Raparigas como Nós
Capítulo 12
12
Tudo parecia correr como era suposto. Ia às aulas, fazia os trabalhos de grupo e começava a preparar-me para os exames na faculdade. Ao fim de semana, trabalhava no bar, dormia todos os sábados em casa de Simão. A minha mãe parecia ter, finalmente, concordado com isso e já não precisava de lhe mentir e dizer que ia para casa do meu pai. Estes eram aqueles dias em que se tem a sensação de se fazer parte de uma máquina bem oleada em que toda a gente à nossa volta faz o que tem a fazer e desempenha o seu papel. Mas sentia-me estranha, não que isso fosse mau. Sentia que havia qualquer coisa que me estava a escapar, como quando temos uma palavra na ponta da língua e, quanto mais pensamos nela, mais nos escapa ou menos sentido nos faz. Parecia que havia algo a acontecer, mas que me fugia ao mesmo tempo, qualquer coisa que não encaixava muito bem. Era a sensação de me ver toda preenchida e descobrir que, afinal, era um puzzle e havia mesmo uma peça perdida que me fazia não estar completa e finalizada. Era como ter uma dezena de peças à minha volta mas nenhuma encaixar. E este vazio que não sabia explicar vinha em ondas graduais como uma pequena moinha, não era bem uma dor, era uma ausência de sensações. Via Simão cada vez mais longe dos seus objetivos e exclusivamente focado naquilo que, há uns meses, dissera estar farto, dar aulas e passar o resto do seu tempo livre na praia. Esta ausência de determinação corroía-me por dentro.
Numa segunda-feira sem aulas, peguei na minha bicicleta velha e pedalei até casa dele para ver se queria almoçar e fazer qualquer coisa. Era feriado e ele não estaria a trabalhar na praia porque não havia aulas de surf nesse dia. Pensara em fazer-lhe uma surpresa e não telefonara a avisar. Ele tinha ido a uma festa na noite anterior e, provavelmente, ainda estaria a dormir. Depois de tocar várias vezes à campainha, apareceu o irmão de toalha à volta da cintura e o cabelo a pingar.
— Desculpa, Francisco — disse-lhe, constrangida, quando me abriu a porta. — Não queria incomodar.
— Não há problema, miúda. — Fez-me sinal para entrar e desapareceu no corredor, deixando a porta da casa de banho aberta. — Vocês estão desencontrados?
— Quem? — perguntei, confusa.
— Tu e o meu irmão — gritou da casa de banho. — Pensei que ele estava contigo.
— Não. — Abri a porta do quarto dele, tinha a cama feita e roupa espalhada pelo chão. — Eu vinha mesmo aqui ver se ele queria almoçar.
— Ele não dormiu em casa — disse, ao entrar no quarto. Olhou em volta e abanou a cabeça. — Ou, pelo menos, ainda não chegou.
— Mas é meio-dia. Como assim, ainda não chegou? — perguntei, vendo-o secar o cabelo com a toalha na direção da sala. Fui atrás dele.
— O meu irmão e os amigos gostam de festas até de manhã, caso nunca tenhas tido o prazer de estar numa — disse com uma gargalhada. — Não te preocupes, miúda, a sério, ele nunca chega muito depois da hora de almoço. Senta-te aí e come qualquer coisa, que ele deve estar a aparecer.
Sentei-me no sofá e fiquei quieta como uma estátua com as mãos inertes a pender do corpo, a pensar em tudo e em nada. Respondi que sim quando o irmão me perguntou se queria comer qualquer coisa porque ia fazer para ele mas, na verdade, estava com uma bola na garganta que quase me sufocava. Não percebia como conseguia estar tão calmo a fazer ovos mexidos na cozinha enquanto ouvia e cantava uma música qualquer quando eu só pensava que, se calhar, Simão estaria por aí caído num canto. Fragmentos de memórias do funeral passaram-me pelos olhos. Lembrava-me dos miúdos da escola dizerem que o acidente acontecera porque tinham consumido drogas e imaginava-o agora a vaguear por aí sob o efeito de uma merda qualquer. Era isto que me tinha estado a incomodar, a peça do puzzle que não encaixava. Esta moinha que me vinha a corroer lentamente dia após dia. Estava exausta disto, não era mãe dele, não tinha de passar as noites preocupada sempre que ele saía com os amigos. A pensar se iria aparecer vivo ou iria acontecer alguma coisa e acordar com uma mensagem trágica. Se iria estar a dormir ou se, como hoje, iria andar sabia lá por onde até à tarde do dia seguinte. O meu telemóvel vibrou no bolso e todos os nervos do meu corpo estremeceram. Comecei a carregar nas teclas com as mãos suadas, mas era apenas Alice a perguntar se queria ir com ela ver um concerto à tarde nos jardins de Belém. Encostei-me no sofá a pensar no que fazer. Ia embora ou ficava à espera dele? Tentei ligar-lhe mas nem sequer tocava, ia logo para o voicemail. O irmão dele colocou-me um prato de ovos mexidos com esparguete ao meu lado no sofá.
