Raparigas como Nós
Capítulo 3
3
Afonso expirou o fumo pelo nariz e ajeitou-se nos lençóis, examinando o relógio que batia as três da tarde. Mais uma manhã de sábado passada na cama a molengar, a beber café, a comer panquecas e a ouvir as pessoas lá em baixo na rua, o trânsito, os cães, as crianças, os turistas nos seus trejeitos próprios, o seu entusiasmo contagiante, mas que, afinal, nos deixava ainda mais ociosos no nosso casulo. Tinham sido semanas de felicidade, algo novo para mim, não obstante o drama que teimava em crer que estava para chegar. Mas dava por mim a sentir que estava simplesmente tudo bem. O verão passava por nós a voar como uma canção nova que não conseguimos parar de ouvir, aquela obsessão de chegar ao fim e voltar a tocar.
Esta ociosidade de sábado e domingo servia para equilibrar as semanas em que o relógio parecia andar mais devagar. Começara a trabalhar em part-time numa livraria do centro comercial, não por vontade própria, tinha de admitir. «Só vais fazer três disciplinas», dissera a minha mãe, «é bom que arranjes alguma coisa para te ocupar no interminável tempo que vais ter». Virei-lhe a cara quando me disse isto, numa noite ao jantar, mas sabia que tinha razão. Esta inércia não podia ser justificada pela minha vontade em estar com Afonso todo o meu tempo livre. E ele também trabalhava durante a semana na empresa, para mim fantasma, do pai. Na sua ausência, gostava de pensar nele. O que haveria de mais útil para fazer? Calei a vontade de o dizer à minha mãe, mas ela olhou para mim e sorriu. «Podes estar com ele ao fim do dia, mas arranja qualquer coisa para fazer», concluiu. Afonso vinha ter comigo todas as noites depois do trabalho e, nos dias em que não ia para a livraria, apanhava o comboio e ia ter a casa dele em Belém. Todo o tempo me parecia pouco e acabava por passar mais tempo com os seus amigos do que ele próprio. Ia para a praia com Alice, Ventura e os outros, que tinham um verão inteiro de férias, ao contrário de Afonso. Mas fazíamos o tempo esticar. Jantávamos fora, íamos ao teatro, ao cinema, bebíamos sangria no Bairro Alto ou ficávamos em casa dele deitados no sofá a ver filmes. Às vezes, eu lia enquanto ele jogava jogos de computador. Mas também jogávamos cartas, jogos de tabuleiro e outros antigos que ele tinha em casa, eu lia-lhe excertos de coisas que ia escrevendo e ele ouvia com toda a atenção, enquanto fumava cigarros à janela e acenava com a cabeça nas partes que mais gostava ou nas quais lhe apetecia dar uma opinião. Nessas alturas, sentia-me tão madura, tão eu, tão nós os dois, tão diferente da Isabel que fora toda a minha vida. Ele incentivava-me a escrever, todos os dias. E ter alguém a quem contar as minhas histórias sem me sentir ridícula era um sentimento novo. Uma noite, escrevi um conto sobre os seus amigos, sobre o baixote e o aviãozinho de carne e o paradoxo que era um grupo de rapazes do novo milénio comportar-se como os homens que Rabecaz e Artur Corvelo descreviam nos anos vinte. «A forma como olhas para as coisas à tua volta é absolutamente hilariante», dissera Afonso entre gargalhadas. «Tens um dom, foda-se», concluíra de forma tão entusiasta que eu própria tivera de me rir. Afonso entrou-me na cabeça e mudou até a forma como me via a mim própria, fazia-me ver possibilidades onde eu via falhas, era como se soubesse dizer as coisas certas no momento certo. «Não queres ser escritora?», perguntava. Eu ria-me. «Se vais estar a troçar de ti própria sempre que falas da tua paixão, mais vale desistires já», dissera uma vez. Para alguém que não tinha um plano de vida, era curioso ver como via tantos planos para a minha. E nem valia a pena pedir-lhe críticas, porque, para ele, tudo o que escrevia era surpreendente, admirava-se com qualquer coisa escrita por mim. Punha o cigarro de lado na boca, encostava-se à janela, franzia a testa e lia. Para quem dizia que não gostava de ler, dava-me gozo vê-lo tão concentrado. «Porque é que não envias estas histórias para algum jornal?», perguntou-me uma noite. Era apenas uma miúda a escrever umas coisas num caderno. «A arte não tem idade», respondeu-me e, subitamente, pareceu-se tanto com o meu pai que uma onda de ternura me percorreu o corpo. Porque era isso que, sem se aperceber, ele estava a fazer. Estava a ajudar-me a acreditar. Via toda essa arte em mim quando eu estava longe de lá chegar. E dizia-me todos os dias que nunca conhecera ninguém tão talentoso como eu. Como evitar, por fim, apaixonar-me por ele mais e mais a cada dia que passava quando conseguia trazer ao de cima todas estas qualidades em mim? «O amor é isto», rabisquei um dia no meu caderno, «alguém ver coisas em nós que não vemos nem sabemos que existem.» Passados uns dias, vi que ele anotara em baixo que o amor era eu fazê-lo sentir que já tinha ganhado a lotaria. E eu soube que iria guardar aquele bocado de papel para sempre.
