Infância perdida
7. Monitor — treinamento para ser inspetor
Queria saber o motivo por que a gente recebe só 300 cruzeiros
e ainda assim descontando. Por que essa miséria? [riem]
Porque nas outras escolas aí, ganham mil cruzeiros quando o
cara não faz nada. No Batlet James é a maior bagunça e os
caras recebem parece que é 12 mil, acho que é 3. Aqui para a
gente ir para casa a gente depende do pagamento. E quando
recebe pouco, quase ninguém vai para casa por causa do
dinheiro. Ainda mais que a passagem do ônibus aumentou. Aí
até agora nem deu pagamento. O pagamento é de três em três
meses. E só. Quem que pode ir? A gente é duro e fica
dependendo do pagamento que ainda vem descontado. É
mensal, mas a gente não recebe não. Para ir para a casa a
gente pede emprestado. Vai na secretaria. Acho que eles já
fazem isto mesmo para a gente ter que pedir emprestado à
secretária, aos inspetores. É a maior bagunça isto aqui. (Jorge,
13 anos, Internato V)
Podemos concluir, mais uma vez, que também as atividades de trabalho, que deveriam ter como objetivo formar a criança e o adolescente, e neles inculcar valores para que participem dessas relações posteriormente na sociedade, são mal sucedidas. Os internos são desrespeitados em seu direito, dentro das normas estabeleci das pela própria Fundação. Os internos se dão conta, mais uma vez, de que as leis não existem para serem cumpridas, sobretudo quando lhes trazem algum benefício.
A ideia do trabalho aqui veiculada é também uma negação do indivíduo e dos direitos individuais. Não favorece que o interno tenha uma interpretação positiva do trabalho, ao contrário das concepções do capitalismo. Portanto, nem esses valores da sociedade estão sendo inculcados nos meninos.
7. Monitor — treinamento para ser inspetor
A escolha do "monitor" é sempre feita pelo inspetor. Ele seleciona os meninos que considera os melhores na disciplina e que são capazes de ter alguma ascendência sobre os outros. Algum inspetor pode permitir que a escolha seja feita através de eleição entre eles. Mas os candidatos devem receber primeiro sua aprovação. Os meninos percebem bem os critérios empregados, como se pode ver no depoimento a seguir:
O seu Gama, inspetor, vê o garoto que está quieto, sabe ser
monitor realmente, sabe concordar com as coisas. Aí ele
escolhe. (Jorge, 10 anos, Internato IV)
Ao perceberem os critérios, os meninos também compreendem com clareza a posição que devem ocupar, e qual seu papel a desempenhar:
Como monitor a gente dá ordem, avisa o garoto para guardar o
material, avisa o que é certo o que é errado, quando eu mesmo
falo com outro que ele não obedece, pego um papel, anoto e
boto de castigo, e entrego ao seu Gama, ou senão, faz hoje
mesmo e entrega amanhã ao seu Gama. Assim faz com todos
os inspetores. (Jorge, 10 anos, Internato IV)
Mas nem todos os meninos concordam com os critérios aplicados, e acham que os escolhidos são "peixinhos" do inspetor. Esta opinião expressa uma relação caracterizada pela troca de alguns favores entre o inspetor e o "monitor" de sua escolha. Os "monitores" gozam de algumas liberdades não desfrutadas pelos outros internos; podem, por exemplo, não fazer a formatura com os outros, podem ganhar algum presente, ou ter alguma regalia, como, por exemplo, ganhar alguma coisa para comer; e ainda podem se distinguir do grupo, usando camisa quando todos estão só de short.
Alguns meninos, apesar de não escolhidos, gostam de ocupar a posição de monitor e agem como se o fossem, mesmo não tendo autoridade para tal. Os internos os chamam de "engregeiros". É interessante perceber como é forte a identificação dos meninos com a posição de mando. Talvez seja a única possibilidade que vislumbrem para sair da posição em que se encontram. Estas crianças só têm duas opções: mandar ou serem mandados. Assim, é inevitável a identificação com os funcionários. Só eles detêm o poder sobre as crianças. Elas não têm como escapar de suas mãos.
O monitor se torna ainda mais importante quando falta um funcionário. Seu trabalho é valioso para o inspetor que tem responsabilidade sobre duas turmas. Geralmente, quando um funcionário é despedido, a contratação de um substituto não ocorre rapidamente.
Apesar do entusiasmo de muitos internos para ocupar a posição de "monitor", nem todos o desejam. Um dos motivos que faz com que os meninos não gostem de ser monitores é a falta de autonomia e de respeito. O inspetor não lhes delega poderes, apenas ordens de mando. Para o monitor realizar seu trabalho, sendo respeitado pelos colegas, o inspetor deveria respaldar sua autoridade, pois é através desse respaldo que o monitor cumpre sua tarefa.
Na Escola V (faixa etária de oito a dez anos) observei mais claramente algumas situações narradas acima pelos meninos. Um dos motivos pelos quais o trabalho de monitor não é muito bem-sucedido pode ser, como dizem os meninos, a falta de respaldo do inspetor para que ele realize sua tarefa. Outro pode ser por não haver, em muitos meninos desta idade, uma identificação muito intensa com a figura do inspetor. É difícil, entretanto, situar esta questão na faixa etária. Um dos resultados positivos desta identificação é, com certeza, a existência de alunos que se tornam
inspetores — são os funcionários ex-alunos da própria Fundação.20 É comum que os próprios inspetores, como também diretores (ex-alunos) valorizem o trabalho dos inspetores que são ex-alunos. Consideram que isto é uma "vantagem".
Tem muitos funcionários bons e muitos que não servem. Não é
só um problema de disciplina. Os ex-alunos, com poucas
exceções, são os melhores. Ele viveu, tem tarimba, viveu na
pele. Não adianta só estudo. Tem que ter vocação. Muitos
trabalham por necessidade e não por vocação. O ex-aluno
conhece os segredos dos meninos, sabe descobrir certas faltas,