Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 55 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 8

8

 

Olhei para o espelho enquanto a minha mãe me penteava o cabelo num rabo-de-cavalo e observava o meu rosto pálido com preocupação. Estava vestida de preto. E preto era a minha cor favorita, mas já não era mais. Queria dar um abraço à mãe e ao irmão dele. E provavelmente também ao pai que nunca conhecera porque sempre o imaginara a viver no seu trono de ouro no hotel. Queria dizer-lhes que sentia muito. Que sentia mesmo muito não ter conseguido fazer mais. Queria dizer-lhes que tentara mostrar a pessoa extraordinária que ele era e todas as coisas boas que poderia fazer com a sua vida. Queria dizer-lhes que sentia muito não ter conseguido lidar com as drogas e tudo o resto. Que era demasiado para mim. E depois queria ser engolida pelo resto das pessoas e despedir-me dele sozinha.

Afonso estava à minha espera na rua. Sempre que o via, o meu mundo iluminava-se por dentro, ainda agora, ao fim de tanto tempo. Dei um sorriso triste por vê-lo tão deslumbrante e o momento ser tão errado. Nos últimos dias pensara muitas vezes se não deveria ir sozinha com Alice e com Zeca. O que é que as pessoas iriam dizer? «O que é que isso interessa?», perguntara-me Alice. «O Simão não iria querer que fosses sozinha», dissera-me. E acabara por cair em mim. O que os outros pensavam era absolutamente irrelevante. Não ia estar ali por ninguém, ia estar por Simão. Porque metade do meu coração morrera e eu não iria aguentar passar por isto tudo se a outra metade não me desse a mão.

A família de Simão não era religiosa. Portanto, não houve uma cerimónia na igreja nem nada que o valha. O corpo fora cremado no dia anterior e a despedida iria ser feita na praia como ele iria querer e as cinzas atiradas ao mar, o mar onde ele vivera. Afonso parou o carro no parque de estacionamento em frente ao paredão e esperámos por Alice e por Zeca. Já se via uma mancha preta na areia à medida que as pessoas começavam a chegar. Afonso tinha a minha mão apertada na sua e mantínhamo-nos em silêncio. «Obrigada», disse-lhe. «Por quê?», perguntou. «Por estares comigo», voltei a dizer, dando um beijo na sua mão, que agarrava a minha. «Vou estar sempre contigo qualquer que seja a situação», disse, puxando-me para ele. Quando Alice e Zeca chegaram, juntamente com Marisa e Luísa, descemos as escadas de pedra e parámos no paredão para cumprimentar outros miúdos que estavam ali. Muitos eram da escola, outros da praia, alunos das aulas dele e outros tantos que nunca vira. Começara a juntar-se mais e mais gente. Afonso deixou-me caminhar sozinha, como se percebesse os meus receios, mas manteve a sua mão nas minhas costas, lembrando-me continuamente que estava ali mesmo atrás de mim. Alice deu-me a mão com força e Luísa enrolou o seu braço no meu outro. Vi a sua família ao pé da água. Era a primeira vez que via o pai que tinha a pele morena e ombros largos e imponentes, exatamente como imaginara sempre que ele falava do pai. Não conseguia deixar de olhar para os seus olhos que eram uma cópia exata dos olhos claros de Simão. Francisco, o irmão, acenou-me e aproximou-se.

— Sinto muito — disse, contendo as lágrimas enquanto ele me abraçava.

— Obrigada. Como estás a lidar com tudo? — Cumprimentou todos com um aperto de mão e deu um abraço apertado a Zeca.

— Oh, tu sabes. — Limpei uma lágrima da cara. — Ainda não me parece que é real.

— Nem a nós. Eu sei, nem a nós.

 

Vi Nico, Nando e os outros todos de pé na areia, mais afastados. Não queria ir lá, não queria vê-los, não queria ouvir o que tinham para dizer, não queria a sua falsa simpatia. Zeca disse para irmos, que iria ser estranho se não o fizéssemos. Nico aproximou-se quando nos viu.

— Estás bem? — perguntou Zeca, dando-lhe um abraço.

— Que merda. Ainda não consigo acreditar que isto aconteceu. Como é que ele foi fazer isto? — Tinha os olhos vermelhos, mas imaginei que fosse por ter estado a fumar e não a chorar como o resto das pessoas que lidava com a sua dor ao invés de a tapar com charros e coca e crack e o raio que os partisse a todos.

