Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 44 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 2

2

 

Dei por mim parada certa tarde na Gran Via, a Broadway espanhola, a pensar no que haveria de fazer. Não me apetecia andar em lojas e já vira todos os filmes que estavam no cinema onde Lolla trabalhava algumas tardes por semana, pelo que estava por minha conta. Ainda não fora ver o Palácio Real, estava calor, sabia que havia um jardim por lá e sentar-me à sombra a ler parecia-me um bom plano. Foi aí que descobri os Jardins do Campo del Moro por trás do Palácio Real, tranquilos, sem turistas, com lagos de patos, fontes e um jardim de rosas. Depois de deambular e de tirar algumas fotografias, desci até lá abaixo e sentei-me finalmente num banco no meio da rosaleda, o jardim das rosas. Estava exausta e doíam-me os pés. Descalcei as sandálias de tiras, mexi nos dedos como que para os alongar e deixei que os meus pés se esticassem ao sol. Levantei os olhos e vi-o como uma visão da qual sentimos necessidade de esfregar os olhos para ver se é real. Foi assim rápido e cru sem qualquer prenúncio ou sinal. Pouco mais de três semanas depois de chegar a Madrid, encontrei-o sem nunca ter feito por o encontrar, sentado num banco do outro lado do jardim a comer um gelado de um copo branco e a ler um pequeno livro de bolso. Quase precisei de me beliscar para perceber se era real. O seu cabelo, mais comprido do que me lembrava, estava despenteado, a barba por fazer, todo ele naquele desalinho de sempre. Tinha uma T-shirt branca, sem nenhuma banda estúpida, umas calças de ganga caídas na cintura e uns ténis velhos. Senti um trovão percorrer o corpo, o meu estômago revirou-se e quase que podia jurar que a merda das borboletas me subiram até à garganta. Engoli em seco e olhei em volta, ainda podia levantar-me discretamente e sair dali. Mas as minhas pernas não colaboraram, fiquei colada ao banco com o coração caído aos pés. Então ele levantou os olhos do livro e olhou para mim. Vi-o lentamente a passar da surpresa ao espanto. Ficámos simplesmente quietos a olhar um para o outro. Ao fim de uns segundos, ele fechou calmamente o livro, colocou-o no bolso de trás das calças, levantou-se, deitou o seu copo no lixo e veio até mim.

— Olá — disse com as mãos nos bolsos. O meu coração desintegrou-se ao som da sua voz.

— Olá. — Cruzei as pernas no banco e, sem saber o que fazer com as mãos, comecei a estalar os dedos.

— Isto é um bocado estranho, não?

— Pois, parece-me que sim.

— Posso sentar-me? — perguntou, por fim. Tirou o livro do bolso e sentou-se ao meu lado. Olhei de relance, era O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Sorri discretamente.

— É um bom livro — disse-lhe, sentindo um choque quando os nossos olhos se cruzaram, agora a menos de meio metro de distância. — Não sabia que lias. Hum, como é que foi que disseste? Estas coisas chatas da escola.

Ele deu uma gargalhada.

— Pois, ando a tentar alargar os meus horizontes.

— Parece-me muito bem.

Ficámos em silêncio durante algum tempo.

— O que estás aqui a fazer? — perguntou.

— Vim numa espécie de intercâmbio durante dois meses.

— E estás aqui há quanto tempo?

— Quase há um mês.

— Sozinha?

— Sim, vim sozinha.

Mais silêncio.

— E o teu trabalho? — perguntei com os nervos agarrados ao estômago.

— Está a correr tudo bem. Tenho esta semana de férias.

— E fazes o quê?

— Estou a gerir uma equipa portuguesa aqui.

— Mas fazes o quê?

— É uma empresa de publicidade ibérica e fazemos campanhas, tanto para marcas espanholas como portuguesas. Eu estou no departamento português e faço parte da equipa criativa. Mas agora estou de férias, não quero pensar nisso.

— E não vais a casa?

— Era para ir, mas decidi ficar por cá no último momento.

— Porquê?

— Não me apetecia ver toda a gente.

Acenei com a cabeça mas não respondi.

— Isabel… — Olhou para mim. Adorei ouvir o meu nome, mas o tom soou-me a problemas.

— Sim?

— Naquele dia, quando nos vimos, lembras-te? — Olhei para o chão porque tinha o estômago colado às costas de nervos. — Deste-me cabo da cabeça.

— Como assim? — perguntei, surpreendida. — Estás a brincar comigo, não?

— Foste-te embora.

— Tu ignoraste-me.

