Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 13 de 62

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Infância perdida

4. Disciplina e espaço disciplinar

Foto 2: O ambiente físico marcado pelas cores branca e cinza e

pelas camas de ferro dá um cunho hospitalar ao internato.

O funcionamento da creche é fundamentalmente marcado pelo controle do corpo através da medicalização do atendimento (saúde, alimentação, hospitalização) e pela disciplina.

É verdade, aqui se tem uma preocupação muito grande com a

doença das crianças. De manhã a gente arruma as crianças e o

nosso serviço para estarmos prontos à espera do Dr. A.. De

tarde, à espera do Dr. K.. O tempo passa ligeiro e nossa

principal preocupação é a visita médica. Preocupação com

recreação, passeio para as crianças não há (Diretora).8

 

4. Disciplina e espaço disciplinar

O aprendizado de vida em comum surge já nesta primeira experiência da criança no internato. O convívio em grupo assim o exige, segundo a ótica dos dirigentes. A criança é retirada do seu meio familiar e passa a viver num internato que pretende ser um substituto da vida familiar. No internato ela deve ser capaz de compartilhar sua vida rotineira, suas necessidades básicas afetivas e os cuidados dos adultos com outras crianças de sua idade, que têm necessidades semelhantes. Aquela que não adquiriu a linguagem ainda não pode ser socializada mas, mesmo assim, é submetida desde o início a uma rotina rígida de organização institucional.

As crianças do recreio são aquelas que já andam, podendo frequentar o recreio e o pátio externo; na maioria, já adquiriram a linguagem, portanto têm representação e podem ouvir uma ordem, podem ser aculturadas. Sobre elas, sobretudo, recai a disciplina mais rígida, no momento em que a socialização, a entrada na ordem, no sistema, se faz. Quando a criança começa a falar e a se expressar, aprende logo que "não tem voz", que o que ela fala não é considerado pelos adultos. E, para que o atendimento seja dado a todos, a disciplina se impõe como uma necessidade inquestionável tanto para as crianças como para os funcionários, para que se possa manter a ordem no funcionamento e ter condições de trabalho. Este é o objetivo explícito da disciplina na rotina diária das crianças.

Onde existe um grupo é preciso que haja um pouco de

disciplina. E para que haja um pouco de disciplina deve existir

uma sequência porque então, o que é que eu faço? Para onde

vou? Onde deixo as crianças? Então, existe uma sequência

para que haja uma harmonia no ambiente. Está certo?

(Diretora)

A disciplina serve também para organizar os adultos nas suas atividades e para que o funcionamento institucional seja harmônico, seja eficiente e permita controlar o que o adulto faz. A disciplina favorece o funcionamento organizacional porque as próprias crianças aprendem a sequência e assim dão menos trabalho. Há uma hierarquia da disciplina: adultos disciplinados controlam crianças disciplinadas na sua rotina diária, dentro de uma sequência organizada e detalhada no espaço e no tempo. A imposição da sequência rege a vida da criança em todas as suas necessidades. Vejamos como a diretora justifica a existência de horários fixos para ir ao banheiro e permanecer no vaso sanitário:

Não é tanto para que eles façam a sua necessidade, mas é

mais uma questão de ensinar, dele aprender aonde ele deve ir

e também de rotina. Porque ela (funcionária) tira, leva naquele

determinado lugar, e lá dá banho e vai para a recreação ou para

a cama, conforme o horário. É mais uma sequência, como você

pode observar. Está no refeitório, do refeitório vai para o

banheiro, do banheiro lava e vai para a cama ou vai brincar,

conforme. A sequência é importante para manter um pouco de

ordem, para haver condições de trabalho.

Assim, observei que a rotina diária não é orientada para as necessidades da criança; e muitas vezes há detrimento destas em favor do aprendizado da rotina. Como aprender a fazer cocô no vaso, se ir ao vaso não tem nada a ver com a vontade de fazer

cocô? (Vide foto 3) Existe uma falta de ligação entre o fato de ir ao banheiro e as sensações corporais. A imposição da disciplina, tal como ela é praticada, tem consequências importantes sobre o desenvolvimento da criança. Uma das consequências mais evidentes é a impossibilidade da criança criar significações. A maior parte de seus atos e gestos são esvaziados de significação, até mesmo aqueles nos quais um suporte corporal é evidente, substituindo-a por uma significação alienante, inteiramente exterior à criança, a saber, a sequência, a disciplina.