— Foi uma viagem que correu mal — respondeu Zeca, encolhendo os ombros. Nós faláramos sobre isto nos últimos dias, sobre a irresponsabilidade deles, sobre todas as vezes em que apanharam sustos, sobre a iminência de isto ter estado sempre a acontecer porque eles se julgavam invencíveis. Julgavam que controlavam e que não era o vício que os controlava. Quão errados eles estavam. E eu sabia que Zeca nunca iria abordar este assunto, não agora, não ali. Então encolhera os ombros porque não havia mais nada que pudesse dizer.

— Sinto muito — disse Nico, e abraçou-me. — Falei com ele há umas semanas sobre ti. — O meu coração apertou-se quando o ouvi. — Eu sei que tu não aguentavas mais viver com medo de que isto acontecesse e não te julgo. As coisas podem ser demasiado duras para quem está de fora. E aqui estamos nós, como se sempre tivesses previsto que isto fosse acontecer. Ele gostava mesmo de ti, sabias? — Acenei que sim com a cabeça porque não conseguia falar com o nó que tinha na garganta e as lágrimas que me turvavam os olhos. — Vocês eram a puta do amor da vida um do outro. Mas nem o amor o podia ter salvado… Sabes, pode salvar-nos a nós. Já salvou o Zeca. Acho que é isto que todos temos a aprender.

Permanecemos abraçados durante alguns segundos. Entretanto, os outros aproximaram-se. Vi Nico cumprimentar Afonso e tive medo de que ele estivesse desconfortável nesta situação, mas acenou que não e, quando me juntei a ele, apertou-me a mão.

Zeca juntou todos em círculo e disse que tínhamos de saber uma coisa antes que a cerimónia começasse. A avó de Simão viera de Maputo, juntamente com o resto da família dele, e ninguém iria falar de overdose. Os pais iriam dizer que a sua morte fora um acidente — e apeteceu-me gritar que sim, que fora um acidente estúpido — com uma dose grande de medicamentos. Que ele fora vítima de um trágico infortúnio. Pensei que a palavra vítima era interessante porque implicava que a pessoa não tivesse escolha. Mas Simão tivera sempre escolha.

— Mas a culpa é dela — sibilou Nando. Tentei focar-me no que me rodeava. Vi que estavam todos a olhar para mim e a palavra culpa começou a ganhar o seu significado real na minha cabeça. Ele estava a culpar-me a mim? A mim?

— Não sejas idiota — disse Zeca, interrompendo-o.

— Ela fodeu-lhe a vida toda — continuou a disparar para cima de mim sem parar. — Ele começou a consumir ainda mais. Foda-se, ela nem sequer o apoiou quando ele mais precisou e já andava com outro gajo enquanto ele andava a partir a cabeça para se esquecer da merda que ela lhe fez.

— Em primeiro lugar, todos nós somos responsáveis por nós mesmos. — Marisa entrou de repente no círculo, colocou-se ao meu lado e enrolou o seu braço no meu. — E ninguém tem de ficar numa relação tóxica como se superar o vício fosse a batalha dela e não a dele. A luta contra as drogas era dele, apenas dele. Ela fez o melhor que conseguiu. E, pelo que bem me lembro, ela era uma força incrivelmente estabilizadora na vida dele. Mas não era responsável por ele.

— Mas… — Nando tentou argumentar, Marisa interrompeu-o.

— O facto de precisares de culpar alguém pela morte do Simão é incrivelmente estúpido e mostra como nem sequer vês as coisas como elas são. Se alguém o tentou ajudar, foi ela, ao contrário de vocês. O que é que lhe ofereceram quando ele fez anos? Com quem é que ele consumia? Quem é que lhe vendia? Vocês. Todos vocês. Se há alguém para culpar és tu, e tu, e tu, e tu. — Apontou para todos. — Porque se ele se destruiu não foi porque a relação deles não funcionou, foi por conviver com vocês. Eu saí do grupo, o Zeca saiu… O Simão saiu tarde demais.

