Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 43 de 59

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Raparigas como Nós

Parte IV

 

Verão

2005

 

And I wish I was special

You’re so fucking special

RADIOHEAD

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1

 

Saí do aeroporto sob um calor abrasador que me queimava até as orelhas. Parecia-me ainda surreal estar a desembarcar em Madrid no início do verão, tendo deixado uma Lisboa fresca, amena e azul para me instalar numa cidade estranha, mas deslumbrante, com um calor tão denso e seco mas cheia de vida, contrastes, cheiros, cores, não do azul do mar mas do verde dos parques e das árvores. Uma cidade de sons que me pareciam familiares, onde o espanhol se misturava com o português, rodeada de pessoas a transitar por todo o lado, com as malas feitas atrás de si, cheias de autocolantes de mil destinos.

Inscrevera-me na Universidade para um curso de férias de intercâmbio, fizera os exames, passara a todas as cadeiras e preparara-me para um verão de ócio em Carcavelos. Mas, então, ganhara uma das bolsas e calhara-me Madrid, touché. Alice deitara-me um longo olhar silencioso. «Não creio que haja qualquer problema», respondi-lhe. «Vimo-lo em Lisboa, pelos vistos já voltou, não é?» A minha mãe não achara grande piada a esta bolsa para passar dois meses em Madrid, o meu pai concordara que era uma experiência imperdível. Nem esperava outra coisa dele, rira-me com o seu entusiasmo, mesmo com a minha mãe de braços cruzados a dizer que não era ele que iria passar dois meses com o coração nas mãos. «Deixa-a voar», respondera o meu pai.

A despedida da minha mãe fora rápida, dramática e, por mais que lhe dissesse que iria estar mesmo ali ao lado, como se estivesse na casa do meu pai, ela enchera-se de sentimentalismos e lágrimas. Deu-me um cartão multibanco, «Não quero que passes fome», alertara, «Gasta o dinheiro que for preciso», e, por fim, lá me deixara no aeroporto, ficando-me a ver a trotar pelo átrio com a minha mochila às costas. Ia passar dois meses a fazer um curso no Camões, o Centro de Língua Portuguesa em Madrid, praticar o espanhol e conhecer a cidade. A bolsa pagara a deslocação, a estadia e hospedara-me no Hostal Cibeles, mesmo no centro da cidade e a dois minutos a pé do bairro da Chueca, uma das zonas mais jovens, garantiram-me, como se precisasse de que me convencessem, cheias de lojas, restaurantes e bares.

Foi no centro que conheci Lolla, que andava a tirar um curso de Português e com quem me colocaram a trabalhar para praticarmos as duas. Lolla tinha de me ensinar o espanhol e eu de ajudá-la a falar em português. Estava a estudar Psicologia na Universidad Complutense de Madrid e, no ano seguinte, iria fazer um estágio em Lisboa, daí a sua necessidade em aprender a nossa língua.

Rapidamente me encantei por Lolla, pelo seu espírito sociável, pela simpatia fácil e os lábios sempre pintados de vermelho. Tinha vinte anos, pele morena e uns cabelos castanhos pela altura das orelhas. Usava sempre calções curtos com as suas pernas tatuadas a serpentear, andava pelas ruas com um passo decidido e tinha uma atitude explosiva, falando e rindo alto e muito. Mas a comunicação rapidamente deixou de apresentar qualquer problema para nós. Falávamos em portunhol, um português com espanhol, e onde não chegávamos com as palavras exatas, chegávamos por gestos e gargalhadas.

Cedo percebi que os espanhóis não percebiam patavina de português. Por qualquer coisa que dissesse, recebia de resposta contínuos oi? que me obrigavam a exprimir com um sotaque apalermado e musical que não era nem espanhol nem português. Mas também cedo aprendi a movimentar-me por esta cidade sem o mar a que tanto estava habituada, mas com uma vegetação intensa de árvores espalhadas por quase todas as ruas. Descobri as ruelas, as avenidas gigantes, os mercados, as praças, os parques com grandes lagos e barquinhos, os artistas de rua a tocar e a fazer malabarismos, o aroma do tabaco, dos churros com chocolate, da paella, das tapas que nunca me saciavam. As esplanadas da cidade receberam-me de braços abertos com os seus pequenos jatos de água que refrescavam nas horas mais quentes do dia. Os turistas, como eu, apetrechados com os seus óculos de sol e chapéus de abas largas tomavam de assalto os botecos e pediam as suas cañas, as cervejas, sentando-se nas esplanadas de pernas cruzadas e leques a abanar de forma indolente no calor sufocante. Era por eles que passava nos meus passeios com Lolla, unida àquela massa de seres a viver sem tempo numa cidade que não era sua. Foi com Lolla que me dediquei de corpo e alma à esgotante tarefa de correr pela cidade, dançar, assistir a espetáculos no Teatro Galileo e beber na La Latina debaixo dos chapéus ao sol. Nem sempre cañas porque não gostava de cerveja, mas muitas limonadas e sangrias. Mas foi vagueando sozinha que conheci uma outra Madrid, uma pela qual me apaixonei ainda mais. Uma Madrid para lá do parque del Retiro, do Museu do Prado, da Plaza Mayor, da feira do Rastro, da Plaza del Sol e do Templo de Debod, os sítios obrigatórios dos turistas.