— Não estava à espera de te ver — disse num sussurro.

— Eu também não estava à espera de te ver, mas fiquei ali feita idiota de pé com os teus amigos a olhar para mim. — Estava a tentar controlar a irritação na voz e a dor crescente que me subia até à garganta. — E tu nem sequer te levantaste. Aliás, fingiste que nem sequer me conhecias.

— Não foi isso — interrompeu-me. — Escuta — agarrou-me nas mãos e os seus dedos ao tocar nos meus foi como uma transfusão de energia capaz de me fazer voar até à China —, tu não tens sequer a noção do que eu passei.

— E eu não passei? — perguntei, libertando-me das suas mãos ainda com o coração a retumbar no peito.

— Tenho um milhão de coisas para te dizer. — Voltou a interromper-me. — Por favor, ouve-me.

Dobrei os joelhos para o peito, abracei as pernas e deixei-o falar.

— Os primeiros meses que passei aqui em Madrid foram um autêntico inferno. Não te consigo explicar o vazio que senti. Não me apetecia fazer nada, o trabalho parecia-me a maior merda e não tinha paciência para ninguém, já nem sequer sabia por que raio tinha aceitado este emprego. Ligava quase todos os dias ao Ventura para saber de ti, mas ele também pouco ou nada me dizia. Não gozes comigo — olhei para ele com surpresa —, mas foi nessa altura que comecei a ler os teus livros. Sentia-me de alguma forma perto de ti ou talvez fosse só uma forma de continuar a lembrar-me de ti ou de tentar compreender-te melhor, nem sei. Meti na cabeça que tinha de ler tantos quanto possível para, quando te visse, te falar nisto, era a minha desculpa para te procurar. Quase um motivo inconsciente para ter assunto para falar contigo e tentar resolver as coisas. Sempre que ia a casa, o Ventura dizia-me que ninguém te via há meses, que tinha de tirar isto da cabeça e seguir em frente. Quando a Alice esteve cá com eles, tentei falar com ela, mas só me disse que não era justo querer voltar a entrar na tua vida se não tinha sequer intenção de voltar para Lisboa. Fiz o que era suposto, afastei-me e tentei seguir em frente, passei a merda de um ano aqui sozinho. No ano passado, o Ventura disse-me que achava que ias à festa de passagem de ano e fiquei maluco, tinha de ir. Passei a noite toda à espera que aparecesses, estava sempre a olhar para a Alice para ver se ela dava qualquer sinal de que estavas a chegar. Não tive coragem para lhe perguntar por ti novamente, queria fingir que era uma surpresa para mim ver-te lá. Quando a meia-noite se aproximou e percebi que não vinhas, fui-me embora e vim diretamente de carro para cá. Conduzi durante toda a noite e, no dia seguinte, já com as ideias arrumadas, mentalizei-me que não podia continuar a alimentar isto. Acabei por me cruzar com a Alba, com quem me viste no jardim em Belém. Ela tinha vindo passar a passagem de ano com umas amigas e encontrei-a no Templo de Debod. Fomos colegas em Direito mas já não a via desde essa altura, trocámos contatos e começámos a falar a partir desse dia. No fim de janeiro, ela veio cá passar o fim de semana comigo. Sabes quanto tempo demorei a esquecer-me de ti? Nunca me esqueci. E só me apercebi disso quando ela viu uma fotografia nossa colada no frigorífico e perguntou quem eras. Nem sequer me pediu para tirar a fotografia de lá, disse-me que tirar alguém do coração levava o seu tempo. Acabei por ver nela uma companhia e alguém que me fazia rir e não me pedia promessas de nada. Se me perguntares se estava apaixonado por ela, nem te sei dizer. O Ventura disse-me que estavas numa relação e a verdade é que ela acabou por preencher esse vazio, nem que fosse de forma virtual, porque passámos mais tempo a falar ao telefone do que realmente juntos. — Parou, finalmente, como que para ganhar fôlego, respirou fundo e continuou. — Quando te vi em Belém, ela percebeu que eras tu. E foi ela que me disse para ir atrás de ti e dizer as coisas que precisava de te dizer mas não tive coragem. Quando te vi, Isabel, fiquei arrasado por te ver a chorar e percebi que não podia voltar a impor-me na tua vida. Mas também não podia continuar com a Alba porque não estava a ser justo com ela. Continuava a ler os teus livros para me lembrar de ti e a nossa fotografia continuava colada na merda da porta do frigorífico porque nunca a consegui tirar. Mesmo sabendo que isso era masoquista e indulgente. E é isso. Estava aqui com mais um livro e, quando te vi, pensei que a minha cabeça tinha atingido o limite e já estava com alucinações…