 

Marisa puxou-me pelo braço e afastou-me dali. Tentei lembrar-me de alguma coisa simpática para lhe dizer, nunca sentira tanto amor por ela como naquele momento. Parámos mais à frente e abracei-a. Ficámos assim durante uma eternidade. E depois Marisa abraçou Alice, Zeca e acenou para Afonso. E, no fim, olhou finalmente para mim.

— Salvaste-me a vida. — Apertou-me as mãos nas suas. — E o Simão sabia que farias tudo para salvar a dele. Mas não viveres a tua vida para viver a dele era a última coisa que ele quereria.

— Porque é que dizes isso? — perguntei, com os olhos marejados de lágrimas. Sentia-me como se ainda não tivesse parado de chorar desde aquela tarde na praia.

— Estive com ele há pouco tempo e falámos sobre tudo o que aconteceu. Ele mostrou-me a carta que lhe escreveste na Ericeira depois… daquilo. Eu perguntei porque é que ele não mudava, por que não fazia um esforço, se não por ele, por ti. E ele disse que não podia continuar a arrastar-te para esta merda toda porque merecias ser feliz. E nunca o irias ser com ele.

Não disse nada porque chorava copiosamente e tinha medo de estar a fazer uma cena, que era a última coisa que queria hoje.

— Ele estava feliz, acredita — continuou. — Disse que tinhas voltado para a pessoa com quem era suposto estares. E que ele te devia isso.

— Devia-me o quê? — perguntei, por fim.

— A felicidade. O estar feliz por ti.

 

Tentei lembrar-me da última vez que o vira. Foi depois daquela festa idiota, quando me viera trazer a casa. O que lhe teria dito se soubesse que nunca mais o iria ver? Teria mudado o curso dos acontecimentos?

— Olá — disse-me uma rapariga que, entretanto, se aproximara de nós —, sou a Vitória. — Fiquei a olhar para ela a tentar associar o nome à cara, mas era como se tivesse uma mancha preta no meio do cérebro. Tive um rasgo de memória. Marisa, entretanto, fora falar com Alice e concentrei-me na rapariga alta e morena que tinha à minha frente.

— Olá. — Dei um sorriso simpático, mas era como se fizesse um custo animal para levantar os lábios. — A tua cara não me estava a ser estranha. O Simão mostrou-me algumas fotografias vossas de Maputo.

— Que dia de merda para nos conhecermos. — Sorriu e pegou-me nas mãos. Porque será que, nesta situação, toda a gente pegava nas mãos dos outros? — Imagino que te estejas a culpar, a achar que deverias ter feito mais. Não poderias mesmo ter feito nada.

— Também lidaste com… tudo?

— Sim, um pouco. Talvez não tanto como tu. Mas sempre que vinha a Lisboa era um inferno. A dada altura, simplesmente deixei de vir com ele porque não conseguia lidar com o Simão pedrado todos os dias. Odiava os amigos dele, odiava aquele Nando, já agora. Sempre a fazer comentários de merda — sussurrou. Tinha os olhos novamente húmidos e fiz um esforço hercúleo para não começar a chorar mais uma vez, mas dei uma espécie de gargalhada. — Quando o conheci em Maputo, ele já fumava, mas eram só charros — continuou a dizer. — Todos fumávamos erva naquela altura mas, quando regressámos, ele voltou a consumir mais. Sempre que vinha a Lisboa, levava imensa merda para casa. E eu sei que ele estava farto de lá estar e consumia pastilhas e coca para se distrair. Ele ficava a falar sobre a navegação e estudar e, para mim, não passavam de desculpas para não fazer nada. Em Maputo, ele falava sobre dar aulas, sobre abrir uma escola, e de repente estávamos em Peniche, onde ele podia fazer isso tudo, mas então já estava farto. Nunca o vi com grande interesse nos tais cursos, entendes? — Acenei que sim. — E a minha reação era ignorar quando ele se punha com essas conversas porque ele estava sempre a mudar de ideias. Se calhar, errei nesse sentido. Soube que depois foi para o Algarve e fez mesmo esse curso.

— Sim, mas não acabou. Voltou a perder o interesse nisso também…

— Pois, foi o que imaginei. Eu aceitei um trabalho na Suécia, no qual nem tinha muito interesse, para ser franca, para fugir daquilo tudo. Porque não sabia como é que lhe havia de dizer que não aguentava mais estar com ele e vê-lo a consumir cada vez mais drogas. Uma coisa era fumarmos erva de vez em quando, outra era o andamento em que ele já ia. — Esfregou o rosto com as mãos e respirou fundo.

