Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 42 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 14

14

 

Não sabia como é que a minha mãe me deixara passar o fim de semana fora. Alice já tirara a carta, andava com o carro antigo da mãe e eu ainda continuava a juntar trocos aos fins de semana no bar. Mas estávamos a caminho da Ericeira com os vidros do carro abertos, a ouvir músicas dos anos noventa e a cantar o mais alto que conseguíamos. A tarde estava quente, com o céu azul salpicado de nuvens brancas que pintavam a paisagem de árvores em cima de nós. Era como se estivéssemos num postal antigo de uma qualquer localidade perdida no meio do nada. Percorremos atalhos no meio da estrada apertada na paisagem montanhosa algures para lá de Sintra, gritámos nas curvas como se fôssemos cair para o meio da vegetação e rimos entre soluços porque nos sentíamos donas de nós próprias. Cheirava a eucaliptos, a terra, aos bosques que rodeavam a estrada, aos aromas quentes da primavera a render-se ao verão. Era aquele cheiro tão familiar, o cheiro das aulas que estavam quase no fim, dos gelados que já comíamos na hora de almoço, das tardes sentadas no relvado da faculdade com os nossos amigos, dos braços nus ao sol, das unhas dos pés acabadas de pintar, das azedas que chupávamos no caminho da praia, dos cabelos molhados ao vento, das flores de jasmim nas casas da minha rua, dos finais de tarde mais longos e quentes. Sentia em mim uma urgência de liberdade, de voltar a ser aquela rapariga de corte de cabelo estranho que corria pelas terras atrás da escola a rir sem me preocupar com o quer que fossem pensar de mim. Lembrava-me de ficar encostada à parede enquanto olhava para as miúdas das argolas e os rapazes atrás delas, a abraçarem-nas por trás com os rostos encaixados nos seus pescoços ou a afastar as madeixas dos seus cabelos enquanto as agarravam pela cintura. Lembrava-me de desejar um pouco do que elas tinham. Só que agora eu estava aqui, a viver o que elas viviam, a caminho da Ericeira para celebrar o aniversário de Simão. Devia sentir-me agradecida pela insignificante subida na escala social. Mas já não havia esta ânsia de pertencer, esta vontade em mostrar que estava com Simão, só a minha habitual vontade em não fazer má figura.

 

Quando chegámos à Ericeira, percebi imediatamente que aquilo não era para nós. A casa era enorme, cor de laranja, com um telhado branco que se via ao longe, estupidamente pendurada como estava no cimo de um monte com o mar por trás. Toda a gente estava bêbeda, havia raparigas que nunca vira em biquíni a passear com bebidas azuis na mão, lixo no chão, copos vazios e restos de comida espalhados por todo o lado. Batatas fritas, amendoins, pernas de frango meio roídas, uma taça com aquilo que me parecia ser restos de uma pasta verde que lembrava um guacamole seco que, horas antes, talvez tivesse estado saboroso e uma imundice inexplicável que tornava a sala nojenta, porque ninguém se lembrara de ser civilizado e colocar os seus restos de comida no lixo.

Entrámos devagar, a tentar procurar algum rosto que nos fosse familiar e demos de caras com Marisa, sentada num sofá a pintar as unhas dos pés em pose de estrela de cinema. Ironicamente, e porque nós continuávamos a chamá-la de Marisa das Argolas, estava com umas argolas monstruosas em forma de estrela, se é que se podia continuar a chamar aquilo de argolas. Talvez fosse a nova versão dos brincos pendurados que ela gostava de usar porque lhe davam um ar de Norma Jeane que, provavelmente, ela gostava de manter. Olhei para os seus pulsos cheios de pulseiras com estrelas coloridas e várias tranças de tiras de plástico. Ao seu lado, no sofá, estava uma caixa transparente cheia de fios coloridos com os quais ela estava a fazer estas pulseiras infantis. Reparei em duas raparigas deitadas no sofá a dormir em biquíni. Estavam a usar pulseiras iguais, como se fosse um qualquer ritual estúpido de um grupo do qual eu nunca iria fazer parte. Não sabia por que razão ela continuava a incomodar-me tanto. Como se tivesse de lhe provar qualquer coisa, como se fosse: «Olha para mim, puseste-me droga na bebida mas eu continuo aqui e não me afetaste nada.» Mas a verdade é que afetara. Todavia, ela olhou para nós e houve qualquer coisa na atmosfera da sala que mudou. O seu olhar já não era pérfido e glacial como se estivesse à procura da frase mais maldosa para nos dizer. Já não tinha aqueles ares de rainha do gelo a lembrar-me todos os dias que não deixava de ser aquela miúda patética da escola. Era como se ela quisesse dizer qualquer coisa, mas, entretanto, tivesse perdido a vontade. Parou com o pincel do verniz na mão com uma bolinha a formar-se quase a pingar para o chão, acenou com a cabeça e voltou a concentrar-se nas suas unhas.

— O Simão está lá fora no jardim — disse, por fim, quebrando o silêncio, enquanto pintava a unha minúscula do dedo mindinho com todo o cuidado para não deixar restos de verniz na pele.

— Obrigada — respondi. Nada fez para nos reter, não olhou mais para nós, mas qualquer coisa mudara.

 

Pousámos as nossas malas no chão ao pé da porta que dava para o jardim e saímos lá para fora. Era um jardim grande, bem arranjado, com uma dezena de espreguiçadeiras brancas e almofadas às riscas amarelas e brancas ao redor de uma grande piscina oval. Havia um bar no canto atafulhado de garrafas, uma grande bacia de gelo transparente e copos meio cheios esquecidos aqui e ali.

Simão estava na piscina a esbracejar com uma bola na mão, gritou por nós, atirou a bola para o outro lado e nadou até à borda.

— Finalmente, chegaram. — Saltou para fora. Atirou com o cabelo com força para trás, correu até nós a pingar, agarrou-me ao colo e rodopiou-me pelo ar.

— Estás a molhar-me toda — repliquei com a cara no seu pescoço, cheirando o seu perfume já tão familiar, mas agora com uma mistura azeda de cloro e cigarros e a tudo aquilo que ele cheirava quando não estava comigo.

— Mas está calor e está na hora de saltarem as duas para a piscina para o pé de nós — aproximou-se de Alice, que juntou os braços para se proteger do seu abraço molhado.

— Podemos pelo menos vestir os biquínis primeiro? — perguntou Alice com uma voz afetada, o que me fez compreender que Zeca deveria estar por ali algures. Vi-o sentado na espreguiçadeira mais próxima com um pequeno livro velho na mão. Sorriu-nos, marcou a página, pousou o livro e levantou-se.

— Chegaram até cá sem nenhum percalço? — perguntou. Aproximou-se de Alice e deu-lhe um abraço tímido. Era sempre tão educado, tão polido, tão o oposto de Marisa. — As tuas nódoas negras já desapareceram quase por completo — observou, olhando para mim. — Estava a gostar de trabalhar com uma lutadora de boxe.

— E nem sabes tu da pancada que ela me dá — interrompeu Simão, dando-me o braço. Arrastou-me para dentro de casa.

Deixei Alice a conversar com Zeca. Por meio segundo, captei Marisa a olhar para nós por cima do ombro quando passámos pela sala. Simão agarrou nas nossas malas e levou-as a arrastar pelo corredor.

— Nos outros dias dormi aqui com o Zeca, mas hoje ele vai para outro sítio qualquer. — Encostou as nossas malas à parede.

O quarto era grande, com uma cama no meio e um tapete que outrora devia ter sido branco, mas agora tinha manchas castanhas em vários pontos. Havia uma janela do chão ao teto que, quando se abria, dava para a lateral do jardim. Estava uma frincha do vidro aberto para arejar e o cortinado branco esvoaçava lá fora como um fantasma à janela. Ouvíamos os outros miúdos a gritar, a conversar, a saltar para a piscina e a rir. Alguém ligara a música e colocara umas colunas à porta da sala para que o som chegasse à piscina. Simão tinha as roupas espalhadas por cima da mala aberta no chão. Na mesa de cabeceira, estava o perfume, a escova de dentes e dois maços de cigarros desfeitos com uma caixa de metal ao lado. Enquanto tirava as coisas de Zeca e apanhava roupa e toalhas aqui e ali, abri ao acaso a caixa. Tinha uma pedra castanha lá dentro e dois comprimidos azuis. Voltei a fechar.

