Infância perdida
3. O ritual da alimentação
tempo foi utilizado na distribuição de congas novos. Estes
últimos se enfileiram perto do banco da roupeira — vejo a "tia"
empurrando com força alguns deles e gritando para que se
sentem. Estou a distância, mas ela grita alto para qualquer
pessoa ouvir. Seu mau humor, pode-se notar, é horrível.
Nenhuma paciência. Não havia motivo para gritar, a não ser no
sentido de que os meninos se comportassem como bonecos.
Esta observação mostra de maneira exemplar a disciplina rotineira: a ordem, o silêncio e o cumprimento da sequência. A relação com o adulto se torna muito mais dura e pouco amistosa, apesar de aqui as inspetoras ainda serem mulheres. Esta relação habitual fazia contrastar, ainda mais, o que se passava entre as crianças e a pesquisadora. O fato de ser conhecida das crianças e a liberdade que, enquanto psicóloga e pesquisadora, podia ter com eles, me davam uma possibilidade de relação privilegiada. Sabiam que comigo eles podiam romper minimamente a rotina e às vezes me solicitavam muito. Eu procurava sempre responder a todos sem, entretanto, incentivar a quebra da rotina. Certas horas se tornava difícil dar atenção e ao mesmo tempo observar com detalhes o que ocorria. A minha presença me parecia sempre quebrar um pouco a austeridade da disciplina e era tolerada pelas "tias".
Um fator importante, do qual me dei conta na observação do café da manhã, é a questão do tempo. O café da manhã transcorreu em 10 minutos, marcados no relógio. Mas a sensação que tive foi de que tudo era por demais lento. Dez minutos não é muito tempo, entretanto me pareceu uma eternidade observando os movimentos rotineiros das crianças. Eram 172 atendidas e cada uma tinha que esperar pacientemente a sua vez. A sequência, a falta de imprevisto, o silêncio, a espera da ordem de comando, tudo isto parece dar uma vivência de algo irreal e sempre muito lento e demorado.
3. O ritual da alimentação Como as outras atividades, a alimentação, aqui e em todos os outros internatos, também se passa dentro de um ritual de disciplina e constrangimento. O tempo todo as "tias" estão exigindo o silêncio absoluto das crianças e a paralisação de seus movimentos — "psiu!" "fique quieto", dizem repetidas vezes. As crianças têm que ficar na posição ordenada assim que se sentam à mesa: cabeça baixa sobre os braços cruzados, em silêncio, enquanto aguardam a chegada da comida e a ordem da "tia" para que então levantem o rosto. Entram no refeitório em fila, os menores primeiro, sentam-se seguindo a ordem e, após terminada a refeição, saem em fila, dando lugar à outra turma que segue os mesmos procedimentos. Comem
com colher, não há uso de faca,8 a refeição é servida em pratos de alumínio e não há água. Os pequenos entram e sentam-se aguardando a comida que já vem servida. Os maiores em fila, pegam seus pratos que são fartos, sobretudo no almoço, no balcão da cozinha e seguem para a mesa. Nada pode fugir à regra. A vigilância é constante e as "tias" não param para comer. Em geral, comem com o prato na mão andando de um lado para outro vigiando as crianças. Elas não têm descanso de almoço.
Sob severa vigilância as crianças comem rapidamente seu alimento. Quase não mastigam. O ritual da refeição certamente não permite um ambiente ameno, descontraído, de conversa, de troca, ou mesmo saborear o alimento.
Ah, eu fiquei até observando, é uma característica delas. Eu
não sei por que, um tipo de ansiedade. Comem mesmo! São
comilões e comem depressa. É difícil você controlar essas
crianças. Você acaba de servir, quando você acabou de servir
uma mesa, a outra já está raspando o prato. Sabe, aquela
ansiedade de comer depressa, não sei por quê (Diretora).
A diretora revela um posicionamento muito comum entre funcionários e autoridades de internatos, no qual se atribui sempre às crianças características (no exemplo acima, "comilões e ansiosos"), como se esse comportamento fosse totalmente desvinculado da vivência institucional, eximindo assim o tipo de atendimento oferecido de qualquer questionamento. O dia-a-dia institucional é marcado por controle rigoroso, não sendo possível qualquer reconhecimento das demandas e necessidades individuais, sofrimentos e conflitos e gerando uma ansiedade enorme nas crianças, que têm no alimento uma tentativa de compensação de tantas frustrações e impossibilidades.
Mesmo durante a refeição nada é permitido ocorrer fora da ordem das "tias". Há muita ênfase em que é preciso comer tudo que está no prato para se ter saúde. Muitas crianças repelem a fala das "tias", apesar de nem sempre gostarem do que lhes é servido.
Observação do almoço do grupo de crianças menores: muitos
separam no prato o chuchu que veio junto com arroz e feijão e
hambúrguer, que eles chamam de "bonzo" (comida de cachorro
na propaganda da televisão). A regra é não fazer qualquer
concessão e a criança deverá se adaptar. Isto gera um
problema enorme — choro, recusa a se alimentar. Mas é
raramente contornado pelas "tias".