— Acho que cada pessoa lida com as coisas à sua maneira. — Encolhi os ombros. O que é que podia dizer? Eu também fugira, escrevera-lhe uma carta e fora embora.

— Nenhuma de nós poderia ter feito nada. Só ele poderia ter tido a força para se limpar ou para abrandar e consumir menos. E infelizmente não teve.

— É o que toda a gente diz, eu sei, eu sei, mas é difícil pensar isso agora. Fico a achar que todos poderíamos ter feito qualquer coisa mais.

— Eu falei com ele, acreditem — interrompeu Zeca, que estava a ouvir a conversa. — Ele queria parar. Disse-mo várias vezes, incluindo na Ericeira, ainda antes do que aconteceu à Marisa. Mas ele tinha de sair aqui da zona e afastar-se deles todos e da rotina. Quando me disse que não queria mais dar aulas, pensei que fosse voltar para Faro ou sair daqui durante algum tempo para se afastar de toda a gente. E pedi-lhe para fazer isso. Disse-lhe que podia ir para a minha casa em Montargil e ficar lá quanto tempo quisesse.

— Não chegou a ir?

— Não. Disse-me que ia pensar nisso e depois me dizia alguma coisa. — Zeca envolveu-me os ombros com o seu braço e apertou-mos com força. — Poderíamos ter feito mais? Provavelmente. É daquelas coisas em que vamos ficar para sempre a pensar, mas vamos ter que aprender a lidar com isto. Com a raiva, a dúvida, a negação, o desgosto, sei lá, a impotência desta merda toda.

 

Aproximámo-nos do mar quando percebemos que a cerimónia iria começar. Afonso estava ao meu lado e apertou-me a mão como se quisesse passar-me fios invisíveis de coragem. O pai começou a falar sobre a criança que ele fora, sempre a inventar brincadeiras em Maputo, a correr pela areia com uma tábua redonda de madeira que todos os miúdos usavam para deslizar à beira-mar. Deixei de me conseguir focar no que estava a dizer. Pensei nas minhas próprias memórias de Simão, de o ver chegar à escola com a sua mota azul, a gritar à janela das minhas aulas, do nosso primeiro beijo, de andar com ele de mota, do cheiro da sua cama, de nos deitarmos na areia ao fim do dia. O passado e o presente misturaram-se na minha cabeça e era difícil separá-lo, porque, na verdade, amei os dois que conheci. O que viveu na minha cabeça e o que viveu comigo. As memórias fundiram-se e começaram a vir em catadupa. Gostava que alguém falasse dele, mas dele realmente. Ele era daqueles rapazes de quem ninguém tinha nada de mau a dizer. Mesmo aqueles que o achavam estranho porque só se metia em confusões, faltava às aulas e chumbava todos os anos. Também esses gostavam dele. Ele era a luz no centro de qualquer grupo, era como se tudo girasse à volta dele, da sua gargalhada contagiosa, da sua forma de querer proteger todos, de ser notado, de tentar fazer a diferença. Era difícil imaginar que, por trás de toda esta energia absorvente, existisse um rapazinho que se sentia tão desajustado e perdido. E que se continuara a sentir assim até aos dias de hoje. Que conseguia ver o melhor das pessoas à sua volta mas não conseguira ver o melhor de si.

Subitamente, lembrei-me do funeral do outro miúdo e tive vontade de rir. Mas não era aquele riso de quem se lembra de qualquer coisa engraçada. Era mais aquele riso de quando estamos destruídos por dentro e o nosso cérebro começa a mandar sinais confusos para o nosso corpo. Imaginei que alguém fosse chegar aqui e começasse a cantar como no funeral dele. Que música poderia ser? Pensei imediatamente em The Verve. Sim, era uma música absolutamente adequada para esta merda de dia. Now the drugs don’t work, they just make you worse but I know I’ll see your face again. E agora apetecia-me chorar novamente. Porque nunca mais iria ver o rosto dele. Nunca mais iria ouvi-lo a rir. Nunca mais iria vê-lo a correr pela areia com os miúdos das aulas de surf. Se eu achara que os nunca mais iriam aparecer quando o deixara na Ericeira, a partir de agora é que iria ser um sem fim de nunca mais.