 

Foto 3: Como aprender a fazer cocô no vaso, se ir ao vaso não tem

nada a ver com a vontade de fazer cocô?

O termo grupo, neste caso, se refere a um grupo indiferenciado, o que Sartre denomina "serialidade". Serialidade é justamente diferente de grupo, pois este supõe a diferenciação dos indivíduos, enquanto a serialidade seria uma massificação (cf. Lapassade, 1971, p. 165). Veremos que, em todos os internatos desta Fundação, os internos se agrupam como uma serialidade e, em raras situações, como um grupo. Coloca-se aí a minha primeira grande questão deste estudo — tentarei analisar o que se passa nestes estabelecimentos que não permitem ao indivíduo se constituir enquanto sujeito.

Há, por parte de todos os adultos, um claro reconhecimento do enorme sofrimento e prejuízo causados à criança pela sua vivência num local onde não se permite que ela cresça e se constitua enquanto indivíduo diferente dos demais colegas de convívio. Dentro dos moldes atuais de funcionamento deste internato e dos demais, parece formar-se um círculo vicioso tão forte que não se acredita poder criar qualquer possibilidade de minorar o sofrimento e a submissão da criança interna. Na creche que estudei, a diretora se sente impossibilitada de orientar suas funcionárias para que façam o trabalho de forma diferente, que favoreça o crescimento da criança. As funcionárias o fazem, por sua vez, da maneira que consideram mais efetiva, para que possam controlar todos os internos ao mesmo tempo, mesmo percebendo que lhes é prejudicial. Além de comentários que fazem neste sentido, o reconhecimento é feito sem qualquer dúvida quando elas, como também os funcionários dos outros internatos, declaram não admitir a hipótese de internação de seus próprios filhos. Eles percebem a diferença em relação a um ambiente mais acolhedor e mais atento às necessidades e demandas individuais da criança.

Se damos expansão à criança, estímulo, deixamos a criança

assim ela sempre dar mais de si, chega um ponto em que a

gente não consegue manter o grupo. Então a criança é coagida

um pouco e tentamos que ela fique um pouco sentada. Com

muita pena eu observo isto. É por isto que em casa tem o

desenvolvimento muito mais rápido, muito mais certo que em

creche, em coletividade. Para que nós déssemos aquele

estímulo que ela tem em casa, aquela liberdade, nós teríamos

que ter pessoal especializado, espaço e muita constância junto

da criança (Diretora).

A fala clara e consciente da diretora não é comum nestes ambientes. Tenho sempre a impressão de que a grande maioria dos funcionários, através do seu bom senso, sabe das consequências maléficas desse tipo de tratamento para a criança; porém poucos expressam sua opinião com a clareza da diretora.

As atividades são feitas em "grupo" e a criança deve permanecer no "grupo", para que se possa controlar todas ao mesmo tempo com o mínimo possível de atendentes. Por isto tolhe-se qualquer iniciativa individual, qualquer motivação para se expressar. A manifestação de um comportamento diferente é vista pelas funcionárias como podendo levar outras crianças a se expressarem também e, assim, a desorganizar o funcionamento grupal.

Começa, já nesta idade, a caracterização das crianças que não querem acompanhar a turma e passam a ser vistas como "um desvio", desviante da norma imposta, "um abusado". A criança, por sua vez, está descobrindo num gesto seu que pode não querer se submeter à autoridade. Ela aprende a dizer "não" às regras que querem lhe impor e aprende a reclamar. Mas na medida em que diz "não" às normas, buscando, talvez, uma atenção mais próxima às suas necessidades, é vista como uma criança desviante. O desvio aí significa a individualidade da criança que, se não for submetida à ordem institucional, concorre para a desarticulação do "grupo" — o que está em jogo é a harmonia disciplinar vigente. Então, pedir atenção individualizada significa ameaçar a existência do "grupo". Essa caracterização do desviante, da criança "ruim", que "já nasce ruim", "rebelde" é forte na creche e vai-se estender por todos os outros internatos. A criança que quer algo mais, em termos de atenção e afetividade, que se rebela, que não aceita as regras, já é vista como futura marginal. Vejamos, neste exemplo específico, algo que ocorre frequentemente na relação adulto-criança. Antes do almoço levei o Carlinhos para a rouparia e lá ele ficou um pouco. A funcionária diz:

