Raparigas como Nós
Capítulo 9
9
Estávamos encharcados, gelados e famintos quando chegámos a casa de Simão. Estava a viver na casa do irmão em Carcavelos até encontrar um sítio para ele, recusara ficar no hotel como o pai lhe sugerira. Era a primeira vez que estava a ver as coisas dele. Tinha livros estranhos espalhados pela secretaria na sala, uma prancha encostada à parede e um móvel do chão ao tecto a abarrotar de filmes. Tomei um banho quente e Simão deu-me um pijama de xadrez verde para vestir. Ficava-me enorme e rimos em frente ao espelho, enquanto fazia dobras na cintura para as calças não me caírem. Encomendámos piza e comemos no tapete do chão da sala, com a televisão ligada para fazer música de fundo. Como se precisássemos disso para nos entretermos. Sempre que o meu pai passava fins de semana fora com Maria João, eu e Simão ficávamos em casa em pijama a conversar, a ver filmes, a ouvir música, a ler revistas e livros. Ele andava viciado nos livros chatos de Robin Sharma, surpreendendo-me com todas estas pequenas coisas que ia conhecendo e que o afastavam cada vez mais do rapaz de dezassete anos que teimava em viver na minha memória. Trocávamos histórias de infância e, num dia especialmente bom, falhei-lhe de Afonso. Não tudo, só o necessário.
— Sabes a que é que cheira a tua casa? — perguntei.
— Cheira mal? — questionou, abrindo a boca e puxando um fio de queijo pelo ar.
— Não sei explicar mas cheira exatamente ao que me lembro de ti.
— Espero que seja bom — respondeu com uma gargalhada.
— Uma vez, emprestaste-me um chapéu estúpido às flores, lembras-te? — Ele pensou mas não se recordava de chapéu nenhum. — Não interessa, emprestaste-me e a minha memória é melhor do que a tua. — Ele riu-se alto e tirou a última fatia de piza com queijo, a minha parte era sem, e colocou-a toda dentro da boca. — O chapéu cheirava a ti e eu dormi com ele debaixo da minha cara. Provavelmente, devolvi-to babado no dia seguinte.
— Lembro-me de te dar um porta-chaves que tinha feito numa aula de artes — disse, o que me surpreendeu. Nunca lhe contaria que o lambera na cama.
— Porque não gostavas dele, aposto.
— Porque gostava de te provocar. — Levantou as sobrancelhas em gesto sedutor.
Empurrei-o e ele pegou na última fatia de piza sem queijo, tentei tirá-la das mãos, ele levantou-a no ar e começou a beijar-me como técnica de distração.
— Esta era a casa da minha mãe — disse, por fim, dando-me o resto da fatia. — O meu irmão mora cá agora mas foi aqui que cresci quando viemos para Portugal.
— Eu sei. — Revirei os olhos. — Deixei-te aqui cartas na caixa do correio. Não foi um dos meus melhores momentos.
— Espera aí — disse, levantando-se.
Quando voltou trazia uma caixa velha de sapatos. O meu coração acelerou. Ele sentou-se ao meu lado, afastou o prato com os restos da piza e colocou a caixa à minha frente. Abriu-a e ali estavam, como despojos de guerra, postais, envelopes coloridos, folhas de papel amarrotadas, dezenas de post-its esborratados e umas fotografias da visita de estudo que fizéramos. Ver aquilo deixou-me emocionada, mais do que embaraçada, que fora o que imaginara que iria sentir. Ele guardara mesmo aquilo tudo, tivera significado para ele. À medida que ia tirando papéis da caixa e lendo pedaços de coisas que escrevera, passaram-me fragmentos de memória pela cabeça. Respirei fundo e olhei para ele.
— Sabes qual é o problema da Marisa? — perguntou-me. — Ela nunca vai saber o que é isto. — Apanhou algumas cartas e espalhou-as à minha frente. — Ela nunca gostou assim de ninguém, nem ninguém gostou assim dela.
— A sério, não quero falar sobre ela — pedi. Peguei numa carta e virei-a nas mãos, tinha restos da forma da minha boca cor-de-rosa porque beijara a carta com um batom da minha mãe. Isto era o limite da emoção, a humilhação agora tomara conta de mim.
— Mas tens de compreender isto para conseguires passar por cima do quer que ela te faça sentir. — Pegou-me na mão. — Tudo isto é das coisas mais puras e bonitas que alguém pode fazer. Gostar sem pedir nada em troca e ter esta capacidade para falar de amor quando todos fugíamos dele.
Dei uma gargalhada estúpida, mas ele continua.