Um dia, descobri a Calle de Madrid, dentro da própria cidade de Madrid. Tão estreita e pequena que me interroguei por que havia dentro da cidade uma rua com o mesmo nome e, ainda por cima, tão minúscula. Não havia uma rua de Lisboa em Lisboa, disse a Lolla, questionando a lógica de Madrid ter uma própria rua sem qualquer utilidade porque nem sequer lá podiam passar carros. «Ninguna ciudad es más chula que Madrid», respondera-me entre risos. Mas explicou que aquela ruela se chamava assim porque, em tempos, fora a rua que dava acesso à Plaza de la Villa, onde durante séculos se localizara o ayuntamiento da cidade, a câmara municipal. Fui-me adaptando a circular sozinha, a conviver com a presença dos vendedores ambulantes, que abordavam qualquer pessoa que lhes parecesse turista, aprendi a responder com toda a confiança «No estoy interesada» e seguia caminho como se soubesse exatamente por onde ia. Lolla já me ensinara algumas frases em espanhol, poucas mas úteis para poder desbravar sozinha a cidade. O meu ouvido acostumara-se ao som do espanhol e a minha língua familiarizara-se com o sotaque. Uma noite em que passeava depois do jantar pela Plaza del Sol, vi o Essential Flamenco. Foi a primeira vez que assisti a um espetáculo intimista de flamenco numa sala pequena de paredes de tijolo vermelho e senti que entrava noutro planeta, tal foi a emoção que me proporcionou.

Mas rapidamente me inteirei de algumas coisas que nunca vira em Lisboa, como a prostituição legal. Dei por mim em ruas curiosamente banais onde, no meio de lojas e restaurantes, passeios tão corriqueiros e familiares, existiam sex-shops, clubs de strip e cabines por onde se podia ver pornografia ao vivo — peep shows, dissera Lolla e arrastara-me para um onde, depois de colocarmos uma moeda, uma cortina se abrira e vira muito mais do que queria ver. Acostumei-me com a presença das prostitutas, como na Calle del Desengaño, no bairro hipster Malasaña, um dos bairros onde passava mais tempo, uma zona cheia de graffitis, cafés, restaurantes, lojas locais e artesanais, padarias, livrarias e poucos turistas. Lolla contou-me a lenda do fantasma da Calle del Desengaño, que me fez rir por estas lendas, tal como em Portugal, passarem de geração em geração. Reza a lenda que o Caballero de Gracia (um cavaleiro italiano que se mudara para Espanha como secretário do núncio apostólico do papa Gregório XIII) se apaixonara por uma rapariga desta rua e, para a ver, passeava por ali. Certa noite, encontrou-se com o príncipe Vespasiana I Gonzaga, seu inimigo, apaixonado pela mesma rapariga. Desembainharam as espadas e começaram um duelo. Mas eis que, então, passara por eles uma mulher com um véu, perseguida por uma raposa. Os dois cavaleiros deixaram o seu duelo e correram atrás da mulher para a ajudar. Quando a alcançaram e lhe tiraram o véu, descobriram que era uma múmia totalmente morta. Assustados, disseram «¡Qué desengaño!» (Que deceção!) e a expressão acabara por ficar para sempre ligada a esta rua, que se passara a chamar de Calle del Desengaño. Diz-se que, certas noites, ainda é possível ver o fantasma da mulher a correr com a raposa atrás, dissera Lolla entre risos. Era com histórias como esta que me entretinha, perguntando-me vezes sem conta como se diziam certas palavras em português. De-ce-ção, disse-lhe sílaba a sílaba. Dé-cép-son respondeu, alegando, frustrada, que a nossa língua era difícil de pronunciar.

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