Ele está muito bem, já fala algumas palavras, ele é muito

esperto para uma criança de 2 anos. Não estou lhe dando muita

atenção mais porque ele está ficando abusado. Ele vem para cá

e não quer mais sair. Diz não, sabe reclamar. Não posso ficar

muito com ele, senão ele não quer mais almoçar com o grupo e

ele tem que ficar no grupo.

Então, tolher a criança que apresenta um comportamento particular é uma regra, mesmo que este seja adequado à atividade que realiza. Isto ocorre inclusive nas atividades de lazer, como pude observar e como bem percebe a diretora:

"Ainda ontem eu estava lá junto às crianças e a moça estava

vendo televisão com eles. E tinha um programa interessante...

Eu vi uns bonequinhas dançando. Assim que as crianças me

viram, três delas, uma até foi a Ana Paula, logo se levantou

para fazer o que o bonequinha estava fazendo. E a moça logo

gritou: senta fulano!"

Sônia: "Quer dizer que a individualidade da criança é um pouco

tolhida?"

Diretora: "Toda! Eu acho bastante tolhida! Eu acho! É uma coisa

que me preocupa muito. E é uma coisa que eu gostaria de

ajudar as moças. Gostaria que elas me atendessem. Elas não

me atendem muito. Quando a gente quer ajudar assim, a favor

da criança, elas não gostam muito... Eu acho que atrapalha...

Eu não sei... Atrapalha a atividade delas! Porque eu acho que

junto a uma recreação deve ter uma disciplina, uma ordem.

Porque senão vira tumulto. Por exemplo, as nossas crianças

são pequenas. Dizem que é costume de todo colégio: quando

chega uma pessoa, as crianças correm e se agarram nas

pernas, na bolsa. Então, eu penso assim — o bom costume

deve começar em casa. Então é preciso que seja cortado

quando eu chego junto deles. Mas quando é que então eles vão

ter a oportunidade de correr para junto de alguém? E como é

que eu vou fazer para eles entenderem que comigo ou com a

tia, que chegou de manhã, eles podem fazer e com as outras

pessoas, não?"

São frequentemente negadas a expressão do afeto e a troca afetiva. Não há lugar para a necessidade individual ou qualquer demanda da criança, pois isto significa individuação, formação de indivíduos autônomos.

De novo, o que articula tudo é a disciplina. Apesar da criança ser o motivo da existência do internato, ela é sempre a última a ser considerada. A expressão de seu afeto passa pelo corpo — só tem o corpo para se comunicar — e não é permitida. A criança aprende, nesta sua primeira experiência de internação, seja bebê ou tenha dois anos, que a expressão de seu afeto ou a busca deste não é bem recebida pelos adultos. Ela aprende que não deve reivindicar nem tocar no adulto. Mas suas necessidades de contato corporal não são eliminadas e surgem com forte expressão quando da visita de estranhos. Com estes, elas tentam novamente o que já sabem proibido em relação às pessoas com quem convivem. A expressão das crianças é tão forte — são muitos que rodeiam e disputam um lugar para segurar o corpo do adulto — que, em geral, traz grande incômodo ao adulto. Expressão esta percebida pela diretora como um (mal) "costume" de todos os internos.

Uma outra questão, que envolve as atividades de lazer, é que as

atendentes 9 não consideram que brincar seja parte de seu trabalho, mas tão somente cuidar das crianças nas tarefas cotidianas.

As coadjuvantes não brincam no pátio com as crianças, só

olham, porque sabem que é preciso uma recreadora e, como

seria função dela recrear as crianças, elas se recusam a fazer

este trabalho (Diretora).

Este fator, somado à questão do número de crianças por funcionário e ao rodízio de trabalho, que veremos a seguir, dá uma qualidade de impessoal idade ao tratamento.