— Porque é que o Zeca dormiu aqui? — perguntei. Só então me apercebera dessa informação pouco normal.

— Porque, pelos vistos, e graças aos santos também, ele e a Marisa acabaram. — Atirou-se para cima da cama, como se arrumar o quarto o tivesse deixado exausto.

— Como assim? — perguntei, curiosa. Sentei-me na cama e cruzei as pernas.

— Não sei. — Colocou os braços atrás da cabeça. — Acredito que deva ser incrível ter certas experiências sob o efeito de estupefacientes, mas talvez depois da ressaca ele tenha começado a ver a merda de miúda que ela é.

— Hum… — Não sabia o que dizer. Também quereria isso, ter experiências comigo? Que me soltasse e fosse tudo aquilo que era suposto ser? Também ele estaria à espera que me tornasse numa outra versão qualquer de mim própria?

— Anda cá. — Puxou-me por um braço. — O que interessa é que já cá estás.

Dei uma gargalhada e enterrei a minha cabeça no seu pescoço. Ele continuava a evocar estas sensações intimidantes, era como se todos os dias o voltasse a ver pelos corredores da escola. A verdade aterrou em mim como um projétil caído do espaço. Era isso que queria, era disso que tinha saudades. Dessas emoções, dos pelos dos braços eriçados, das borboletas no estômago, da ansiedade e da paixão avassaladora. Não do que este Simão de hoje significava. E tudo isto aterrou como um baque dentro de mim, vindo não sabia de onde. Nem o ser humano com a maior boa vontade e as melhores intenções do mundo conseguiria reparar o que há de errado noutra pessoa. Eu não era esse ser humano, e não era que houvesse algo de errado com Simão. E, certamente, ele também veria que não fazíamos bem um ao outro. Ele tinha de se conter na minha presença e eu tinha de me tentar libertar na dele. E isto não era saudável para ninguém, era esgotante. Só agora reparara como me sentia esgotada de tudo. Enviei todas estas informações para um canto da minha mente porque não podia lidar com elas naquele fim de semana. Estávamos ambos a tentar mudar para sermos melhores e, até então, querer tinha sido suficiente. Para mim era suficiente. Eu continuava a viver pela esperança de tudo mudar.

 

Passámos o resto da tarde na piscina com os rapazes a jogar à bola dentro de água, as bebidas a voar de um lado para o outro, os charros a passar entre toda a gente, as raparigas a conversar, a rir ruidosamente e a apanhar sol enquanto punham óleo laranja nas pernas. «Podíamos tentar falar com as outras raparigas», comentei com Alice. Ela encolhera os ombros. Eram as amigas de Marisa ou as miúdas do grupo dela e isso fazia com que, de uma qualquer forma invisível e até infantil, estivéssemos instantaneamente de parte. Zeca estava quase sempre deitado ao nosso lado. Ouvia-os por vezes a conversar baixinho sem prestar muita atenção ao que estavam a falar. Conseguia observar Alice a sorrir e a enrolar o cabelo com o dedo. Ela gostava dele. Em três segundos, já tinha percebido isso, como é que ele não percebia? Zeca estava a dizer piadas e a rir, falava com toda a descontração e, a dada altura, percebi, por fragmentos de frases que chegavam até mim, que estavam a falar de História. Qualquer coisa sobre Auschwitz, o terceiro Reich, o Holocausto, Kapos e campos de extermínio. Sorri para mim mesma. Alice era obcecada por História e por todos esses assuntos que a mim não me diziam nada. Mas ali estava a conversar com alguém que, pelos vistos, partilhava deste seu gosto peculiar. Observei Zeca e comecei a aperceber-me que esta era a pele que lhe vestia melhor, com o seu livrinho velho nas pernas, a conversar sobre o que estava a ler. Sem as fanfarronices dos amigos, sem os charros a torto e a direito. Ainda não o vira a fumar durante a tarde. Continuei a observá-los, escondida pelos óculos de sol. E cheguei à conclusão de que não estava a gostar disto. Não estava a gostar da forma como a mão dele, ocasionalmente, tocava na dela de forma quase imperceptível. Não gostei do jeito como ela olhava para ele por baixo das pestanas e, enquanto o ouvia falar, mordia o lábio inferior enquanto sorria. Não gostei especialmente do modo com que ele olhava para ela. Não gostei da forma como, quando ela se quis sentar, ele levantou as costas da espreguiçadeira dela. Nem da forma como foi buscar uma bebida com duas palhinhas e a colocou casualmente no chão ao lado deles. Não gostei da forma como estavam a ter uma conversa silenciosa mesmo ali no meio de toda a gente. Seria a única pessoa a vê-la? Vi Alice e Zeca apaixonarem-se aos poucos, provavelmente ainda antes dos dois se aperceberem. E não, não gostei de nada disto porque, enquanto todas estas coisas triviais aconteciam à frente dos meus olhos, apercebi-me que nunca tivera nada disto com Simão. Quase fraquejei com a tristeza desta perceção, eu não sentia nada disto com Simão. Não pelo Simão de hoje. Só pelo Simão das minhas memórias.

 

Marisa passara a tarde toda dentro de casa. Não aparecera, não fizera comentários, não fora maldosa, não tentara agarrar a atenção de Zeca. Era como se nem sequer ali estivesse, tal era a forma como passava despercebida. Com o cair da noite, alguns rapazes foram para a cozinha, estavam de volta de uma panela enorme de bolonhesa. Eu e Alice fechámo-nos na casa de banho e tomámos banho à vez com a outra a segurar a porta, que não tinha chave. Estávamos no quarto onde eu e Simão iríamos dormir quando Marisa bateu à porta e entrou.

— Olá. — Ficou encostada à porta a olhar para nós.

— Precisas de alguma coisa? — perguntei secamente. Não sabia o que raio ela queria e estava a ser desagradável de propósito.

— Queria dizer que a tua amiga pode dormir comigo para vocês estarem à vontade. — Sentou-se na beira da cama.

— Hum… — Alice estava a pintar os olhos ao espelho. — Okay, obrigada. Já me tinha perguntado se iria ter que dormir no sofá.

— Eles vão estar drogados e provavelmente bêbedos. — Encolheu os ombros como se isso não fosse nada com ela. — Não queiras ficar na sala quando chegarmos da noite.

— Porquê? — perguntei, enquanto tentava alisar o cabelo com a prancha de Alice.

— Porque eu vim ontem para cá e a noite foi, bem, foi demasiado longa.

Ficámos caladas. Não sabia que mais lhe dizer e, de certo modo, também não tinha nada para falar. Continuei a alisar o cabelo ao espelho.

— Olha — ela cortou o silêncio —, quero pedir-te desculpa.

— Desculpa pelo quê? — perguntei. Por esta não estava à espera.

— Tu sabes. — Virou a cara para a janela e ficou a olhar para o jardim. — Pelo que fiz naquela noite.

— Tudo bem. O Zeca já tinha pedido desculpa por ti e também não foi o fim do mundo.

— Eu sei que não tem explicação nem sei justificar por que o fiz. — Era a primeira vez que dizia algo realmente honesto, pelo que parei o que estava a fazer e virei-me para ela. — Não fui simpática para ti nos últimos meses. Aliás, para nenhuma de vocês.

— Ja-sus — disse Alice. — Vamos ter aqui um momento tipo de perdão, abraços e lágrimas? Tu não curtias de nós e nós não curtíamos de ti, pronto. Mas estamos sempre a tempo de mudar isso.

— Obrigada. — Chegou-se ao pé de nós. — Querem que vos maquilhe? Ou que vos penteie?

— Também não precisamos de nenhuma intervenção divina, obrigada — respondeu Alice, o que cortou a tensão e começámos a rir.