Qualquer gesto que não deve ser feito é visto pela "tia" como uma afronta a sua autoridade e ela reage com violência, sem se importar com a minha presença. Uma simples brincadeira, que observei, de bater com as mãos na mesa, enquanto esperam a refeição, podia ter uma reação violenta da "tia". Fiquei impressionada com os seus gritos e sua agressividade com dois meninos — gritava com um e outro para que saíssem da mesa e ficassem de pé perto da parede. Os outros, no maior silêncio, ouviam assustados. Eu estava ali o tempo todo e ouvira o leve barulho feito pelos dois meninos — um tamborilar na mesa. Fiquei muito surpresa com a raiva da "tia". E a sensação que tenho é que ficam ofendidas com qualquer gesto das crianças, que consideram como um desacato a sua autoridade, como se a criança o tivesse feito só para perturbá-la. Esta "tia", em geral, é muito mal-humorada. Mas naquele dia ela estava desde manhã ainda pior. Só soube brigar com as crianças. Não ouvi uma palavra de afeto. Aliás, o mau humor era também característica das outras duas que tomavam conta de outra turma.
A humilhação, a atitude agressiva, o descaso podem ser observados com frequência durante as refeições. E as crianças são de tal maneira tolhidas que, mesmo que precisem fazer uma reivindicação adequada, como vemos no exemplo abaixo, não ousam fazê-la.
17h50min: entro no refeitório e vejo um menino beliscando o
prato com os dedos. Pergunto se não ganhou colher mas não
responde. Pergunto ao colega ao lado — "acho que a tia não
deu". Eles comiam separados numa mesa. Dou a ele uma
colher e começa a comer logo. Comem canja bem grossa, sem
caldo, com farofa por cima que sobrou do almoço. Quando vi de
longe pensei que fosse queijo ralado.
O comportamento das auxiliares de disciplina não varia muito quando devem fazer vigir a disciplina diária. Mesmo a funcionária nova aprende com rapidez como deve agir e é surpreendente que sua atitude, em poucas semanas de trabalho, se adeque tão bem ao sistema institucional. Aqui, como nos demais internatos, uma das regras básicas é o suposto tratamento igual para todas as crianças, sem admitir diferenças, o que implica no fato da auxiliar de disciplina estar atenta para que nenhuma criança drible o sistema montado e
possa fazer ou ter algo diferente dos outros. 9 Se a "tia" percebe que a criança driblou uma das regras ela se sente enganada, desrespeitada na sua autoridade. O fato toma importância, pois a funcionária acredita que a criança vitoriosa pode espalhar a ideia entre as outras crianças, o que pode causar grandes problemas ao sistema montado. Ela acha que a criança também pode falar dela para os outros, no sentido de não ter capacidade de fazer obedecer às regras, que são iguais para todos.
Parece que a autoridade das "tias" é muito frágil. Qualquer desacato pode ser o caos. Assim, essa autoridade tem que ser exercida a todo instante.
Frente a uma dada situação o meu questionamento permitiu que, através do diálogo estabelecido, tudo isto se tenha aclarado. A minha pergunta de pesquisadora, querendo saber o que houve gera desconforto, mas creio que devido à minha presença estar legitimada pela autoridade, a nova funcionária me responde como veremos a seguir:
Observo a seguinte cena ao meu lado: uma funcionária nova,
"tia" dos mais novos, entra no refeitório para pegar uns
retardatários. Vê um menino ao meu lado chupando uma
laranja e fala em tom de brincadeira mas alto e, no fundo é uma
enorme bronca: "o que você está fazendo aí'?" — ele não
responde e continua a chupar a laranja avidamente. "Você está
chupando laranja e comeu doce, hein?!" Ele balança a cabeça
afirmativamente e continua a chupar, sem olhar para ela e muito
sério. Ela: "engraçado você, né? Quer doce e laranja de
sobremesa!". Afasta-se para pegar seu pão com carne no
balcão e diz — "estou de mal com você!". Ele continua sem
nada responder. Ela: "já para fora, seu feio!". Ele então guarda
a laranja e sai em disparada. Pergunto então: "o que houve?"
Ela: "porque eu disse que estou de mal com ele? Não foi nada,
é porque hoje eu escorreguei no chão no pátio e ele me olhou e
disse bem feito!. Por isto estou de mal.". E ri querendo dizer
que tudo era uma brincadeira. Digo que pergunto o que se
passou agora. Ela responde: "Ah, ele comeu doce e laranja.
