Raparigas como Nós
Capítulo 10
10
Há muitas pessoas que começam a fazer as coisas cheias de energia e, ao longo do tempo, começam a esmorecer. Foi o que vi acontecer com Simão. A primavera chegara, por fim, começara a dar aulas de surf na praia e nunca mais falara em terminar o curso ou fazer o tal exame de mar de que tanto falara ao princípio. Regressara à sua velha rotina, ou talvez ter voltado a viver aqui tenha feito regressar velhos hábitos amigos. Enquanto o inverno passara por nós calmo e ameno com noites em casa dele a ver filmes, sábados a almoçar tarde no sofá, tardes de domingo no cinema ou na praia, o calor trouxera mudanças e nem todas boas. Eu estava a estudar para as frequências, tinha trabalhos para fazer e sebentas para ler, ao passo que Simão, a trabalhar na praia, passara a ver mais os amigos que, regra geral, passavam as tardes no bar de Zeca.
Um sábado a meio de abril fui jantar com Alice, Luísa e Marina.
— Eu e o Ventura acabámos! Mas já sei o que é que vocês vão dizer e eu sei que têm razão, por isso poupo-vos os sermões — disse Alice de uma assentada quando chegou, enquanto eu e elas já enfardáramos presunto e azeitonas.
— Como assim? — perguntou Marina. — Vocês não estavam bem?
— Acho que queremos coisas diferentes. Os amigos dele agora trabalham nos aviões, sabias? — perguntou-me diretamente a mim. — E ele decidiu que também quer fazer isso. Deixaram todos de estudar.
— Porquê? — questionei, dando-lhe a mão por cima da mesa.
— Porque os testes para as companhias aéreas começaram em março, todos concorreram e entraram — respondeu, revirando os olhos. — Afinal, não é preciso ser-se muito inteligente para servir cafés no ar.
— Não sejas tão presunçosa — disse Marina, levantando o sobrolho.
— Não é isso — respondeu, furiosa. — Estão todos em voos de longo curso, pelo que passam imenso tempo no fim do mundo. Estava todo excitado a dizer que o primeiro voo para o Rio de Janeiro tinha sido incrível, que tinham ido sair todas as noites e quem tinha fodido com quem. — Respirou fundo de forma alta e teatral como se tentasse expulsar toda aquela raiva de dentro dela. — A sério, nem vos consigo explicar. Não é que fosse o amor da minha vida, não é? Mas, sei lá, olha, divertíamo-nos. Mas quando me foi buscar ontem e fiquei sentada no carro a ouvi-lo falar sem parar sobre isto foi como se alguma coisa de repente se estilhaçasse. Já não conseguia sequer olhar para ele nem ouvir mais as histórias idiotas do Rio de Janeiro. Ele esteve uma semana fora e nem sequer me perguntou como estava ou se tinha passado no exame de metodologia. Ficou a palrar sem parar. E depois disse-me que já tinha o calendário dos próximos dois meses e ia ter várias semanas fora. Não é preciso muita imaginação para supor o que é que vai acontecer…
— Não estás a exagerar? — perguntei, interrompendo-a para a deixar respirar.
— Sabes o que é que ele disse? Agora «somos homens do mundo» — disse isto com entoação sarcástica. — Foda-se, parecia tão idiota quanto os amigos e eu sempre tentei convencer-me que ele era diferente.
— Escuta — disse Luísa —, não faz mal mudarmos de ideias e deixarmos de gostar de alguém ou de ver aquilo que víamos. A vida é mesmo assim..
— É isso… — Suspirou e encostou-se na cadeira como se tivesse esgotado todas as suas energias para continuar a falar.
Nós as três trocámos olhares mas ninguém disse nada. Acabei por ser eu a cortar o silêncio, dado que o conhecia melhor do que elas.
— Na verdade, e não me odeies por isso, sempre o achei um idiota e nunca percebi o que vias nele — disse a medo. — E tratava-te como merda. Era arrogante e pretensioso, como se soubesse sempre mais do que os outros, estava sempre a interromper-te quando falavas e transformavas-te noutra pessoa quando estavas com ele.
— Eu sei. — Começou a comer, o que significava que, pelo menos, já acalmara.
— E sabes o que é que o Afonso me dizia? — Ela olhou para mim surpreendida. — Ele contou-me coisas que nunca te disse porque não te queria deixar com macaquinhos na cabeça.