 

Estávamos a jantar massa à bolonhesa demasiado picante e a beber um vinho demasiado azedo. Marisa estava no sofá com mais duas raparigas. A dada altura levantou-se e foi sentar-se ao lado de Alice. Percebi que Zeca as observava, provavelmente curioso com aquela aproximação sinistra. Eu e Simão estávamos sentados à mesa com mais alguns rapazes e estavam todos a conversar sobre carros. Era intragável o facto de continuarem a fumar charros enquanto comiam. Na verdade, sempre o tinham feito. Será que só agora me sentia irritada com tudo o que faziam como se a magia se tivesse desfeito?

— Viste o filme 60 segundos? — perguntou-me Nando a dada altura.

— Aquele com o Nicolas Cage?

— Esse mesmo — disse Nico. — Então, imagina, eles roubam carros valiosos e há uns mais importantes do que outros, não é? — Acenei com a cabeça mas não fazia ideia, já pouco ou nada me lembrava do filme. — O mesmo se aplica às raparigas.

— Por favor — interrompeu Simão —, não vais agora dizer-lhe isso.

— Agora quero saber — protestei. — Conta-me, vá.

— Sabes o que é que o Simão disse quando começaram sair? — continuou Nico. — Que tu eras a Eleanor.

— O que é que isso significa? — perguntei. Simão estava a empurrar Nico e a tapar-lhe a boca.

— O Mustang Eleanor é o principal carro do filme, é a perdição do Nicolas Cage — acrescentou Nando. — Nós só dizemos que alguém é a Eleanor se for mesmo sério para caralho.

— A Marisa nunca foi a Eleanor para o Zeca, ele encolhia sempre os ombros quando perguntávamos — sussurrou Nico. — Mas este idiota disse que tu eras a Eleanor logo depois da passagem de ano.

Senti uma pontada no estômago, era sempre isto, a esperança misturada com o saudosismo. Simão estava agarrado a Nico e embrulharam-se no chão numa sucessão de chapadas e pontapés com toda a gente a rir. Simão levantou-se num ápice, veio por trás de mim e puxou-me para o quarto. Começaram todos a assobiar e a gritar piadas porcas.

 

*

— Chega aqui. — Fechou a porta atrás dele. — Tenho uma coisa para ti.

— És tu que fazes anos, não sou eu. — Fui até à cama e sentei-me.

— Só o facto de tu estares aqui é o melhor presente que me podias dar, acredita. — Simão abriu a grande janela e deixou que os cortinados voassem fantasmagoricamente lá para fora. Era como se as suas emoções estivessem tão desnorteadas que tivesse de as deixar transbordar por todas as janelas da casa.

— Porque é que não haveria de estar aqui? — perguntei. Ele abriu a mala no chão e procurou alguma coisa lá dentro, enquanto murmurava razões plausíveis, mas também não seria justo dizer que sim, que ele tinha razão, que estar aqui era a última coisa que me apetecia.

— Porque eu sei que isto não é o teu ambiente, também não sou tão estúpido assim — disse. — E significa mesmo muito que faças isto. — Encontrou o que procurava e sentou-se na cama ao meu lado. — Eu sei que às vezes tenho atitudes de merda como no outro dia, desculpa.

— Isso já passou — interrompi-o, mas ele tapou-me a boca com o dedo.

— Eu sei que tu nunca vais compreender o nosso mundo e nem quero que compreendas, a sério, tu és o meu bilhete daqui para fora. Todos os dias tento ser melhor porque não quero continuar a ser assim.

— Tens de ser como tu és. — Apertei-lhe a mão. Já estava vazia de desculpas, para ele e para mim.

— Eu sou melhor quando estou contigo, percebes? Eu não sou isto tudo, estas festinhas, esta merda toda, sei lá. Quero deixar tudo, como o Zeca fez. Ele está limpo há umas semanas, nem charros fuma. Temos falado muito nestes dias que aqui estivemos. — Colocou-me uma caixa na mão. — E também fiz muita merda nestes dias, mas quando chegaste percebi que eras tudo o que me faltava aqui.

Ele abriu a caixa por mim e tirou um fio prateado com um pequeno coração na ponta.

— Este fio era da minha avó. Deu-mo quando vim para Portugal e disse que um dia iria querer dá-lo a alguém.

— Oh, Simão. — Tinha o coração apertado e a voz trémula.

— Nunca o quis dar a ninguém.

— Mas era da tua avó. — Peguei no fio. O coração era pequeno e delicado, maravilhoso. Suspirei e olhei para ele.

— E ela queria que eu encontrasse alguém especial. Já encontrei.

Abracei-o com toda a força que conseguia. Amava-o, só não sabia se tinha força de o conseguir amar até ao fim.

 

Quando voltámos para a sala, Alice e Zeca estavam lá fora a conversar sentados no baloiço. Marisa e outras raparigas estavam a maquilhar-se no sofá com uma mala cheia de batons, sombras coloridas, vernizes, pós e um sem fim de tralha que as iria tornar ainda mais perfeitas. Os rapazes estavam a fumar e a ver fotografias numa máquina.

— Anda aqui, Isabel — chamou-me Nico. — Anda cá ver o Simão há duas noites.

— Não mostrem isso. — Ele tentou passar à minha frente. — Vocês só estão felizes a envergonhar-me.

— Ela tem de saber todos os teus podres — disse Nando entre risos.

Passaram-me a máquina. Eram fotografias de Simão de olhos revirados deitado no chão, só se via a parte branca dos olhos. Parecia outra pessoa, pensei, mas se calhar era apenas ele mesmo e a outra pessoa era ele para mim. Noutra fotografia, estava com os olhos semicerrados no sofá e um cachimbo laranja preso entre as pernas enquanto uma bola de fumo lhe saía da boca. Na última que vi, antes de desligar a máquina para não ver mais nada, estava dentro de um saco-cama no jardim com um charro do tamanho da minha mão preso nos lábios.

— Uau, que divertido — respondi e passei a máquina a Simão.

— Ele estava com uma moca que nem imaginas — disse Nico, apontando para a fotografia em que ele estava deitado no chão totalmente inanimado. Não conseguia perceber como é que falavam destes feitos com tanto orgulho, como se fosse suposto eu achar piada a isto. — Dormiu ali no chão. De manhã atirámo-lo para a piscina para acordar.

— Já chega — implorou Simão. — A sério, não ligues, eles estão a exagerar.

Dei um sorriso forçado, encolhi os ombros e fui ter com eles lá fora. Estar com Simão era estar constantemente a acompanhar as suas mudanças de trajetória. Sentia-me exausta como se tivesse passado os últimos meses a correr uma maratona para acompanhar todas as suas mudanças. Ora queria mudar, ora estava inconsciente no chão. Ora jurava que iria terminar o curso, fazer o exame e tornar-se o capitão do raio do seu barco, ora passava os dias na praia a fumar charros com o grupo do costume. Continuava a pensar que isto tudo era um erro. Não um daqueles que, em criança, ao fazer os trabalhos de casa, podia apagar com a borracha, agora não podia apagar nada disto.

— O que se passa, miúda? — perguntou-me Zeca. Chegou-se para o lado para que me sentasse no baloiço com eles.

— Estive a ver as fotografias das outras noites. — Sentei-me ao lado de Alice para que eles ficassem ainda mais perto um do outro.

— Ui — respondeu a rir. — Não viste coisas bonitas, então.

— Não o entendo, a sério. Está sempre a dizer que quer mudar mas, sei lá, volta sempre ao mesmo. — Encostei a cabeça no ombro de Alice. Parecia que me pesava vinte quilos em cima do pescoço.

— O que te vou dizer não é fácil de ouvir, mas nós, os drogados, curados ou não, somos mentirosos. — Alice olhou para ele e franziu a testa. — E eu sei que isto também se pode aplicar a mim, dado que consumo drogas desde os catorze anos, mas, escuta, ele não te está a enganar a ti, está a enganar-se a ele próprio, entendes?

— Como assim? — perguntei. Alice deu-me a mão.

