Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 5 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 4

4

 

No início de agosto, ligou-me de manhã e disse que tinha uma surpresa para mim.

— Sabes aquela musiquinha que estás sempre a ouvir com a Alice? — perguntou descontraidamente, como se fosse tudo fortuito.

— Não sei, ouvimos tantas.

— Aquela das três amigas a passar férias e depois deprimidas no trabalho a pensar no verão.

— Como é que consegues tornar a história de um vídeo tão giro numa descrição tão parva?

Ele deu uma gargalhada. Estava a falar do vídeo da música My Friend dos Groove Armada que, nesse verão, estávamos sempre a ouvir.

— Eles vão ao festival Sudoeste, na Zambujeira do Mar. Vamos?

— Mas temos bilhetes?

— Arranjamos lá.

— E é quando?

— Hoje. Vamos?

 

Em verdade, eu só gostava da letra da música ou talvez só do vídeo e da história que contava — as memórias de momentos bons que nos fazem tolerar os dias maus. Era evidente que a Isabel que nunca fora a um festival de verão tinha de desaparecer rapidamente. Deixei Afonso a preparar as coisas e fui a casa de Alice para ver se queria vir. Encontrei-a sentada no minúsculo jardim da sua casa, que ficava a três ruas de distância da minha. Estava quase deitada na cadeira, de auscultadores a ouvir música e a folhear uma revista. Sempre adorei o seu jardim traseiro, passávamos aqui muito tempo quando éramos miúdas e os nossos pais não nos deixavam sair à noite. Ficar no jardim a conversar era o mais próximo que tínhamos de uma noitada de raparigas. Além de que, por vezes, o seu irmão mais velho estava com os amigos no quarto a jogar computador e nós conseguíamos espiá-los pela janela.

— Vou daqui a nada para o Sudoeste com o Afonso. Queres vir? — perguntei, sentando-me ao lado dela.

— Não.

— Porquê?

— Porque o Ventura disse-me que queria ir sozinho com os amigos.

— O quê? — disse, surpreendida.

— Parece que é um ritual que têm todos os anos.

— Ele é um cretino — saiu-me involuntariamente. — Tu sabes isso, não sabes?

Ela suspirou, encolheu os ombros e encostou-se a mim. Havia momentos em que odiava Ventura, odiava a forma como tratava Alice como um acessório que levava para onde e quando lhe apetecesse.

— Então vais a um festival sozinha com o Afonso, hum? — perguntou, sorrindo.

— Nunca vimos um concerto ao vivo. Às vezes, dou por mim a pensar como há uma infinidade de coisas que nunca fiz.

— Estas primeiras vezes são sempre boas, não é?

— Conto-te tudo quando chegar. — Levantei-me. — Emprestas-me a tua mochila pequena?

Ela foi buscar a mochila e, quando voltou, hesitou e agarrou-me no braço.

— Vê se o Ventura faz alguma coisa.

— Como assim?

— Sei lá, com outra rapariga.

— Partia-lhe a cabeça com um pontapé — respondi. Ela abanou a cabeça e sorriu.

 

*

 

Afonso apareceu à minha porta no velho carro sem teto da mãe, mais conhecido por Jóia da Juventude. Era assim que ela lhe chamava por o ter comprado com o seu próprio dinheiro quando começara a trabalhar. E, embora conduzisse agora um carro mais moderno, certamente mais económico, este era o seu pequeno bebé excessivamente conservado, protegido e afinado. Parecia-me um desperdício enorme de dinheiro, mas Afonso tinha tanto amor ao carro quanto a mãe.

— Estás pronta? — perguntou, tirando os óculos de sol da cara. Tinha os cabelos despenteados de ter vindo a conduzir ao vento.

— Vamos nesse carro?

— Claro. — Deu uma gargalhada. — Vamos fazer uma road trip até ao Alentejo.

— Por amor de Deus, vocês tenham cuidado — disse a minha mãe, encostando-se à porta de casa. — Esse carro não me inspira muita confiança. — Fez uma pausa e olhou para mim. — Isabel, não o quero a conduzir se beberem.

— Não se preocupe — disse Afonso, que entretanto saíra do carro e conversava com a minha mãe à porta. — Além de ser um ás do volante, vamos ficar a dormir na casa de um amigo e amanhã voltamos durante a tarde.

— Tudo bem. Dá-me um toque quando chegarem — disse-me, colocando a minha mochila na parte de trás do carro.

— Não te preocupes, mãe.

— Não é com vocês que me preocupo. É com os outros que andam por aí a conduzir como loucos. — Voltou a olhar para mim de sobrolho franzido e, com Afonso já dentro do carro, sussurrou. — Vão dormir juntos… Já falamos sobre isto, Isabel…

— Mãe… — Implorei para que terminasse a conversa. — Eu sei!

 

Tive vontade de abraçar a minha mãe e pedir-lhe desculpa por todas as mentiras inocentes como esta, por deixá-la pensar que era a primeira vez que iria dormir com Afonso. Uma mãe nunca irá saber com exatidão o que se passa na vida da sua filha. Quando a mete no mundo, ela deixa de ser só sua. Despedimo-nos com beijos, abraços e vários sim, mãe, ligo-te quando chegarmos. E fizemo-nos à estrada. Íamos pela autoestrada com a música alta, tinha os cabelos por toda a cara e as pernas esticadas por cima do tablier com os dedos dos pés pintados de verde. Afonso colocou um CD e começou a tocar Alanis Morissette bem alto nos meus ouvidos. «Fiz uma compilação para ouvires na viagem com algumas das músicas de que gostas», disse. Sorri de olhos fechados ao sol, não conseguia dizer nada porque estava a explodir de felicidade. Afonso carregou no pedal do acelerador e o carro voou pela estrada fora. O velocímetro começou a subir, 80, 90, 110, 130, o motor começou a tossir e a pequena Joia da Juventude esforçou-se por ser um carro ultra potente e não o velho Volkswagen que era. Ele deu uma gargalhada alta e voltou a reduzir a velocidade e continuámos a ouvir música, a conversar e dei por mim a cantar e a bater com os pés ao som das cantigas sem sequer me sentir constrangida. Era como se não houvesse outro sítio no planeta onde pudesse estar que não ali, com ele, naquele carro, naquele dia, naquela viagem.