Os pais entraram na água juntamente com Francisco. A maré estava vazia e dava para andar até uma distância segura com a água até aos joelhos. Era um silêncio sepulcral que doía nos ouvidos. Doía no peito, no coração, no estômago. Uma série de surfistas entrou na água com as pranchas. A mãe deu a urna a um deles e todos se deslocaram em cima das pranchas até mais ao fundo. Então fizeram um círculo no meio do mar e atiraram as cinzas à água. Vi os pais e Francisco abraçados a despedirem-se de Simão. Afonso envolveu-me nos seus braços e apertou-me com força. Olhei para Zeca e vi uma lágrima a fugir-lhe do olho. Estava de mão dada com Alice, então entrelacei a minha mão nas deles os dois. Permanecemos assim, em silêncio.

 

Devia despedir-me da mãe dele, mas faltava-me a coragem. Vi-a com outros familiares, vi a avó de Simão, vi o pai e o irmão, e pensei que talvez também não devesse interromper, o momento era deles. Podia telefonar mais tarde. Percebi instantaneamente que também não me queria despedir nem de Nico nem de mais ninguém. Sentia-me como se estivesse acordada há uma semana e toda a energia me tivesse sido sugada do corpo. Estávamos já a sair da areia quando Francisco correu até nós.

— Isabel — gritou. — Espera!

— Desculpa, Francisco — disse imediatamente. — Não queria ir-me embora sem me despedir, mas não sei, não queria intrometer-me.

— A minha mãe quer falar contigo. Podes vir comigo? — Olhei para eles. Alice acenou com a cabeça e Luísa, que estava abraçada a Marina, fez-me sinal para ir. Segui Francisco novamente até à beira-mar.

— Mãe — disse Francisco, tocando no seu braço. Vi-a a dar um abraço a uma senhora e a despedir-se. Era uma daquelas situações em que uma pessoa nunca sabe o que dizer. Muita força? Sinto muito? Que descanse em paz? Eu não queria que ele descansasse. Eu queria que ele voltasse. Que lhe dessem uma injeção qualquer de adrenalina, que lhe dessem choques no coração com um desfibrilador.

— Sinto muito — disse, quando a mãe se virou de repente para nós.

— O Simão era um rapaz bom, não era? — perguntou-me.

— Era, sim. Era amado por toda a gente. Vou sentir a sua falta. Vamos todos sentir.

— Ele sempre foi um rapazinho complicado, confuso e solitário. — Pensei na palavra solitário. Não seria a palavra que teria escolhido para o descrever, mas mãe é mãe, ela conhecera-o melhor que ninguém. — Mas nem sempre conseguimos ver o que os outros não querem que vejamos.

— Porque diz isso?

— Muitas vezes me questionei se não o deveria ter deixado em Maputo quando voltei para Portugal. A vida dele estava toda lá, o Francisco também ficou e ele sentiu-se muito sozinho, revoltado e abandonado. Mas ele era ainda uma criança, achei que ele tinha de estar onde a mãe estivesse. Nunca imaginei que isso lhe pudesse deixar lesões tão grandes. Ele passou tantos anos deprimido, nunca se adaptou… mas também não queria ajuda, não queria que ninguém soubesse, nem falar sobre isso queria. Era como se saísse de casa todas as manhãs com uma máscara e a tirasse quando regressava.

— Eu sei — disse baixinho. E estava novamente a chorar.

— Oh, minha querida. — Pegou-me nas mãos e apertou-as com força nas suas e lá estava novamente o ritual das mãos. — Estou a dizer-te isto porque foste uma luz na vida dele. Tanto quando vocês eram miúdos, como agora. Ele tinha todas as tuas cartas guardadas como se fossem ouro dentro de uma caixa. E lia-as e relia-as à noite, penso que se sentia de alguma forma menos sozinho. Às vezes, espreitava pela porta do quarto e via-o com a caixa aberta em cima da cama. — Dei uma gargalhada e solucei ao mesmo tempo. — E se visses as mudanças que vi nele quando vocês se voltaram a encontrar. Ele andava motivado e feliz, acho que era isso. Se era suposto ele só ter vivido vinte e dois anos, se foi sempre este o plano do universo desde o início, só quero agradecer-te por teres feito parte da vida dele e o teres feito sentir-se tão especial e único. Porque ele era um rapazinho especial e único. Mesmo com todas as escolhas erradas que fez na vida.