— Um drogado é mais ardiloso do que possas imaginar, o nosso poder de fingir é demoníaco e eu sei isso porque fui assim. O Simão é das melhores pessoas que conheço, crescemos juntos e é como um irmão para mim. Passava o tempo todo em minha casa e no bar quando veio para cá com a mãe. Sabes como é que o conheci?

Acenei negativamente com a cabeça.

— Nós éramos putos e eu passava as férias a trabalhar no bar. Naquele ano, ele ia para lá todas as manhãs com uma bicicleta ferrugenta que tinha. Não falava com ninguém, comprava uma Coca-Cola e ficava ali encostado ao muro. Um dia, o meu pai chamou-o e perguntou-lhe se me queria ajudar a limpar as mesas e a montar as coisas. O meu pai percebeu que ele parava ali porque não tinha outro sítio para onde ir e quis mantê-lo ocupado. Depois soubemos que morava cá sozinho com a mãe, o irmão tinha ficado em Maputo e a mãe passava os dias no trabalho. Ele passou a trabalhar ali comigo todas as manhãs e, de tarde, íamos para o mar, surfávamos, fumávamos, claro. Tornou-se basicamente parte da minha família. Desde então, passámos a andar sempre juntos. E eu não era da vossa escola, mas eles passaram a frequentar o bar e tornámo-nos neste grupo.

— Olha — interrompi-o —, o que é que aconteceu com a Marisa?

Alice deu-me um beliscão na perna mas alguém tinha de perguntar.

— Não tinha de ser. — Sorriu e olhou de esguelha para ela. Captei esse olhar. Senti-o, na verdade, porque ele queimava ali no meio de nós. — A Marisa é espetacular e eu sei que vocês não viram esse lado porque, enfim, ela não o sabe mostrar. E eu gosto muito dela, mas somos pessoas completamente diferentes. E também queremos coisas diferentes e temos formas distintas de ver a vida.

— Mas podiam tentar chegar a um equilíbrio, não? — Alice estava em modo bola de pingue-pongue. Olhava ora para mim, ora para ele. Conseguia senti-la a ferver por dentro.

— Vou contar-vos uma coisa — disse Zeca. Respirou fundo para ganhar balanço. — A maioria das pessoas não sabe disto e muitos do grupo nem fazem ideia. Mas isto talvez vos faça entender alguns dos comportamentos dela. — Fez uma pausa como se estivesse a tentar encontrar as palavras certas. — A Marisa cresceu num lar de acolhimento. Os pais dela abandonaram-na quando tinha seis ou sete anos. — Não consegui evitar abrir a boca pela surpresa, só me lembrava dela de olhos pintados de preto e argolas nas orelhas a ser a miúda mais popular que se podia ser. — Não era propriamente um bebé que se esquece, não é? Ela lembra-se deles.

— Mas como assim, abandonaram-na? — interrompeu Alice.

— Simplesmente foram-se embora. Deixaram-na com a avó, que morreu um ou dois anos depois, e, não havendo mais ninguém, ela foi para um lar. A avó disse-lhe que os pais foram para Macau, mas ela nunca quis contactá-los.

— Então durante todo aquele tempo na escola, ela vivia num lar? — perguntei. Continuava chocada com isto.

— Vivia num lar para miúdos em Carcavelos até há uns tempos. Teve uns problemas e saiu. Agora tem ficado em casa das amigas.

— Uma espécie de orfanato?

— Sim, basicamente um orfanato. A Marisa é uma miúda carente, entendem? E um pouco revoltada, mas isso é fácil perceber. — Fez um sorriso triste e encostou-se ao baloiço, com os braços atrás da cabeça. — Quando a conheci, ela era aquele tipo de miúda que queria ser desejada por toda a gente. Havia sempre nela uma necessidade de ser aceite e, ao mesmo tempo, de controlar, de ser superior aos outros. Mas, para alguém que cresceu a questionar-se o que é que tinha de errado e porque é que os pais não gostavam dela o suficiente para a terem levado com eles, acho que se tornou em alguém até bastante funcional.

— Foda-se. — Foi só o que consegui dizer.

— Percebem agora porque é que ela às vezes faz coisas estranhas e quer controlar tudo, tornando-se até perversa? É apenas uma defesa dela. Quanto mais maldosa, acreditem, mais insegura está. — Ficámos em silêncio. — O problema dela não era contigo. — Parou o baloiço com os pés e colocou-se de frente para mim. — Ela só não sabe funcionar em situações em que não controla. E o instinto dela é atacar imediatamente para se proteger de ser atacada, rejeitada ou ignorada.

— E porque é que já não estás com ela? — perguntei novamente.

— Porque ela precisa que os outros façam tudo por ela, que lhe deem o mundo e tudo aquilo que os pais lhe tiraram. Mas ela não consegue retribuir. E quer sempre mais e eu não consigo ser essa pessoa. Ela é como um balão de ar cheio sempre na iminência de rebentar e eu não sei viver assim. Nem ela quer estar comigo, ela só não quer estar sozinha. E eu agora não tenho energia para lidar com os problemas dela ou tentar resolver as alhadas em que se mete.

Ficámos os três novamente calados. Conseguia perceber, finalmente, toda a merda que Marisa tinha na cabeça. E, de certa forma, o porquê das suas atitudes. Passou-me pelos olhos a imagem da miúda de chupa-chupa na boca e calças velhas rasgadas, que se tornaram moda graças a ela, a chamar-me nomes na escola. A espezinhar-me porque também ela se sentia espezinhada na sua vida. A fazer-me sofrer porque ela sofria.

— Acredita, aquele filho da mãe era capaz de fazer tudo por ti. — Zeca cortou o silêncio e voltou a falar de Simão. — Mas ele mente a ele próprio. Ele quer deixar tudo e endireitar-se, quer realmente deixar. Mas é difícil neste ambiente porque toda a gente consome. Ele teria de sair daqui novamente.

— Porque é que deixaste de consumir? — perguntou Alice, virando-se para ele.

— Porque o meu pai está a morrer — respondeu num murmúrio quase inaudível.

— Desculpa — sussurrou. Eu fiquei calada, não sabia o que dizer.

— A única pessoa que sabe disto é o Simão. — Olhou para mim. — Perguntei-te se querias trabalhar no bar exatamente porque o meu pai deixou de lá estar e agora sou eu que vou ficar a gerir tudo.

— O que é que ele tem? — perguntou Alice. Largou a minha mão e vi-a pegar na mão dele.

— Tem um tumor nos pulmões que já alastrou. E eu não queria passar os últimos meses com ele drogado, percebem? Foi como se me tivessem despejado um balde de gelo em cima. — Pelo canto do olho, vi-o entrelaçar os dedos na mão de Alice. — Não podia continuar nesta vida de festinhas e coca, nem queria que o meu pai partisse a ver-me assim.

— Porra. — Estava emocionada com isto tudo.

— Ele construiu aquele bar na praia com as próprias mãos, pedra por pedra. Sempre quis ter uma escola de surf e criar um espaço seguro para os miúdos passarem o tempo. Nós crescemos todos ali, passávamos lá as tardes e ele sempre disse que, independentemente do que eu quisesse fazer da vida, aquele bar seria sempre meu. Quero deixá-lo orgulhoso. E sei que não o estava a fazer a chegar ao bar de ressaca todas as manhãs e a ver a desilusão no seu olhar.

— Acho que o teu pai está muito orgulhoso de ti — disse Alice, encostando-se a ele. Dei-lhes espaço para viverem aquilo que estavam a viver e que os estava a aproximar, embora talvez ainda nem se tivessem apercebido.