— Agora queremos saber — disse Luísa.
— Bem… — Aclarei a voz e bebi um gole de limonada. Isto seria uma longa conversa. — Para começar, contou-me episódios de festas meio manhosas, como podes imaginar, nada disto é novo para ti. Mas basicamente era os gajos a pinar e a rodar as raparigas entre eles — sussurrei, olhando para o lado para me certificar que ninguém estava a ouvir a nossa conversa. — E disse-me que, numas férias em Palma de Maiorca, acabou envolvido numa dessas festas, mas que, a dada altura, era tudo demasiado surreal. Olha, disse que aquilo era o degredo e que era por isso que também não saía muito com eles. — Fiz uma pausa para pensar. — Ah, e lembras-te de quando foram passar o aniversário não sei de quem a Amsterdão já quase no fim do verão? O Afonso disse que ficou com outro numa coffeeshop a fumar uma merda qualquer e que o resto do grupo foi às putas.
— E quem te diz que o Afonso também não fazia isso? — perguntou.
— Não estou a defendê-lo, mas ele contava-me isto com muita naturalidade. Nunca tive motivos para duvidar. O Ventura alguma vez te contou isto?
Alice acenou negativamente com a cabeça.
— Se o Afonso me quisesse esconder, simplesmente não contava — continuei. — Quando foi isto de Amsterdão, disse-lhe que nem queria saber mais nada porque, se ele me confirmasse que o Ventura tinha ido às putas, era obrigada a contar-te. — Aproximei a minha cadeira da dela e abracei-a. — Desculpa por não te ter contado, mas não queria magoar-te a contar merdas destas. O Afonso dizia-me sempre que o Ventura gostava de ti e que não era tão mau como eu o pintava.
Alice respirou fundo e limpou uma lágrima que estava quase a cair.
— Nada disto me espanta — disse-me. — E só me dás mais razões para saber que tomei a decisão certa. Nem sei como estivemos juntos tanto tempo, para dizer a verdade.
— Podemos falar de uma coisa importante? — perguntou Luísa. — Desculpa, Alice, claro que isto também é importante mas preciso da vossa opinião.
— O que se passa? — perguntou Alice.
— Vou desistir de Medicina.
Luísa sempre fora de decisões incontornáveis, todavia nada disto me espantava. Nem sabia, em primeiro lugar, por que concorrera a Medicina. A pressão dos pares é tramada mas, vejamos, a dos pais consegue ser ainda pior. Embora, neste último ano, tivéssemos passado pouco tempo juntas, os nossos laços eram fortes. Continuávamos a ser todas amigas, mas claro que seria ingénuo não perceber que o tempo nos iria empurrar para outros caminhos, fazia parte do percurso natural da vida. Marina e Luísa estavam no mesmo curso, pelo menos enquanto Luísa ainda lá estivesse, e Alice e eu, ainda que em turmas diferentes, estávamos na mesma faculdade e, como sempre fora já em miúdas, passávamos muito tempo só nós as duas. Depois do jantar, Alice foi comigo para casa do meu pai e acabou por dormir lá. Fizemos um serão de filmes até às cinco da manhã, comemos pipocas e conversámos como se tivéssemos todo o tempo do mundo para perder em noitadas de miúdas e nada para estudar. Tentei durante toda a noite arranjar coragem para lhe contar o que Ventura fizeram no festival, mas o momento fugira. Ou eu é que perdera a coragem.
*
Uma tarde, Zeca mandou-me uma mensagem a perguntar se queria um part-time na praia. Precisavam de uma pessoa extra no bar ao fim de semana e Simão tinha-lhe dito que eu queria um trabalho depois das frequências. Pensara em procurar outra livraria, mas trabalhar na praia também tinha as suas vantagens. Passaria os fins de semana com Simão, que me sugerira ir a algumas aulas de surf para perder o medo do mar. Acenara que sim com a cabeça, sabendo que nunca o iria fazer.
