer relatórios e trabalhos burocráticos, como às vezes acontece nas escolas anteriores. Nestas, o chefe atua mais junto à burocracia e aos inspetores. Aqui, na Escola VI, ele está mais próximo do inspetor e dos alunos, para melhor impor a disciplina. Quase sempre é o chefe quem organiza e dá as ordens para que os alunos façam a "ordem-unida". Eles se organizam para fiscalizar os diferentes espaços em que os alunos circulam: durante o dia, dois inspetores ficam no corredor do grupo escolar para atender à escola; um fica na sala de televisão; outro, perto da sala da banda (na parte de trás do prédio) e um, bem no centro, em frente à secretaria.

A título de ilustração, vejamos abaixo uma observação de

formatura feita pelo chefe de disciplina:

Agosto — 1982 — 16h55min. Após apitar, o chefe de disciplina

grita:

"Banho! Formar! Rápido, rapazinho! Ande!" Os alunos formam e

fazem a "ordem-unida". Repetem cinco vezes o exercício até

que a formatura esteja realmente bem-feita.4 Então, o chefe se

dá por satisfeito — filas bem alinhadas, silêncio, corpo ereto. O

chefe continua dando ordens: "Pare de falar. Na formatura não

se fala!" Depois exibe uma caixa (de sardinha) e pergunta:

"Quem tem uma caixa como esta!" Três alunos respondem que

têm. "Não podem ficar com vocês. Têm que entregar!" (Eles

entregam sem protestar) "Vocês podem se machucar" —

explica o chefe de disciplina.

Enquanto isto, dois inspetores, que também estão ali, anotam

num papel os nomes dos alunos que não estão se comportando

como deveriam. Os inspetores anotam em silêncio, sem fazer

repreensões. Os alunos cujos nomes foram anotados receberão

um castigo: ficar de pé, após o jantar. De repente, o chefe, que

estava mais calmo nos últimos instantes, começa a gritar

enfurecido: "Você último, está de brincadeira?" (Ele havia

chamado um interno de "último", e este não lhe respondia)

"Olhe para trás, tem alguém? Então você é o último!"

O que provocou sua irritação foi a demora do aluno para

responderlhe. Os inspetores ficam indignados quando os alunos

não respondem prontamente e do modo como eles exigem,

mostrando submissão irrestrita.

Agora, tudo está organizado e silencioso. O chefe libera uma

turma, que segue em fila para o dormitório e o banho. Em

seguida, outra turma é liberada, restando duas filas no pátio.

Ele chama a atenção de uma delas, comanda novamente a

ordem-unida. Antes de liberar as duas últimas filas, grila: "Vestir

blusa de frio e sapato". Depois, os alunos seguem em fila para

o dormitório.

Às 17h30min: formatura — o chefe de disciplina exige rapidez e

faz a "última forma". Insatisfeito, repele-a várias vezes até que

os alunos estejam bem alinhados e possam debandar. A "última

forma" é mais um exemplo de situação em que o que é dito não

corresponde ao que se faz, perdendo-se assim o seu

significado.

c. Tensões características

Este internato, entre todos os que compõem a Fundação, mostra com clareza alguns pontos de estrangulamento gerados pelo sistema atualmente existente no Brasil. O que se chama "refugo" é um bom analisador do que este sistema provoca, pois aos 12 anos de idade e, portanto, seis anos antes de ser "desligado", o interno já apresenta complicações tão graves que emperram o próprio funcionamento da máquina. Assim, segregá-la numa escola separada permite que as outras possam seguir sua rotina comum sem qualquer questionamento ou reflexão sobre o resultado do trabalho de atendimento em internato. A esta altura, algumas questões já se delineiam com clareza:

1) o atraso escolar significativo (em geral de quatro a cinco anos) e o desinteresse pelo estudo;

2) o desamparo completo em que essas crianças se encontram, perdendo, ao longo dos anos, os laços afetivos com seus familiares ou parentes e os órfãos permanecendo sem conseguir qualquer relação substituta para minimizar a inexistência dos laços familiares;

3) a ideia de trabalho é transmitida ao interno como uma atividade desinteressante, uma ocupação qualquer, em oposição ao ócio completo; uma atividade obrigatória incapaz não apenas de ensinar, como também de permitir que se estabeleçam relações afetivas mais duradouras com os adultos;

4) a prática de recreação e de esportes por parte dos jovens internos é problemática, não permitindo que sejam elementos recreativos, criativos e formativos, pela quase inexistência de tais atividades.

Todos estes pontos são objeto de reflexão elaborada a seguir, e são abordados nesta escola porque, apesar de serem questões que permeiam todas as escolas anteriores, aqui se expressam com maior clareza.

Nesta escola, os internos terminam uma etapa do caminho que têm que percorrer antes de seu desligamento. O que se nota, de maneira gritante, é que este sistema não está inculcando nos adolescentes nenhum dos valores básicos da sociedade. As tensões e conflitos se avolumam quando os próprios internos se autorrepresentam como à margem da vida social: sem domicílio, sem família, sem profissão. Parecem antever o futuro próximo de maneira temerosa e inconformada.

Na Escola VII, algumas situações novas surgem, em especial o ensino profissionalizante e a nova expressão da disciplina.

Citarei alguns depoimentos dos alunos que corroboram as análises. Estes depoimentos foram anotados em 1981, quando ali trabalhei como psicóloga. Portanto, são comentários feitos durante entrevistas com os internos que me procuravam na condição de psicóloga e funcionária do internato:

Todo mundo tem endereço e eu não tenho. Por que não tenho

endereço? Ela esqueceu de dar? Não tenho um irmão chamado

Eduardo, lá da escola de Caxambu? Não fui batizado? Não

tenho madrinha? (Cláudio — 14 anos, 1ª série, interno desde

bebê)

Quero ir para lá [Internato VII]. Aqui é chato. Já trabalhei na

capina, mas quero trabalhar para aprender uma profissão.

Tenho amigos lá de infância de outras escolas. Quero estudar

mecânica (Luis Cláudio — 15 anos, 3ª série, não tem visita)

As tensões também se adensam na vida cotidiana do internato. Não só as regras são percebidas como injustas, mas generalizam as propensões a confrontos com os funcionários, no desempenho de diferentes atividades.

Tia Helenir, da cozinha, não é justa na divisão. Ela parece que

tem medo. Quando vou pedir repite, ela me responde: 'quer

mandar recolher esta dendeca, sr. Ademar'. Eu tenho vontade

de dizer: vou mostrar esta dendeca para a senhora, o tamanho

desta belezinha. (Dimitrios — 15 anos, 2ª série)

Os maiores têm mais regalias, comem mais, veem televisão.

Por que esta diferença? Os pequenos são mais castigados. Os

maiores, pela mesma coisa, são só avisados. Os maiores têm

camisa de jogo. Jogam mais futebol. Quando um faz bagunça,

todos são punidos. Eles têm mania de trancar o aluno para

bater. Sr. José é legal, conversa com a gente como se fosse

com o filho dele. Tinha bicho na comida, a tia falou que é assim