 

Levantei-me do baloiço, deixei os chinelos na relva e sentei-me na borda da piscina com os pés dentro de água. Estava a tentar desfazer o desassossego que se enrolava como novelo dentro da minha cabeça. Amava-o? Ou amava a pessoa que ele representava? Amava-o no presente ou continuava a amá-lo no pretérito perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito, a viver eternamente no condicional deste verbo estúpido? A pergunta, imensurável, enorme, pesada, impossível de ignorar, dava-me voltas na cabeça enquanto observava os meus pés dentro de água. Amá-lo era isto. Era ser jovem e espontânea. Era a luz do sol e a lua cheia no céu. Era o verão quente e a primavera em flores de todas as cores. Era deixar-me perder no conforto de estar com ele. Mas ele fazia-me perder a noção de mim própria. Fazia-me estar sempre a arranjar justificações para os seus comportamentos. Estar com ele era ter estes momentos embaraçosos em que tinha de fingir achar piada ao ver fotografias suas drogado. Era viver constantemente sem muitas expectativas. Era ter sempre estas vozes na minha cabeça a consumir-me por dentro e por fora.

Despertei destas divagações com os risos de Zeca e de Alice.

— Tu é que não te lembras de nós, não é, Isabel? — gritou Alice para mim. Tirei os pés da água e deitei-me na relva, virada para eles. — Mas andávamos sempre ali também, lembro-me perfeitamente de ti com uma trancinha no cabelo.

Ele deu uma gargalhada.

— Claro que me lembro, o Simão passava a vida a querer picar a Isabel.

Como que instigado, ele apareceu no jardim. Esticou os braços, apoiando-se na ombreira da porta para se espreguiçar, e deu um salto para o pé de nós.

— Estão todos prontos para sairmos? — Puxou-me pelos braços para me levantar. — A noite espera por nós.

 

Sentia-me novamente como uma criança, mas não conseguia parar de rir. Estávamos a descer as ruas de vivendas em direção à praia e os rapazes tocavam em todas as campainhas enquanto corríamos rua abaixo. As raparigas protestavam para irmos mais devagar, porque, com as sandálias de plataformas, não conseguiam correr como nós. Apetecia-me rir delas, calçava os meus velhos ténis brancos, mais do que apropriados para um fim de semana na Ericeira. Atrás de nós, as luzes começaram a acender-se e os donos das casas a gritar, provavelmente ao aperceberem-se de que eram partidas de miúdos bêbedos. Tinha a mala pendurada ao ombro e Simão leva-me às cavalitas, corria e abrandava com os meus gritos. O ar cheirava a mar, areia, a terra molhada, a peixe e a humidade. Os barcos já se viam lá em baixo, parados no porto e, ao longe, viam-se pescadores noturnos na sua pescaria. Percorremos o paredão pintado de azul e branco sobre o mar e descemos até à Praia dos Pescadores. As raparigas sentaram-se no muro para descansar os pés, Alice e eu sentámo-nos com elas. Havia mais gente na praia, uns miúdos estavam a ouvir música de um velho rádio com colunas e haviam feito uma pequena fogueira na areia. Alguns rapazes foram até lá abaixo falar com eles. Sempre achei curioso esta forma tão fácil com que algumas pessoas simplesmente metiam conversa umas com as outras. Rapidamente percebi que provavelmente isto era tudo muito mais fácil quando se perguntava se o pessoal fumava. Porque, de repente, já nos juntáramos ao grupo da areia e vários charros já estavam a ser feitos. Alguns barcos coloridos estavam atracados no paredão como se estivessem abandonados. Quão fácil seria enfiar-me lá dentro e simplesmente desaparecer daqui? Tinha medo de barcos, era verdade, plano de fuga abortado. Alice e eu sentámo-nos na areia, um pouco mais afastados do grupo. Zeca veio ter connosco e sentou-se ao nosso lado a beber uma lata de cerveja que, pelos vistos, os novos amigos da praia tinham. Até que o cheiro chegou até nós, já não aguentava este fumo que parecia que se entranhara em mim e nunca mais iria desaparecer. Não seria mais fácil se, como Marisa, me sentasse e fumasse com eles? Era sempre aquela que pedia para abrir as janelas, que saía do carro, que me afastava, que vinha para a rua, que tossia, que fazia cara de enjoada. Isto quando eles se limitavam a charros. Feliz ou infelizmente, perdia grande parte das suas viagens até ao outro lado, as festinhas de coca ou comprimidos. E Simão estava longe de entender o esforço colossal que eu fazia para simplesmente fingir que estava tudo bem para mim, porque não estava. E quem é que eu queria enganar? Tudo isto era demasiado. Já não era aquela excitação de estar de binóculos na janela de Marina a ver o que eles faziam, era mais o desgosto de estar presente.

 

— Eles vão dar ao Simão um presente meio estúpido — disse-me Zeca, amolgando a lata depois de beber a cerveja. — Estou a dizer-te para não seres apanhada de surpresa. Mas não ligues, já sabes como eles são.

— O que é?

— Uma espécie de cachimbo para fumar crack.

— Porquê? — Estava atónita com isto.

— Porque eles são mesmo assim, o que é que queres?

— Uau — disse a Alice. — Que presente tão fixe.

Nisto, Nico pôs-se de pé na areia e gritou para se fazer silêncio.

— O pessoal tem uma coisa para ti — disse a Simão, enquanto os outros o empurravam na areia com gritos palermas. — Pensámos em algo que fosse útil e divertido, claro.

— É um fato de banho para ele me devolver os meus calções que tem desde o ano passado — gritou Paulo.

— É uma trela — disse Nando. Uivou como se imitasse um cão. — Porque ele agora tem dona.

— Epá, que piada, quanto tempo demorou para te lembrares dela? — zombou Simão. Olhou para mim e piscou-me o olho. Respondi com um sorriso forçado porque já me habituara a ele.

— É uma garrafa de Tequila para ele partilhar — ripostou outro rapaz do grupo deles. — Já que bebeu a que tínhamos ontem à noite antes de apagar.

— Pessoal, pessoal — berrou Nico —, então? Não o vamos deixar mais tempo à espera. Até porque queremos começar a noite.

Nico tirou uma caixa de dentro de uma mochila e deu-lhe um pequeno cachimbo transparente que parecia vidro com uma boca redonda. Nando juntou ao presente um saquinho com umas pedras, que lhe entregou entre exclamações, abraços e «parabéns, puto, és o maior».

Simão estava eufórico, ria em gargalhadas, dava abraços a todos, palmadas nas costas, a felicidade em pessoa.

— Vamos divertir-nos já hoje — disse enquanto se aproximava de nós que continuávamos sentados na areia. — Estás chateada? — perguntou-me.

— Não, porque haveria de estar?

— Deram-me aquilo, olha, só vou usar hoje, prometo.

Não respondi porque não sabia o que dizer. Era mais uma das suas promessas vazias quando ainda há uma hora dizia que não queria mais.

— Importas-te que fume hoje? — perguntou. — Só um bocado porque também quero estar contigo e não quero ficar todo retardado.

— Quero que te divirtas. — Foi o melhor que consegui dizer.

Deu-me um beijo no canto da boca e um toque no ombro de Zeca e foi ter com os outros.

— Isabel, deixa-o curtir a noite — comentou Zeca. — Não vale a pena estares a chatear-te hoje.

Não valia a pena estar a chatear-me nunca mais, pensei para mim. Conjugação do verbo no futuro.

 

Uma das raparigas pediu para aumentar a música e elas levantaram-se e começaram a dançar na areia. Marisa estava de olhos fechados, braços levantados e balançava ao som das batidas com a cabeça caída para trás, os cabelos a bater-lhe nas costas. Parecia que toda a gente se conhecia desde sempre e este parecia-me ser o lado colorido das drogas e do álcool, a facilidade com que se cria a intimidade e o amor. Uma das amigas de Marisa estava deitada na areia com um dos rapazes da fogueira e beijavam-se. Simão estava dar uso ao seu novo brinquedo. Tentei lembrar-me do que me dissera sobre gostar de crack. Quais seriam os seus efeitos? O que é que ele estaria a sentir neste exato momento? Mas não me lembrava de nada. Alice e Zeca estavam embrenhados numa conversa os dois e também não os queria interromper. Estava no meio de toda esta gente e, ainda assim, sentia-me profundamente sozinha. Porque não estava a dançar como as raparigas? Porque não me soltava? Porque não me integrava? Porque estava sóbria. E estar sóbria tinha tanto de bom como de mau quando estamos em grupo.