No bar, o tempo passava a voar: de manhã, montava as mesas e os chapéus, servia pequenos-almoços tardios, tostas e sumos naturais. Pela hora de almoço, as mesas enchiam-se de grupos e famílias que queriam aproveitar o início de calor. Começavam as saladas, os hambúrgueres, as batatas-fritas e as Coca-Colas em doses animais. Aprendi a tirar várias bebidas ao mesmo tempo da máquina sem entornar nenhuma, como via Zeca fazer, o que foi celebrado com entusiasmo por ele como se tivesse acabado de descobrir a cura para o cancro. À tarde, passava o tempo a servir gelados a miúdos e lanches aos grupos que saiam das aulas de bodyboard e surf. E com o fim do dia vinha a altura de começar a limpar tudo, recolhiam-se os chapéus, guardavam-se as pranchas e preparava-se o bar para a noite, jantares, caipirinhas e as famosas festas de karaoke ao sábado à noite que enchiam o bar. Aí, já não era nada comigo, terminava o meu turno às oito. Normalmente, Simão e eu ficávamos lá para jantar com Zeca e com mais um ou outro amigo que, entretanto, aparecesse.
Numa sexta-feira à noite, jantámos todos no bar de Zeca porque era o aniversário de um deles. As mesas estavam lotadas, havia muita gente de pé a conversar, a fumar e a beber caipirinhas ou margaritas. Eu e Alice estávamos sentadas numa mesa mais para o fundo com alguns amigos deles e bebíamos uma margarita cor-de-rosa. Marisa também estava com duas amigas fotocópias, as três de vestidos curtos, mas pouca atenção lhes prestei.
— Tinhas razão, o Zeca está tão diferente — comentou Alice quando ele se juntou e sentou num dos lugares vagos na mesa, de frente para nós.
— Lembras-te dele naquele verão? Era tão estranho e desengonçado.
— E aquela trança caída — sussurrou para mim — parecia um campónio. E olha-me aquela cabra… — rematou com um sorriso aberto porque Marisa estava a olhar para nós.
— O Simão disse que ele sempre teve uma paixoneta por ela.
— Claro. Quem é que na escola não tinha uma paixoneta por ela? — Encolheu os ombros.
— O Simão disse que ela passou por coisas lixadas na vida — comentei. Mas, entretanto, Simão, que estivera ao balcão a fumar com Nando e um dos irmãos, apagara o cigarro e viera ter connosco.
— Depois disto, eles vão todos a uma festa em Cascais — disse, mexendo-me no cabelo. — Vamos?
Troquei um olhar com Alice.
— Porque é que o teu amigo anda com aquela mal encarada? — perguntou a Simão. — Não era suposto ele perceber que ela tem qualquer coisa avariada lá dentro?
— Pode ser que um dia ele perceba. — Simão sorriu e baixou-se para que só Alice ouvisse. — Ou pode ser que alguém o faça perceber isso mais rápido. Não tens nada a perder.
— Estás a dizer o que eu acho que estás a dizer?
— Eu não estou a dizer nada — respondeu Simão, levantando as mãos. — Mas ele vai à festa.
— Ai. — Alice levantou as sobrancelhas. — Vamos à festa!
Simão beijou-me a orelha e foi ter com Zeca. Estava a fazer gestos atrás dele para nós e claro que nada disto passara despercebido a Marisa, que se levantara e se sentara ao colo de Zeca, sussurrando qualquer coisa ao seu ouvido, o que o fez rir. Convenci Simão a deixar o carro na praia e fomos de táxi porque já sabia que ele queria beber e eu iria mais cedo para casa. Obriguei-o a jurar que viria de táxi e não de boleia com nenhum deles, ele jurou com uma gargalhada, eu obriguei-me a acreditar.
— Estás bem? — perguntou-me enquanto voávamos pela marginal, os três instalados no banco de trás do táxi, comigo no meio.
— Sim. — Sorri e olhei de lado para ele. — Porque perguntas?
— Por nada. Só gosto de saber como te sentes.
— Vocês são tão amorosos. — Gozou Alice, chegando-se para a frente, o que fez com que Simão lhe começasse a puxar os caracóis apertados no rabo-de-cavalo.
— Simão — puxei-o com o braço direito —, acho que devíamos fazer um arranjinho entre eles os dois.
— Também acho. — Abrira a janela do lado dele e começara a acender um cigarro, mas voltara a apagá-lo. Guardou-o dentro da caixa e fechou o vidro. Fiz-lhe um olhar de interrogação.
— Fumo quando lá chegar — disse-me, compreendendo a minha questão silenciosa. — Alice, escuta, agora a falar a sério, ele é mesmo uma ótima pessoa e acho que lhe farias melhor do que a Marisa. Ela dá-lhe cabo do juízo.
