Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 9 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 8

8

 

Inicialmente não reconheci Simão. Tinha um gorro na cabeça e estava ao portão da escola a olhar para mim, alienado do resto dos miúdos que passavam por ele e o olhavam por cima do ombro como que que a questionar-se quem era aquele velho. Fiquei solidária. Quando tinha a idade deles, as pessoas com mais de vinte anos também me pareciam terrivelmente velhas. De repente, senti-me a viver um déjà vu de todas as vezes em que, quando andávamos na escola, esperara para o ver chegar de mota. Vi-o sorrir e começar a andar na minha direção. Já não era o miúdo escanzelado por quem estava perdida de amores, já não era aquele miúdo de dezasseis anos a entrar na escola de mota azul, embora, dentro de mim, estivesse congelado naquele preciso momento. E era assim que o visualizava sempre que pensava nele, embora estivesse consciente do poder arrebatador que as memórias criam dentro de nós e da carga emocional que carregam à medida que os anos passam. Chegou ao pé de mim e, de olhos franzidos, colocou as mãos nos bolsos e sorriu

— Olá — disse, olhando-me fixamente. — Ainda te lembras de mim?

— Claro, seria estranho se não me lembrasse — respondi, constrangida.

— Quem diria… — Deu uma gargalhada alta e percebi que estava nervoso ou intimidado, talvez as duas coisas ao mesmo tempo. — Na nossa velhinha escola.

— Bem, já cá não vinha há imenso tempo. — Olhei por trás dele para o edifício. — Parece outro sítio.

— É estranho, não é? Sermos indiferentes num sítio que era nosso. Ainda agora comentei com a dona Natalina. Lembras-te dela?

— A dona Naftalina? — Sorri.

— Pois era. — Deu uma gargalhada. — Estava a comentar com ela que somos todos temporários, vimos e vamos. Ninguém deixa uma marca em lado nenhum, os sítios é que vivem dentro de nós.

— Nem isso. Demoliram a escola toda, tornaram-na neste monte de betão — respondi, esfregando as mãos do frio.

— E olha para aqueles miúdos, são os donos disto tudo agora. Nós é que éramos os donos, esta escola era nossa.

Riu-se baixinho. Era notório o esforço que fazia para tentar manter uma certa familiaridade entre nós, mas o facto é que não falávamos há uns quatro anos. Pouco tínhamos falado antes, verdade seja dita.

— O que vieste aqui fazer? — perguntei.

— Voltei para cá. Vim buscar um certificado porque terminei um curso e queria organizar os meus documentos.

— Voltaste… — acrescentei, sem saber ao certo como dar continuidade ao assunto. Tinha voltado de onde?

— Escuta, queres tomar um café em qualquer lado mais logo para falarmos um pouco?

Bebermos um café os dois. Se tivesse catorze anos, isto ter-me-ia feito dar saltos de alegria em cima da cama. Mas remexer no passado deixava os sentimentos fora do sítio e as emoções à mão de semear. Passaram-me algumas lembranças pela cabeça. Eu a correr pelas terras atrás da escola para ver o que ele andava a fazer com os amigos. Ele a gritar o meu nome à janela da aula de Geografia. As cartas que lhe escrevia. Uma T-shirt verde que ele tinha. A festa no final do 9º ano. As raparigas das argolas. O beijo na praia.

— Já nos conhecemos há tantos anos — reforçou. — Não é inacreditável? Parece que te estou a ver sentada no muro com as tuas amigas. — Continuou a sorrir, enquanto alisava o passeio com o pé direito.

Conhecíamo-nos do que me parecia ter sido outra vida. E apercebi-me naquele momento que sentia falta disso. Tinha saudades daqueles tempos tão simples e inocentes em que a minha única preocupação era saber se, nesse dia, iria ver o Simão da mota azul.

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