 

Parámos numa bomba de gasolina já quase perto da Zambujeira do Mar e fui lá dentro procurar alguma coisa para comermos. Ao nosso lado, uns miúdos estacionados num Jeep velho, cheio de terra e uma camada de pó castanho com parvoíces escritas no vidro traseiro, tinham a música alta e estavam encostados ao carro a beber cerveja e a fumar. Vi Afonso falar com eles enquanto pagava duas sandes e dois sumos de laranja.

— Já temos um bilhete.

— Como conseguiste?

— Aqueles miúdos tinham um a mais que iam tentar vender lá à porta.

— E se não for verdadeiro?

— Claro que é. Era igual ao deles.

— Então só nos falta mais um. O próximo pago eu — disse. Sentia-me sempre estranha por ele pagar tudo o que fazíamos. Fiz contas de cabeça para ver se tinha dinheiro suficiente na carteira para um bilhete.

— Eu convidei-te para vires — disse, tirando-me uma um sumo das mãos —, por isso sou eu que compro os bilhetes. — Deu-me um beijo rápido na boca e uma palmada no rabo para me fazer entrar dentro do carro.

Estávamos de novo a conduzir por caminhos de curvas apertadas no meio do Alentejo, a ziguezaguear pela estrada nacional, pequenos pontos no meio do nada. Passámos por um parque de campismo apinhado de tendas coloridas, paradas ao vento. Vi miúdos deitados em cadeiras com chapéus na cara, imaginei-os a dormir ao sol depois de uma noite de concertos. Devido ao pó, Afonso fechou a capota e tínhamos o ar condicionado ligado. Deu-me um panfleto com o programa da noite e perguntou-me se havia alguma coisa que quisesse ver ou fazer.

— Há dois parques de campismo — comentou, enquanto olhava pela minha janela e conduzia devagar. — Este é o que fica fora do recinto. É mais longe, mas fiquei aqui muitas vezes.

— Porque não ficaste no outro?

— Porque é impossível dormir. Ouve-se música até as cinco da manhã.

— Quantas vezes já vieste?

— Nem sei. — Sorriu. — Muitas. Acho que vimos sempre desde os quinze anos ou assim.

— Ah! O famoso ritual de verão da grupeta.

— Porque dizes isso? — perguntou com uma gargalhada.

— Foi o que o Ventura disse à Alice. — Revirei os olhos.

— Ela não vem?

— Não. Ele disse que era um ritual que tinha com os amigos.

Afonso olhou subitamente para mim e, espantado, abanou a cabeça.

— Também não querias que eu viesse? — perguntei.

— Se não viesses, podes crer que também não tinha vindo.

— E faltavas ao ritual? — disse isto com uma entoação irónica, o que o fez rir.

— Só é um ritual para eles porque continuam a vibrar com estas merdas de adolescentes.

— Como assim?

— Tirando o Ventura, já reparaste que mais nenhum tem namorada? E o Ventura nem conta.

— Porquê?

— Às vezes, parece que quer ter namorada mas continuar por aí com eles como se nada fosse.

— E o que é que fazem aqui todos os anos durante cinco dias?

— O que é que achas?

— Não sei, nunca vim a um festival. Veem os concertos, bebem e… fumam?

— É disso que gosto em ti, sabes?

— O quê?

— Sabes exatamente como eles são e, ainda assim, tentas sempre ver o melhor deles.

— Eu? — Dei uma gargalhada. — Às vezes, até me sinto mal porque estou sempre a criticá-los, pareço uma pessoa horrível.

— Não és. O único motivo para virmos aqui sempre foi comer gajas. Competem até uns com os outros para ver quem vai foder mais no festival.

— Já nada me surpreende vindo deles. — Virei a cara para o vidro. — Tu fazias isso? — acrescentei instantes depois.

— Não vou dizer que não. Mas, acredita, nunca fiz por ganhar a competição.

Olhei para ele. Uma das coisas boas da vida é que podemos ser alguém diferente para cada pessoa. Olhava para os amigos dele e via que nem se esforçavam por isso, eram o que eram. Também não o escondiam. Eram simplesmente unidimensionais, ou assim os via. E Afonso parecia-me tão diferente. Talvez ele não visse esse lado de si próprio, tão habituado estava a esta dimensão que já conhecia desde sempre.

