Infância perdida
5. Castigos não oficiais — o aprendizado do silêncio
5. Castigos não oficiais — o aprendizado do
silêncio
As "auxiliares de disciplina" são as funcionárias que lidam diretamente com as crianças, portanto é com elas que ocorre a situação de castigar os internos. As outras funcionárias podem presenciar o que ocorre mas, como regra geral, não interferem na atitude da "auxiliar". Na hierarquia só cabe interferência por parte da chefe de disciplina e da diretora. Mas, na prática, quem mais observa o que se passa são as funcionárias que estão ali realizando algum serviço de limpeza, de enfermagem ou na rouparia. Essas pessoas presenciam situações ou ouvem a "tia" dando castigo ou batendo na criança, os gritos ou o choro, sem nada poder fazer, como dizem. Não cabe a elas falar porque podem sofrer penalidades, que vão desde o desprezo das colegas até a demissão. Nem mesmo a diretora da escola ousa reclamar a seus superiores os maus-tratos à criança, sobretudo quando diz respeito a outra escola, como veremos no exemplo a seguir. Ela finalmente se coloca numa posição em que perde a confiança da criança que convive com ela muito tempo, pois não toma qualquer atitude em defesa desta. Na sua escola, em geral, ela contorna o problema com a funcionária. São raros os casos de demissão — só soube de dois — por denúncia por ela encaminhada a seus superiores. A diretora narra depoimento de Fábio, 9 anos, que está na Escola IV:
"Você não é mais minha madrinha. Não adianta que não quero
mais vir para sua escola. Como você foi me deixar ir para uma
escola que o seu me joga contra a parede de noite e eu fico
pondo sangue pela boca." (Fica comigo aqui em casa?) "Não
fico nem um minuto. Só moro com você se você morar fora
daqui."
Duas funcionárias, que não são "auxiliares", me dão informações que estas não ousam dar. As "auxiliares" admitem que colocam de castigo ou que dão "uma palmada" e nada mais. E, quando admitem que o fazem, falam que a colega também faz, generalizando a responsabilidade como sendo de todas a prática a que se referem. Mesmo assim, não falam nada que possa vir contra elas, ou que elas sabem não ser aceito como prática oficial do internato. A impressão que ficou é que todo mundo já bateu ou marcou uma criança. Poucas admitem ter feito algo como unhar uma criança na hora da raiva. O mais comum é uma acusar a outra ou se dizer sempre boazinha com as crianças. Obtive, pois, depoimentos mais significativos de duas funcionárias. Ouvi os depoimentos quase como um desabafo e também como uma forma de me informar sobre assuntos que elas consideravam importantes para minha
compreensão da dinâmica institucional.11 Sobretudo uma delas, que ficou surpresa quando lhe respondi que achava que esta escola parecia ser uma das que dava melhor atendimento às crianças. Ela me disse que "as aparências enganam" e junto com sua colega fez o seguinte relato:
"Sônia, você pensa que elas estão contentes que você esteja
aqui? Não se engane, não estão não. Hoje ouvi comentários de
Rita de que ontem você esteve aqui à noite vigiando o serviço
dela. Você esteve aqui à noite?"12. Digo que estive vendo as
crianças irem para a cama e que a certa hora olhei para o pátio
da televisão e vi que ela pegava um menino com força,
obrigando-o a sentar-se em certo lugar. Apesar de estar bem
escuro, vi que ela me viu. Ela diz: "Ah, pois é. E você sabe, né
Sônia, ela bate muito nas crianças aqui. Ela é terrível. E é mais
nessas horas — após o almoço e na hora de dormir que elas
batem nas crianças. Ameaçam e dão beliscões. Rita dá até
chute com os pés. Pisa mesmo em cima das criança, (e mostra
com gestos). Outro dia eu ouvi uma criança reclamando com
ela, ela dizia: 'Nossa tia, a tia Rita nem sabe bater na gente. Ela
não dá palmada não. Ela dá chute com os pés e machuca a
gente'. A outra desabafa baixinho, fala rápido e emocionada,
com medo de ser interrompida a qualquer instante, pois
estamos na rouparia com a porta encostada. "Tem muita moça
que bate aqui? pergunto". "Nossa, Sônia! E fico sem saber o
que fazer, porque com toda minha orientação lá na igreja eu
vejo isto aqui e não falo nada, não faço nada, fico com a
consciência pesada. Afinal penso: é como se eu também
fizesse, pois estou sabendo e não ralo nada e fico quieta. Mas,
se eu falar, sei que posso perder meu emprego e eu dependo
disto aqui, Sônia. Como vou fazer? Teve um dia que eu e Luíza
não aguentamos ver. Nós duas fizemos uma carta anônima à
diretora, não colocamos nossa letra e ela nunca soube que
fomos nós. É que uma funcionária, que não está mais aqui —
até depois que ela saiu ela se suicidou — ela batia muito nas
crianças e sobretudo num menino (nomeia). Ela batia, dando
socos nos lados e nos pulmões do menino. Até que um dia vi o
menino botar sangue pela boca quando ia na pia. Aí, não
aguentei. E o que fazer? Até que tive a ideia de falar isto por
carta anônima, pedindo à diretora que investigasse. A
funcionária foi mandada embora. Tem Tereza, ela também bate
muito. Tem a Laís (as duas são irmãs), ela também é terrível.