Comeu duas sobremesas.". Pergunto: "e daí?" Ela: "e daí que
não pode. Você já pensou se todo mundo quiser doce e
laranja? São quase duzentas crianças.." Respondi que não
daria, mas se ele conseguiu uma laranja e chupa, por que não
deixar, afinal ele conseguiu. Não foi ela que deu. Ela então ficou
danada, mas sempre rindo, me perguntou: "Você é filha única
por acaso?" Respondi que aquilo não vinha ao caso, o
importante era o fato dela não ter deixado ele comer e por quê?
Digo que, se posso, se tenho em casa, e tenho vontade, eu
como doce e chupo laranja e quantas eu quiser, se tenho
possibilidade. "Você não chupa, se pode?" — pergunto. Ela: "eu
chupo também" (dando a entender a fartura na sua casa). Digo:
"então o que é que tem o menino comer doce e chupar
laranja?". Ela: "é que ele depois ele vai dizer que enganou a
tia!" Pergunto: "e não pode? Você se importa com isto?". Ela: "é
verdade, eu também já fui criança e já enganei a professora!".
Mas ela estava muito sem graça. Pega os trabalhos de pintura
e nanquim que faz com as crianças para me mostrar —
estavam sobre a janela ao lado. Mostra, querendo dizer que era
dedicada e fazia coisas com as crianças — uma maneira ele
me "mostrar serviço", como dizem aqui.
No segundo exemplo a seguir veremos como a regra ele tratamento igual para todos funciona mesmo quando uma criança está em adaptação. Ou melhor, não há qualquer preocupação com a adaptação de uma criança que vem de casa e deve mudar completamente seu modo de vida para se integrar a um mundo coletivo que não conheceu antes. Apesar das "tias" perceberem que há diferença significativa, elas não levam em consideração: talvez tenham levado, neste exemplo, devido à minha presença e ao conhecimento do funcionamento institucional e da possibilidade de seguir a regra, como já haviam feito horas antes com essas mesmas crianças, levando em consideração a ansiedade da criança ao chegar ao internato.
Observo os meninos novatos: eles ainda meio assustados —
não tomam leite com sabor morango que os meninos chamam
de chiclete. E permanecem na mesa após os outros saírem.
Uma "tia" vem ver por que eles não tomaram, ela não sabe que
são novatos e nisto a "'tia" da cozinha grita: "ah, esses aí são
enjoados mesmo, não querem comer nada! Não almoçaram!".
Ambas percebem que eu observo. A "tia" dos pequenos, Alzira,
percebe que são novatos, fala com eles e logo diz para a "tia"
da cozinha: "Vocês aqui têm que comer o lanche senão à noite
terão fome e não terá ninguém aqui para lhes dar comida!".
Eles olham sem nada dizer. A da cozinha amacia a voz e
pergunta, se aproximando deles, se querem café com leite.
Eles, ainda meio sem saber o que dizer, logo dizem que não
querem. Ela insiste e o mais novo diz que quer. O mais velho,
ainda perturbado, não responde e acaba aceitando. Ela vai para
a cozinha arrumar o café com leite e nisto o mais novo diz:
"quero biscoito". A "tia" Alzira lhe diz:
"Isto não tem não, só tem pão" (mas eles sabiam que tinha,
pois tinham ganho anteriormente). E a "tia" da cozinha, que deu
o biscoito no almoço, logo diz:
"Tem sim, vou lhe dar." A outra "tia" sabia que tinha, pois
sempre tem biscoito na cozinha. Sua expressão foi muito mais
algo no sentido de que ele já esta pedindo demais. A "tia" da
cozinha lhes dá biscoito e diz: "ah, é isto que você conhece na
sua casa, não é? Mamãe lhe dá café, né?". E o menor
responde afirmativamente. E eles começam a tomar café com
leite vagarosamente. Entram então os maiores e a mesa se
enche de meninos desconhecidos.
Apesar de farta, a comida é considerada pela própria diretora como não apropriada para a idade das crianças. Os funcionários comentam que o arroz vem tão mal cozido que não dá para comer. Eles, os adultos, não comem, mas as crianças comem pois não há outra coisa. O macarrão pode vir cru, ou muito grudento. As "tias" comentam que, mesmo assim, têm ordem para insistir em que as crianças comam. Falam que elas não têm nenhum poder para reclamar da comida, pois há pessoas para fiscalizar e nada fazem, nem mesmo a diretora. Mas para as crianças, que não têm opção de comer outra coisa ou de comer em horário diferente daquele em que é servido, muitas vezes no final da refeição querem um pouco mais de comida, querem o "repite" como dizem. Vejamos uma observação de um dia como muitos outros:
Reina silêncio no refeitório. Todos comem sérios e
compenetrados. Não tem sobremesa. Só se ouve o barulho da
colher no prato de alumínio. Um menino chora e abaixa a
cabeça na mesa, mas a "tia" insiste para que ele levante a
cabeça. Durante a refeição, quando comem, não devem colocar
a cabeça na mesa. Mas ela não vai ver o que ocorre. No final,
alguns querem repetição. Não há verdadeiramente um pedido,
é algo implícito de uma comunicação tácita. A "tia" pega a