Fiquei em silêncio porque tudo isto era simplesmente demasiado para mim. Ela abraçou-me e permanecemos as duas com os nossos corpos juntos. Não sabia se me confortava a mim ou se era eu que a reconfortava a ela.

— Uma vez, tivemos uma discussão. — Afastámo-nos mas continuou com as minhas mãos nas suas. — Ele disse que, se morresse, ninguém iria sentir a falta dele. Se ele estiver a ver isto algures lá de cima, não sei, de onde quer que esteja, espero que veja o quanto é amado e a quantidade de pessoas que gostaram de o ter nas suas vidas.

— E que vão sentir a sua falta — acrescentei. Ela sorriu.

— Tenho uma coisa para ti. Eu sei que ele quereria que isto ficasse contigo. Talvez seja uma forma de te lembrares dele ao longo da vida. — Tirou uma caixa da mala, e eu já vira esta caixa antes. O meu coração apertou-se um pouco mais. — Ele tinha o fio dentro de uma camisola com uma fotografia tua. Só encontrei isto hoje de manhã quando fui ver algumas das suas coisas. Acho que te pertence. — Sorriu, colocando-me a caixa na mão.

Abri-a, tirei o fio e olhei para ele. Era o pequeno coração que pertencera à avó dele. Coloquei-o junto ao peito, fechei os olhos e deixei que o resto de lágrimas que ainda tinha jorrassem para fora de mim.

 

A cada segundo que me afastei da água do mar e subi pela areia em direção ao paredão, fiquei mais forte. Continuava a doer-me o coração mas imaginava que fosse mesmo assim que era suposto ser. Afonso estava sentado nas escadas com eles à minha espera. Quando cheguei ao pé deles, abraçou-me e ficámos parados em silêncio.

— Tenho aqui uma coisa. — Colocou a mão no bolso das calças de ganga pretas. Tirou uma folha amachucada e dobrada em vários bocados. — Acho que já não sou eu que devo ficar com ele. Talvez seja uma boa forma de te despedires dele.

Li a primeira parte do poema e comecei a rir. Ri-me tanto que comecei novamente a chorar.

 

A maioria das pessoas já abandonara a praia e a mancha negra dispersara, por fim. Parei à beira-mar e respirei fundo. Afonso, Zeca, Luísa e Alice ficaram mesmo atrás de mim. Marina já se tinha ido embora porque, ao contrário de Luísa, que já abandonara Medicina, tinha de voltar para o seu estágio. Li a primeira frase em voz alta, mas parei, não precisava de gritar. Ele iria ouvir. Li todo o poema para mim. Já não era apenas eu agora, era também eu com catorze anos. Era eu a despedir-me do Simão das minhas memórias. E era eu agora a despedir-me da outra metade do meu coração. O tempo moveu-se nas duas direções, o passado tornou-se presente e estava agora comigo, estava a vê-lo a descer a rua na sua mota azul para se despedir de mim. Terminei de ler a última frase: É à tua porta que a saudade irá bater. Esperava que, onde quer que estivesse, não se sentisse sozinho. Esperava que se sentisse amado, porque o era. Rasguei o papel no máximo de bocados que consegui e atirei-os à água o mais longe que o vento mo permitiu. Fiquei a ver os inúmeros bocados de papel serem puxados pelas ondas para lá e para cá até desaparecem. Estavam lá com ele. Era o nosso adeus. Ou o nosso até mais logo.

— Estás bem? — perguntou-me Afonso.

— Vou ficar bem.

Ele sorriu e começámos a andar.

— Obrigada — acrescentei, dando-lhe a mão.

— Porquê?

— Por seres como és, por compreenderes que deixar para trás o passado não implica nunca falar dele.

— Eu apaixonei-me por ti por tudo aquilo que és e por tudo o que viveste. E também agradeci em silêncio ao Simão.

— Porquê?

— Por te ter trazido de novo para mim.

Ele abraçou-me com força e deixou-se ficar colado a mim. Permaneceu. Nós permanecemos.

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