Todos os dias ansiava por vê-lo, cada pedacinho de mim ansiava por ele. Até sentia emoção em relação ao seu carro cheio de amolgadelas e um dos espelhos partidos. Embora nunca lho tivesse dito, era tudo a essência dele. Quando o Cinema Ideal no Chiado voltou a abrir, começámos a ir lá ao fim de semana. Eu dizia à minha mãe que ia para casa do meu pai e ele dava-me toda esta liberdade porque queria que vivesse. «Estar em casa não te cria memórias e sem memórias não podes escrever», dizia. Tudo aquilo que me irritava no meu pai passara a emocionar-me, a sua visão da vida, outrora tão egoísta, agora fazia-me sentir que me compreendia melhor do que ninguém. E Afonso era as partes e o todo de tudo isto, coisas banais ganhavam uma dimensão mágica porque as vivia com ele. E nem devia imaginar a forma como me fazia ver o mundo com mais cores através dos seus olhos. Guardei os bilhetes porque, tão habituada estava às salas de cinema do centro comercial, ver um filme numa sala que parecia um anfiteatro fora fascinante e inebriante. Afonso ria-se destas experiências, achava curioso a necessidade de guardar bocados de papel e incitava-me a experimentar coisas novas. Levou-me a restaurantes onde nunca entrara e deu-me a conhecer comidas estranhas e coloridas, como a vegetariana que, até então, eu jurava ser só saladas e cenouras. Saímos muito os dois. Saímos sozinhos, o que foi bom, depois de tantas noites com os seus amigos, e descobrimos que dançávamos muito bem juntos. Mas eu não gostava de ter de gritar para ser ouvida por cima do barulho da música e a partir das duas da manhã já mal aguentava o fumo dentro das discotecas. «És uma menina», dizia entre risos enquanto saíamos de algum bar e, abraçados, apanhávamos um táxi para casa dele. Estávamos dependentes um do outro sem na realidade nos conhecermos assim tão bem. Estávamos apaixonados daquela maneira tola que só acontece aos jovens porque ainda não foram magoados ou feridos ou descartados ou traídos. Estávamos tão embriagados de paixão que nos transformámos naquelas pessoas que partilham tudo, prometem tudo, gostam de tudo e amam tudo uma na outra, cometendo o erro de acreditar que têm ali a resposta para tudo na vida.
Um dia, fomos jogar bowling com Ventura, Alice e outros amigos deles. Calçámos aqueles sapatos horríveis e de limpeza duvidosa, escorregámos pelo chão da pista, caímos, rimos e fingimos que deslizávamos no gelo com o segurança a gritar que o espaço era para jogar e não para patinar. Mas os sapatos escorregavam e era difícil evitar fazer este tipo de palhaçadas, porque, na companhia um do outro, comportávamo-nos de forma infantil, tudo era uma brincadeira que apenas fazia sentido dentro de nós. Não estávamos ali para jogar, só queríamos beber um pouco mais um do outro. Claro que mal conseguia agarrar nas bolas, mas Afonso colocou-se atrás de mim, deu-me impulso e disse para me concentrar nos pinos. Os rapazes gritaram para me desconcentrar e Afonso mandou-os calar. «Estão a gozar mas ela ainda vai ser a melhor e vai comer isto tudo», gritou. Tive de me rir quando os vi revirar os olhos. Na verdade, fui péssima. Nem sequer fiz um único strike.
— Nunca te vi assim — disse Alice quando fomos à casa de banho. Eu estava acocorada na sanita a tentar não tocar em nada, com uma mão apoiada na parede e, com a outra, a agarrar nas minhas calças para não tocarem no chão imundo.
— Assim como?
— Feliz, não? — respondeu com um sorriso trocista.
— Também acho que nunca me senti assim. É tudo um bocado parvo, não é? — perguntei, enquanto lavava as mãos.