— Come. — Deu-me uma lata de Coca-Cola para a mão. — As coisas vão parecer menos dramáticas de estômago cheio.
— Obrigada. — Encolhi os ombros. Não conseguia comer nada, mas abri a lata, dei um gole na Coca-Cola e encostei-me no sofá a roer a unha com a lata no meio das pernas.
A chave começou a rodar na porta e vi um Simão cambaleante aparecer de óculos de sol na cara. Quando me viu, largou o casaco no meio do chão, sorriu e atirou-se para as costas do sofá, abraçando-me por trás.
— O meu amor aqui. — Agarrou-se ao meu pescoço.
— Estás bem? — Afastei-o. — O que é que andaste a fazer até agora?
— Não sabia que os after ainda estavam na moda — disse o irmão quando passou à porta da sala em direção ao quarto dele.
— Tens muita piada — gritou o Simão de volta para o irmão. Saltou por cima do sofá e aterrou ao meu lado. Nem conseguia perceber se se estava a rir ou não. Estava a ranger os dentes e mexia no cabelo de forma frenética.
— Ainda não dormiste? — Coloquei o prato intocável no chão ao meu lado. Virei-me para ficar de frente para ele.
— Fomos a uma festa depois da festa. — Levantou-se do sofá, começou a tatear os bolsos, mas voltou a sentar-se. — Nada de especial mas perdi o meu telemóvel.
— Mas tens a noção do quão egoísta isso é? — Levantei a voz, mas de forma contida para que o irmão não nos ouvisse. Estava irritada, fora de mim, zangada com ele e ainda mais comigo por dizer que aceitava tudo quando a verdade estava longe disso. — Passou-te pela cabeça que estava aqui preocupada contigo a achar que estavas por aí caído num canto ou… ou, sei lá?
— Só estava numa festa, valha-me Deus. — O dedo dele desceu e subiu repetidamente entre a testa e a ponta do nariz, passando por cima dos óculos sem nunca os tirar.
— Vocês continuam a andar por aí como se fossem invencíveis a achar que nada vos acontece? Quando é que vais perceber que isso é estúpido, irresponsável e não te leva a lado nenhum? — Afastei as mãos que ele me tentava agarrar. — Vieram como? A conduzir? — Ele estava a olhar para o teto e não me respondeu. — Quem é que veio a conduzir? E o que é que tomaste esta noite ou esta manhã para estares assim?
— Que exagero. — Colocou as mãos no colo, uma sobre a outra, tensas com a de cima a bater na de baixo. — Só fumei um pouco e apenas isso.
— Então porque é que estás a tremer e nem consegues ter a merda do queixo quieto? — Tirei-lhe os óculos da cara. — O que é que se passa com os teus olhos? — Estavam animalescos, pretos, e mal se via o verde.
— Preciso de dormir e não tenho energia para falar agora, por favor. — Levantou-se do sofá. — Desculpa se te preocupei, mas não tens de passar a vida a pensar que me vai acontecer alguma coisa. Foi tudo uma grande merda, é verdade, mas não vou deixar de fazer a minha vida porque ele morreu. E tens de parar de pensar nisso a toda a hora e relaxar, foda-se, porque a vida continuou para toda a gente. — Levantou a voz nesta última parte. — Desculpa se não sou essa pessoa perfeita que estás destinada a ter e se os meus amigos são uns drogados de merda. — Calou-se, gritou para o teto e bateu com o punho na parede. — Já nem sei que digo, é melhor calar-me e ir dormir.
A voz fugiu-me para debaixo dos pés, tentei dizer qualquer coisa, mas não tinha nada para dizer. Em pensamento, ele estava num quarto qualquer a deixar que a Marisa das Argolas lhe despisse as calças, só porque ela podia fazê-lo. Fechei os olhos e deixei que essa imagem me enchesse e me desse coragem para levantar e ir embora. Precisava de o odiar naquele momento e invoquei o pensamento que mais me magoaria para ganhar força de ser essa pessoa que se levanta e vira as costas. Era digna de dó: sentada no sofá a contemplar sozinha a forma como ele estava a destruir esta relação sem sequer se aperceber. Lancei um olhar inútil à minha volta, à procura de algo a que me agarrar. Peguei no prato e coloquei-o em cima da mesa. Queria dizer-lhe que ele é que nunca iria chegar a ser a pessoa perfeita que estava destinado a ser se continuasse a destruir a sua vida. Queria dizer-lhe que, se morresse numa noite estúpida num qualquer carro depois de uma festa, nunca iria terminar o curso que tanto queria fazer. Nunca iria para o mar ser o capitão da merda do seu navio. O capitão da sua vida. Nunca iria abrir a sua escola. Nunca seria tudo aquilo que poderia ser.
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