Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 50 de 62

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Infância perdida

6. Monitor e ajudante

Do mesmo modo se percebe isto quando afirmam que vão se reunir em grupo para construir uma casa e morar juntos. Desenha-se um ideal de vida em conjunto que implicitamente suprime a referência às figuras básicas da família nuclear. Auto-representam-se, neste sentido, como à margem de uma das mais caras instituições da organização social: a família não aparece delineada em suas projeções futuras. E esta imagem nutre práticas que reforçam outras modalidades de coesão e solidariedade entre os ex-internos, tanto em domínios socialmente definidos como de manutenção da ordem apoiados em instituições totais, quanto naqueles outros classificados como de marginal idade e banditismo. Tem-se o verso e o anverso de uma mesma moeda, cunhada nas pesadas engrenagens de uma fundação que a todo instante desdiz o que se propõe, mesclando filantropia com tragédia.

 

6. Monitor e ajudante

Denomina-se "monitor" aquele interno que presta serviços ao inspetor na tarefa de vigilância dos colegas. É um aprendizado do papel de inspetor, que se inicia na Escola II com as mais velhas dentre as internas, que já passam dos oito anos de idade. Nas Escolas II e III, essas crianças que ajudam a manter a disciplina não são sempre chamadas de "monitoras". É mais comum serem chamadas de "ajudantes", denominação específica para aquelas que ajudam numa parte do serviço. A partir do Internato IV esta distinção será mais nítida, como veremos adiante. Em todos os internatos, o "ajudante" que trabalha como auxiliar de um funcionário na realização de uma tarefa participa de uma "escala". Algumas crianças se candidatam, outras são escolhidas pelo inspetor ou funcionário com o qual vão trabalhar, durante a manhã ou a tarde, quando não estão em horário escolar. A falta ou a recusa em realizar a atividade é passível de punição e castigo. O interno é incluído numa "escala" que determina quem vai trabalhar em cada um dos diversos setores — na rouparia, limpeza de banheiros, pátio, refeitório, dormitório e também como ajudante de cozinha no caso dos maiores de 10 anos. Nas escolas de adolescentes (Internato VII) há também o trabalho na horta, na coelheira, na capina, entre outros.

O trabalho de "ajudante" é uma maneira de ocupar o interno, de iniciá-la no aprendizado do trabalho e também de aliviar o serviço do funcionário, às vezes até substituindo-o, como acontece com o trabalho dos adolescentes. Serve, portanto, à instituição de maneira eficaz. Para as crianças, é uma forma de iniciá-las em trabalhos que provavelmente poderão oferecer, quando saírem dali com 18 anos, no mercado de mão de obra não qualificada. O mais importante é o treinamento dado, bem como os valores que se inculcam desde cedo, quando a criança aprende qual é o seu lugar na pirâmide da hierarquia institucional e posteriormente na sociedade. Uma das questões que se pode levantar, a partir desta prática institucional, é se um dos objetivos da formação do sujeito, nesta experiência pedagógica do internato, seria, como diz Moore:

Do ponto de vista do grupo dominante, a tarefa fundamental é

inibir qualquer forma potencialmente perigosa de autoestima, e

desviar todas as tendências inatas de tal tipo, para sentimentos

como o orgulho em realizar trabalhos humildes, que vão servir

de sustentáculo à ordem vigente (...) Uma variedade de coerção

difusa e informal que se inicia precocemente na infância pode

ser o instrumento mais efetivo para tal propósito. (Moore, 1987,

p. 119)

O trabalho de "ajudante", ou "assistente" e "monitor" na Escola II reflete claramente o papel da inspetora. Ali, além de manter a ordem e disciplina, a inspetora cuida da criança pequena que ainda não tem inteira autonomia nas atividades diárias, tais como se vestir e ir ao banheiro. A menina aprende assim a disciplinar e a cuidar dos colegas mais novos. Vejamos uma observação:

18h40min — Nos vários dormitórios, noto que os pequenos

grupos, sentados no chão em fila dupla, recebem escovas e

vão ao banheiro escovar os dentes. Uma menina maior ajuda a

'tia' recolhendo as escovas e zelando pela ordem dentro do

banheiro. Após todos se deitarem ela distribui a coberta

numerada. A 'assistente' zanga como faz a 'tia', para que as

crianças durmam: 'anda, fechem os olhos, quietos'.19

Como nas demais atividades, também no trabalho a criança não tem qualquer autonomia e depende quase completamente do adulto. O "trabalho no setor" é mais uma atividade que faz parte do funcionamento institucional sem maior interesse para a criança, pois esse mesmo funcionamento se encarrega de transformar todas as atividades em tarefas a serem cumpridas

As tias são mais ou menos, porque, eu sei lá, a gente pede as

coisas a ela e tem uma que não deixa. Peço para pôr prato na

mesa e ela pede para esperar, mas na hora de botar ela não

deixa. Ela manda outra no lugar da gente (Rosana, nove anos)

(Você escolhe onde você quer trabalhar?)