— Claro que não — respondeu, enquanto prendia os seus caracóis num rabo-de-cavalo. — Acho que não me sinto assim com o Ventura. Não há essa cumplicidade, entendes?
— Vocês também são diferentes, não podes comparar porque isso é uma bola de neve que depois não tem volta a dar.
— Eu sei… — respondeu, pensativa. — Achas que ando a tentar ver tantas qualidades no Ventura para me convencer que gosto mesmo dele?
— Sabes o que é, por vezes parece que estás focada em ser demasiado perfeita ao lado dele — respondi, encolhendo os ombros. — Tem dias que nem te reconheço, estás sempre retraída, como se tivesses medo que ele visse a verdadeira Alice. Ela está aí escondida…
— Às vezes, penso que tenho de aceitar o facto de que o amor é uma coisa rara e que provavelmente nunca vai acontecer comigo e com o Ventura — disse, dando-me o braço enquanto saíamos da casa de banho. — Mas depois ele faz alguma coisa querida e parece que, afinal, está tudo bem.
— Se ele fizer alguma merda, parto-lhe os vidros do carro — comentei, enquanto caminhávamos novamente em direção à pista onde um dos amigos dele estava agora a lançar a bola. Alice deu uma gargalhada.
Se Alice tinha dúvidas sobre aquilo que sentia, eu tinha medo de sentir demasiado porque estava consciente da escassa experiência que tinha neste tipo de sentimentos. E nós alimentávamo-nos desta ingenuidade, alimentávamo-nos da nossa febre. Não queríamos ser o primeiro pensamento um do outro, queríamos ser o único. Por vezes, dava por mim a pensar nele enquanto fazia qualquer outra coisa e o meu coração disparava. Era como ter novamente catorze anos e o simples vislumbre de Simão na escola ser o suficiente para me disparar o batimento cardíaco. Tinha-me permitido, nos últimos tempos, pensar nisto, em Simão, porque estava noutra vida com Afonso onde mais ninguém entrava. E pensar em alguém que nunca pensara em mim já não doía. Lembrava-me como se fosse ontem da primeira vez que o vira, alguns anos antes, a entrar na escola com a sua mota azul. Tinha o cabelo loiro cortado à tigela, o rosto cheio de borbulhas e ainda não crescera nem alargara porque guardava uma memória dele a levantar a T-shirt no refeitório para mostrar o seu peito magricela, o que me fizera corar até às orelhas. Mas tal como o amor não se sussurra, grita-se, o coração não vivia de vislumbres mas de permanência. E Afonso permaneceu. «Tal como eu já gostei de outras raparigas», dissera-me um dia, «também já gostaste de outros rapazes, mas sabes que mais? Nem quero pensar nisso.» Ri-me baixinho porque não havia assim tantos rapazes como ele achava. Havia Simão e havia uma experiência meio estranha de namoro com um dos meus amigos de infância. Mas Afonso, nestes seus desatinos, esquecia-se do outro lado da moeda, também iríamos gostar de outras pessoas depois de nós. O meu cinismo era muito pragmático e consciente de que o felizes para sempre era uma fantasia. Continuava a acreditar que todos vivemos um amor que irá sempre falar mais alto no coração, por mais voltas que a vida dê. Sempre acreditara que seria Simão e ainda pensava nele, de tempos em tempos, naquela obsessão de escrever o nome nos cadernos e nos cantos das mesas nas aulas, de escrever poemas sobre ele, de tudo me lembrar dele. Ele nunca gostara de mim de volta, o que era banal, o amor não correspondido fazia parte das experiências adolescentes, e não conseguia arranjar justificação para, um par de anos depois, continuar a pensar nele. Tal como sempre fizera. Sempre a compará-lo a todos os rapazes que conhecia. E Afonso entrara na minha vida e abanara os alicerces de tudo o que vivia dentro de mim. Porque não havia comparação com ele, não havia forma de equiparar Simão às experiências que Afonso me fizera viver.
Um dia, a meio de julho, Afonso perguntou-me se queria ir à Costa da Caparica passar o dia na praia com os amigos dele. Não seria o meu plano favorito, mas um dia inteiro com ele era demasiado convidativo. Partimos de manhã bem cedo para fugir ao trânsito estival da ponte e fomos os primeiros a chegar. Colocámos o meu chapéu às riscas amarelas na areia e descemos até à beira da água.
— Vamos nadar até lá ao fundo? — perguntou, molhando os pés.
— Hum… — hesitei. Não sabia nadar, o que fazia com que morresse de medo de mar, barcos e tudo o que estivesse envolvido. — Acho melhor não.