Sônia: "Em relação às funcionárias, quais os problemas que a

senhora encontra?"

Diretora: "A maior dificuldade que encontro é a do grupo que

está diretamente com a criança, a dificuldade que têm para dar

o atendimento — saber como lidar com a criança, saber

responder a uma atitude malcriada ou ao choro. Elas têm boa

vontade, fazem o trabalho, mas não como deveria ser feito no

meu modo de ver. Às vezes falta paciência, às vezes fazem

assim... Ou quando a criança, com um brinquedo, deve deixar o

momento de lazer para seguir para o refeitório ou para uma

consulta médica. Ao invés de ter jeito e pedir o brinquedo, a

funcionária simplesmente toma-o e a criança chora e reclama e

para apaziguar a criança é mais difícil. Agora, com isto, não

quero dizer que elas sejam más ou que..."

a. Fila

A fila tem uma importância fundamental nos internatos. Impõe-se que cada um saiba aguardar a sua vez para que todos sejam atendidos de maneira igual. Este aprendizado se inicia na creche, quando as crianças já se locomovem com autonomia, em torno de dois anos de idade — crianças da turma denominada recreio.

Sônia: "E quando é que as crianças começam a fazer fila?

Assim que começam a andar?"

Atendente: "Não, só quando passam para o recreio. Nos babys

já andam, mas não fazem fila, não. Mas aí sempre se ensina a

dar a mãozinha ao outro, quando sair: vamos lá fora passear,

dá a mãozinha ao outro."

Para se movimentar de um espaço para outro dentro do próprio estabelecimento-refeitório, dormitório, recreio interno e externo, banheiro — como também para aguardar a vez de ter os cabelos penteados, para tomar banho, etc., as crianças fazem fila. Quando esperam o almoço ou o jantar, se há atraso, elas, por vezes, fazem fila espontaneamente, sem que ninguém peça — fila tipo trenzinho — na porta do refeitório aguardando a retirada da "cancela". Já conhecem bem os horários das várias atividades e parecem não esperar que algo diferente ocorra. Entram no refeitório em fila e se sentam em ordem. Nesta faixa etária, a criança não é repreendida se sai do lugar ou fura a fila. Entretanto, quando fazem fila em pé e antes de se locomover, se se chateiam e saem da fila, o adulto responsável chama a atenção com firmeza: "fica na fila, não sai da fila".

Para ganhar lanche fora do refeitório, fazem fila em pé ou sentam-se encostadas na parede. Assim, as crianças só sabem esperar em fila e aprendem que deste modo têm garantida a vez. Se água, brinquedo ou qualquer outra coisa é oferecida sem exigir fila, cria-se um tumulto enorme, todos choram, ficam ansiosos e brigam. As crianças entram no hábito da disciplina que as controla, não tendo a possibilidade de se organizar internamente; o controle vem de fora e parece permanecer assim.

Tive a oportunidade de perceber a dificuldade das crianças em aguardar a vez ou ter confiança de que serão atendidas quando não se organizam em fila. Experimentei dar-lhes água ou brinquedo sem

pedir que organizassem fila. 10 O resultado foi grande tumulto, choro e muita ansiedade. Por mais que eu lhes assegurasse que seriam atendidas e procurasse ser rápida, elas só se acalmavam depois de satisfeitas. A confusão criada certamente é uma das justificativas para que a organização institucional seja como a existente. Entretanto, me parece que esta ansiedade ocorre muito mais porque as crianças nunca têm a oportunidade de viver num ambiente no qual sua individualidade seja respeitada. Às crianças não é permitida nenhuma autonomia nos atos nem nas necessidades. Praticamente tudo é regulado pelo adulto. Ele é que decide se a criança está ou não com sede (se esta lhe pede água fora do horário determinado para receber sua porção de água na caneca), ou mesmo a quantidade (se a criança quer outra porção, o que se denomina "repetição" ou "repite", a funcionária, em geral, não dá, pois considera que foi satisfatória a porção dada). São os adultos que regulam quase todas as necessidades da criança, como veremos no decorrer deste capítulo, sem lhe dar oportunidade de se organizar internamente e de conhecer o próprio corpo, sequer no que se refere às suas necessidades mais básicas de sobrevivência — fome, sede, sono, vontade de ir ao banheiro, sentir frio ou calor.