Não, a tia que manda. E se não quiser ajudar, a tia manda

forçada. Aí a gente não ajuda direito e a gente fica de castigo.

Na minha casa não é assim não. Se eu não quiser, eu não faço,

minha mãe faz. Minha mãe não liga. Sabe por quê? Ela diz

assim: 'você faz se você quiser, se você não quiser você não é

obrigada a fazer aquilo'. Mas eu sinto pena de minha mãe e

faço. Para não prejudicar a minha mãe; naquele tempo já tinha

meu irmão que morreu e eu não queria que minha mãe

pegasse peso, que ela não podia; minha mãe não trabalhava.

Quem ficava com a gente quando a minha mãe ia trabalhar? A

gente ficava sozinho; eu tomava conta de meus irmãos, meu

irmão de 11 anos vai por mês para casa. Tomava conta de

minha irmã de quatro anos, de meu irmão de cinco anos, e de

meu irmão de dois anos." (Conceição, 10 anos)

Percebe-se, através da fala desta menina que vive pela primeira vez a experiência de vida no internato, o quanto sua participação no trabalho de casa tem significado dentro de um contexto de relações familiares, do qual ela faz parte. Se, por um lado, na família lhe cabiam responsabilidades grandes, no internato ela não as tem absolutamente, e sua participação depende da vontade arbitrária da "coadjuvante de disciplina". Esta situação difere muito da relação estabelecida com a mãe, que é de confiança e solidariedade. No internato, quando estes sentimentos surgem, são barrados pela burocracia e pelas relações hierarquizadas.

Desde a Escola II as crianças realizam o trabalho de "monitor", ajudando as "coadjuvantes de disciplina" a manter a ordem dos internos nas tarefas rotineiras. Nas escolas seguintes, sobretudo III, IV e V, a figura do "monitor" é muito importante. Como vemos no exemplo a seguir, as crianças que fazem o trabalho de monitor aprendem desde cedo a se identificar com a posição de mando dos inspetores e a almejar esta posição.

A coisa que eu mais gosto é tomar conta das crianças. O

dormitório mesmo que eu gosto de tomar contar é o 3 [são os

meninos maiores] porque o 3 não faz bagunça, não faz pirraça.

(Qual é a pirraça que fazem?)

Pular na cama. Um dia eu cheguei no dormitório e eles estavam

bem assim: 'ieh, eh' — brincando nas camas em cima da cama

do outro em tempo de cair [riem] e quebrar os ossos. E aí a

gente fala assim: 'vai sentar na tábua'. Aí um sai correndo e vai

lá para o parque, para o balanço. Aí nós tem que correr atrás

deles. No refeitório ficam batendo na mesa, conversam. Não

pode! Dá o prato para o outro botar comida, joga o prato no

chão. A gente fala assim: 'para de fazer isto'. E a gente bota de

pé de castigo. (Meninas da Escola II, 10 e 11 anos)

A menina que colabora na manutenção da disciplina aprende a dar significado àquilo que se denomina comportamento "certo" e "errado" das crianças e a castigá-las devidamente. Assim, todas as crianças vão se identificando com as inspetoras, tanto aquelas que exercem a função de monitoras, como as outras, que passam a almejar serem também merecedoras desta posição. As crianças costumam aprender bem esta tarefa, e são consideradas pelas funcionárias dos diversos internatos como sendo mais duras do que elas próprias na exigência de bom comportamento e na aplicação do castigo.

A punição da monitora é disciplinar, mas certamente também podem estar em jogo outros fatores, como raiva do colega ou brigas de turma:

Aí, a Danubia falou para a tia: 'A Conceição está conversando'.

