Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 42 de 62

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Infância perdida

5. "Pinel", "gabalão" e "píssico"

Um menino diz: "Joguei fora a hóstia".

Um outro responde em tom ameaçador: "Jesus Cristo vai

mandar todo mundo formar e você vai ser mandado para o

inferno".

Não há escapatória possível para a forma, a fila e a punição. Nem no Céu.

A falta de lazer, a não visita dos pais, a rígida exigência da disciplina, certamente colaboram para o clima tenso encontrado nesta escola durante o ano. O atraso escolar já se faz sentir com clareza; a insatisfação e o desinteresse aumentam numa atividade

que deveria ser uma das principais dentro do internato. 9

 

5. "Pinel", "gabalão" e "píssico"

Nesta escola, como na anterior, há um número significativo de meninos considerados problemáticos. Estes alunos são chamados

pelos demais de "pinel" ou "gabalão". 10 No Internato VI o diretor os chamava de "píssicos". Em geral recebem um acompanhamento psiquiátrico; têm grande dificuldade de aprendizagem e de seguir a rotina do internato, atrapalhando o andamento das atividades e a disciplina, como também causando muitos problemas. Implicam com os colegas e são alvo de ataques, como se pode ver no seguinte exemplo:

Na saída da igreja os internos andam para o internato em fila,

sem muito rigor. Um menino apanha muito de vários colegas,

grita e chora tentando se defender. Os colegas me dizem — "é

maluco". Ninguém interfere em sua defesa.

No pátio observo brigas frequentes e muita gozação com os

colegas. Os alunos que têm problemas apanham muito.

Atualmente é o Alcenir que é visto como o maluco exemplar —

eles implicam e batem nele o dia inteiro. Ele é gago e não

frequenta as aulas; fica o dia todo sem fazer nada. Mas, quando

atacado, se defende, parte para cima do colega e às vezes

chega a machucá-lo. Nos últimos dois meses, ele abriu o peito

de um colega, o braço de outro e dois pulsos de outro, com

caco de vidro. Os meninos me mostram o colega com os dois

braços cortados. Um deles me explica: "ele queria rasgar um

outro colega e o seu me mandou segurá-lo. E quando segurei

ele me cortou". Os funcionários são de opinião que este aluno,

que tem 14 anos, não deveria estar ali e sim numa escola que

tivesse tratamento adequado. Só no Internato V há pelo menos

cinco casos semelhantes, crianças que não aprendem a ler

nem a escrever, são muito imaturas e perturbadas

emocionalmente.

Se esses meninos "malucos" são vistos como problemáticos pelos funcionários, não há qualquer atitude no sentido de olhá-los com um cuidado maior. Pelo contrário, são em geral também discriminados pelos funcionários, no dia-a-dia como também nos passeios, porque "atrapalham".

O inspetor nunca deixa o Alcenir ir nos passeios porque ele é

maluco. Quando alguém bate nele e ele grita, o inspetor

esquenta ele mais (José, 12 anos).

Por parte dos técnicos também não há um atendimento especializado, a não ser medicamentoso, feito pela Funabem. Em geral, os funcionários reconhecem que não têm competência para atender a esses meninos, e que, com o grande número de alunos na escola, não é viável que eles estejam internados. Mas a direção principal, apesar de informada, não toma nenhuma providência junto aos órgãos de convênio, mostrando os limites de sua competência