— Estás bem? — perguntou-me Alice. Colocou um braço ao redor dos meus ombros. — Podemos ir embora, se quiseres. Não temos de ficar.

— Deixa lá, está tudo bem. — Observei Simão a dançar no meio da praia ao som de uma batida qualquer estúpida. As raparigas davam gritos, alguns rapazes juntaram-se, pareciam dançar cada um no seu próprio ritmo, sem nenhuma coordenação. — Qual é o efeito do crack? — perguntei a Zeca.

— Hum… — Hesitou. — É uma espécie de estimulante que dá uma sensação imediata de euforia.

— Gostavas? — perguntou Alice.

— Não vou dizer que não, é uma droga barata, potente e de ação rápida. Ficamos cheios de energia durante algum tempo, tudo fica altamente estimulado no nosso corpo, temos aquela sensação de tudo ser fantástico, somos importantes, os melhores do mundo, é como um estouro de felicidade.

— Tens vontade de fumar quando os vês? — Enrolei os braços ao redor dos joelhos.

— Honestamente não. O crack é perigoso e o Simão sabe disso. É altamente viciante e, quando os efeitos passam, sentes-te uma merda e queres fumar mais e mais. Os comprimidos ajudam nessas alturas para prolongar as sensações e evitar uma ressaca antecipada. Amanhã vocês vão rir-se quando eles estiverem em modo vegetal.

 

Rir era a última coisa que me apetecia. Levantei-me da areia e fui ter com Simão mas ele estava noutro planeta. Riu-se para mim e tentou abraçar-me, mas era como tentar falar com um boneco. «És linda», disse. «Amo-te, amas-me?», perguntou. Eu disse que sim e tentei soltar-me do seu abraço apertado. Algumas raparigas começaram a despir-se e a ficar em biquínis. Decidiram que todos deviam dar um mergulho noturno no mar. Pedi a Simão para não ir, mas ele já estava a tirar a T-shirt como se a minha voz se ouvisse a um quilómetro de distância. «Anda», disse ele. «Vamos nadar juntos». E eu puxei-o para ficar na areia mas ele puxou-me para ir com ele. Era como se fosse invisível no meio daquela viagem alucinada, como se tentasse falar, mas a minha voz não saísse. Já estavam todos no mar escuro como breu. Fiquei à beira da água a tentar não perder Simão de vista. Merda! Estava de novo com esta obrigação de ter de ser mãe dele. Porque tinha eu de me preocupar quando ele próprio não o fazia?

— Conhecias aquele miúdo que morreu quando éramos mais novos? — perguntei a Zeca, que, entretanto, também se aproximara com Alice.

— Mais ou menos. Ele costumava parar na praia connosco.

— Não tiveram um acidente porque estavam drogados?

— Epá…

— A sério — interrompi —, sabes o que é? É esta sensação de ter de estar sempre a controlar tudo para não haver outro acidente. E estou farta! — gritei. — Estou farta de ser mãe dele, de me preocupar, de estar sempre com medo que aconteça qualquer coisa.

— Eu sei. Quando estás em altas, como eles estão agora, sentes-te invencível. Viajas rapidamente para outro planeta.

— E isso não é a coisa mais estúpida de sempre? Parece que já não se lembram do que aconteceu. Porque eu lembro-me sempre que ele vai sair à noite. Estou constantemente em pavor de receber uma mensagem a dizer que aconteceu outro acidente. E viver assim é exaustivo.

 

Carregava todo este peso em cima dos ombros há meses e não aguentava mais. Alice enrolou o seu braço no meu e ficámos os três em silêncio como vigilantes daquela noite estúpida. A única coisa que se ouvia era o rádio lá ao fundo na areia e os gritos deles no mar. Passado uns momentos, começaram a sair da água. As raparigas correram para a areia a tremer de frio entre risos excitados. Simão saiu da água a atirar com o cabelo para trás. Tirou os boxers molhados e vestiu as calças secas por cima da pele nua. Abraçou-me por trás, gelado, e beijou-me o pescoço, mas não senti nada a não ser um arrepio de frio. Ele afastou-se quando Nando o chamou e vi-os a tomar qualquer coisa. Lembrei-me dos comprimidos que vira na sua caixa, estaria a prolongar a sensação de euforia, portanto. Perguntava-me muitas vezes quando iria ele compreender que as pessoas normais não faziam este tipo de coisas. Mas, eventualmente, eu é que estava errada. Não sei quanto tempo passou, talvez uns dez minutos, até reparar que Marisa não estava no meio das outras raparigas. Não me lembrava de a ver a sair da água.

— Onde está a Marisa? — perguntei a Simão, abanando-o no meio da sua dança descoordenada.

— Sei lá — disse, entre risos. Agarrou o rosto para me beijar. — Deve estar por aí.

— Não a vejo.

— Deve ter feito um amigo e está enrolada aí na areia.

 

Circulei pela areia e continuei sem a ver. A fogueira estava quase extinta e havia pouca luz na praia. Era difícil ver com clareza porque só o paredão se encontrava iluminado com grandes focos amarelos e, ao longo do areal, ia-se tornando cada vez mais escuro. No mar, a visibilidade já era quase nula.

— A Marisa não está aqui — rugi sem fôlego quando corri para a beira de Zeca e de Alice.

— Como assim? — Zeca levantou-se de um salto.

— Não me lembro de a ver a sair da água — disse Alice, calçando os seus ténis em três segundos.

— As miúdas estão ali — apontei para as amigas dela em círculo a dançar —, mas ela não está. Terá ficado na água?

Aproximámo-nos da beira do mar para tentar ver alguma coisa. Não se via qualquer movimento a não ser o banal ribombar das ondas. Comecei a tremer, sentia dificuldade em respirar e estava a entrar em pânico. Andámos ao longo da linha da água a chamar por ela. Os outros continuavam alheios às nossas vozes, como se não se estivesse a passar nada. Ninguém reparara que ela não estava ali, cada um concentrado na sua pedrada. Nem as próprias amigas, que riam e dançavam em biquíni com os rapazes, distantes do que as rodeava, na sua própria viagem. Zeca gritou lá do fundo, Alice e eu corremos para o local escuro de onde vinha a sua voz. Marisa estava caída na areia a uns cem metros do grupo. Tinha os cabelos na cara e tremia. Pelo menos estava viva, pensei. Via-a contorcer-se em espasmos e, quando Zeca a virou, tinha espuma branca a sair-lhe da boca.

— Afogou-se? — perguntei, quando Zeca a voltou a colocar de lado, provavelmente para não se sufocar.

— Está a ter uma overdose. Liguem para o 112.

 

Não me lembrava de me ter mexido, mas devia tê-lo feito porque estava a correr para o local onde estava a minha mala caída na areia para procurar o meu telefone. Parecia que me movia em câmara lenta, como um zombie diante de todos a dançar e a rir. Os acontecimentos seguintes processaram-se a uma velocidade alucinante. As ambulâncias demoraram dez minutos a chegar e, no meio da confusão, alguns rapazes foram embora porque não podiam ser apanhados com a droga que tinham com eles. Toda a gente estava bêbeda ou drogada ou as duas coisas, ninguém se comportava de forma coerente. Algumas das amigas dela gritavam histéricas na areia. Simão andava de um lado para o outro num estado de delírio, nem conseguia perceber o que dizia. Era um cenário de inferno que nem Dante imaginara. Começámos a ouvir as sirenes ao longe. E juntamente com duas ambulâncias, vimos a polícia lá em cima.

— Tenho de me ir embora. — Simão agarrou-me. — Vamos sair daqui.

— A tua amiga pode morrer — gritei, empurrando-o para que me largasse. — Queres perder mais uma amiga?

— A culpa é minha — respondeu, curvando-se sobre si próprio, como se tentasse abraçar o próprio corpo.

— Como assim é tua?

— Fui eu que lhe dei os comprimidos. Ela pediu-me alguns quando chegámos à praia. Disse que precisava de viajar esta noite.

Vi Simão com a mochila de Nico na mão, a mochila onde estavam os cachimbos, os sacos de crack, de comprimidos e tudo o resto que não conhecia nem fazia ideia.