— Todos os gajos andavam atrás da Marisa e ela provavelmente nunca gostou de nenhum deles. — Encolheu os ombros e olhou para mim. — Ela gostava da sensação de gostarem dela porque era isso que precisava de sentir. E isso pode parecer divertido quando temos dezasseis anos e queremos ser especiais, mas também a tornou numa miúda que não sabe o que é gostar de alguém porque nunca teve ninguém a gostar realmente dela, nem os pais. — Hesitou, mas mudou de assunto. — Podia contar-te mais coisas, mas também não vale a pena. É só que ela é uma miúda fria e desligada dos sentimentos dos outros porque também não teve uma vida fácil.
— Parece que estás a querer defendê-la ou a vender-me uma versão dela mais cor-de-rosa — repliquei, encostando-me numa almofada.
— Não é nada disso. Tu és especial, és tão mas tão divertida, não fazes coisas só porque os outros fazem, o que, acredita, é incrível, e falas tanto, mas, olha, adoro quando falas e te pões com os teus monólogos. — Suspirou. — Adoro quando gostas de uma música e ficas a ouvi-la vinte vezes seguidas e quando vais no carro e, se calhar nem te apercebes, começas a cantar e a olhar pela janela como se a tua vida fosse um videoclip. E as músicas lamechas que ouves? Deixam-me maluco, mas agora, quando as ouço no rádio, só me lembro de ti. Fazes caretas quando estás a olhar para o espelho. E, quando estás a ler, mexes os lábios. Quando estás a escrever, trincas a língua com os dentes da frente. E consegues ser simpática com toda a gente, mesmo com as pessoas de quem não gostas. Achas que não reparei em como estavas a falar com eles como se as conversas que estavam a ter tivessem algum interesse? — Respirou fundo e sorriu. — Percebes? Não te compares com a Marisa, não deixes que essas coisas que imaginas te afetem.
— Assim vais fazer-me chorar — respondi, saltando para o colo dele. Coloquei as mãos no seu rosto tão bonito e beijei-o. Enrolámo-nos no meio do tapete com as pernas entrelaçadas e deitámo-nos. Encostei a minha cabeça ao seu peito e fiquei a ouvir o seu coração bater de forma compassada.
— Ah! — Lembrei-me. — Qual é a alcunha que lhe davam?
— Não vou dizer porque são coisas idiotas.
— Por favor, tens de me dizer.
— Era a Mariporca, tipo uma mariposa, entendes? Como uma traça porque comia todos. — Deu uma gargalhada. — É horrível, eu sei, mas éramos miúdos e ela foi para a cama com todos.
— E qual é o problema de ter ido para a cama com todos? — perguntei. — Até parece que o fez sozinha.
— Eu sei, Isabel. Não estou a dizer que concordava com a alunha.
— Contigo também?
— Comigo também — respondeu, beijando-me a mão. — Mas, em minha defesa, era um miúdo e era mesmo muito estúpido.
— E como é que o Zeca está com ela? — Coloquei-me de lado e apoiei a cabeça na mão. — Ele parece tão porreiro.
— Não faço ideia como é que isto aconteceu. Nem sabia que eles estavam juntos, mas o Zeca sempre teve uma paixoneta por ela. Amanhã telefono-lhe.
— Sabias que, quando te devolvi estas fotografias, fiquei com cópias para mim? — Peguei nas fotografias que lhe tirara na visita de estudo anos antes e que, num dramatismo, lhe devolvera semanas depois.
— Imaginei que sim. — Riu-se alto. — Na altura, custou-me acreditar que as estivesses a devolver assim sem mais nem menos depois de todo o trabalho que tiveram para as tirar.
— Eras tão perspicaz — respondi, despenteando-lhe o cabelo.
— Esta noite foi intensa. — Deitou-se no tapete de barriga para baixo. — Preciso mesmo de fumar. — disse enquanto se agarrava à minha cintura. — Importas-te que faça um?
Olhei para ele e sorri. Nunca diria que me importava, queria que fosse ele próprio ao pé de mim. Não queria que se escondesse nem que se sentisse impedido de fazer o quer que fosse que quisesse fazer.
— Não fumaste lá em casa do Zeca porque eu estava lá?
— Não fumei porque não quis e porque quando estou contigo não tenho vontade.
— As palavras certas no momento certo. Significou mesmo muito para mim, porque me estava a sentir completamente deslocada.
— Eu sei que estavas. — Sorriu. — Vamos encontrar um meio termo.
Dei-lhe um beijo no canto dos lábios, levantei-me e fui para a cozinha.
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