 

O silêncio caiu pesado em cima de nós. Passara os últimos minutos a ouvi-lo falar e a lembrar-me do quanto sentia a falta dele. Estava a tentar raciocinar à medida que recebia esta dose abismal de informação. Era como se ele tivesse guardado durante todo este tempo todas estas coisas por dizer e agora estivesse a expulsá-las num alívio feroz. Quanto mais olhava para ele, mais me recordava de coisas de que sentira falta, o seu rosto, a sua voz, o seu cheiro, a sua forma de enrolar as mãos quando estava nervoso e, agora, voltava tudo em jorros.

— O que leste? — perguntei, por fim, porque tinha de dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar com clareza com o barulho do meu coração a bater de forma gritante nos meus ouvidos.

Ele sorriu embaraçado.

— Bem, deixa cá ver… — Parou a pensar. — Li Gatsby, O Monte dos Vendavais, e não entendo o fascínio pelo Heathcliff, que é apenas um filho da puta arrogante. Hum, Jane Eyre, que foi bom, gostei da louca no sótão, foi uma boa reviravolta. Deixa ver mais… A Cor Púrpura, À Espera no Centeio, O Retrato de Dorian Gray, li também Lolita porque me deste aquele sermão sobre o Nabokov, mas não consegui terminar Anna Karenina porque achei um dramalhão do pior. Gostei de Paris é Uma Festa e até li Orgulho e Preconceito que me aborreceu de morte mas consegui perceber a cena do Darcy. — Deu uma gargalhada baixa. — E porque eras tão obcecada pelos portugueses, li Os Maias, que confesso que nunca tinha lido na escola e surpreendentemente gostei. Li também o Amor de Perdição, A Sibilia, Ensaio sobre a Cegueira, e agora vou n’O Primo Basílio.

— Não sei o que dizer — disse, surpreendida.

Ele olhou para mim em silêncio. Vi-o a morder o lábio inferior, conseguia perceber que estava à espera que dissesse qualquer coisa, que lhe confirmasse que também passara as passas do Algarve, mas já fizera esse luto. Sempre fora o género de pessoa que passava muito tempo a imaginar conversas que nunca iriam acontecer. E imaginara esta tantas, tantas vezes, mas, na minha imaginação, ela nunca aconteceria realmente. E agora estava a acontecer, era Aerosmith a tocar repetidamente na minha cabeça.

 

— Ouvi Aerosmith durante imenso tempo — disse-lhe, por fim. — E depois deixei de ouvir porque já não aguentava mais pensar em ti.

— Porquê?

— Porque era a música que estava a tocar na praia quando nos beijámos na areia. E estava sempre a ouvi-la e a reviver esse momento. E, depois, sempre que dava na rádio, mudava imediatamente de estação porque sentia que me iria explodir a cabeça se chegasse ao fim do refrão.

— Não prestei atenção à música que estava a dar — disse, pensativo.

Ficámos calados durante algum tempo, mas já não era um silêncio incómodo. Era apenas um reajustar de ideias.

— Durante muito tempo, parecia que já tinha sentido tudo o que havia para sentir contigo — disse-lhe, respirando fundo. — Era como se tudo o que fosse viver depois de nós fossem versões inferiores daquilo que já tinha vivido. Não fui à festa de passagem de ano exatamente porque tinha medo de te ver. Quando te foste embora, fui-me completamente abaixo. Deixei de ir às aulas, não queria ver ninguém. Bem, foi um exagero… — desvalorizei, mas ele olhou para mim e senti-lhe toda a dor. — Depois desses primeiros meses tão maus, já estava melhor, entrei na universidade, a vida continuou e não queria ver-te nem voltar a esse lugar. No ano passado, a Alice disse-me que tinhas ido mas nem quis saber porque era mais fácil assim. Também reencontrei uma pessoa e estivemos juntos até agora e foi isso, foi um pouco parecido com o que me contaste.

— Ainda estás com essa pessoa? — perguntou sem rodeios.

— Não.

— Porquê?

— Porque… — Parei para pensar a qual porquê queria responder. — Por um monte de coisas que agora não vêm ao caso. Desculpa, não me apetece falar sobre isto.

— E acabaram antes de vires para cá?

— Sim.

— E estavas aqui sentada a pensar nele? — sorriu, mas percebi que foi um sorriso para tentar esconder o embaraço de ter perguntado isto, mas, pior, de querer realmente perceber se era essa a verdade.

