Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 27 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 17

17

 

No início de agosto, a minha mãe deixou-me ir para o Alentejo com Alice e os pais dela. Marina tinha ido para casa dos avós na Covilhã e Luísa estava no Algarve com os pais. Os primeiros dias na praia da Lagoa de Santo André foram calmos. Passávamos as manhãs com os pais de Alice na piscina, na praia ou no terraço e, durante a tarde, ficávamos por nossa conta. A praia não tinha fim e a areia queimava-nos os dedos dos pés a cada passo, mas era um areal tão extenso que, não obstante os miúdos a fazer surf ou bodyboard e as famílias com crianças espalhadas pela areia, dávamos por nós, muitas vezes, sozinhas a olhar para aquela massa de água. Em algumas noites, os pais de Alice deixavam-nos ir até ao bar da zona até à meia-noite. Sempre que debatíamos a possibilidade de estender a hora, o pai dela tirava os olhos do jornal, baixava os óculos da cara e perguntava se preferíamos ficar em casa a ver televisão com eles. E nós concordávamos que meia-noite era uma hora fabulosa para voltar para casa e corríamos porta fora em direção ao bar. Conversávamos com os miúdos que frequentavam a zona, jogávamos matraquilhos e subíamos, por vezes, de bicicleta até ao castelo.

A meio de agosto, Filipe e o irmão de Alice vieram também para o Alentejo e a sua chegada foi recebida com grande entusiasmo por nós. Com os rapazes, já poderíamos sair mais vezes e ficar menos presas em casa. Vi Filipe chegar com a sua mochila ao ombro, alto, magro e com o cabelo espetado. Estava moreno, talvez dos treinos de futebol no verão, e senti uma onda de afeto pelo meu amigo, ainda que ele não tivesse mostrado a mínima emoção por me ver. A primeira coisa que me perguntou foi: «Então, já tiraste o Simão da cabeça ou esse palhaço ainda é motivo de conversa aqui?» Simão ainda era, de facto, motivo de conversa, mas do que falaríamos nós se não das nossas angústias? Naquela altura, tudo era vivido ao limite e alimentávamos todas estas mágoas com um certo adorno porque sofrer fazia parte da magia do amor. E todo aquele sofrimento era miserável e fascinante. Filipe veio tirar-nos deste torpor saudoso porque não queria nem ouvir falar do assunto. Nos primeiros dias com ele na Lagoa de Santo André, fizemos longas caminhadas pela vila e pela praia. O irmão de Alice, mais velho, já tinha amigos por lá, saía cedo de casa e pouco estava connosco. Começámos a sair todas as noites porque, na companhia de Filipe, o pai de Alice já não via mal nisso, só pelo facto de ele ser rapaz. Íamos ter com os miúdos que já conhecíamos, entre eles Fred, que engraçara com Alice, e passávamos o dia todos juntos na praia. Ávidos como estávamos pela companhia um do outro, embora sem nos apercebermos, Filipe e eu passeávamos ao longo da água durante várias horas. «O Fred beijou-me», disse Alice numa noite. «Só faltas tu, Isabel», gozou Filipe, o que me fez sentir com uma força feroz tudo o que perdera, presa como estivera à fantasia de Simão.

Umas noites depois, fomos à feira. Havia carrinhos de choque e carrosséis, a música era animada, os rapazes da zona davam-nos fichas para andarmos nos carrosséis e toda aquela atenção que, até então, não conhecíamos era inebriante. Nessa noite, Filipe e eu andámos na roda gigante e, lá em cima, ele deu-me a mão e escondeu o meu rosto no seu peito para acalmar as vertigens que me estavam a deixar tonta. Claro que, hoje, conseguia perceber que Filipe era apaixonado por mim, ainda que, obcecada por Simão, nunca tivesse visto que, mesmo ao meu lado, o meu amigo via em mim tudo o que eu via em Simão. Talvez tenha sido Alice a empurrar-nos um para o outro porque, para ela estar com Fred, enquanto os seus pais achavam que estava connosco, eu e Filipe acabámos por passar muitos dias sozinhos na praia.

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