b. Necessidade e demanda

A atenção individual aqui e nos outros internatos é pouca e não há lugar para o choro. Se uma criança chora chamando pela mãe, sem motivo aparente, o comum é deixar que ela chore, sobretudo se se supõe que "nada demais" se passou com ela. O cuidado é maior quando a criança chora porque se machucou pois, se isto ocorre, as funcionárias podem ser acusadas de estar pouco atentas no seu trabalho. A não atenção individual perpassa todas as atividades cotidianas, reguladas pelas normas institucionais. O choro, um pedido mais claro e desalentado de atenção individual, é frequente também. Vejamos uma dessas situações rotineiras numa observação feita pouco antes do almoço, quando a maioria das crianças estava no "recreio interno".

Uma menina que tem uma irmã gêmea chorava muito sem que

ninguém a acudisse. Aparentemente ela não tinha motivo para

chorar. Depois de uns cinco minutos ou mais, fui até ela. O

choro me incomodava e me incomodava aquela situação de

choro aparentemente sem razão, ao qual ninguém dava

atenção. Tentei lhe falar mas acabei desistindo, pois ela

chorava muito e não consegui entender o que dizia, a não ser a

palavra "tábua". Afastei-me achando que talvez fosse algo

realmente bobo e que ela "chorava à toa".11 Depois de algum

tempo, ela continuava chorando sem se acalmar e eu voltei lá.

Ela me explicava e eu não entendia. Na verdade, o que ela me

dizia parecia não fazer sentido — "a tábua que jogou fora". Sua

irmã acabou vindo, estando atenta desde o início do choro. Ela

não chorava e me explicou que jogara a tábua de sua irmã fora

do espaço do recreio e que sua irmã a queria de volta.

Entreguei-lhe então a tábua e ela simplesmente cessou o

choro, não demonstrando nenhuma alegria.

Estou trabalhando aqui das pequenas demandas que a criança faz, que sistematicamente não são satisfeitas. E a criança põe-se a chorar como única forma de protesto. Ela chora intensamente com dor e desespero, apesar de parecer um choro patético, como se nada fosse de fato ocorrer. Essas pequenas coisas, de grande importância para a criança entretanto, ocorrem o dia inteiro pelos motivos mais diversos — pedidos de água, de brinquedos, para ir no banheiro.

Como já vimos, nem as necessidades fisiológicas das crianças da mais tenra idade, que vivem em internato, têm possibilidade de ser atendidas. Mesmo essas necessidades são reguladas através de horários.

A necessidade é algo que o ser humano tem em comum com o animal, como a sede e o sono, por exemplo. A demanda é específica do ser humano e tem um significado que precisa ser interpretado para ser atendido. Se a necessidade da criança neste estabelecimento não é atendida, pelo contrário sofre pressão, coerção e controle, a demanda da criança tem menos lugar ainda no dia-a-dia. Quando a criança pede água, ela pode estar simplesmente com sede mas, muitas vezes, está fazendo uma demanda de atenção e de amor. E se esta demanda não pode ser satisfeita, ela tem que ser sempre enquadrada como uma pura necessidade. Então quando alguém resolve atender a esta demanda, dando água fora da hora e sem fazer fila, as crianças, creio, ficam muito angustiadas, pois percebem neste gesto alguma possibilidade de serem atendidas no seu pedido de atenção e afeto. A angústia, sempre sufocada pelo cumprimento da ordem dos rituais, vem à tona com força e desespero. Como as "tias" veem esta angústia como "desordem", elas se zangam e ordenam de novo o caos formado. O que ocorre é algo grave. Quando o adulto interpreta a demanda feita pela criança e lhe responde satisfazendo ou dando alguma resposta que mostra sua compreensão, isto possibilita à criança a produção de significações novas. A reação costumeira das funcionárias, entretanto, de não tomar conhecimento da demanda da criança e silenciar a este respeito é igual ao silêncio da morte. Podemos assim dizer que internatos desse gênero são um lugar de morte e não de crescimento e de vida.