Estacionámos à porta de uma casa algures ao pé do festival. A contrastar com o silêncio da casa, ouviam-se risos e conversas nas traseiras. Deixámos as nossas mochilas em cima de um banco no hall de entrada e seguimos o som da música. Saímos para um jardim com muros altos e uma grande piscina no meio. Estavam todos a beber cerveja sentados à beira da água e a ouvir música reggae ou algo do género, ouvia os chavões a que já me habituara como jah jah, jamming, Babylon e Zion. Reparei em várias miúdas, o mesmo visual a que também já me tinha habituado com eles, bonitas, morenas, biquínis curtos, cabelos compridos. «São raparigas como nós», dizia-me constantemente Alice, «passam pelas mesmas merdas que nós passamos e sentem-se exatamente como tu». Mas eu só conseguia sentir que, ao lado delas, continuava a ser aquela miúda de aparelho nos dentes. Afonso deu-me a mão e apertou-a, como se soubesse exatamente o que estava a sentir. Vestimos os fatos de banho e sentámo-nos à beira da piscina com eles. Uma rapariga de cabelos castanhos ondulados com um biquíni cor de laranja veio sentar-se ao meu lado. Acenou para Afonso e ele retribuiu. Vi-o dar um mergulho e afastar-se.

— Sou a Xana — disse. Estendeu-me um copo com uma bebida qualquer cor-de-rosa.

— Olá, sou a Isabel.

— Eu sei. — Sorriu-me. — Já ouvi falar de ti, claro. Nunca vi o Afonso assim…

— Pois… — respondi, constrangida. — Há quanto tempo se conhecem?

— Tenho de te dizer já isto. Curtimos no ano passado — respondeu sem grandes rodeios. Engasguei-me com a bebida, ela deu uma gargalhada e bateu-me nas costas.

— Calma, foi uma coisa sem importância. Estou a dizer-te já para ninguém te vir meter macacos na cabeça.

— Tudo bem. — Devolvi-lhe o sorriso ainda a tossir. — Não estava à espera desta informação de repente.

— Eu sei.

— Então e… — A conversa estava a ser aflitiva. — Bem, ok. Preciso de absorver.

— Olha, o Afonso é incrível. E eu sei que daqui a umas horas, quando isto estiver o degredo, vai ser difícil imaginar que, antes de ti, ele não fazia o mesmo. — Sussurrou ao meu ouvido, já gostava dela. — Mas conheço-o há anos e ele sempre foi diferente. Acho que só curtiu comigo porque o Dinis continua a ignorar-me. — Encolheu os ombros e olhou para ele sentado num degrau da piscina a rir-se de uma piada que alguém disse. Nunca trocara uma única palavra com Dinis. Era alto, negro, tinha o cabelo rapado, dentes alinhados ao milímetro, e claro que eu entendia o fascínio por ele.

— E curtiram porque o amigo dele não quis curtir contigo? — perguntei, curiosa.

— Eu estava sozinha, meio bêbeda e infeliz, sei lá, o Afonso veio perguntar-me se estava bem. Estávamos numa festa qualquer, eu beijei-o e ele deixou. Demos uns beijos e mais nada.

— Mais nada?

— Ele disse-me: «Estás bêbeda e não é comigo que queres estar. O Dinis é um idiota por não te ver.» Depois levou-me para casa e foi isso.

Senti uma onda de emoção pelo corpo. Apetecia-me saltar para a piscina e abraçá-lo. Claro que, até chegar a ele, morria afogada.

— Porque é que nunca te vi com eles?

— Sou prima da Amélia. — Apontou para uma rapariga que estava sentada em cima de um deles e que me lembrava de já ter visto. — Sou do Porto, só nas férias é que venho ter com ela.

Fiquei em silêncio a olhar para eles. Ela contou-me algumas histórias de Afonso e de Amélia, que era do grupo deles, e das férias de verão que tinham passado juntos. E conversar com ela era fácil, tive a certeza que Alice também a iria adorar.

— Acreditas que ontem fez o favor de deixar as janelas abertas e tive de o ouvir na carrinha com uma miúda que trouxe do festival? — disse-me a dada altura.

— A sério, Xana, esquece-o. — Já falávamos como se fôssemos melhores amigas, apesar de nos conhecermos apenas há duas horas. — Ele não dorme cá?

— Ele veio numa carrinha Pão de Forma. Deve ser para foder com mais miúdas em andamento. — Revirou os olhos e fez um gesto de nojo com a boca.

Dei uma gargalhada. Achava curioso ela conseguir detetar-lhe todos aqueles defeitos e, ainda assim, alimentar o quer que sentisse por ele. Era um pouco sádico ver como aquela paixão incoerente lhe toldava a capacidade de raciocinar.

Passámos a tarde a apanhar sol e a conversar enquanto Afonso estava com eles na piscina. Ventura quase nem falou comigo, provavelmente irritado porque Afonso me trouxera para o ritual dos machos, sabendo de antemão que iria contar tudo a Alice. Os rapazes demoraram horas a arranjar-se, entre banhos, cera no cabelo, perfume e trocas de T-shirts e camisas. Não imaginava que o seu ritual incluísse todo aquele aparato de beleza. Já estava vestida, o casaco preso na alça da mochila, sentada lá fora com Afonso, que fumava um cigarro e me contava a sua versão da história de Xana. Não lhe disse que ela já ma contara. Xana apareceu no jardim com um vestido às flores curto, um blusão de cabedal e umas botas de cowboy. Olhei-a de cima abaixo e, por um segundo, quis ser igual a ela. Mas Afonso continuava a mexer-me no cabelo e a conversar comigo como se nada fosse.

— A Xana vai entrar e tirar a pulseira do braço. O Marco vai voltar a sair com a pulseira escondida no bolso e dizer aos seguranças que se esqueceu do casaco no carro — disse-me Afonso quando estávamos no carro a caminho do festival.

— E eu vou meter a pulseira dela?

— Sim.

— E se os seguranças virem que a pulseira já está aberta e chamarem a polícia?