Aí a Erika foi, anotou meu nome e eu fiquei de castigo. Era

dentro do refeitório. Danúbia, que é irmã da Erika, falou que eu

estava conversando. Aí a Erika foi e colocou três cruzinhas. A

gente bota cruz no nome e quer dizer que a gente vai ficar mais

tempo de castigo. Eu tenho três cruz, aí eu vou ficar três dias

de castigo. Fico de castigo, de noite na hora de dormir. A gente

fica de pé, braço cruzado, virado para a parede, no dormitório.

E quando a gente não quer ficar direito a tia põe lá perto da

Irmã (na sala da direção) ou no banheiro.

Pode-se pensar, aqui também, que a existência do monitor é mais um elemento que vem dificultar a relação de confiança, amizade e solidariedade entre os internos. Como o monitor ocupa esta posição por um tempo provisório, e logo outro toma seu lugar, os internos nunca sabem quem será o próximo — ou seja, todos podem sê-lo. Uma vez monitor, ele pode se valer de informações e segredos do colega para castigá-lo ou denunciá-lo ao inspetor. Isto constitui, talvez, um forte fator de bloqueio à confiança mútua.

A monitora tem permissão do adulto para castigar os colegas, embora com ressalvas: "A gente só pode bater na poupança, a tia disse" conta uma aluna. Esta permissão, como sabem os funcionários, possibilita que atos mais agressivos ocorram e, por isto, os inspetores dizem que é preciso estar atentos ao trabalho da monitora.

Na posição de monitor, a criança interna tem a possibilidade de revidar aquilo que ela sofreu na posição passiva, sob o mando do inspetor, como também de exercer seu sadismo infantil exacerbado pela situação masoquista, que lhe é imposta pelo adulto, como vemos no exemplo a seguir:

(Você também ajuda a tomar conta das crianças pequenas?)

"Às vezes."

(Você gosta?)

"Gosto."

(Como você toma conta deles?)

"Mando eles ficarem quietos. Mando eles abaixarem a cabeça

no refeitório. Ajudo a trocar a roupa deles. Tem uns que são

bons e tem uns que são abusados." (Danúbia, 10 anos)

"Aqui, a Joelma do meu tamanho, ela bate no Gugu, um

garotinho do dormitório 3, coitadinho, Eduardo o nome dele. Ela

bate nele. Uma vez ela levou ele para o banheiro e deu três

chineladas no bumbum dele, apertou a barriga dele. Ele ia fazer

cocô, ela apertou o bumbum dele, ele não fez! Aí ela deu uma

palmada nele, e o garoto fez xixi e cocô. Ela falou assim: 'Viu,

você estava com vontade de fazer...'. Aí deu umas palmadas

nele!" (Erika de 10 anos)

Nas escolas dos meninos maiores (Internatos III, IV e V) também é comum que os monitores batam nos colegas:

18h52min — Entro no pavilhão 2 para ver o que ocorre: há três

meninos de cara para a parede com os braços para trás. Os

outros estão sentados com os braços cruzados e cabeça baixa.

'Os monitorespodem ir para trás' — ordena o inspetor. Eles

obedecem. Barreto chora e o inspetor manda que o deixem em

paz.

O inspetor volta-se para o grupo e diz 'O garoto que estiver se

mexendo na posição dele eu vou botar o nome dele aqui, e

vamos fazer uma recreação aqui depois do jantar'. Observo o

"monitor" dar vários tapas num menino de castigo. Ele chora. O

inspetor finalmente manda deixá-lo em paz. Três minutos

depois, repetindo-se a situação, o inspetor manda que pare

novamente.

Mas nem todos os gestos das crianças para com as outras são de severidade e castigo. Na Escola III pude observar um "ajudante" acordando os outros colegas que dormiram o sono da tarde, ora com agressividade, ora com delicadeza. A "tia" que o acompanhava acordava os que dormiam com carinho, enquanto o ajudante acordava seus colegas aos empurrões, gritando "acorda". Mas quando foi acordar dois irmãos que tinha chegado naquele dia ao internato, em sua primeira experiência de separação da família, ele os acordou com carinho, fazendo cócegas e brincando com delicadeza. Ele parecia discernir com clareza o sofrimento dos novatos, que estavam muito assustados, tensos e acordaram chorando. Era solidário com eles. Os mais antigos ali internados, entretanto, ele tratava com a dureza frequentemente observada nas inspetoras.