— Não me digas que não sabes nadar?
— Sei, mas tenho medo do mar — menti. — Prefiro piscinas.
— Vens comigo e eu seguro-te.
— Não sei nadar, pronto — assumi, atirando-lhe areia com o pé.
— Anda cá. — Ele abraçou-me por trás e lentamente entrámos na água. — Vamos só ficar aqui e vais deitar-te de barriga para cima e eu fico a agarrar-te.
— Não quero! — gritei, fugindo de volta para a areia. Ele puxou-me a mão.
— Vais adorar. Boiar é a melhor sensação do mundo. Deixa-me fazer isto contigo.
Respirei fundo e deixei que me agarrasse e lentamente me deitasse na água.
— Deixa a cabeça pousar — disse baixinho. — Tens de ter as orelhas na água, caso contrário a água puxa-te para baixo. Descontrai o corpo, eu estou a agarrar-te por baixo.
E ali estava eu a boiar, confiante de que me estava a agarrar quando, com uma gargalhada, colocou as suas mãos no meu campo de visão.
— Vês? — disse, sorrindo. — Estás a boiar e nem sequer te apercebeste.
E a sensação foi de uma liberdade inexplicável que nunca antes sentira. O flutuar, o estar ao cimo da água como se o meu corpo fosse feito de nada. Comecei a rir, primeiro devagar, depois cada vez mais alto. Ele voltou a colocar as mãos por baixo de mim e puxou-me para ele num abraço para me levantar.
Quando os seus amigos chegaram, juntou-se um grupo de quase dez pessoas em torno do meu simpático chapéu amarelo de que Afonso se rira e, agora, todos aproveitavam a sombra para colocar as mochilas. Eles jogavam à bola, às cartas, conversavam, fumavam charros, iam à agua, voltavam, molhavam-nos e, à tarde, foram buscar cerveja e Coca-Cola para todos. E tinha vontade de me premiar com uma medalha de honra porque estava a portar-me bem. Nem tinha revirado os olhos quando se meteram com umas raparigas que estavam a uns metros e que, entretanto, já se tinham juntado a nós. Afonso ora jogava com eles e deixava-me a conversar com as raparigas, ora vinha deitar-se ao meu lado. Falávamos entre sussurros na toalha, ele colocava-me protetor solar nas costas e, entre risos, nas bochechas do rabo. E quando lhe disse que me apetecia um gelado, saltou da toalha e foi ao bar comprar um Cornetto de nata. Eram estes pormenores que me faziam apaixonar ainda mais por ele, o facto de se ter lembrado de uma conversa em que lhe dissera que era o meu gelado favorito, ao que respondera com grande convicção que gelados com bolacha não eram gelados a sério e que só comia Calipos de limão. Aquele dia de praia teve um impacto profundo em mim, na minha parca experiência com o amor. Já não era aquela miúda de catorze anos sentada na areia a ver Simão na água com as raparigas mais velhas. Agora eu era uma dessas raparigas a ver o pôr do sol encostada ao peito deste rapaz incrível que me adorava e me tratava como se fosse a única rapariga à face da Terra. Quando nos fomos embora, passámos por um miúdo que estava a vender pulseiras na areia e nos abordou, implorando que lhe comprássemos alguma coisa. Eram horríveis.
— Odeio pulseiras e bugigangas nos braços — disse Afonso a olhar para os seus próprios pulsos nus. Nem relógio ele usava.
— Então damos-lhe umas moedas — respondi. — Eventualmente, o dinheiro faz-lhe falta para levar para casa.
— E se usarmos pulseiras iguais?
— Vamos ser uns saloios.
— Mas vamos ser saloios juntos. — Sorriu.
Pegou em duas pulseiras pretas e brancas e deu algumas moedas ao miúdo. Quando nos sentámos no carro, colocou uma pulseira no meu pulso direito e pediu-me para colocar a outra no seu. «Ficamos um pouco ridículos com duas pulseiras iguais», disse-lhe. Ele desvalorizou e disse que era mesmo assim que tinha de ser. Demorei algum tempo a perceber que Afonso não gostava das pulseiras; gostava era da ideia de usar alguma coisa que simbolizasse o que nós tínhamos. Estava sempre a dizer a toda a gente como a pulseira era horrorosa, mas gostava de a mostrar. Gostava que todos vissem as nossas pulseiras idiotas porque era algo só nosso.
