Infância perdida

Sônia Altoé · Capítulo 33 de 62

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Infância perdida

2. A "massa" disciplinada

Nos Internatos IV, VI, VI (8-10 anos, 10-12 anos e 12-14 anos) não há grande diferença quanto à exigência de disciplina e ao castigo, que se acentuam sempre, mas a disciplina já está estruturada desde a faixa etária de 8 anos. Uma alteração importante: os inspetores deste internato e dos próximos são homens. Não há mais mulheres lidando diretamente com as crianças e os adolescentes. Não há nenhuma justificativa oficial para esta mudança. Percebe-se entretanto o surgimento da ideia de masculinidade e isto significa no modelo disciplinar maior severidade e castigos mais duros.

A disciplina rotineira de fazer "formatura" e se locomoverem fila se torna muito mais rígida, exigente e frequente. E assim o grupo de alunos castigados por falta disciplinar aumenta muito. Todo dia são castigados, à noite, pelo menos 15% deles. O castigo mais comum

é ficar em pé no dormitório ou no pátio durante o dia e à noite.1

Um novo instrumento disciplinar passa a ser usado com frequência — o apito. Ao som do apito, usado pelos inspetores, as crianças se

imobilizam onde estão e aguardam a voz de comando.2 Pode ser um aviso, uma repreensão ou uma ordem para fazer "formatura" por diversos motivos. O apito é também usado nos Internatos V, VI e VII.

A "formatura" pode ser entendida como o perfeito alinhamento dos alunos por tamanho, por turmas de dormitórios, em fileiras. Para que a "formatura" esteja bem organizada, segundo exigência dos inspetores, se faz sempre a "ordem-unida" algumas vezes ou

muitas, dependendo da vontade do adulto que comanda. 3 Além das horas normais, previstas na rotina diária, a "formatura" também é feita sempre que o inspetor assim o deseja. Os motivos mais frequentes são: chamar a atenção se há muita desordem na atividade que realizam (entrada no refeitório ou no dormitório, por exemplo); recolher algum objeto proibido na recreação (pedaço de pau ou pipa, por exemplo); dar bronca pela bagunça no recreio, por não andarem em fila direito ou por conversarem após ter feito a "formatura", por não obedecerem à voz de comando do inspetor após o apito, quando o inspetor dá mostras de sua autoridade. Outras vezes a "ordem-unida" me pareceu não ter qualquer motivo aparente. Desta maneira, é comum que eles façam "formatura" pelo menos 10 vezes durante o dia em momentos diferentes, e esta é sempre repetida várias vezes.

A "formatura", além de ser feita antes de qualquer locomoção dos internos, também pode acontecer em diferentes lugares, só para exercitar a obediência à voz de comando do inspetor. Assim, uma vez formados e alinhados, são ordenados a formar em outro local próximo e lá repetem a "ordem-unida". Desde o Internato II a espera para realizar uma atividade é sempre em fila, sentados ou em pé. Por exemplo, quando todos estão no dormitório e aguardam a sua vez de entrar no banheiro, devem estar sentados em fila dupla ou tripla, com braços e pernas cruzados e rosto inclinado para o chão. Para entrar no refeitório, aguardam em fila a vez de sua turma, formados e alinhados do lado de fora. Aqui o inspetor controla esta organização de maneira extremamente rigorosa.

A exigência de boa postura, posição do corpo e dos movimentos, exatidão do ritmo e perfeição dos movimentos de cada aluno e da turma como um todo atinge seu ponto máximo. Qualquer falta implica em repetição para levar ao aprendizado correto. A qualquer desvio à ordem de comando, a turma toda é castigada, repetindo 30 vezes em média para aprender a fazer "corretamente"; também são retirados os mais "rebeldes", "insolentes", os que não querem obedecer a voz do inspetor. São retirados para castigo imediato ou "anotados" para posterior castigo. Vejamos o exemplo de uma "ameaça", prática também muito comum. Na "formatura" o inspetor fala alto:

Vamos tomar uma atitude drástica agora. Eu e os outros

inspetores. De amanhã em diante, quem não souber fazer a

formatura aqui em cima (perto do dormitório), vamos pôr num

castigo daqueles! Vai ficar 15 dias de castigo direto e os piores

ficam até um mês.4

A exigência da postura do corpo, dos braços cruzados e da posição das pernas se faz não só na "formatura" e na fila, como também quando estão sentados em ordem esperando para realizar alguma atividade. As palavras são, em geral, ásperas, sobretudo dos inspetores mais novos na função e que se enervam com facilidade, temendo perder a autoridade sobre as crianças. Pode-se observar também alguns safanões naqueles considerados mais desrespeitosos. O uso de uma vara também ocorre e com ela o inspetor assusta as crianças, batendo na mesa ou banco e encostando neles, intimidando para que façam o que lhes é pedido. Observei este procedimento adotado com firmeza por um inspetor novo. Não observei esta atitude nos inspetores antigos.