Ajudar na vigilância da disciplina, nas Escolas II e III, não é uma atividade tão organizada como nas escolas seguintes. Nestas é comum que a "auxiliar de disciplina" chame um interno para ajudá-la, por alguns minutos ou horas, e depois dispense-o. Escolhe um menino ou menina de sua preferência, ou seleciona-o entre os candidatos que aparecem quando ela faz uma requisição. Sempre há muitos candidatos para "ajudar a olhar". O selecionado assume uma posição de destaque como, por exemplo, sentandose na única cadeira existente na sala de televisão onde todos os seus colegas estão sentados no chão. O ajudante é requisitado nas situações em que a "tia" está muito atarefada ou sem a colaboração de uma outra coadjuvante que, por algum motivo, não está presente. Na hora do banho é muito comum que ela requisite uma criança para "dar uma cobertura" e impedir que haja tumulto. Os monitores também são chamados quando ela quer se desimpedir da tarefa de vigiá-los por algum tempo, como por exemplo quando quer conversar comigo ou com outra colega, ir ao banheiro ou realizar alguma coisa de seu interesse fora daquele local. As crianças não podem ficar sem um "vigia", senão "fazem muita bagunça", "fazem algazarra", segundo dizem as "auxiliares". Se um dos internos assume o posto de "vigia", passa a fazer as advertências e anota no caderno o nome dos faltosos para depois entregar à "tia". Neste caso, todos lhe obedecem e ficam em silêncio em seus lugares, sem ousar contestar o colega que assumiu a autoridade do adulto. Eles reconhecem esse colega como autoridade legítima, sobretudo nos Internatos II e III.

Nestes internatos, por outro lado, o trabalho das crianças como "monitoras" não é encorajado oficialmente, mas é tolerado pelas diretoras. A posição da direção é sempre ambígua, segundo me parece. Sobretudo na Escola III, onde a diretora se pronuncia mais claramente contra este procedimento das coadjuvantes, embora elas o adotem na sua ausência. Pude perceber esta situação num dia em que ao entrar no dormitório às 13 horas — próximo do horário da troca de plantão das coadjuvantes — encontrei três "ajudantes" tomando conta da turma, que estava sentada no corredor do dormitório em fila tripla. Um dos ajudantes, com papel na mão, anotava o nome dos que lhe pareciam perturbar a ordem. Todos três estavam muito sérios e compenetrados na sua tarefa, sem se deixar perturbar pela minha chegada. Todos permaneciam em silêncio e quietos. Assim que a "tia" percebeu que eu havia entrado, aproximou-se correndo e se desculpou, dizendo que eles estavam ali apenas um instante, enquanto ela conversava com a chefe de disciplina. Ela se justificou: "logo vai mudar de turma [plantão] e eles estão descansando 30 minutos do almoço enquanto a outra tia não chega". Expliquei-lhe que só queria observar como os ajudantes trabalhavam, e ela então, mais tranquila, saiu novamente do dormitório para continuar sua conversa. Assim que a "tia" entrou, os ajudantes reclamaram com ela do comportamento de seus colegas. Uma das reclamações era que um menino conversara, e outra que um menino olhara em direção a uma exposição de artesanato feita por eles próprios. A "tia", na minha frente, entretanto, não lhes deu atenção e não puniu os "faltosos". Podemos ver que a exigência dos ajudantes quanto à boa disciplina é de uma severidade impressionante. Na posição de monitores, as crianças revivem, de forma invertida, a relação de disciplina existente e do lugar do funcionário que detém a autoridade para fazê-la vigir. A criança, antes punida, pode agora punir. E, na medida em que não deixa de ser um interno e uma criança, ela aprende, ao mesmo tempo, a ser um alcaguete ou delator oficializado.

Os internos aprendem não só a cuidar das crianças como fazem as funcionárias, mas também a vê-las sob a mesma ótica. É um aprendizado eficiente, pois são submetidas à prática de submissão diária e têm oportunidade de ocupar o lugar da "tia", aprendendo a comandar, disciplinar e castigar.

A diretora e outras coadjuvantes me falam especialmente de um menino com admiração — "ele sabe controlar mais de 50 colegas". Elas me narram o que ele diz frente aos colegas:

Não pensem que estou aqui como colega de vocês. Agora eu

não sou colega não, e vocês têm que me obedecer.

Elas acham graça da "precocidade" do menino, e outra coadjuvante comenta que, quando precisa de um "reforço", chama este menino, pois sabe que ele "dá conta da disciplina", muitas vezes melhor do que ela.