— Sim. — Deu uma gargalhada. — E vais presa. No máximo, atiram a pulseira fora e vamos comprar um bilhete.

— Porque não metes tu a pulseira? — perguntei, de braços cruzados.

— Porque sou homem. Eles vão revistar-me todo e dar-me muito mais atenção do que dão a uma miúda com um ar angelical como tu.

— Eu não tenho um ar angelical — respondi. — Estou de calças pretas e um blusão velho.

Ele olhou-me de cima abaixo e abanou a cabeça.

— Até podias estar toda rasgada que ias continuar a parecer encantadora.

 

O meu coração batia desalmadamente. Estávamos no recinto do festival mas um pouco afastados da entrada. Xana e as outras raparigas entraram juntas e alguns dos rapazes foram com elas. Nós esperámos sentados na beira do passeio. Estava nervosa, preferia ter comprado um bilhete e não estar agora nesta situação. Marco entretanto apareceu, tirou a pulseira do bolso e Afonso colocou-a no meu pulso e voltou a fechá-la. Tinha a abertura forçada e só um idiota não iria ver que já fora aberta.

— Viras esta parte branca para baixo e, quando estiveres à porta, levantas só a manga do casaco e mostras a pulseira assim como ela está — disse-me.

— E se eles me rodarem o braço ou puxarem a pulseira? Ela vai abrir-se porque está toda estragada.

— Não vão rodar. Está uma fila enorme e eles querem despachar as entradas. — Puxou-me os braços e levantou-me do chão. — Eu vou estar atrás de ti com o bilhete e eles vão querer revistar-me a mim e deixar-te passar depressa.

Falava com tanta confiança que quase me convenci de que tinha razão. Deixei que me empurrasse até à porta e, já na fila, comecei mentalmente a fazer uma oração para que não me acontecesse nada. Quando chegou a minha vez, como um robot, fiz o que Afonso me dissera. Levantei o braço, puxei a manga do casaco para cima e mostrei a pulseira. O segurança deu-me atenção durante meio segundo e, desinteressado, mandou-me entrar, de olhos postos na próxima pessoa da fila. Passei a barreira de segurança com o coração a mil e esperei por Afonso, que, tal como previra, estava a ser revistado.

— Meu Deus! — gritei quando ele chegou ao pé de mim. — Não acredito que isto aconteceu. O segurança nem sequer olhou para mim.

— Eu disse-te. — Abraçou-me a cintura e conduziu-me pelo recinto. — Achas que eles estão preocupados com uma rapariga? Andam à procura de droga e de álcool escondido. É isso que lhes interessa.

Coloquei o meu braço ao redor da sua cintura também. Xana apareceu com uma máquina fotográfica, Afonso agarrou-me às cavalitas, virou-se de costas para o palco principal e Xana tirou a fotografia. «Vocês enjoam com tanto amor», disse com uma gargalhada. Vi-a a tentar fotografar Dinis e tive uma sensação de nostalgia de quando andava pela escola a tentar tirar fotografias a Simão que, tal como Dinis, também não me ligava nenhuma. Senti carinho por ela, apetecia-me abraçá-la e dizer-lhe que Dinis não valia assim tanto a pena. Era somente um tipo giro e nada mais.

Eu e Afonso fomos jantar. Havia filas intermináveis em todo o lado, pelo que optámos por comer um caldo verde e um pão com chouriço na barraquinha com menos gente. Sentámo-nos numas mesas de madeira e, momentos depois, alguns amigos dele sentaram-se ao pé de nós a comer pizas e hambúrgueres. No fim, fumaram charros, meteram-se com raparigas que passavam, trocaram números de telefone e sim, lá estava Dinis a dois metros de nós a falar com uma rapariga de cabelos pintados de loiro e umas botas até ao joelho. Procurei Xana com o olhar e encontrei-a a jantar ao lado da prima e das outras raparigas de olhos fixos nele. Olhou para mim e encolheu os ombros, quase como que resignada a ser invisível para sempre. Ouvi os rapazes dizer que queriam ver Da Weasel e Love with Arthur Lee, surpreendi-me por não quererem ver nenhum jah jah a cantar e ri-me sozinha. Fomos ver Groove Armada e deixámo-los. Ventura continuava estranhamente sossegado como se nem sequer me conhecesse. Não me perguntou por Alice, não disse nada e continuou a agir como se fosse perfeitamente normal a namorada dele não estar ali quando a melhor amiga dela estava.

Eu e Afonso dançámos juntos no meio da multidão. Havia todo um mundo entre nós e era estranho pensar que não passávamos de duas pessoas insignificantes no meio de tantas outras, também elas com mundos dentro de si. Sempre que olhava para ele, via os seus olhos brilhar, via-o sorrir e era tudo tão forte e imperturbável que me parecia impossível pensar que alguém sentisse o que estávamos a sentir. Afonso comprou umas luzes verdes fluorescente e colocámo-las ao redor do pescoço. No fim do concerto, sentámo-nos no chão e, exaustos, beijámo-nos como dois adolescentes patetas. Os outros, entretanto, já estavam a ver Da Weasel e nós fomos dar uma volta pelo recinto para ver as animações e os palcos secundários. Coloquei-me em cima de uma prancha de surf electrónica que simulava que estávamos em cima das ondas, mas caí ao fim de três segundos. Ele também tentou e aguentou quase dez, daria um bom surfista. Jogámos um jogo parvo de argolas e Afonso ganhou dois chapéus ridículos de palha que colocámos na cabeça. Vimos um bocado de Love with Arthur Lee e, como não gostámos, perguntou se me queria ir embora.

