Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 12 de 62

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Infância perdida

3. "Adaptação" e suas consequências na saúde mental e física

Foto 1: A criança ao chegar é colocada num dos setores existentes,

transforma-se em um ponto numa série e deve aprender o mais

possível a rotina estabelecida.

 

3. "Adaptação" e suas consequências na saúde

mental e física

A criança em geral expressa sofrimento pela separação abrupta de sua mãe com perda de peso, falta de apetite ou recusa de alimento e febre. Estes sintomas podem levar a outros mais sérios e a

criança acaba sendo internada na "pediatria".7 Segundo a enfermeira, em alguns casos, a mãe percebe o sofrimento do bebê e o retira, mas não há casos em que a direção do internato aconselhe tal procedimento. Algumas concessões podem ser feitas: quando a criança está doente, é permitido um número maior de visitas; quando ela chega recém-nascida e não desmamou ainda, há casos esporádicos da mãe ficar com o bebê por um ou dois meses até que ele esteja mais forte e possa ser feito o desmame. Nestas situações, é fundamental a atitude da Irmã diretora para que as regras burocráticas funcionem de maneira flexível.

Os funcionários e a diretora têm uma visão otimista quanto à criança se "adaptar bem" à creche, "mesmo que demore um pouco, há uma adaptação satisfatória", dizem. Essa "adaptação satisfatória" é difícil de ser definida, pois para quem é satisfatória? Esta "adaptação" visa favorecer o enquadramento do interno às normas do internato, que nem sempre estão de acordo com as necessidades básicas da criança. O que se considera "adaptação satisfatória" é, na verdade, o fato da criança não chegar a situações-limite que coloquem em risco sua vida. Como vimos acima, a direção jamais indica a desinternação de uma criança. Entretanto, é comum se observar no interno, conforme descrição de Bowlby, "a criança separada típica — indiferente, parada, infeliz, que não reage a um sorriso ou a um murmúrio" (Bowlby, 1981, p. 26). Encontramos também, nos bebês, características de depressão, que Bowlby descreve num estudo feito com crianças entre 6 meses e 12 meses — "O tom emocional é de apreensão e tristeza. A criança se afasta de tudo a seu redor, não há qualquer tentativa de contato com um estranho e nenhuma reação positiva se este estranho a toca. Há um atraso nas atividades e a criança frequentemente fica sentada ou deitada inerte, em profundo estupor. A falta de sono é bastante comum e todas as crianças têm falta de apetite. A criança perde peso e apanha infecções facilmente. Há uma queda acentuada em seu desenvolvimento geral" (Bowlby, 1981, p. 26).

Vejamos os problemas que se apresentam e que questionam a "adaptação satisfatória". Um dado inegável é a quantidade de doenças que essas crianças têm. Verificou-se a partir da análise do prontuário de 13 crianças que 15% das crianças são hospitalizadas com 7 dias de permanência na creche, 25% com apenas 15 dias, 30% com 1 mês, 15% com 2 meses, 15% com 3 meses. Na mesma amostra verificou-se que as crianças são hospitalizadas pela primeira vez em consequência de diarreia (25%), bronquite (15%), desidratação (15%), vômito (15%) e gastrenterite (15%). O principal motivo admitido pelos médicos, atendentes de enfermagem e funcionárias para o adoecer das crianças é o "convívio em grupo que facilita o contágio de uma para outra". Doenças como gripe, diarreia, vômito, piodermite, impetigo, escabiose e conjuntivite são comuns e basta uma criança ter para que as outras peguem, dizem eles. Nem os médicos nem as funcionárias admitem que a separação da mãe e a vivência no internato possam ser fatores causadores de debilidade maior na criança, deixando-a mais propensa a adquirir doenças.

Apesar de negarem que a separação da mãe possa fragilizar o interno, a enfermeira, o médico e mesmo a diretora admitem que a criança sofre e adoece por "saudade" da mãe ou por "paixão".

Eu trago uma criança e falo para o médico: Ah, doutor, este

menino está assim, não quer comer, está com febre. Ele

internou agora recente. Aí ele vê aquele dia e pede para ver no

dia seguinte. Eu torno a voltar e digo a mesma coisa. Aí ele diz:

Ah, este menino aí, isto é paixão. Quer dizer eu aprendi isto

com o médico. Ele pede para acompanhar três, quatro dias e

então eu venho com a mesma ladainha: Dr. ele está triste, não

come. Ele diz: Ah. Ele está triste, é paixão. Ele está sentindo

falta da mãe (Enfermeira).

Dr. K. é o único que concorda comigo em que a separação da mãe influencia o adoecer da criança. Entretanto, ele enfatiza o fato desta já estar desnutrida desde sua gestação, ou seja, a criança chega "doente", debilitada. Desta forma responsabiliza a mãe e releva as consequências do atendimento institucional.

Um dos sintomas iniciais de sofrimento é a perda de peso. Quanto à quantidade de doenças que as crianças têm, é interessante como a diretora tem dificuldade de admitir os problemas decorrentes da internação. Ela explica o fato pela eficiência médica, ou seja, "porque no internato a criança é vasculhada... se tem registro de tudo, porque temos um serviço médico". O serviço médico é considerado bastante "eficiente". A criança é vista por dois médicos diariamente, um pela manhã e outro à tarde. Os médicos têm sua secretária exclusiva só para fazer as anotações e registros, além das enfermeiras. Tudo isto dá um cunho bastante hospitalar ao ambiente do Internato I, além do ambiente físico marcado pelas cores branca e cinza, assim como pelas camas de ferro, típicas de

hospital (vide foto 2).