— Vai embora! — berrei, agarrando-lhe a cara. — Vem aí a polícia! Pega nas tuas merdas e sai daqui.

 

Os paramédicos chegaram e, como que em piloto automático, colocaram-na numa maca, entubaram-na e não consegui olhar mais. Fizeram questões intermináveis sobre o que ela tomara. Queria dizer qualquer coisa, mas era como se a minha cabeça tivesse ficado vazia ou o meu cérebro tivesse deixado de comunicar com a boca. Zeca tomou as rédeas da situação, respondeu a tudo, ocultou a presença dos que se foram embora e disse que não éramos daqui, estávamos apenas a passar o fim de semana e descemos até à praia, alguns do grupo ficaram em casa e não sabíamos que tinha comprimidos com ela. As amigas dela ficaram com a polícia juntamente com os outros rapazes que continuaram na praia. A ambulância levou-a e nós os três fomos na outra para o hospital, uma vez que éramos os únicos sóbrios e com alguma consciência do que acontecera. E então fora como se as horas tivessem deixado de passar. Ficámos um tempo infindável na sala de espera das urgências sem ter qualquer informação de como ela estava. A dada altura, e com o passar da noite, a sala ficara vazia. Só restávamos nós e a luz amarela que explodia das lâmpadas no teto. Volta e meia, os funcionários entravam e saíam, iam à máquina do café do corredor e voltavam a desaparecer pelas portas brancas. Um empregado da limpeza entrou uma vez na sala, passou uma esfregona por toda a sala, deixando um círculo à nossa volta, colocou uma tabuleta a dizer chão molhado e voltou à sua vida e aos seus afazeres noutras salas de espera de outros pisos do hospital. Zeca foi a uma das máquinas de comida que vira no corredor e trouxe três croissants mistos embalados e três pacotes de leite. Tentei comer, mas a minha língua parecia que estava inchada. Por mais voltas que desse, era como se nada descesse. Fiz um esforço por comer, estávamos há horas à espera, desidratados, famintos e exaustos. Depois de tirar todos os vestígios de queijo e de mastigar em seco, bebi o leite de uma só vez e engoli metade do croissant à força. Fiquei a olhar para o pacote vazio na minha mão, esmaguei-o com força e atirei-o para o caixote do lixo, falhou e caiu no chão. Levantei-me a custo, arrastei-me, peguei no pacote e deixei-o cair dentro do saco do lixo. Eu nem sequer gostava de leite, não bebia um copo desde os meus sete ou oito anos. Sentei-me ao lado de Alice, que fitava o vazio com as mãos cruzadas na nuca. Ouvíamos a música que estava a tocar no rádio que uma enfermeira ligara entretanto na sala do lado. Que adequado, pensei. Estava a tocar uma coisa nova que tinha passado na rádio: «muda de vida se tu não vives satisfeito, muda de vida, estás sempre a tempo de mudar». Parecia que alguém escrevera uma música a pensar em mim.

— Mas porque é que ela fez isto? — perguntei, exausta, encostando-me e batendo com a cabeça no vidro da janela atrás de mim.

— Ela sempre gostou de pastilhas, anfetaminas e assim — disse Zeca. — Não deve ter medido bem a dose, não sei. Isto não é muito a onda dela. Foi sempre muito controlada com tudo ao seu redor.

— E o que é que vocês tinham em casa?

— Honestamente, nem prestei muita atenção. Sei que eram psicoestimulantes para curtirem este fim de semana.

— E tomar comprimidos é suficiente para uma pessoa ter uma overdose? — perguntou Alice. Espreguiçou-se e tocou deliberadamente com um braço nos ombros de Zeca.

— Ela teria de ter tomado uma dose quase suicida. — Ficou em silêncio a olhar para o tecto. — Não, deve ter misturado com álcool e qualquer outra coisa.

 

Um médico entrou, por fim, na sala, olhou em volta como se também ele estivesse surpreso por ver três almas encostadas à janela. O sol já estava quase a raiar lá fora e o céu atingira aquele tom arroxeado do nascer de um novo dia. Só nós ainda nos encontrávamos presos ao dia anterior.

— São os acompanhantes? — perguntou, olhando para nós de braços caídos ao lado do corpo.

— Somos, sim — disse Zeca, saltando da cadeira. Levantámo-nos atrás dele.

— Ela já está estável, ainda sedada, mas podem entrar e vê-la. Talvez seja bom ver uma cara conhecida quando acordar.

— O que lhe aconteceu, doutor? — perguntei e acelerei o passo para andar ao seu lado no corredor.

— Como não havia informações da mistura de anfetaminas que foi feita, tivemos de usar carvão ativado para travar a sua absorção, controlar os sintomas de intoxicação e fazer uma lavagem gástrica e intestinal — explicou, parando à porta de um quarto. Colocou a mão no puxador, respirou fundo e olhou para nós. — Seria importante perceber se o que lhe aconteceu foi uma mistura acidental pelo consumo habitual de drogas ou uma tentativa de colocar fim à vida, tomando uma dose excessiva de drogas e álcool.

Olhámos uns para os outros, esta parte da equação fora algo que nem sequer nos passara pela cabeça nas últimas horas. Para mim, ela estava apenas a ser estúpida como sempre, sem medir as consequências dos seus gestos egoístas.

— Amanhã será avaliada pela psiquiatria — continuou —, mas por enquanto está estável, deve estar a acordar e podem ficar um pouco com ela.

 

*

 

Entrámos silenciosamente no quarto. Marisa era um borrão de cabelos escuros espalhados pela almofada. Estava deitada de barriga para cima com o rosto virado para a janela. Não conseguimos perceber se estava a dormir ou apenas a ignorar-nos, que não seria nada de novo. Zeca aproximou-se, sentou-se na cadeira ao lado da cama e pegou-lhe numa das mãos.

— Não é estranho ele estar a dar-lhe a mão? — sussurrei para Alice, que continuava, como eu, encostada à porta do quarto. Talvez para tentarmos manter alguma distância.

— Ele beijou-me na praia — respondeu ao meu ouvido. Abri os olhos para ela porque não íamos falar sobre isso ali.

Sentámo-nos no sofá que havia de frente para a cama. Pela primeira vez nas últimas horas, senti-me finalmente a descontrair. Parecia que tivera os músculos de tal forma retraídos que, agora, me sentia como se tivesse corrido uma maratona. Estiquei as pernas e comecei a mover o pescoço em círculos para a esquerda e para a direita para tentar aliviar a tensão das últimas horas. Alice tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e parecia estar a ter uma conversa muda com Zeca, que olhava para ela e sorria. Marisa mexeu-se, levantámo-nos do sofá e aproximámo-nos da cama. Vimo-la lentamente a abrir os olhos e a mirar o espaço à sua volta.

— O que aconteceu? — perguntou com a voz rouca.

— Fizeste umas misturas lixadas — disse Zeca e apertou-lhe a mão. — Como te sentes?

— Estranha…

Ninguém respondeu, ficámos em silêncio a olhar para ela. Quão confuso devia estar a ser ver-nos de olhos postos nela à espera de que nos dissesse qualquer coisa que provavelmente ela não sabia como dizer. À medida que o silêncio fluiu, os acontecimentos das últimas horas começaram a vir à sua memória.

— Senti-me mal na água — voltou a falar. — Pensei que ia morrer. O meu coração começou a bater, via tudo turvo e desfocado, queria gritar, mas não conseguia falar, tinha a cabeça a zumbir e parecia que a água me puxava cada vez mais para o fundo.

— Nós encontrámos-te na areia. Lembras-te? — perguntei.

— Só me lembro de estar a dançar e de termos ido todos juntos para o mar.

— O que é que tomaste? — perguntou Zeca.

— Não sei. Pedi ao Nico para trazer qualquer coisa que me animasse e, quando o Simão mos deu, tomei uns quantos. Queria que batesse rápido.

— Porquê? — perguntei.

