Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 16 de 62

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Infância perdida

7. Linguagem e socialização

A maioria das pessoas que entram — a não ser aquelas

pessoas que têm gênio de lidar com criança ali, sério, como se

fosse assim um objeto, né. Não estou querendo dizer que há

gente aqui assim, mas cada um tem uma natureza. Toda

pessoa que chega aqui e tem aquele gênio assim de se apegar

à criança igual a um filho, como se fosse em casa, dá aquele

carinho demais, essa pessoa passa consequências, como a

Maria, que nesses dias enfrentou sérios problemas. Essa

menina é nova aqui. Ah, os nenenzinhos. Tinha criança que se

apegava demais a ela quando chegava, as crianças

começavam tudo a chorar, entendeu? Eu estava vendo esses

dias ela passando isso daí, e então eu estava pensando: Ah,

meu Deus, eu já passei por isso. E sempre dando força a ela,

sabe? Isso é assim mesmo, menina, eu também já passei por

isso. Essa fase passa, depois você se acostuma(Atendente)

(Grifo meu)

Como as crianças, os funcionários também entram na rotina institucional, descobrindo formas de conviver com a ansiedade que

o trabalho lhes causa. A negação do afeto pelos adultos 16 que trabalham em locais como este é muito comum — é a maneira que encontram para se defender da ansiedade brutal, gerada nestes locais desumanos de atendimento à criança pequena. As funcionárias se tornam surdas, mudas, insensíveis, monstrinhas. Não é preciso ser especialista para saber sobre os danos causados a um ser humano nessas condições de vida — só é possível dar um jeito de des-saber (esquecer), negando humanidade ao outro. As condições de trabalho não permitem que elas entrem em relação com a criança. Elas próprias não podem construir significados para sua prática — o significante único é a disciplina.

 

7. Linguagem e socialização A linguagem é outra questão de complicado desenvolvimento no internato: não há qualquer estímulo para que as crianças se expressem pela linguagem e muitas vezes são tolhidas quando se expressam. As funcionárias, em geral, não conversam com as crianças, não lhes explicam nada, não contam estórias. Sua comunicação é através de gestos de repreensão, indiferença ou grito. Certamente há momentos de descontração, onde conversam com uma ou outra criança de maneira agradável e amistosa. Mas no dia-a-dia estes momentos são raros.

Podemos considerar que o choro de uma criança é sua primeira expressão vocal, precursora da linguagem. O choro é uma das expressões que não só não é entendida como um pedido de ajuda, como é repreendida frequentemente. É comum uma criança chorar e a funcionária gritar de longe — "Cale essa boca menino". Algumas vezes a repreensão é eficiente, outras a criança chora até se cansar. Ou a criança é chamada de "chorona". Nesta hora as crianças fazem que não entendem o que se passa. Entretanto, vi várias vezes tentarem acalmar o colega quando não tinha "tia" por perto ou quando ela estava ocupada. Fiquei impressionada com o gesto — crianças com menos de dois anos fazendo carinho com a mão no rosto do outro para que parasse de chorar. Uma cena que muito me impressionou foi na hora do "nonol dos babys" . Uma criança bem miúda chorava muito e as duas ao seu lado, sentadas no vaso, sabendo que não podiam se levantar, tentavam acalmá-la fazendo-lhe carinho no rosto e na cabeça e a olhavam com olhar triste.

Nem sempre as crianças reagem com solidariedade. Observei, certo dia, o Carlinhos bater numa criança porque ela chorava. Era hora de espera de refeição e me pareceu que o choro da criança irritava o colega que foi atrás dela para lhe bater. O choro me mobilizava muito. Em alguns casos, acabava atendendo à criança, procurando saber por que chorava; e bastava esta atitude de atenção para que se apaziguasse. Certa vez eu estava ocupada com uma criança e resolvi pedir a uma outra que fosse perguntar àquela que chorava o que se passou. A criança na mesma hora atendeu ao meu pedido. Apesar de pequeno, entendeu o que eu dizia. Fiz isto várias vezes. Outro fato interessante ocorria quando estava rodeada de crianças e falava com eles que ia deixá-los um instante para atender um que chorava muito e eles aceitavam que eu os deixasse. Antes entretanto, se eu tentasse deixá-lo, sem motivo e sem explicação, eles impediam ou choravam quando eu saía. O tratamento dado pelas funcionárias em geral causa muita ansiedade, pois é costume não explicar nada. O explicar ou o informar é característico de uma relação mais individualizada, o que não ocorre ali.

Uma das questões importantes é a relação que se estabelece entre o adulto e a criança através da linguagem. Este tipo de relação tende a se repetir em todos os outros internatos. Ao invés de ser incentivada e elogiada nas descobertas que apenas inicia desde que começa a falar, a criança é tolhida. As funcionárias podem eventualmente achar graça numa criança que começa a descobrir a linguagem. Mas o ambiente geral é inibidor. A fala da criança é considerada como algo que atrapalha as atividades realizadas, seja na hora da refeição ou quando veem televisão. Durante a recreação elas podem falar à vontade, mas não há troca com o adulto. Os adultos conversam entre si sem que as crianças participem. Elas ficam em volta conversando umas com as outras numa linguagem pobre porque não há nada que as estimule. Nem mesmo sua curiosidade, pois a mesmice do ambiente de recreação não permite. A televisão é, na verdade, o único instrumento que traz novas possibilidades. Mas os horários são restritos e também, nesta hora, o adulto não conversa com as crianças sobre o que passa na televisão. Na medida em que os adultos pouco conversam com as crianças, a não ser para dar alguma ordem, as crianças são tolhidas no seu desejo de se exprimir e de se comunicar.

A linguagem, segundo Bernstein, existe em relação com o desejo de se exprimir e de se comunicar. Se este desejo é inibido, teremos então uma linguagem bastante inibida. Os adultos se dirigem às crianças através de

frases curtas, gramaticalmente simples e sintaticamente pobres,

o que constitui a unidade típica da linguagem comum e que não

favorece a comunicação de ideias e das relações, que

necessitam de uma formulação precisa. (Bernstein, 1975).

Poderíamos dizer, segundo este autor, que neste ambiente de internato a linguagem preponderante é a "comum" com a

predominância do "código restrito".17 Mas, na verdade, a questão vai além pois, no internato, a linguagem se confunde com a não comunicação e a não possibilidade de compartilhar do diálogo e da troca. A própria comunicação está em risco, pois todos os significados são dados de forma alienante. A linguagem é dissociada da experiência, como vimos no exemplo de ir ao banheiro. Como a criança pode representar internamente suas vontades se não tem interlocutor? O adulto não conversa com ela. Quando fala é uma padronização.

A criança, desde bem pequena, organiza a totalidade de sua experiência de acordo com o que o meio ambiente lhe oferece. No internato, há um frequente desestímulo à manifestação da expressão verbal da criança: a palavra que serve como mediadora entre a expressão do sentimento e as formas socialmente reconhecidas de manifestação deste sentimento são também tolhidas. Tudo o que a criança vive ali se torna mais difícil de se organizar como uma experiência para ela própria. Se a excellence

da socialização18 da criança pode ser verificada através de sua fala, pode-se afirmar que o internato não contribui para a socialização das crianças desde bem pequenas. Ao contrário, ele lhes é prejudicial do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem e da socialização.

E, como bem mostra o exemplo da criança que atendeu ao meu pedido, quando se fala e se explica às crianças o que se passa, elas tendem a compreender e a ter uma resposta mais evoluída e organizada além de simplesmente chorar e entrar em enorme ansiedade. Dialogando com elas e ouvindo o que têm a dizer, aprendem a se diferenciar e assim a separação também é possível. E, como diria Bernstein, à medida que a consciência das particularidades e das diferenças individuais se torna mais aguda, cresce a significação de objetos percebidos.

Um efeito de retroação se instaura entre o modo de designação

e aquilo que ele designa e induz, na criança, uma disposição a

pesquisar, a explorar e a estabilizar suas relações (Bernstein,

1975, p. 34).

No internato, entretanto, tal possibilidade é praticamente inexistente. Desde que a criança começa a falar, não é estimulada a se expressar e a pesquisar. Tal realidade está também presente nos demais internatos, como veremos ao longo deste trabalho, configurando uma prática extremamente prejudicial ao desenvolvimento saudável das crianças.

1 Ver tabela da nota 6, deste capítulo.

2 Estojo de identidade: "A pessoa geralmente espera ter certo controle sobre a maneira de apresentar-se diante dos outros. Para isto, precisa de cosméticos e roupas, instrumentos para usá-los ou consertá-los, bem como de um local seguro para guardar esses objetos e instrumentos; em resumo, o indivíduo precisa de um estojo de identidade para o controle de sua aparência pessoal" (Goffman, 1974, p. 28).

