Raparigas como Nós
Capítulo 16
16
Uma tarde, estávamos sentados no bar a comer gelados quando Simão chegou com o seu chapéu às flores, havaianas e uma camisa igual, aberta sobre o peito. Atirou-me com uma carica e saltou do paredão para a areia. «Foda-se, o gajo é um palhaço, não entendo o que vês nele», disse-me Filipe de forma azeda. Nico, Nando e os outros estavam deitados na areia com as miúdas das argolas. Vestiam-se de forma igual na escola, usavam mochilas cor-de-rosa pequenas e fumavam com eles à porta dos pavilhões. Agora, olhava para elas com os seus biquínis coloridos e as argolas nas orelhas, deitadas ao lado deles na areia e a falar alto entre risos, pouca coisa mudara. Ficámos na praia até ao pôr do sol com o céu alaranjado e a areia fria debaixo dos pés. Era sexta-feira e íamos jantar na pizaria em frente à estação antes da festa da espuma na matiné. A subir pela areia em direção ao paredão, vi Simão. Alice agarrou-me no braço e sussurrou-me para continuar a andar, mas eu parei. Atrás de um chapéu enterrado na areia, Simão estava deitado com uma das raparigas das argolas e beijavam-se. Passei por eles de cabeça baixa e não evitei olhar para trás. Era Marisa e olhava para mim, o meu mundo quebrou. Não fui ao jantar, não fui à festa e, deitada na cama, chorei durante horas perante a tragédia que se abatera sobre mim. Depois daquele desgosto, deixei de ir à praia. Por solidariedade, elas também não foram e passámos o resto do mês entre o cinema e o jardim de Carcavelos. Deitávamo-nos na relva a ouvir música e a conversar à sombra das árvores para passar o tempo.
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