— Não. — Dei uma gargalhada. — Vim aqui porque a Lolla está a trabalhar e ainda não tinha vindo a este palácio.

— Quem é a Lolla?

Falei-lhe sobre ela, expliquei que estávamos a trabalhar no intercâmbio das línguas e que nos tornáramos amigas. Disse-lhe o cinema onde ela trabalhava e onde vira todos os filmes nas últimas semanas, comentei o ridículo que era ver tudo dobrado em espanhol, como os desenhos animados que víamos na nossa infância dobrados em brasileiro. Falámos de todas estas coisas corriqueiras para amenizar a tensão entre nós ou o que ambos queríamos e esperávamos fazer, mas não sabíamos por onde começar. Inclinei a minha cabeça para trás e tentei lembrar-me do meu mundo antes de Afonso entrar. E fiquei apavorada porque já estava a antecipar o momento em que esta conversa se iria esgotar. Tinha medo que isto, o quer que estivesse a acontecer aqui, fosse apenas o adequado adeus que merecíamos e que não tivéramos à porta do Museu de São Roque.

 

— O mais estranho — disse ele — é que nem costumo vir aqui. Passo normalmente mais tempo no Retiro, porque é maior e tem mais sítios para estar. Imensa gente fica lá a apanhar banhos de sol ao pé do lago como se aquilo fosse a praia. Coitados, sabem lá o que é a praia.

— Então, porque vieste hoje? Sentiste um chamamento especial?

— Nem gozes com isso. Conheces a lenda deste jardim?

— Não, mas a Lolla está sempre a contar-me lendas. Já percebi que Madrid é só fantasias dessas.

— Esta é gira — disse orgulhosamente. — Escuta, isto é a lenda do fantasma de um homem que morreu de amor. Diz-se que, na época em que o jardim foi construído, as gajas da corte aproveitavam este jardim para passear, dado que não podiam passear pelas ruas fora dos limites do palácio.

— Gajas? — perguntei.

Ele riu-se e continuou

— E nessa altura aparecia escondido no jardim o fantasma de um homem a chorar. Quando as gajas… pronto, as damas, se aproximavam, dizia que tinha morrido por um amor não correspondido. E então as damas com quem ele falava apareciam grávidas. Durante séculos, dizia-se que as mulheres que ficavam grávidas fora do casamento tinham sido engravidadas pelo fantasma do jardim do Campo del Moro. E diz-se que, nas noites de lua cheia, é possível ver vultos no jardim. Se calhar foi o fantasma do homem que me trouxe até aqui hoje.

Dei uma gargalhada sonora.

— Tenho de perguntar à Lolla se conhece essa.

— Adiante. Conta-me mais coisas.

— O que queres saber?

— Vais ficar aqui quanto tempo?

— Até ao fim de agosto.

— Então — pegou-me na mão e o seu toque ligou todos os botões do meu corpo —, deixa-me levar-te a ver uma paisagem que nunca mais vais esquecer.

O desejo era fácil de combater, especialmente quando apenas se baseia na atração. Mas não era tão fácil assim quando estamos numa guerra contra o coração.

 

Guiou-me até ao topo da catedral de Almudena, envolvendo os seus dedos nos meus, de forma que da vista da cidade do topo da cúpula não guardei lembrança, dominada como estava pelos nossos dedos entrelaçados. Estávamos encostados ao muro, olhávamos um para o outro e sorríamos. Eu olhava para baixo, ele para o outro lado. Os nossos ombros estavam colados e as nossas mãos suadas. As nossas cabeças estavam cada vez mais perto. Se ele ouvisse os meus pensamentos, veria como só tinha um na cabeça: «Bem, já que as nossas bocas estão tão perto, vamos fazer-lhes um favor e acabar com este inferno?» Então ele perdeu a paciência, puxou-me firmemente pela cintura e beijou-me. E este beijo valeu a pena toda a dor, todas as lágrimas, todos os dias vazios que passara nos últimos dois anos. Beijou-me forte e depois lento e depois novamente acelerado e depois delicadamente. Beijou-me agora ao som de nada porque provavelmente já não iria precisar de nenhuma música para me voltar a lembrar dele. Todas as músicas o iriam fazer gratuitamente. Senti faíscas elétricas a espalharem-se pela corrente sanguínea a relembrar-me como era sentir-me viva. O meu corpo voltou a encaixar nele, a minha boca soube reconhecer o seu sabor, a sua língua tocou na minha e senti choques. Bom, pelo menos a nossa ligação não morrera. Estivera em coma, ligada à máquina e, agora, acordara. Saímos aos tropeções da catedral e corremos para o metro. Sentámo-nos numa carruagem apinhada. E ele continuou a beijar-me, beijou-me de todas as formas possíveis, beijou-me por todo o tempo que estivéramos separados. E nem parámos quando as pessoas à nossa volta começaram a olhar para nós.