Espera-se que a disciplina e a obediência cega à autoridade já estejam bem introjetadas pelo interno. A tolerância é pequena, para o observador de fora como eu. A autoridade é daquele que tem as "certezas", como disse um aluno. Tanto as certezas sobre o que é melhor para eles, sem lhes dar qualquer opção, como de saber as atitudes dos garotos, prever seu comportamento e seus desvios. Eles não escapam do olhar disciplinador do inspetor praticamente em momento algum. Olhar de presença física e que também atua sobre os internos, mesmo quando o inspetor não está presente ou se encontra distraído com alguma coisa. E há alunos que já se identificam com os inspetores, com a sua autoridade. Vejamos como isto se passa no exemplo de observação abaixo, quando o inspetor dá uma reprimenda nos internos formados no pátio sob o sol:

"Tenho certeza de que na merenda vocês vão conversar e

então vou pôr vocês aqui de novo. Um pouco de sol não faz mal

para ninguém. Sei que vocês sabem dessas coisas que falo. Se

eu não conversasse! Não quero ninguém no banheiro. Se

fizerem isto vou ficar com vocês ali dentro (sala de televisão) de

boca calada." Um menino ao meu lado diz: "Este é o seu que

tem mais certeza aqui. Tem certeza de que o aluno vai estar ali,

lá" (ri). O seu continua: "sei que depois que liberar vocês vou

encontrar gente no muro, no banheiro!" .E faz três vezes

"ordem-unida" — "Vamos ver se vocês agora vão saber fazer!".

E às 2h37min os libera. Um menino me fala: "O inspetor fala,

fala, mas os meninos fazem. Então ele chama à atenção. Ele só

põe de castigo em último caso."

A identificação com os inspetores se constrói também através da figura do monitor, que surge nesta faixa etária. Neste internato, no V e no VI, é muito valorizada pelos inspetores esta função dada aos meninos. O monitor, em geral, é escolhido pelo inspetor para ajudar na vigilância dos colegas. É frequente observá-lo com lápis e papel na mão anotando o nome dos faltosos para posterior castigo. Pode substituir inclusive o inspetor em diversas tarefas, como também na

"ordem-unida".5

Os alunos mais novos são recém-chegados neste internato. Eles têm mais dificuldade de seguir a disciplina rígida. Quando são chamados à atenção com muito rigor, ficam muito amedrontados e se estão em fila ficam duros com estátuas, apavorados. Os inspetores, em geral, dizem não gostar de trabalhar com os novos, porque não são levados a sério quando dão as ordens, o que implica num desgaste maior para eles, inspetores. As crianças brincam muito, não escutam, é difícil "dominar o grupo". Eles estão se adaptando ao novo regime. Apesar da maioria vir de um internato, ainda não está acostumada a uma disciplina rígida como esta. E o inspetor pode ser extremamente severo com eles, exigindo que se adaptem rapidamente ao sistema do internato.

Um outro tipo de controle explícito e mais rígido que surge é o controle do tempo.

O inspetor determina quanto tempo deve ser gasto numa atividade. Vejamos algumas descrições de observações diretas, realizadas em

agosto e setembro de 1982, no dormitório dos mais novos.6

10h15min: estou dentro do dormitório dos mais novos (são 50

meninos).

Durante o banho, como de costume, os garotos se sentam em

ordem no chão "na posição" e o inspetor vai mandando para o

banho. Ninguém pode falar, o inspetor 7 chama à atenção e

admoesta o tempo todo. Só fala para zangar e dar ordens. Seu

tom é sempre enérgico, ríspido e de superioridade. Os meninos

estão completamente aquietados, submissos e tristes: "Fulano,

você já está errado porque perdeu o conga; a segunda vez,

porque falou; e a terceira, porque está falando de novo. Está

anotando este pessoal que está falando aí, Nestor? Já falei que

não é só para passar sabão na cabeça, é no resto do corpo

também. Tem muito pouca gente sentada aqui pelo número que

saiu do banho, anote quem está andando aí". Estão em volta

das camas e se demoram a voltar para a fila, sentados no chão.

"Enrole esta toalha direito! Segue outra fila! Cuidado! Não

precisa empurrar. Quem está falando aí, está errado! Não dei

ordem para falar, quem está falando?" Uma criança vem

reclamar algo.

"Quem está de anel e colar de galalite pode guardar no armário.

Na missa8 9 não pode ir com isto".

"Como é, Pachequinho? Isto não é hora de brincar com pedra

agora. Não autorizei ninguém a falar aí, é para ensaboar,

enxaguar e pronto", diz para os que estão no chuveiro.

"Não esqueci da rapaziada do campo não, hein. Toalha não é

para ficar no chão, Isaías. Por exemplo — não sei por que o

Noel, ao invés de estar tratando de suas coisas, está com a

saboneteira! Quem não arrumar a toalha direito também está

errado, hein? Vou dar um prazo de 5 minutos [para os que

trocam de roupa] para sentarem aqui, hein." Eles demoram um

pouco, evitando entrar na fila.