Com aquela cara sempre bonitinha e rindo, mas é um capeta
aquela menina. Já vi, Sônia, gente pisando no pé da criança de
sapato. Dando até uma rodada e rindo, cumprimentando outra
pessoa como se nada acontecesse embaixo do seu pé. Já vi
gente trazer agulha de casa para enfiar debaixo da unha das
crianças como castigo. É terrível. E eu tenho que ver tudo isto e
ficar quieta!"
Sônia: "E por que fazem isto? O que as crianças fazem?"
"Nada de mais, coisa de criança. A maioria é porque a criança
não se comportou bem na fila, não ficou quieta, não teve boa
disciplina."
Sônia: "E por que as crianças não gritam, não choram, não
reclamam?"
"Porque elas tapam a boca com um pano. Dizem também que,
se ela chorar ou falar alguma coisa, será castigada em dobro. E
então os coitados não falam nada, com medo. Outro dia
aconteceu algo incrível. Uma criança chegou de noite com a
mãe. Entrou e quando viu que seus colegas estavam de castigo
e apanhando, ele voltou correndo para a mãe e disse: 'mãe, eu
não quero ficar lá não. A tia está botando todo mundo de
castigo!'. A mãe ficou indignada e pediu satisfação à chefe de
disciplina, Sandra. Ela falou: 'Que isto dona Fulana, seu menino
está errado. Aqui as moças não fazem isto. Agora é hora de
escovar dentes e ir dormir, é o que eles estão fazendo'. E falou
com o menino para entrar de novo e ver o que a "tia" fazia. Só
que Sandra entrou com ele e, quando chegou aqui, deu-lhe
uma bronca e disse que ele não podia dizer aquilo para a mãe
dele e mandou que ele voltasse lá e dissesse que tinha
mentido, que os meninos estavam mesmo escovando os
dentes. Mas, como tinha-se ouvido uns gritos de criança, ela
mandou dizer que aqueles tinham gritado pois foram
repreendidos porque não queriam escovar os dentes. O pobre
do menino voltou lá e disse isto tudo para a mãe, porque ela o
ameaçou que, se ele não dissesse, ia apanhar muito. A mãe
ficou admirada com a mentira do filho e ainda zangou com ele
porque, afinal, não era aquela educação que ela lhe dava, que
ela o ensinava a não mentir. O menino começou a chorar
porque, coitado, teve que passar como mentiroso para a mãe.
E, no final, ele entrou e apanhou de duas "tias", que deram nele
e no dia seguinte fulana também bateu nele. Porque, você
sabe, elas deixam escrito uma para outra. E ele foi castigado
três vezes (apesar de ter cumprido o que a Sandra tinha
pedido)! E sabe porque Sandra acoberta tudo que elas fazem?