— Ainda ninguém está em casa — disse-me ao ouvido. Arrepiei-me só de sentir o seu hálito na minha pele. — Vamos para a piscina nus.

Disse que não com a cabeça, mas o meu corpo disse que sim e senti uma corrente eléctrica a passar-me por todos os músculos. Nunca me deixes, preciso de ti, o amor é uma loucura e tu precisas de mim, começou a cantar alto no caminho para o carro.

— Não sabia que gostavas de Da Weasel — disse-lhe. — Pensava que só ouvias aquelas bandas obscuras dos anos oitenta.

— Para sua informação, eu ouço muita coisa — respondeu com uma entoação séria. Pegou-me ao colo e colocou-me ao seu ombro como se fosse um saco de batatas. Ri-me e gritei para me pusesse no chão, abanei as pernas e tentei dar-lhe pontapés, enquanto ele rodopiava e me dizia para parar quieta ou deixava-me cair e partíamos os dentes. Com ele, sentia-me sempre eu, sem filtros, sem estar sempre a pensar se estava bem ou se estava a dizer as coisas certas. Perguntava-me se ele se sentia da mesma forma, tínhamos uma química animal. Adorava pensar nesta palavra, era como se fosse tudo transcendental e nós não controlássemos nada.

— Alguma vez vieste aqui com a Madalena? — perguntei.

— Porquê essa pergunta agora? — Olhou para mim, confuso. — Não me digas que ainda pensas nela?

— Se a Xana te beijou no ano passado e tu estavas com a Madalena é porque a traíste — disse. Fiz esta associação instantaneamente porque nem pensara nisto antes. Era como se esta informação tivesse estado algures escondida no meu cérebro e de repente tivesse feito «pop» na minha cabeça.

Ele parou e colocou-me as mãos nos ombros.

— Isabel, se eu quisesse ser um filho da puta como eles, acredita, podia ser que ninguém ia saber. — Encolheu os ombros e fez-me o seu sorriso de lado, aquele que ele sabia que eu adorava porque lhe criava uma covinha na bochecha. — Mas não sou.

— Não respondeste à minha pergunta.

— Nunca vim com a Madalena aqui porque nunca me apeteceu e também não estivemos juntos assim tanto tempo. — Deu-me uma mão e continuámos a andar. — E claro que não a traí. Dei uns beijos na Xana porque estava bêbeda, miserável e infeliz. Se quisesse trair a Madalena, tinha ido com a Xana para a cama ou com qualquer outra miúda.

— E porque é que nunca a trouxeste se namoravas com ela?

— Já te disse. — Suspirou. — Gostava dela, mas, sei lá, não sentia isto que nós temos, entendes?

— Esta coisa animal? — perguntei com uma gargalhada.

Ele olhou para mim, puxou-me o pescoço e beijou-me no meio da rua como se me quisesse sugar a língua.

— Calma, Romeu, podemos esperar até chegar a casa.

— É animal mesmo. — Pôs as mãos debaixo do meu top e curvou-me as costas para me beijar o pescoço.

Chegámos ao carro e o espelho retrovisor esquerdo estava partido. O direito já estava, agora não tinha espelhos.

— Boa! — suspirou. — Algum idiota bêbedo partiu-me o espelho.

— Estúpidos! — gritei a plenos pulmões. Ele abriu os olhos pasmado.

— De onde é que saiu essa Isabel? Não a conheço.

— Ninguém nos ouve. — Já nos tínhamos afastado um bom quilómetro do festival, mas a música continuava a ouvir-se de forma estridente.

— Idiotas! — gritou Afonso o mais alto que conseguiu.

— Filhos da… — gritei, mas calei-me subitamente. — Não vou dizer asneiras — justifiquei.

— Amo-te — disse. Tinha o rosto sério e olhava-me fixamente.

Fui apanhada completamente desprevenida. Nunca o tínhamos dito. Eu amava-o, sabia que sim, já o escrevera nos meus cadernos, mas nunca o tinha dito em voz alta. Dizíamos muitas coisas como gostar e adorar mas nunca amar.

— Oh… — respondi, embaraçada. — Também te amo, acho que sabes isso.

— Desde quando? — perguntou. Ele estava encostado ao carro e puxou-me contra ele. Tínhamos os corpos colados e senti faíscas entre nós. As minhas pernas estavam tão bambas que podia derreter-me ali.

— Como assim, desde quando?

— Quando é que soubeste que me amavas?

— Sei lá. — Sabia. Quando vimos o Sol nascer no Gerês e falámos tanto e durante toda a noite. Da paisagem pouco ou nada guardava, só tinha olhos para ele.

— Queres saber quando é que soube que te amava?

Não disse nada e olhei-o com curiosidade.

— Quando acordei na tua cama depois daquela noite no Tunnel.

— Que estúpido. — Pus as mãos por baixo da sua T-shirt e abracei-o. — Nem nos conhecíamos.

— É verdade — repetiu. — Acordei de manhã, comecei a olhar à volta, só via livros e pensei: «Não tenho nada em comum com esta rapariga, mas não quero ir embora». E depois fomos tomar o pequeno-almoço, ficámos a conversar a tarde toda no sofá do teu pai e não tinha qualquer vontade de ir para casa. E perguntei-me: «O que é isto? Porque é que estou tão entusiasmado com esta miúda que mal conheço, mas que é a primeira pessoa que parece falar a minha língua?» E soube. Soube-o aí que já estava apaixonado por ti e que era amor. Era animal, como disseste.