Às vezes, nem sequer fazíamos nada. Ficávamos no sofá a conversar como se os assuntos nunca se esgotassem. Todos os dias sentia que havia algo mais para conhecer, algo novo para descobrir sobre ele. Um dia, apercebi-me de que ele escrevia com a mão esquerda, mas comia com a direita e quase me emocionei com este pormenor estúpido. Ele era um cosmos de pequenos detalhes que me apaixonavam mais, e surpreendia-me por isso ser sequer possível. Uma vez, fomos ao Gerês num fim de semana e acampámos, coisa que jamais me imaginara a fazer, passar uma noite fora com um namorado apenas existira nas minhas fantasias. Ele ria-se com todas as coisas de que me queixava, do escuro, do frio, dos barulhos, da casa de banho longe, das ervas, dos bichos, de tudo. Mas nessa noite não dormimos, falámos. Estávamos acampados no Parque Nacional Peneda-Gerês, nas margens do rio Cabril, e conversámos tanto que, ao nascer do Sol, nem sequer reparei na cor que o céu tinha por cima da paisagem assombrosa de serras e rio. A minha paisagem era apenas ele. Sempre que precisava de parar para me lembrar do quanto o amava, bastava-me pensar nisto. Estava no cume do mundo e via-o apenas a ele.
Noutra noite em que o meu pai fora para fora com Maria João e os gémeos tinham ficado com os avós maternos, Afonso chegou a minha casa com uma garrafa de vinho, agarrou-me pela cintura com uma mão e beijou-me o pescoço.
— Quero embebedar-me e foder-te na sala do teu pai — declarou.
— O que é que te deu? — respondi, surpresa. Também um pouco envergonhada.
— Ah! Está uma noite quente e eu quero beber e tocar-te, não necessariamente por esta ordem. — Sorriu, beijando-me na boca.
— Mas podemos ir beber um copo a um bar, não? — perguntei, antevendo a resposta.
— Se me deixares tocar-te debaixo da saia no bar, podemos ir. — Agarrou-me as nádegas com a mão com que me tinha agarrado a cintura.
Ficámos em casa. Deixei que me despisse, que encontrasse o caminho para o meu corpo. O único barulho que rompia o nosso silêncio era o dos carros que passavam lá fora, das conversas abafadas de pessoas que subiam e desciam a rua e, volta e meia, fragmentos de música de algum bar cuja porta tinha sido aberta algures ali perto. Éramos nós contra o mundo. Bebemos muito e depois beijámo-nos preguiçosamente, deixando que o tempo passasse por nós, nus, deitados numa manta no chão de barriga para cima. A dada altura, ele levantou-se e foi por um dos discos do meu pai de Nina Simone a tocar. Parou à minha frente e levantou-me do chão. Puxou-me a cintura com a mão esquerda e, com a outra, agarrou a minha mão e moveu-me ao som da música. Os nossos corpos nus tocaram-se na escuridão da sala, apenas iluminada pelas luzes da rua, os meus seios contra o peito dele. Noutros tempos, teria ficado incomodada com a nudez, inibida pela liberdade do meu corpo nu que se movia sozinho. Mas não agora, ele não se incomodava com isso. Como não amar alguém que, ao invés de se importar com o tamanho das minhas pernas, queria dançar comigo nua no meio da sala?
Contudo, Afonso estava longe de ser perfeito, amava-o, mas conseguia ver-lhe os defeitos. Não acreditava na perfeição, nem sequer naquela que o amor jovem me fazia imaginar. Fumava — fumava muito. E se, ao início, os seus lábios a expirar para o teto de forma arrogante me fascinavam, agora conseguia perceber que fumava demasiado. Era caprichoso, tentava sempre tudo à sua maneira, levando-me, por vezes, à exaustão. Tinha aquele tipo de personalidade que, por vezes, me fazia duvidar das minhas próprias ideias, o que podia ser visto como passional ou somente um reflexo da nossa diferença de idades. Podia estar com ele o dia todo, mas chegava a casa, pensava nas nossas conversas e sentia que, afinal, tinha ficado tudo por dizer. Ele era demasiado reservado, bastante hábil em desviar as conversas para os outros e sabia que havia muitas coisas que não me contava. Não que tivesse medo que me enganasse ou mentisse. Afonso era honesto, generoso e humilde relativamente a tudo. Mas, por vezes, questionava se aquilo que o tornava insaciável aos meus olhos não seria apenas tudo aquilo que ele parecia não dizer. E embora os seus silêncios não me incomodassem, ele fizera-me sentir confortável e em paz na nossa solidão partilhada a dois, sabia que, provavelmente, demoraria toda uma vida a conhecê-lo a fundo.
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