Porque Sandra já tem aviso-prévio. Ela já tem duas acusações
contra ela por ter batido em criança. E as colegas a defenderam
e ela não foi despedida. Agora elas sabem que podem fazer,
pois Sandra não vai poder falar nada, senão elas também falam
dela. É assim, é horrível. Sandra, quando entrou para cá, era da
disciplina e era muito violenta no início. Ficou um ano e depois
fez que fosse mandada embora a chefe de disciplina, que era
muito boa. A Cristina protegia muito o funcionário. Quando
acontecia algo, ela conversava e só na terceira falta do Um outro problema manifestado à noite é a enurese, sendo encontrado em todos os internatos. Mais uma vez a expressão de alguma perturbação do interno é vista exclusivamente sob o prisma disciplinar. E a medida considerada adequada é o treinamento do controle da vontade de urinar. Assim, desde o início do funcionamento dos internatos, segundo informações de funcionários antigos, a medida considerada apropriada e que foi determinada para sanar este problema é acordar os internos enuréticos de duas em duas horas à noite. O problema, entretanto, parece não ser resolvido e há um número considerável de "mijões", como são chamados nas escolas. No Internato IV a listagem desses internos é assim classificada — "mijões" — por dormitório. A escola tem em média 50 enuréticos para 200 internos. Foi nesta escola que descobri a existência desta questão, quando trabalhei como psicóloga, devido a um incidente. O diretor-geral pediu-me que atendesse um aluno que, pela segunda vez, havia amarrado o próprio pênis com barbante, o que provocara uma inchação séria, tendo sido necessário recorrer a médicos especialistas na zona sul do Rio de Janeiro, por duas vezes. O diretor me pareceu muito preocupado com todas as despesas que tal fato ocasionou e, como o médico só tratara do problema depois do ocorrido, pediu minha intervenção para descobrir porque este menino de 10 anos repetia tal atitude tão descabida. Na entrevista que fiz com o menino, este me explicou que ficava de castigo no pátio frio à noite por urinar na cama e, como não conseguia se controlar, teve a ideia de amarrar o pênis para assim resolver seu problema e não ser castigado. Fui então conversar com os inspetores para me interar da questão e descobri que cada pavilhão tinha uma fila de camas dos "mijões" ou "enuréticos" e uma listagem diária daqueles que tinham urinado. Fiquei muito impressionada que se tentasse lidar com a questão repetindo medidas ao longo do tempo — "se faz assim desde 1940" — sem qualquer questionamento que não fosse da ordem do treinamento e da disciplina corporal. Através das perguntas que eu fazia para entender como lidavam com o problema e dar alguns esclarecimentos, me dei conta mais uma vez de que era muito difícil, enquanto psicóloga, tentar mudar a abordagem desta questão específica, sem que todo o sistema disciplinar fosse passível de questionamento. Assim, consegui antes recolher mais dados sobre a questão do que sensibilizar alguns funcionários, sobretudo porque aqueles que trabalham à noite não tinham praticamente nenhum contato com meu trabalho. No Internato V havia em média 60 enuréticos, em 350 alunos; no VI, em 272 havia 32 enuréticos. Não recolhi dados dos Internatos II e VII. No Internato III, tive oportunidade de conversar com as plantonistas da noite que decidiram, por conta própria, não acordar as crianças muitas vezes à noite, fazendo isso no máximo duas vezes, pois tinham dificuldade de se levantar, choravam e acabavam acordando as outras. E com isto descobriram que a enurese diminuía consideravelmente, tendo na época somente cinco crianças, num total de 200 internos. Foi possível depreender através dos diversos depoimentos que a enurese noturna surgia inicialmente como uma expressão da angústia e das dificuldades vividas pela criança na sua primeira fase de internação ou nas mudanças de internato. No Internato III verificou-se que este sintoma desaparecia com o tempo, o que não ocorria nos outros internatos, que pretendiam tratar a questão como um problema de treinamento e disciplina do corpo.
funcionário é que ela preparava a funcionária avisando que
contaria à diretora. A Sandra viu isto e começou a contar as
coisas antes à diretora, dizendo que a chefe da disciplina
escondia o que acontecia. E houve um certo fato, que acabou
causando sua demissão e Sandra entrou em seu lugar."
Apesar de todo tumulto, confusão e transtorno em que as crianças vivem, considera-se que a situação da diretora é sempre em defesa da criança. À noite, as plantonistas podem perceber como foi o dia da criança, conforme podemos ver no seu depoimento:
A diretora dá em cima de quem bate em criança. Tem dois ou
três anos que melhorou muito. Antes encontrava pau, vara, nas
janelas, que as coadjuvantes faziam uso de dia. As crianças
acordavam chorando à noite com frequência — não, não; vai
me bater! As crianças eram muito mais sobressaltadas à noite,
acordavam chorando (Plantonista à noite, 12 de julho).
Durante o sono, quando as crianças estão mais relaxadas, expressam a tensão e a intranquilidade vividas durante o dia. Mas também a noite tem seus percalços. É sabido que à noite, nos dias de visitas e de muita expectativa de estar com a mãe, as crianças acordam sobressaltadas, falam durante o sono — "Oh, tia olha aqui." "Cadê a minha tia." "Mãeê." As crianças apresentam outros problemas como vômito e diarreia, sobretudo nas noites de sábado e domingo. Como consequência, as plantonistas têm que acordar as crianças e dar banho nelas.
Através das anotações do "caderno de plantão noturno"13 de março, abril e maio de 1980 e março e abril de 1981, pude verificar que à noite sempre há muito choro, agitação, febre e crianças que se machucam. Constatei nestes cadernos que os plantões são "agitados", sempre com anotações das plantonistas sobre algum acontecimento que perturba a noite. Só verifiquei uma anotação de plantão regular onde não há nenhuma ocorrência registrada. É importante ressaltar que os meses acima indicados são os de ingresso de crianças no internato.