— Porque sim. — Virou a cara para o outro lado. Fiz sinal a Alice para sairmos do quarto para ela falar com ele. — Podem ficar — acrescentou quando nos viu afastar da cama. Olhou para Zeca. — Tu ias cá estar e já percebi que gostas dela. — Conseguia senti-la a convocar toda a sua coragem. — Sei que as tratei mal e lamento imenso. Quem me dera… enfim, quem me dera poder voltar atrás e corrigir isso. Corrigir a forma como estraguei a nossa relação, corrigir esta noite. Só queria desligar de tudo e não correu bem.

— Epá, foda-se, Mar. — Zeca apertou as suas mãos nas dele. — Tu vais fazer tantas coisas incríveis na vida e és extraordinária e alguém vai amar-te exatamente da forma que tu queres e precisas. Já falámos sobre isso. Nós os dois magoamo-nos um ao outro, nem sequer funcionamos e tu sabes disso. Mas eu não vou sair da tua vida. — Respirou fundo. — Não estarmos juntos não significa que não gosto de ti ou que não vou estar aqui para ti sempre que precisares. Somos amigos, então?

— Eu sei. — Ela sufocou um soluço. — Obrigada por me terem ajudado.

Alice puxou-me para o lado para os deixar aos dois a conversar. Provavelmente tinham coisas a dizer um ao outro, ou talvez não. Mas aquele momento era para eles. Sentámo-nos no sofá e encostámo-nos uma à outra. Senti que fechara os olhos, por um minuto ou uma hora, não sei.

O médico entrou de rompante, viu Marisa acordada, olhou para a máquina a que ela estava ligada e escreveu qualquer coisa na prancheta pendurada na cama.

— Pronto — pousou a prancheta —, os amigos já a viram e agora também têm de ir descansar porque estão aqui há horas.

— Quando é que ela pode ir para casa? — perguntou Zeca.

— Tem de ficar em observação durante 24 horas. Na segunda-feira, se tudo estiver bem, tem alta de manhã.

Quando já íamos a sair, Marisa chamou-me. Virei-me para trás e aproximei-me da cama.

— O Zeca disse-me que foste tu que deste pela minha falta — disse enquanto massajava um dos pulsos, tocando na dezena de pulseiras que tinha.

— Não és propriamente uma pessoa que passa despercebida. — Sorri.

— A sério — olhou para mim. —, não fiz outra coisa se não tratar-te mal nos últimos meses. Mas és tu que me ajudas porque todos os meus amigos estão demasiado drogados para reparar que me está a acontecer qualquer coisa e não saí da água com eles.

Fiquei calada.

— Obrigada — sussurrou. — Sei que nunca vamos ser amigas, mas… enfim, obrigada.

Tirou uma das suas pulseiras coloridas do pulso, olhou para mim e entregou-ma. Apertei a mão dela, sorri e saí do quarto.

Enquanto íamos no táxi para casa, tirei a pulseira do bolso e coloquei-a no pulso. Levantei o braço e fiquei a observá-la em silêncio.

— Afinal, já fazes parte do grupo das populares das pulseirinhas — troçou Alice. Dei uma gargalhada baixa, podíamos estar cercados de zombies no meio do apocalipse que ela iria sempre ver o lado positivo. Era por isso que gostava tanto dela.

 

*

 

Quando entrámos em casa já passava das sete da manhã. A tarde na piscina, o jantar, as fotografias de Simão, tudo isso parecia que já se passara há dias. Toda a gente estava a dormir. Reparei na mesa da sala cheia de porcarias, depois de terem vindo para casa fumaram e tomaram mais drogas. Achei hilariante que, depois de tudo, tivessem simplesmente vindo para casa continuar a sua festinha. Não havia ninguém acordado ou preocupado em saber se ela estava bem, se estava viva. Cresceu-me no peito uma raiva que nem sabia explicar, uma fúria minha e não minha que me preenchia e me começava a latejar na cabeça. Entrei de rompante no quarto onde Simão estava a dormir. Desejei que esta raiva se alastrasse e me desse força para o atirar para fora da minha vida. Queria ser capaz de fazer em pedaços todo este dia, estes últimos meses. Mas ele estava simplesmente caído no meio da cama ainda vestido com a roupa que tinha. Apagado, desmaiado, sem sequer ter tido capacidade de se despir, descalçar e deitar debaixo dos lençóis. Chamei-o várias vezes, abanei-lhe o ombro. Encostei-me à parede ao lado da cama e deixei-me deslizar para o chão. Fiquei a vê-lo dormir com a boca ligeiramente aberta e os cabelos espalhados pelo seu rosto. Continuava a ser ele, mas já não era ele. Já não era o Simão por quem me apaixonara em miúda. Ou se calhar até era e eu apenas vivera os últimos meses apaixonada pela imagem que criara dele na minha cabeça. Fui buscar o meu caderno à mala e arranquei uma folha. Decidi escrever-lhe uma última carta, o que me pareceu, de certa forma, poético. Já não era de amor, mas de despedida.

 

Simão,

 

Escrevo-te para me despedir. Acho que não preciso de repetir o quanto gosto de ti. O quanto

encheste a minha infância de magia e a minha vida de luz. És tudo aquilo que sempre quis e muito mais. E as memórias ficam coladas à nossa alma. Demoram-se em nós até morrermos. Mas temos toda uma vida à nossa frente e nunca vamos ser felizes se nos continuarmos a esforçar para sermos algo que não somos. Eu não consigo lidar com isto. Tentei, juro que tentei. E também te vi a tentar. Mas tens de encontrar o teu caminho e descobrir em ti a força de que precisas para seres o capitão da tua vida. E eu não sou essa força. Isso tem de vir de ti. Fizeste-me viver o amor de uma vida. E espero ter-te dado um pouco de tudo aquilo que me deste a mim. Mas não basta só amor. Não consigo viver todos os dias a pensar quando é que te vai acontecer a ti o que aconteceu esta noite à Marisa. Não consigo mais viver com este medo de um dia haver um outro acidente qualquer e, dessa vez, seres tu…

Amo-te, amo-te, amo-te. Podia escrever mil vezes isto, mas o amor não é quantificável em

palavras num papel. Amo-te mas não consigo mais estar contigo. Estás colado no meu coração e sei que irei procurar-te o resto da vida. Mas preciso de paz para viver. Mesmo que isso signifique ser tranquilamente infeliz.

 

Adeus,

Isabel

 

Dobrei a folha e pousei-a em cima da mala dele, que continuava caída no chão. Olhei à minha volta, reuni as minhas coisas e coloquei-as à porta, fui buscar o casaco ao armário e dobrei-o por cima da minha mala. Continuava penosamente a fazer das tripas coração, agora para me ir embora. Para deixar tudo aquilo que sempre desejara, para abdicar deste amor que me moldara de formas inexplicáveis. Sabia que era melhor lembrar-me dele como o amor de uma vida do que o amor que desgraça uma vida. Parei à porta, tirei o fio da sua avó do pescoço. Torci-o nas minhas mãos, cheirei-o para tentar guardar algum resto de memória em mim. Olhei para ele tranquilamente a dormir na cama. Por momentos esqueci-me de como se respirava. Nunca mais o iria ver a dormir, o resto dos meus dias a partir daqui iriam estar cheios de nunca mais…. Deixei o fio em cima da carta e fechei a porta do quarto.

 

— Vamos embora? — perguntei a Alice, que estava com Zeca sentada no baloiço do jardim a comer uma torrada. — Não aguento mais estar aqui.

— E o Simão?

— Acabou.

— Falaram?

— Ele está desmaiado em cima da cama. — Dei uma trinca numa das torradas do prato que ela tinha em cima das pernas. — Escrevi-lhe uma carta.

— Dão-me boleia? — perguntou Zeca. — O meu fim de semana aqui também já acabou.

— E a Marisa? — questionou Alice.

— Vou mandar mensagem a uma das amigas dela a dizer o hospital em que ela está.

 

Eles pegaram nas malas, arrumámos tudo dentro do carro e fomos embora. Deixei Zeca ir à frente com ela e atirei-me para o banco de trás. Fechei os olhos e só acordei quando chegámos a casa da minha mãe.

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