Um menino chora em prantos e diz: "ele xingou a minha mãe".

O inspetor ajuda dois a vestirem a camisa que estava apertada.

"Vou contar até dez. Quem não conseguir, já estou com lápis e

papel na mão." O papel é para anotar os nomes dos

retardatários, mas os meninos não correm, fazem no seu

tempo. Conta alto e no final: "nove e meio e mais um bocado;

nove e meio e mais um bocadinho, e mais um bocadão, dez!"

Os alunos riem, acham graça e relaxam finalmente. "Quem está

em pé vai dançar." Os colegas falam o nome de mais um de pé.

10h35min: "Agora vamos organizar isto aí (as filas sentadas)."

Tira um aluno para recolher a roupa da escola do armário e pôr

na trouxa. Outro para arrumar as toalhas que não estão bem

colocadas na cama. Vários pedem para fazer algo, levantam a

mão, mas só é chamado mais um para separar os shorts das

camisas.

10h37min: "Já expliquei que no dormitório não é para

conversar". Eles falam muito baixo. "Na posição! Perna

cruzada! Luís, pode anotar quem tiver falando! Cadê os dois

garotos que estavam elogiando a mãe um do outro? Chega

mais!" Eles explicam e o inspetor diz que ambos estão errados

e podem sentar.

"De noite vou tirar meia hora de sono de cada um. Não se deve

xingar a mãe do outro, eu não gosto que xingue a minha!"

"Quem perdeu o lugar é porque errou, se mandei sentar." Um

diz que o outro tomou o lugar por isto um xingou a mãe do

outro.

"Última chance para quem está com a gola torta, hein." O

inspetor sai penteando o cabelo de cada um. "Deixa eu ver se

tem cabelo nesta careca!" Riem bem-humorados. "Se o padre

falar que vocês estão feios, pode mandar falar comigo. Pode

continuar anotando, Luís, não autorizei ninguém a falar não.

Vamos seguir para a igreja. Quem vai fora da posição pode

levantar o braço! Ninguém levantou, então ninguém vai errar!

Na igreja não pode conversar, nem com os colegas de outra

escola. Conversar sobre brincadeiras. Vou anotar. É bom

lembrar que estou aqui às 9 e meia da noite. Posso tirar meia

hora de sono. Já tem uma massa aqui anotada. Quem está

falando aí, Luís? Pode anotar. Quero uma lista bem grande."

"Saia, rápido, primeiro fila com o braço para trás." (Vide foto 10)

São 11 horas. O inspetor vai gritando o tempo todo: "Anota X."

Pergunta para um deles: "Está quente? Por isto está com a

mão na cabeça?"

 

Foto 10: "Saia rápido, primeiro fila com o braço para trás", manda o

inspetor, que vai gritando o tempo todo: "Anota X".

Saio para almoçar e quando volto eles estão de castigo no sol.

Logo que o inspetor me vê (não sei se foi mera coincidência)

desloca as crianças para a sombra. Após 30 minutos as

crianças são liberadas.

O cotidiano dos garotos, como se pode observar, não permite que eles deixem de fazer "tudo conforme o regime." Eles recebem ordem o tempo todo, não podem discordar de nada e só falam nos minutos que o inspetor permite. Certamente, de um inspetor para outro há diferença nas atitudes ou na maneira de conseguir que os meninos sigam as normas da escola, mas estas são seguidas sem variação. Neste internato os inspetores antigos, em geral, têm mais tranquilidade para lidar com os meninos; os novatos se desgastam mais, ficam mais nervosos e brigam mais, como vimos na longa observação acima. Mas nem todos os novatos têm as mesmas atitudes. Conversei com um outro que trabalha no mesmo dormitório que o acima mencionado e vi que ele tentava um relacionamento mais humano, mais próximo com os meninos, não castigava com frequência e por isto também enfrentava outras dificuldades. Dizia ele:

Não é fácil trabalhar com os pequenos. A gente fala mas eles

nem ligam. Os maiores já se retraem se a gente falar mais alto

com eles. Senão o que fazer? Bater não pode. No dormitório

eles fazem muita bagunça comigo. Eles falam que eu sou

devagar.

"Ser devagar" é uma referência que os meninos fazem aos inspetores mais tolerantes com os pequenos atos de indisciplina, que ameaçam e castigam menos. Os meninos aproveitam então para se soltar mais. Mas os meninos veem o inspetor como não sabendo manter a disciplina, não sabendo ser duro como os outros. Talvez, como mencionei no exemplo da fila para beber água no Internato I e da recreação no Internato III, aqui também os meninos precisem de alguém que os controle de fora. E isto acaba gerando um ciclo vicioso na relação dos meninos com os inspetores, como se impelissem os inspetores a agir de forma extremamente autoritária e brutal, muitas vezes.