A organização da "escala", ou "trabalho de setor" tem mudado ao longo do tempo. No ano em que realizei a pesquisa na Escola V, o inspetor muitas vezes determinava qual aluno deveria trabalhar em cada setor, e o tempo, que antes era de meses ou um ano, passou a ser de um mês. Estas mudanças influenciaram a organização do trabalho e a relação das crianças com os funcionários com os quais eles trabalhavam, conforme veremos no depoimento a seguir:

A assistente social me levava os piores. Eu tratava eles com

carinho. Eles ficavam mais tempo na escola naquele tempo. E

não trocavam a escalação. Agora todo mês é uma criança

nova. É difícil de trabalhar com ela, não há tempo suficiente

para fazer amizade. Os meninos levam mais problemas para

gente que para o inspetor. Têm mais confiança. A gente sabia

quem era bom, quem tinha mal costume. Isto antes, porque

agora a gente não tem tempo para conversar, para saber da

vida dele durante o trabalho e também porque eles ficam só um

mês aqui. Eles gostam de ficar aqui, eles não saíam daqui.

Principalmente no sábado, quando se aproxima das 12 horas,

eles sabem que a gente vai e só volta na segunda-feira. É o

maior problema, para tirar eles daqui. (Roupeira, Internato IV)

É interessante mais uma vez notar que a direção determina e os inspetores, assim como os funcionários, cumprem as ordens sem que nem a eles, nem às crianças seja perguntado se esta nova maneira de funcionar é a melhor. Como bem observa a roupeira, que ali trabalha há 20 anos, este rodízio imposto pela nova organização da "escala" só faz perturbar as relações que poderiam se estabelecer na relação de trabalho. Parece que a modernização do internato tornou-o mais desumano, não dando oportunidade à criança de estabelecer relações estáveis nem mesmo no trabalho. O objetivo parece ser sempre o de dividir e compartimentar e não permitir que elas estabeleçam vínculos. Assim, a criança torna-se solitária, perdida na massa, sendo mais facilmente submetida aos desmandos dos funcionários.

Nas Escolas II e III as crianças ganham algum doce, pão ou biscoito como recompensa pelo trabalho. Nas escolas seguintes há também uma pequena remuneração em dinheiro. Só que esta remuneração, cujo objetivo é estimular o aluno, ocorre de maneira muito desorganizada e pouco pontual. Os meninos mais uma vez se sentem ludibriados na sua relação com os adultos, que são seus educadores, o que faz com que muitos internos não queiram trabalhar. A relação de trabalho, que se inicia entre seis e oito anos, é feita de uma maneira que, poderíamos dizer, perverte seus objetivos mais elementares, quais sejam a disciplina do trabalho implicando numa relação estável com o funcionário com o qual o menino trabalha, o gosto pela execução da tarefa recebida, e a remuneração adequada como recompensa pelo seu esforço. Esta é a maneira mais frequente pela qual se estabelece a relação de trabalho nos internatos. Nesta Fundação, é sobretudo uma forma de ocupar o interno. Não é propriamente uma forma de pedagogia do trabalho. Pellegrino faz uma reflexão importante sobre esta questão, observada no internato de adolescentes "infratoras":

Uma outra coisa que me impressionou muito foi a relação da

pedagogia instituída com o trabalho, porque é curioso que o

trabalho seja transformado numa forma de castigo. Se você

pensar o que isto significa, vai ver que é algo muito sério

porque o homem se conhece através do seu trabalho. A gente

se resgata à medida que a gente transforma o mundo — a

consciência nasce deste processo. Contudo, a instituição pune

exatamente transformando em castigo alguma coisa que pode

ser a própria possibilidade da solidariedade, do ser humano se

resgatar, se diferenciar, exercer sua singularidade. (Pellegrino,

1985, p. 155)

Os adolescentes das Escolas V e VI, que percebem esta relação com mais clareza, se ressentem e passam a questioná-la embora sem ter ainda um comportamento que expresse sua indignação, como ocorre na Escola VII. Muitas vezes, os adolescentes contam com o dinheiro para ir para casa de ônibus nos dias em que podem sair e não recebem o dinheiro prometido pelo trabalho. Isso implica em que fiquem retidos no internato. Muitos deles já passaram por outros internatos, e sabem que há outras formas de funcionamento. É comum que as escolas administradas diretamente pela Funabem paguem uma quantia maior, o que as torna, aos olhos dos alunos, mais valorizadas.