Apertei-o e esborrachei a minha cara no seu pescoço. Beijei-o rápida e intensamente. Agarrei-lhe a cara com as minhas mãos e colei os meus lábios nos dele. Beijei-lhe a boca, as bochechas, o queixo, o nariz. Ele puxou-me com mais força contra ele, deu-me impulso e enrolei as minhas pernas à volta da sua cintura. Ele virou-se e empurrou-me contra a porta do carro, beijando-me o pescoço e o peito. Passou um carro por nós e uns miúdos abriram a janela e gritaram para arranjarmos um quarto. Afonso riu-se com a cara no meu peito e o momento passou. Colocou-me no chão, recuperámos o fôlego e entrámos no carro. Ele conduziu durante um bocado e estacionou algures ao pé de uma praia e abriu a capota. Puxou os bancos para trás e encostou-se a mim. Ficámos deitados com o céu em cima de nós e não se ouvia nada a não ser as ondas lá em baixo e a nossa respiração. Então beijou-me, deixei que me despisse, consciente do facto de estarmos num carro sem capota e à mercê de qualquer olhar. Mas estava escuro como breu e não havia nada à nossa volta. E naquele momento também nada me importava. O carro era minúsculo, mas encaixámos. Ele saltou por cima do banco do condutor, deu-me a mão para fazer o mesmo e deitou-me. O banco de trás era um romance à espera de ser escrito e nós escrevemo-lo. Amava-o, ele amava-me, repeti este mantra silenciosamente para mim. Ficámos deitados não sei durante quanto tempo, nus, a olhar para as estrelas. Acariciou-me a mão com os seus dedos.

— Olha, amo-te — disse-lhe e agora apetecia-me dizê-lo a toda a hora.

— Amo-te — ele repetiu.

— Agora vamos ser daqueles parolos que dizem isto todos os dias?

Ele riu-se alto, voltou a colocar-se em cima de mim e lambeu-me o ombro. Olhei-o diretamente nos olhos, enrolei os meus braços no seu pescoço e puxei-o para que me beijasse de novo. Para que me beijasse para sempre.

Chegámos a casa já passava das quatro da manhã. Estacionámos o carro na rua, mas, em vez de entrarmos pela porta da frente, demos a volta para entrar pela da piscina. Passámos pela carrinha Pão de Forma de Dinis estacionada debaixo de uma árvore e reparei num vulto no jardim. Puxei a mão de Afonso para que ele parasse. Aproximámo-nos e vi que era Xana, estava nua e enrolada sobre si própria.

— Xana… — Corri para ela. — O que aconteceu?

Ela levantou a cabeça e, quando viu que era eu, desatou a chorar. Baixei-me para ficar ao nível dela, tirei o meu casaco e coloquei-o por cima dela.

— Foi ele… — Soluçou. — Deixou-me cá fora.

— Quem? — Afonso aproximou-se e ela começou a gritar para ele se ir embora. — Vai lá para dentro — disse —, já vou ter contigo.

— O Dinis… ele… olha, viemos juntos para casa — disse, entre lágrimas.

— Sim, e depois?

— Ficámos na carrinha dele e… aconteceu, tu sabes… — Pelo menos, o choro acalmara e já falava com alguma coerência. — Eu vim cá fora para ir à casa de banho, mas vi que já havia gente em casa e voltei para trás. E ele tinha trancado a porta da carrinha.

— Foda-se — disse, incrédula. Mas por que razão viera nua para a rua? Isto é que era estar confortável com o seu próprio corpo.

— Bati à porta e chamei-o várias vezes. Ele simplesmente ignorou-me e deixou-me cá fora com todas as minhas merdas lá dentro. — Começou novamente a chorar e tive uma vontade súbita de partir a porta da carrinha aos pontapés.

— Porque não foste para dentro de casa?

— Achas que ia entrar nua para todos me verem e gozarem? Estão todos na piscina e já sei o que iam dizer: «Olha, ela finalmente conseguiu foder com o Dinis.»

— Deixa-me pedir ao Afonso para trazer qualquer coisa para tu vestires.

Fui ter com Afonso, que estava à porta do jardim, e disse-lhe o que acontecera. Ele parecia tão estupefacto e desconcertado como eu. Deu uma volta pela casa, mas não sabia onde estavam as coisas dela e ninguém sabia de Amélia. Ele tirou uma camisola sua da mochila e deu-me. Era comprida o suficiente para tapar Xana até meio das pernas. Voltei para trás e ajudei-a a vestir-se. Entrámos juntas pela porta da piscina e fomos para dentro de casa. Afonso voltou a sair e ouvimo-lo a bater à porta da carrinha. Estávamos a comer na cozinha quando ele entrou com Dinis, que trazia a roupa dela, as botas de cowboy na mão e a sua mala ao ombro.

— Adormeci, não foi por mal — disse, sorrindo, tentando desculpar-se.

— Adormeceste nos dez segundos em que ela saiu, viu que estava gente no jardim e voltou para trás? — perguntei, revirando os olhos. Era a primeira vez que falava com ele e nem sequer fiz um esforço para ser simpática.

— Sim, adormeci. Estou bêbedo e apaguei-me, sei lá.

— Vai-te embora — sussurrou Xana. — Trancaste a porta de propósito.

— Não tranquei, foda-se! — gritou. — A porta tranca-se por fora automaticamente.

Xana virou-lhe a cara, pegou nas suas coisas e saiu da cozinha. Fui atrás dela pelo corredor e entrámos num quarto que estava escuro e parecia vazio. Acendi a luz e vimos que estavam duas pessoas na cama. Pedimos desculpa e virámo-nos para voltar a sair. Mas havia algo ali que não batia certo, voltei-me para trás e vi-o.

— Não acredito que estás a fazer isto. — Ventura estava na cama com a loira das botas altas que, inicialmente, estava a falar com Dinis.

— Não é o que estás a pensar — disse, levantando-se num salto, apanhando os boxers e vestindo-os. Antes de sair, tive tempo de reparar no preservativo enrolado caído no chão. Ele veio atrás de mim.

— Por favor — puxou-me o braço —, não digas nada à Alice. Isto não significou nada, foi só uma merda de nada.

— Não me digas o que fazer. — Soltei-me dele e entrei na cozinha.

— O que se passa? — perguntou Afonso.

— O teu amigo estava no quarto com uma gaja qualquer.

— Por favor — implorou Ventura. — Meu, ajuda-me aqui… — disse para Afonso.

— Eu avisei-te para não fazeres merda.

— Sabias? — perguntei de repente a Afonso.

— Não. Apenas lhe disse para se lembrar de que tinha namorada.

— Céus! — gritei. — O que se passa com vocês todos? Qual é que é o vosso problema? Não sabem sair de casa sem fechar a vossa pila dentro das calças?

Afonso estava atónito a olhar para mim. Eu própria estava surpresa com a minha reação. Xana voltou a entrar na cozinha já vestida com a sua roupa e entregou a camisola a Afonso.

— Não te dês ao trabalho de tentar perceber — disse-me. — Há três anos que venho com eles e já vi isto a repetir-se vezes sem fim.

— Como é que fizeste uma coisa destas? — perguntei a Ventura. — Tens uma pessoa que, nem sei bem porquê, gosta de ti. Não sei o que raio ela vê em ti e fazes isto? Como? O que é que vai na tua cabeça?

— Merda, merda, merda! — disse com as mãos na cara. — Eu gosto dela, mas sei lá, é assim que as coisas são. Por favor, não lhe digas. Não a posso perder, sou maluco por ela.

— Quero ir-me embora — disse para Afonso. — Não consigo estar aqui nem mais um segundo.

— Foda-se, meu, valeu a pena isto tudo? — ouvi Afonso perguntar a Ventura quando saí para ir buscar as nossas coisas.

— Ficas bem? — perguntei a Xana à porta do quarto onde ela ia dormir.

— Claro que sim. Era como se já soubesse que isto ia acontecer, percebes? Mas estava sempre com esperança de que, sei lá, um dia ele fosse gostar de mim.

— Talvez agora consigas finalmente ver a pessoa de merda que ele é.

Trocámos números de telefone para voltarmos a falar, abracei-a e saí do quarto.

 

Afonso conduziu para fora da Zambujeira do Mar, já o dia estava a nascer. Estávamos exaustos e sabia que não podíamos ir para Lisboa assim. Passámos por Vila Nova de Mil Fontes e decidimos parar numa praia, tínhamos de dormir um bocado. Tirámos as coisas da praia do porta-bagagens e descemos até à areia, eram quase sete da manhã. Montámos o chapéu, estendemos as toalhas e deitámo-nos à sombra.

— Sabes o que é que o Dinis me disse? — perguntou quando já estávamos com os olhos meio fechados.

— Não sei se quero saber.

— Disse que tinha feito de propósito para ver se ela deixava de o chatear todos os anos.

— E não podia simplesmente ter-lhe dito que não queria nada com ela? Tinha de a levar para a cama e fazer aquilo tudo?

— Pois.

Afonso ficou calado a olhar para o céu.

— Os teus amigos são do pior — disse, por fim. — Desculpa, eu não quero dizer estas coisas, mas como é que podem fazer merdas destas?

— Honestamente, já os vi a tratar miúdas como lixo. Confesso que também já fiz coisas horríveis, mas nunca a este ponto.

Agora já estava novamente desperta e virei-me de frente para ele. Apoiei a cabeça na mão.

— O que fizeste?

— Nunca nada deste género. Já menti para mandar miúdas embora depois de ter ido para a cama com elas… — Colocou-me uma madeixa de cabelo atrás da orelha. — Era mais novo, também me comportava como um idiota.

— Ai, Afonso. — Suspirei. — Vou dormir sobre este assunto.

Voltei a deitar-me e tapei metade da cara com o meu casaco. Ele puxou-me e beijou-me a orelha.

— Não penses mal de mim.

— Não penso.

— Estás a falar a sério?

— Sim.

— Então por que estás a responder assim?

— Porque são sete de manhã e ainda não dormi.

Levantei a cabeça e dei-lhe um beijo na boca. Voltei a tapar a cara com o casaco e deixei-me cair num sono estranho à medida que as pessoas iam chegando à praia e os ruídos da manhã se misturavam com os meus sonhos, onde Ventura traía Alice, que tinha a cara de Xana.

 

*

 

Acordei perto da hora de almoço. Afonso ainda dormia profundamente, levantei-me e movi o chapéu de sítio para o tapar. Eu estava à sombra e ele ao sol pelo que, algures durante a manhã, ele devia tê-lo movido para me tapar. Como é que alguma vez poderia pensar mal dele? Claro que sabia, ou imaginava, que, antes de nos conhecermos, ele fizera muitas das coisas que via os amigos fazer. Ainda assim, nada disso me importava. Hoje, comigo, ele estava longe da pessoa que um dia podia ter sido. Corri para o mar, esperei por um momento sem ondas, tapei o nariz e deixei-me ficar submersa debaixo de água para me poder refrescar e acordar. Voltei para a toalha, tirei dinheiro da carteira e fui ao bar para usar a casa de banho e ver se tinham qualquer coisa para comermos. Comprei duas tostas com batatas fritas, sumos de laranja e garrafas de água. Quando regressei, Afonso estava de pé a olhar em seu redor. À minha procura. Fui por trás e beijei-lhe as costas, ele virou-se subitamente e agarrou-me a cintura.

— Queres matar-me de coração?

— Achaste que tinha fugido?

— Não sei. — Sorriu.

— Fui comprar comida para nós.

— Estou esganado — disse. Tirou-me o sumo da mão e bebeu quase o pacote todo de uma só vez.

— Imaginei que sim.

Comemos debaixo do chapéu e, no fim, demos um mergulho juntos. Levou-me pela mão até uma zona onde a água nos ficava pelo peito, deitou-me de barriga para cima e fez-me boiar. Atrás de mim, com as mãos debaixo dos meus ombros, curvou-se e beijou-me até me fazer perder a concentração e começar a esbracejar. Regressei para a toalha, deixando-o ficar na água, nadou para lá e para cá, mergulhou e voltou para debaixo do chapéu. Vê-lo andar na minha direção com o sol atrás fez-me sentir que não importava para onde fosse, nunca mais nada se iria comparar a isto, a este momento em que, sozinhos numa praia algures no Alentejo, ele caminhava para mim.

Estávamos a viajar há mais ou menos uma hora e a ouvir música. Volta e meia, fechava os olhos e deixava-me embalar no movimento suave do carro. Pensei em Alice, estava a sofrer por antecipação por saber que tinha de lhe contar o que acontecera. Se fosse ao contrário, sabia que ela não hesitaria em contar-me.

— O Ventura já traiu mais vezes a Alice? Por favor, diz-me a verdade.

— Acho que não.

— Achas ou tens a certeza?

— Ele gosta dela.

— Então porque é que foi para a cama com aquela miúda?

— Porque talvez tenha sentido a pressão.

— Pressão para ser igual aos outros idiotas?

Afonso sorriu e colocou-me a mão na perna.

— É isto que eles fazem há muito tempo, já te disse. E a pressão social é uma merda, o ver quem fode mais. — Suspirou. — Até conhecer a Alice, o Ventura era igual. Eu sei que ele gosta dela e tenho a certeza de que está arrependido.

— Mas eu fico nesta posição horrível.

— Eu sei. — Ficou calado durante algum tempo e depois continuou. — Imagina que, numa noite com as tuas amigas, bebias demasiado e por alguma razão estúpida encontravas alguém do teu passado e, com a nostalgia e todas essas merdas que mexem com a nossa cabeça, me traías. Ficavas arrependida, sabias que não tinha significado nada nem querias repetir porque a nossa relação é mais importante do que tudo o resto. Estás a imaginar o cenário?

— É difícil imaginar, mas sim.

— Ias querer contar-me? Ou que alguém me contasse? Se eu soubesse, ia acabar contigo. Mas se não soubesse, a nossa vida continuava e aquela noite ia acabar por ser apenas uma merda de nada que, ao longo do tempo, ia acabar por nem sequer ter relevância em tudo o que já vivemos.

— Hum…

— A minha teoria é que as pessoas só contam uma traição por cobardia.

— Como assim?

— Se te traísse, só te contava se quisesse que tivesses uma reação, que acabasses comigo ou algo do género para não ter de ser eu a fazê-lo.

— Uau, obrigada pela informação.

Ele deu uma gargalhada e beliscou-me a perna. Continuou:

— O Ventura está na merda, quando acordei tinha umas dez mensagens dele.

— Aquela rapariga era alguém do passado?

— Eles já se envolveram há alguns anos. Acredito que ele se tenha visto embrulhado naquele jogo do engate e, com a pressão, acabou por cair. O Ventura queria que a Alice viesse, mas eles começaram todos a chamá-lo de cão com coleira e a dizer que já andava de trela. E ele acabou por dizer-lhe que queria vir só com eles. Nem sequer era verdade.

— Também te dizem isso a ti?

— Claro. — Sorriu. — Mas eu estou-me nas tintas para as merdas deles. O Ventura também vai lá chegar.

— O Dinis estava a falar com aquela rapariga quando estávamos a jantar.

— Porque é assim que ele é. Tenta com todas as miúdas e, no fim, escolhe a que lhe apetecer.

— Mesmo com as raparigas com quem os amigos já se envolveram?

— Com qualquer uma, na verdade.

— Menos a Xana. Qualquer uma menos a Xana — comentei, revirando os olhos.

*

 

Não sabia o que deveria fazer. Se calhar fora preciso aquilo acontecer para Ventura começar a levar a relação deles a sério. E não podia deixar que a minha opinião sobre ele, que não era a melhor, interferisse. Sentia-me uma amiga de merda se não contasse, mas Afonso também tinha razão na sua forma de ver as coisas. E eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela iria fartar-se dele e ver que pouco tinham em comum. Parecia que ela tinha deixado aquela relação em ponto morto à espera de que o sinal ficasse verde. Subitamente pensei em Simão e na probabilidade ínfima de o encontrar um dia. Se ele me quisesse, então, iria ceder? E se nos envolvêssemos apenas por estar melancólica e por querer saber como seria beijá-lo, já que pensara nisso um milhão de vezes nos últimos anos? Iria querer que isso tirasse Afonso da minha vida? Talvez o melhor fosse dar tempo ao tempo.

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