Infância perdida
6. Socialização pelo trabalho
a. Oficinas
Os cursos profissionalizantes oferecidos são os seguintes: torneiro mecânico, serralheiro, marceneiro, eletricista, ajustador mecânico, compositor (gráfica), impressor (gráfica), mecânica de auto, solda de oxiacetileno e solda elétrica. Foram oficializados pelos ministérios do Trabalho e da Educação através do "PIPMO — Programa Intensivo de Preparação de Mão de Obra", que oferece certificados aos alunos. Este reconhecimento durou pouco tempo e, já durante a pesquisa, por razões não muito claras, ele passou a não mais existir. O diploma passou a ser dado pela Fundação.
Em cada oficina há um mestre que ali trabalha durante todo o dia. Ele recebe duas turmas diariamente, uma pela manhã e outra à tarde, sendo que somente a gráfica possui duas turmas; as outras têm quatro que se revezam dia sim, dia não. Os alunos mais velhos têm direito a escolher as oficinas de sua preferência, desde que tenham a escolaridade exigida. Os outros vão se encaixando naquelas onde houver vagas. A direção encontra uma solução para o preenchimento das vagas mas, ao mesmo tempo, há muitos alunos descontentes frequentando uma oficina que não é de sua escolha. Apesar de reconhecer os obstáculos institucionais que dificultam a resolução dos problemas pertinentes ao ensino profissionalizante, o assistente do diretor considera que o alto nível
de reprovação nas oficinas16 se deve ao desinteresse do aluno. Vejamos:
A maior parte dos alunos vai à oficina sob pressão, não quer
aprender. A gente conversa, explica, mas não adianta. Meninos
de 16, 17 anos que foram pegos na vadiagem, em casa ou em
outras escolas. E agora não se consegue mais nada deles. Aí
vem o desinteresse pelo aprendizado (quer dizer que são
acostumados na vadiagem e não se pode educá-los mais para
o trabalho). A maior parte de nossos problemas este ano são
dos que vieram da Escola VI— com idade alta e escolaridade
baixa.17
Os mestres, por sua vez, falam das dificuldades que encontram no seu trabalho: o fato de o aluno vir obrigado para sua oficina e ter que permanecer ali dentro, a baixa escolaridade do aluno, a falta de material adequado para realizar as tarefas (o material pedido é entregue com atraso de até um ano), o fato do aluno nunca estar satisfeito com o que tem e o fato do mestre ter que realizar primeiro o serviço para a Fundação e secundariamente se dedicar ao ensino (nem sempre o serviço que se realiza pode ser encaixado numa atividade de aprendizagem, dizem eles). A oficina de artes gráficas, que funciona somente com dois turnos e na qual os mestres são ex-alunos, parece ser a que possui melhor aproveitamento. Em muitas oficinas o clima é de grande hostilidade entre o mestre e os alunos. Mau humor, desinteresse e trabalho lento caracterizam as tensões e os antagonismos. Em outras, e particularmente na gráfica, o clima é ameno e os alunos parecem mais interessados.
A melhor oficina da escola [a gráfica], na aprendizagem, na
limpeza. Os mestres são mais compreensivos porque já foram
alunos. Ensinam melhor, não tem cadeado na porta. Nas outras
oficinas eu saía revoltado no final do dia. Aqui saio leve. (Fábio,
16 anos, oito anos interno)
Nas oficinas sempre há um ou mais alunos que fazem "aperfeiçoamento", ou seja, depois de terminarem o curso, lá permanecem. Estes alunos se ocupam das tarefas a serem realizadas para a Fundação, deixando ao mestre mais tempo livre para ensinar. Os mestres consideram que só os alunos que fazem aperfeiçoamento têm alguma chance de encontrar trabalho ao sair da escola. Os trabalhos realizados para a Fundação ou para a comunidade não são cobrados. A comunidade paga com o fornecimento de algum material para a escola. Os mestres consideram isto errado, pois, se os alunos recebessem algum dinheiro, isto funcionaria como um estímulo a mais para a aprendizagem.
Segundo o assistente do diretor, o aluno formado no ensino profissionalizante pode trabalhar "como ajudante especializado". Considera que este ensino não os prepara tanto quanto um curso do Senai, "mas é válido para o menino do internato". É curiosa esta observação do assistente do diretor. Ele diz claramente que o aluno não merece a mesma qualidade de ensino que aqueles jovens oriundos também das classes pobres, mas que não são internados e que, não podendo cursar a universidade, optam por um ensino profissionalizante. Em seguida, ao falar da obrigatoriedade de frequência às oficinas, mais uma vez afirma que o objetivo não é ensinar, mas sim aquietar os alunos, discipliná-los, assujeitá-los. Vejamos:
Imposição de frequentar a oficina é só para tirar o aluno da
ociosidade e ele ir se acostumando com o trabalho. O cadeado
nas portas é para ele ficar dentro da oficina, senão sai. Fica
sempre um coadjuvante nas oficinas e outro no corredor das
aulas para que qualquer problema que ocorra com o mestre, ele
acudir. E também tem coadjuvante no corredor das salas de
aulas. (Assistente do diretor)
Os meninos, por sua vez, percebem claramente que a oficina existe muito mais para "ocupá-las", ou melhor, situá-los no tempo e espaço para que não façam confusão, não desorganizem a disciplina.
Não tem material hoje vamos ficar sentados, hoje e sempre. Por
isto muita gente não vem na oficina. É só para manter a gente
ocupado. (Oficina de serralheria, Noé, 17 anos, sete anos
internado)
b. Trabalho externo
Oficialmente, pelas normas de funcionamento do internato, os alunos não podem sair do estabelecimento para prestar serviços a terceiros, segundo depoimento do assistente do diretor. Entretanto, isto é permitido quando os alunos são convidados por algum funcionário da escola, pois considera-se positivo que o menino ganhe algum dinheiro com seu isto é uma abertura que o internato oferece ao aluno, permitindo-lhe trabalhar, ter alguma autonomia, ganhar algum dinheiro, sair para a comunidade. Entretanto, o que se verifica é uma relação na qual o aluno é diminuído e desqualificado.
Ao sair, ele trabalha com algum funcionário do internato18 que reproduz a relação lá existente, remunerando o muito abaixo do preço de mercado do local. Os alunos percebem tudo isto, como veremos a seguir nos depoimentos, mas não há opção — ou se sujeitam às regras que já conhecem e ganham algum "trocado" ou não ganham nada. Não há escapatória — dentro ou fora do estabelecimento, as relações da "instituição total" se reproduzem, não permitindo ao aluno escapar ao controle.
Veja, tudo aquilo é mandioca plantado do seu.. (cozinheiro). Ele
está rico. Lá atrás tem mais. Os alunos aqui é que trabalham.
Ele paga 250 cruzeiros por dia. Mas para trabalhador pagam 2
ou 3 mil. Mas se a gente reclama eles mandam embora e não
chamam mais e sempre tem aluno que quer ir. A gente trabalha
para funcionário e para qualquer pessoa que chamar. Só
pagam no máximo 250 cruzeiros. E à vezes a gente trabalha
muito. É serviço pesado.
Cada um tem um exemplo para dar, e eles demonstram ter consciência da exploração. Também percebem que não podem se rebelar. Marcos, um aluno, dá outro exemplo: