Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 49 de 62

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Infância perdida

5. Família — laços que se perdem

Tabela 2 — Quadro de população nas escolas por idade e

escolaridade Escola: Internato VI Mês:Novembro Ano: 1981

Série escolar Ano de nascimento Total

1964 1965 1966 967 1968 1969 1970 1971

1ª - 03 04 12 32 02 - - 53

(analfabetos)

 

1ª 01 02 01 06 12 02 - - 24

(alfabetizados)

2ª - 07 18 24 12 01 01 - 63 3ª - 06 17 28 11 02 - - 64 4ª - 13 26 24 03 01 - 01 68

Total 01 31 66 94 70 08 01 01 272

Em documento que mostra o quadro geral da Fundação, verificamos como este problema da escolaridade atinge todos os internos. Nunca percebi nenhuma preocupação por parte dos dirigentes quanto a estes dados, que mostram uma falha gritante no que pretende ser um dos objetivos principais e justificativa importante para a internação das crianças "carentes" — darlhes possibilidade de estudo. É verdade que quando lhes asseguram o direito aos estudos não esclarecem a sua qualidade. Assim não há preocupação real com uma escolaridade que as prepare para enfrentar a competição quando de sua reinserção na sociedade e no mercado de trabalho. Veremos mais adiante, na Escola VII, que também não há esta preocupação em termos de oferecer um ensino profissionalizante que prepare os internos para a competição no mercado de trabalho com chance de serem bem-sucedidos.

 

5. Família — laços que se perdem

Tia, você é bom de vida? Parece assim como rico, tem dinheiro, para cuidar dos filhos, tem casa...!

Ivan, 11 anos, Internato V

A grande maioria das crianças, ao ser internada, tem algum vínculo familiar. Em geral, a mãe é o vínculo mais forte e é a "responsável", que visita regularmente a criança.

O ato de internação marca o início de um distanciamento dos vínculos afetivos existentes que, na maioria dos casos, vão se enfraquecendo na proporção dos anos que a criança fica internada. O que se observa no estudo dos sete internatos desta Fundação é que as visitas dos pais escasseiam à medida que a criança cresce. Ou seja, nos internatos de faixa etária baixa o número de crianças

que recebem visita dos pais ou saem no final de semana12 é grande, e este número decresce, sendo muito significativa esta redução quando a criança atinge a idade de oito anos (Internato IV). Esta situação perdura nos internatos subsequentes que atendem até a faixa etária de 14 anos. Nestes internatos (IV, V e VI) menos de ¼ dos internos recebe visita ou tem permissão de saída. Muitos

só veem os pais nas férias de verão. 13 Esta questão se atenua no Internato VII, pois os alunos conseguem permissão para ir em casa de 15 em 15 dias. O número de visitas dos pais neste internato é insignificante, segundo informações do diretor. Nesta faixa etária, o adolescente tem autonomia para aprender a andar nos transportes públicos e, se os pais consentem, a escola dá permissão para sair só ou com os colegas. É do interesse também do internato que os vínculos familiares se fortaleçam, ou, ao menos, sejam reconhecidos, para que a família receba o jovem de volta à casa ao completar 18 anos. É verdade que nesta época se intensifica o trabalho das assistentes sociais na localização das famílias cujos endereços se encontram nos prontuários dos internos.

Este trabalho, mesmo quando "bem sucedido" — o que as assistentes sociais denominam de "reintegração familiar" — não significa que consiga resgatar a possibilidade de uma ligação afetiva do interno com sua família. No documento "Relação dos alunos em situação de desligamento", feito pela assistente social do Internato VII, encontramos uma relação de 93 alunos, com nome, número de registro, data de nascimento e o item família. Encontramos 27 internos sem qualquer referência que permita a localização da família, o que significa 29% do total de internos em "situação de desligamento". Rizzini (1985, p. 19) fez um estudo com o objetivo de mostrar que há uma relação entre a prática de internar crianças e o consequente abandono das mesmas. Neste estudo são feitas algumas constatações que mostram uma situação semelhante à encontrada na Fundação. Ela considerou que a criança internada era "desassistida" sempre que seu contato com algum membro da família fosse esporádico ou assistemático — de uma amostra de 363 crianças abaixo de cinco anos, 58% foram consideradas desassistidas. Isto mostra que crianças numa faixa etária bastante baixa já começam a perder os laços familiares e a viver no internato

em estado de abandono.14 Constata-se que já na triagem, no estabelecimento que recebe a criança para em seguida determinar o local de internação, os laços familiares tendem a se enfraquecer. Na triagem da Feem, localizada em Niterói, que atende a crianças de quatro a dezesseis anos, somente 20% recebem visita

quinzenalmente. 15

O distanciamento da família traz conflitos e profundo sofrimento à criança. Autores célebres como René Spitz, John Bowlby, J.J. Robertson e Ana Freud desenvolveram pesquisas envolvendo crianças internadas e têm apontado, há mais de 20 anos que os bebês adoecem como uma forma de expressão deste sofrimento, como vimos neste estudo, no internato I. Quando começam a falar já reclamam, choram e chamam pela mãe. E assim se passa também nos outros internatos, variando esta expressão com a idade e o relacionamento existente com a família. Eles se expressam dando mostras de depressão, ressentimento, revolta ou

desculpando os pais por colocá-los no internato.16 O clima geral nos internatos é de busca da família, sobretudo da mãe.

Até os 12 anos é mais frequente ouvir as crianças se queixarem por não verem os pais. Elas dão alguma mostra de ressentimento de estarem ali, largadas, abandonadas no internato.

Eu mesmo pensava que eu era jogado no colégio interno sabe.

E muita gente falava de mim e judiava de mim. Mas eu não

ligava, sabe? (Pedro, 13 anos, 2ª série, interno desde bebê).

Tem seis meses que minha mãe não aparece. Se ela não liga

de vir aqui, por que eu vou telefonar para ela? No fim do ano eu

vou para a casa de minha tia. Ela sabe. Vou de qualquer jeito.

Não fico mais. Meu irmão, não sei; quando foi para (Internato

V), ele fugiu. Ficou na rua e agora o sr. Tião (funcionário), meu

padrinho, disse que ele está lá (Henrique, 14 anos, 3ª série,

Internato VI).

Após a idade de doze anos já surge nos depoimentos mostra de raiva dos pais por não visitá-los nem retirá-los daquela situação.

Sabe tia, minha mãe me deixou 12 anos aqui e agora que estou

grande, estudando, ela quer me tirar. Agora eu não quero.

Fiquei interno desde a creche. Ela é cínica! (Robson, 13 anos,

4ª série)

Outros suspeitam que os pais querem que saiam para trabalhar e ajudar nas despesas e ficam indignados. Preferem permanecer no internato e terminar seus estudos. Outros ainda dizem que, quando a mãe estiver velha, vão colocá-la no asilo, "para ela ver como é bom ficar internado".

Muitos internos consideram que seus responsáveis não vêm visitá-los por falta de dinheiro e dificuldade econômica. Estes parecem ter menos ressentimentos dos pais, buscando compreender a razão de serem deixados no internato. Tendem a valorizar o internato como sendo um bom lugar que os acolhe e lhes dá chance de ser alguém na vida:

Mas tem vez que não saio nas férias. Sabe por quê? Porque

tem dia que minha mãe não tem muito dinheiro não. Ela busca

a gente para passar o fim de semana lá e volta e fico aqui no

colégio. (Rosa, 10 anos, Internato II)

Eu queria falar para a França, lá onde a senhora vai levar nossa

entrevista, se lá tem muitos garotos desamparados, e não

tivesse colégio interno, pede para pelo menos criar um. Porque

colégio interno não é ruim. É só saber escolher as pessoas para

cuidar dos alunos. Porque as mães que não têm condições,

bota os alunos no colégio interno para estudar, para se formar

alguma coisa algum dia. Como eu, que pretendo ir para a

aeronáutica. Se não conseguir passar, faço curso e trabalho em

algum lugar. (José, 14 anos, Internato V)

O dia de visita é um dia de alegria e tensão entre os alunos. Alguns internos sabem que podem contar com a visita do "responsável", mas a maioria fica sempre na expectativa.

Muitos internos se preocupam com os colegas que não têm pais e nunca saem do internato. Quando há permissão do internato muitos levam um amigo para passar o fim de semana em sua casa.

Aquele nunca saiu dona. Quero levar ele para minha casa, mas

a assistente social disse que não pode. Coitado, nunca saiu!

Nem conhece o metrô. (Interno da Escola VII)

No Internato VI, a psicóloga afirmou que o motivo mais importante para a busca de atendimento espontâneo é por "problemas com famílias: vontade de estar em casa, pedido de permissão para saída nos fins de semana, pedido de transferência para outro internato mais perto de casa, ou onde tem um irmão. Também pedem para

serem desligados por insatisfação geral com o internato". 17 A psicóloga considera que os internos não têm clara compreensão de seus problemas, mas afirma que os conflitos familiares são enormes. E conclui: "Todos os meninos deveriam ter um acompanhamento, como também a família. A própria situação de estar longe da família traz problemas. Nesta fase parece que eles têm mais consciência do abandono e isto angustia muito todos eles". Neste internato, o aluno tem grande consciência da falta de perspectivas de futuro, da perda de tempo ou da "mocidade". Tudo isto parece influenciar para que adquiram uma aguda consciência da falta dos pais, talvez como sendo a única possibilidade de saírem do confinamento involuntário.

Segundo informação do diretor, em 250 internos, somente 40 tinham saída (semanal, quinzenal ou mensal) e menos de 10 recebiam visita aos domingos. Ele afirma que houve uma redução na saída dos internos a partir de 1981, após a exigência de maior controle feita pelo Juiz de Menores. A permissão de saída não mais poderia ser dada pela escola, mas teria que passar por sua decisão. Tornou-se então necessária a atuação da assistente social, junto ao "responsável", para elaborar um "sumário social" para o Juiz ter dados para tomar a sua decisão. O "sumário social" é feito por apenas uma assistente social, tornando o trabalho extremamente lento, o que não só dificulta, como impede a realização da saída. Segundo o diretor, o objetivo seria "ver se a família tem condições de receber o aluno, para não desfazer todo o trabalho que se faz com ele na escola". Apesar de reconhecer que com menos burocracia seria mais fácil a manutenção de laços afetivos com algum parente do interno, o diretor expressa o pensamento institucional não só da Fundação, como também dos juízes, que consideram que internar a criança é protegê-la dos males e vícios das famílias das quais se originam. Neste internato como nos outros, entretanto, os funcionários afirmam que os alunos que recebem visitas regularmente (seja de pais, tios, avós, irmãos ou madrinha), em geral, causam menos problemas durante a semana. Como dizem alguns, "eles ficam pianinho".

Na escola dos adolescentes — Internato VII — é difícil encontrar internos que, ao falar de seus pais, demonstrem ter uma boa relação com eles. É frequente que a visita aos pais nas "saídas" seja pautada por conflitos. Muitos pais são separados e casados novamente, tendo outros filhos. Os internos falam do padrasto ou da madrasta dando mostras de uma relação cheia de conflitos, sentem-se rejeitados e discriminados:

Não tenho ido mais para casa, pois meu padrasto disse que

aluno de colégio interno é marginal. Por isso não volto mais lá.

Vou construir uma casa com mais dois colegas para morar e

vou tentar ir para os Fuzileiros Navais. (Fábio, 16 anos,

Internato VII)

Alguns internos, entretanto, não querem voltar a casa ou saber dos pais, devido aos maus-tratos recebidos. Temos situações também em que os pais não querem mais ver os filhos. No Internato VII, as assistentes sociais trabalham mais intensamente para localizar os pais para que possam receber o interno de volta a casa quando estes completam 18 anos. Nestes casos pode-se, inclusive, pedir ao Juiz de Menores que faça uma intimação aos pais para que visitem os filhos ou assinem sua "permissão de saída". Em outras situações os internos reivindicam a busca de seus pais e acham que as assistentes sociais não fazem nada para resolver seus problemas:

A assistente social não resolve nada. Minha família ainda não

veio. (João, Internato VI)

Tem muita Kombi, aí. Bem que podiam procurar a família do

aluno. (Rodrigo, 15 anos, Internato VII)

As assistentes sociais, por seu lado, se sentem "impotentes" para resolver tantos problemas — a proporção é de 200 internos para uma assistente social. Além disso, o trabalho de localização dos pais não é uma tarefa fácil, nem rápida. A assistente social é uma figura controvertida entre os internos. Muitas vezes, no Internato VII, eles chegam a temer que ela visite seus pais pois, "se tiver televisão em casa", isto significa para ela que podem receber o filho de volta. Eles temem sair da escola antes de completar seus estudos. Em outras horas temem que a assistente social impeça sua saída do internato, ao invés de facilitar sua volta para casa:

Minha mãe vai me tirar. Não sei se a assistente social vai

deixar. (Robson, 14 anos, Internato VI)

Os funcionários consideram as famílias muito "problemáticas" nos últimos anos:

"Não dão apoio à criança, manda eles se virarem para ter o

ganhapão". E, com isto, "tem piorado muito o tipo de criança

que vem para cá. Antes era difícil encontrar um que tivesse

roubado. Hoje, entre eles, é fácil encontrar." (Inspetor do

Internato VI)

Collen nos fala da situação dos internos na Febem de São Paulo:

"A partir do momento em que um menino não sabe onde está o

pai e mãe, deixa de dar valor a si mesmo. Quando sabe, a

maioria das vezes é como se não soubesse: o pai está na

penitenciária, é passador de fumo, a polícia matou. A mãe cata

restos de frutas e verduras nas feiras e leva para a favela para

os irmãos pequenos." (Collen, 1987, p. 123)

Por parte do internato, não há qualquer preocupação com a família. Exceto pela assistente social, que a procura para recolher dados para o Juiz de Menores. Eventualmente se faz alguma reunião com os pais nos dias de visita. Todo o funcionamento institucional, entretanto, aponta no sentido de distanciar os pais e considerá-los incompetentes para cuidar dos filhos.

Se a internação das crianças pode ocasionar maior descompromisso dos pais em relação aos filhos, é verdade que a instituição fabrica muitos impedimentos que ampliam as dificuldades

desses vínculos se manterem.18 Uma questão da responsabilidade dos órgãos de convênio é a prática de internar crianças em internatos que ficam muito distantes do local de moradia dos pais: muitas vezes se situam em outra cidade, ou mesmo em outro Estado. No âmbito da organização dos internatos como a Fundação, há regras e normas que mostram claramente como se limitam as possibilidades do contato da criança com os pais:

1. o dia de visitas é estipulado pelo internato — no I, VI e VII a visita pode ser feita todos os domingos; no II, III, IV e V é no 1ª e 3ª domingos de cada mês. Se a família vem no dia errado, eventualmente poderá ver o filho se o funcionário tiver boa vontade, mas é a regra que prevalece;

2. se os pais retirarem o filho para passar o fim de semana e não o devolverem no dia estipulado, o internato não recebe o interno e o responsável tem que ir à secretaria central para se desculpar e depois trazer então a criança (isto implica em enorme gasto de tempo e dinheiro com o transporte);

3. a transferência da criança de uma escola para outra pode ser feita sem aviso prévio ao "responsável", que descobre o ocorrido quando vem visitar o filho; muitas vezes os funcionários não sabem para onde a criança foi; os pais têm que ir à sede do órgão de convênio para se informar;

4. como forma de castigo por alguma indisciplina durante a semana, o aluno pode ter as saídas "cortadas" ou não ter permissão para se encontrar com os pais no dia de visita.

Barra visita, barra! Até ir embora para casa eles barram! Mas

não barram todo dia não. Barra assim num dia que o seuquer.

(Perereca, 10 anos, Internato IV)

5. os pais não podem levar nada para seus filhos porque o internato deve prover tudo. Alguns meninos burlam estas regras e os funcionários fazem vista grossa, sobretudo quando é material que sempre falta no internato (blusa de frio, sapato, pasta de dentes).

A instituição, que idealmente fortaleceria os laços familiares, suprindo necessidades que, porventura, não possam ser satisfeitas pelos grupos domésticos, acaba por propiciar um enfraquecimento, quando não uma ruptura destes vínculos. Generaliza-se, em decorrência, uma espécie de negação da família, por parte dos internos, implicando numa visão positiva da falta de vínculos, no contexto da atividade escolhida para a sua inserção na vida social. Ao afirmar que desejam fazer carreira militar, autoqualificam-se como preparados para enfrentar a rudeza das provas, posto que se veem como indivíduos que atravessaram sozinhos as agruras da infância e da adolescência, sem as facilidades que assinalam para os que chamam de "filhos de papai". Afirmam-se enquanto indivíduos isolados e passam a interpretar isto como uma qualidade que os habilita para instituições congêneres.