3 O ritual de internação aqui e nas demais escolas é suave em relação à situação de violência vivida quando elas entram inicialmente pelas casas de triagem da Febem e da Funabem, conforme inúmeros depoimentos que me foram dados pelos internos.

4 Temos aí a situação denominada por Bowlby "privação quase total" da mãe — situação "ainda bastante comum nas instituições, nas creches residenciais e nos hospitais, onde frequentemente uma criança não dispõe de uma determinada pessoa que cuide dela de forma pessoal e com quem ela possa sentir-se segura" (Bowlby, 1981, p. 14).

5 Entenda-se adaptação como um tempo intermediário entre a separação da mãe e a permanência no estabelecimento, para que a criança possa se sentir segura em relação à pessoa que vai lhe dar os cuidados, habitualmente prestados pela mãe, e para que as situações novas possam lhe trazer alguma satisfação.

6 Cabe observar que, apesar da capacidade do internato ser de 80 vagas, as condições de atendimento, segundo a diretora e o médico, é de 50 crianças. O bom atendimento às crianças pequenas, segundo eles, não se deve somente à proporção crianças x funcionário, mas ao número total de crianças atendidas, que permite existir um ambiente mais calmo e acolhedor. Entretanto, a opinião da diretora e a do médico não têm qualquer peso na decisão administrativa da direção geral, como podemos observar na tabela da página seguinte: Total de crianças na creche.

Mês/ano 1979 1980 1981 Janeiro 63 49 66 Fevereiro 68 53 43 Março 68 59 50 Abril 70 63 55 Maio 67 66 54 Junho 67 76 55 Média do semestre 67 61 54 Julho 70 77 54 Agosto 72 83 72 Setembro 72 82 77 Outubro 72 86 76 Novembro 70 85 70 Dezembro 68 87 67 Média do semestre 71 83 71

Dados recolhidos das estatísticas da creche, referentes aos anos de

1979, 1980 e 1981, sobre o total de crianças existentes.

7 Hospital que tende às crianças da creche e funciona a poucos metros de distância.

8 Durante o trabalho de campo, esta diretora me pediu alguns livros sobre desenvolvimento infantil.

9 Apesar de serem chamadas de "coadjuvantes", segundo sua categoria profissional na creche, elas são serventes, o que implica em remuneração muito baixa e na exigência, além de cuidar das crianças, de auxiliar no serviço de limpeza do estabelecimento. É fácil notar o quanto elas se sentem pouco valorizadas e este ressentimento se reflete no atendimento à criança.

10 Isto ocorreu quando ali trabalhei como psicóloga e era uma pessoa de seu convívio, em quem eles tinham alguma confiança.

11 Neste ambiente tão desumano e ansiogênico, eu também me dava conta de, por vezes, ter atitudes semelhantes às das funcionárias. Ou seja, nestes ambientes desumanos se torna quase impossível ter atitudes humanas.

12 A propósito das humilhações, Foucault mostra que é uma forma de punição dentro dos sistemas disciplinares (Foucault, 1975 p. 159).

13 Possivelmente este comentário era uma referência à minha presença.

14 Os estudos sobre crianças em atendimento institucional se iniciaram na década de 1940. Os mais importantes foram realizados por R. Spitz, A. Freud e Burlingham, J. Bowlby, M. Ainsworth, M. Ratter, F. Tustin e M.S. Mahler. Os principais distúrbios apontados, decorrentes da privação materna, tanto nos casos de separação múltipla quanto nos casos de internação em instituições, mostram a relação existente entre o não estabelecimento e a não manutenção de vínculos afetivos e os distúrbios mais frequentes que daí decorrem. Eles são: atraso na área da linguagem, problemas de aprendizagem, perturbações no desenvolvimento físico e cognitivo, dificuldade em estabelecer e manter relações significativas com outras pessoas, delinquência, psicopatia e diversos distúrbios psicóticos (Altoé, S. e Rizzini, I, 1985).

15 "Sobre as relações afetivas nos internatos para menores" (Altoé, S., Rizzini, L, 1985).

16 "De fato, o tormento destas crianças com a separação é tão doloroso que pode perfeitamente acontecer que aqueles que as têm sob seus cuidados fechem os olhos como defesa" (Bowlby 1981, p. 26).

17 "Um código restrito facilita a construção e troca de símbolos compartilhados pelo grupo; um código elaborado facilita construção verbal e a troca de símbolos individuais e pessoais" (Bernstein, 1975).

18 Cada vez que a criança fala, se pode verificar a excellence de socialização; assim, a linguagem não é um simples suporte da comunicação, mas condiciona o comportamento.