Infância perdida
5. "Pinel", "gabalão" e "píssico"
Um menino diz: "Joguei fora a hóstia".
Um outro responde em tom ameaçador: "Jesus Cristo vai
mandar todo mundo formar e você vai ser mandado para o
inferno".
Não há escapatória possível para a forma, a fila e a punição. Nem no Céu.
A falta de lazer, a não visita dos pais, a rígida exigência da disciplina, certamente colaboram para o clima tenso encontrado nesta escola durante o ano. O atraso escolar já se faz sentir com clareza; a insatisfação e o desinteresse aumentam numa atividade
que deveria ser uma das principais dentro do internato. 9
5. "Pinel", "gabalão" e "píssico"
Nesta escola, como na anterior, há um número significativo de meninos considerados problemáticos. Estes alunos são chamados
pelos demais de "pinel" ou "gabalão". 10 No Internato VI o diretor os chamava de "píssicos". Em geral recebem um acompanhamento psiquiátrico; têm grande dificuldade de aprendizagem e de seguir a rotina do internato, atrapalhando o andamento das atividades e a disciplina, como também causando muitos problemas. Implicam com os colegas e são alvo de ataques, como se pode ver no seguinte exemplo:
Na saída da igreja os internos andam para o internato em fila,
sem muito rigor. Um menino apanha muito de vários colegas,
grita e chora tentando se defender. Os colegas me dizem — "é
maluco". Ninguém interfere em sua defesa.
No pátio observo brigas frequentes e muita gozação com os
colegas. Os alunos que têm problemas apanham muito.
Atualmente é o Alcenir que é visto como o maluco exemplar —
eles implicam e batem nele o dia inteiro. Ele é gago e não
frequenta as aulas; fica o dia todo sem fazer nada. Mas, quando
atacado, se defende, parte para cima do colega e às vezes
chega a machucá-lo. Nos últimos dois meses, ele abriu o peito
de um colega, o braço de outro e dois pulsos de outro, com
caco de vidro. Os meninos me mostram o colega com os dois
braços cortados. Um deles me explica: "ele queria rasgar um
outro colega e o seu me mandou segurá-lo. E quando segurei
ele me cortou". Os funcionários são de opinião que este aluno,
que tem 14 anos, não deveria estar ali e sim numa escola que
tivesse tratamento adequado. Só no Internato V há pelo menos
cinco casos semelhantes, crianças que não aprendem a ler
nem a escrever, são muito imaturas e perturbadas
emocionalmente.
Se esses meninos "malucos" são vistos como problemáticos pelos funcionários, não há qualquer atitude no sentido de olhá-los com um cuidado maior. Pelo contrário, são em geral também discriminados pelos funcionários, no dia-a-dia como também nos passeios, porque "atrapalham".
O inspetor nunca deixa o Alcenir ir nos passeios porque ele é
maluco. Quando alguém bate nele e ele grita, o inspetor
esquenta ele mais (José, 12 anos).
Por parte dos técnicos também não há um atendimento especializado, a não ser medicamentoso, feito pela Funabem. Em geral, os funcionários reconhecem que não têm competência para atender a esses meninos, e que, com o grande número de alunos na escola, não é viável que eles estejam internados. Mas a direção principal, apesar de informada, não toma nenhuma providência junto aos órgãos de convênio, mostrando os limites de sua competência