 

De alguma forma, chegámos ao seu apartamento e subimos o pequeno vão de escada. Não sabia onde estava, não vira o número da porta nem a rua ou sequer a estação de metro em que saíramos. Deixei que me levasse com ele para o seu mundo e me deixasse entrar. Largámo-nos o suficiente para ele conseguir tirar as chaves e abrir a porta. O apartamento estava na penumbra com a pouca luz do fim de dia que entrava pelas janelas. Parei no meio do corredor, ele fechou a porta, atirou com a chave para um móvel encostado à parede e virou-se para me encarar.

— Olá — disse. Os seus olhos fixaram-se nos meus. Não sabia que podia sentir tanto a falta de alguém.

— Olá — ri-me.

Ele aproximou-se de mim. A distância de dois metros entre nós parecia sugar-me a respiração. Ou fora eu que me esquecera de como se respirava. Inclinou-se sobre mim, encostou-me à parede e beijou-me. Foi violento, aterrador, fisicamente doloroso pensar como é que conseguira estar dois anos sem ele. Levantou-me e envolveu as minhas pernas na sua cintura. Enrolei os meus braços no seu pescoço e beijei-o mais ainda. Entrámos no seu quarto e ele caiu comigo em cima da cama. A sua boca deixou a minha o tempo suficiente para arrancar a T-shirt pela cabeça. A sua pele, o seu cheiro, as suas mãos, a curva do seu pescoço, a barba por fazer. Tudo sobre ele e eu, a vida e o amor faziam-me agora muito mais sentido. Empurrei o seu peito e rolei por cima dele. Não aguentava estas roupas nem mais um segundo, precisava que as nossas peles se vissem. Tirei o meu vestido pela cabeça e desapertei o botão das suas calças de ganga. Ele arrancou-as e atirou-as para o chão. Abraçou-me por trás e deitou-me novamente na cama. Beijou-me a nuca, o pescoço, os ombros, as costas e virou-me lentamente para que ficasse de frente para ele, fazendo com que os meus músculos se contraíssem a cada toque. Nós encaixávamos de tal forma que parecia que os nossos corpos tinham sido moldados um para o outro. As suas mãos encaixaram perfeitamente nas minhas quando ele as trouxe por cima da minha cabeça e as pressionou contra o colchão. Deixámo-nos ficar assim com os corpos colados, matámos a sede das nossas línguas, que se procuravam. Ele parou e olhou para mim, tínhamos os rostos tão perto que os nossos narizes se encostaram.

— Isabel — sussurrou —, esperei dois anos para voltar a dizer que te amava.

— Não digas… — respondi com a boca colada à sua barba.

 

Antes disto, nunca percebera como o desejo físico poderia ser violento e doloroso. Não aquele desejo que sentimos por alguém por quem estamos atraídos, mas o desejo do amor. Aquele que consome cada célula do nosso corpo e aumenta as sensações em nós um milhão de vezes. É a necessidade de olhar para aquela pessoa. De lhe tocar, de a cheirar, de a lamber, de a ouvir. Ele olhou para mim como se me lesse a alma. Olhou-me com tanto sofrimento que, por um segundo, foi como se os nossos corações partidos dessem as mãos. Passaram pelo meu corpo ondas de emoção e nunca imaginei poder sentir alguém desta forma, não sabia que podia precisar tanto de alguém e ter este tipo de conexão com alguém. Afonso retirou a sua mão direita da minha e limpou uma lágrima que correra pela minha bochecha. Beijou-me a pele salgada, beijou-me a ponta do nariz, o lóbulo da orelha, o pescoço. Olhei para ele, vi-lhe duas lágrimas nos olhos e soube que estava a sentir o mesmo que eu. Não eram lágrimas de tristeza, não nos assustavam, não nos embaraçavam. Eram apenas lágrimas de um momento que ambos talvez achássemos que nunca mais iria acontecer. As lágrimas deram lugar à urgência de nos termos. Quanto mais pensava sobre isto, mais me tornava sensível ao peso do seu corpo contra mim. Ele colou os lábios aos meus, mas não nos beijámos, ficámos somente a respirar para dentro um do outro enquanto os nossos corpos se reencontravam na escuridão do quarto e da noite que acabara de cair.

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