— O que é que ela lhe faz? — perguntou, apoiando os braços no banco da frente.
— Epa, ela é um bocado possessiva. Já assisti a birras dela de cortar os pulsos e ele, que tem uma paciência de santo, não se chateia com nada.
— Mais uma qualidade dele — apontei para Alice.
— Já vi que está cheio delas — respondeu com um revirar de olhos.
Ao contrário dos amigos de Afonso e de Ventura, que, quando bebiam, ficavam estúpidos e grunhiam como animais atrás das raparigas, o grupo de Simão limitava-se a ficar no seu canto. Não gritavam, não se metiam com miúdas nos bares, não discutiam nem descarregavam a sua agressividade no álcool. Terminado o seu dia de trabalho, faziam aquilo de que gostavam, fumavam charros e ouviam música terrível. Era uma forma de suportarem a rotina. Simão já me explicara esta necessidade de estarem sempre um pouco embalados. Era aquela vontade de escapar a toda a merda. As merdas no trabalho, as merdas que se passavam nas suas vidas. Não conseguia compreender que merdas tão grandes fossem essas. Numa dessas conversas, dissera-lhe que, provavelmente, muitas das merdas que lhes aconteciam vinham única e exclusivamente dos hábitos de consumirem todos os dias. Se Nico não tivesse droga com ele, não tinha sido preso. Então a prisão tinha sido uma merda apenas consequente da droga, não podia ser a fuga se era a consequência. Mas ele não entendera o meu ponto de vista. Falara-me dos pais de Nando, que eram médicos, e de como ele crescera sozinho com as empregadas sempre de volta dele. Falara-me dos irmãos, Paulo e Pedro, e da sua mãe que morrera quando eram miúdos, da pobreza e do pai que pouco lhes ligara porque lidava com a sua parte de problemas relacionados com álcool. Falara-me dele próprio e da merda que fora a sua vinda para Portugal. Eles foram miúdos de quinze anos para quem a droga fora um escape. E ela estava infiltrada na escola, nas discotecas a que íamos, nos cafés e nos bares. Dera por mim a pensar como apenas o acaso decide como um adolescente vai ultrapassar a puberdade. Pode passar por ela sem grandes problemas, como eu e as miúdas da minha turma, felizes na nossa inocência. Ou pode mergulhar no álcool, nos charros, nos comprimidos, na heroína e nestas formas fáceis de esquecer que somos miúdos estúpidos com famílias de merda ou notas de merda ou amigos de merda ou vidas de merda. Por esta altura, já percebera que era muito mais do que charros mas preferia ficar na ignorância. Era tudo muito complexo para mim.
A primeira pessoa que vi na festa encostado ao bar foi um miúdo que também andara na nossa escola. Lembrava-me bem dele, moreno, cabelo comprido, viola ao ombro e todas as raparigas apaixonadas por ele. Já ele, não ligava a nenhuma. Tinha um jeito de estar sempre seguro, andava pela escola com a naturalidade de um artista e continuava assim. Já não tinha cabelo comprido mas continuava genial. Dei cotoveladas a Alice para que o visse. Ele vestia uns calções de praia e parecia que viera diretamente do mar para a festa, como se nem tivesse tomado banho, como se nem precisasse de se dar a esse trabalho. Cumprimentou toda a gente. Marisa, como sempre fazia, agarrou-se ao seu pescoço e Alice e eu fomos dar uma volta para ver o espaço. Era pequeno, minúsculo, na verdade. Ficava por cima da praia de Cascais, em frente à linha do comboio e enfiado num buraco com uma varanda para o mar. Era como se alguém tivesse decidido tornar a sua sala de casa num bar. Zeca deu-nos copos de Malibu ananás, «bebida de meninas», disse. Alice dera uma gargalhada tão disparatada que olhei para ela e perguntei o que estava a fazer. Ela encolheu os ombros, era impossível sequer falar com ele com Marisa de olhos de falcão em cima de nós. Estaria ela assim tão preocupada com a nossa presença? Reparei que estava encostada ao balcão com as fotocópias e não tirava os olhos de nós enquanto se ria de qualquer coisa que as outras lhe estavam a dizer. Os rapazes estavam em círculo a conversar e a fazer o que quer que estivessem a fazer.
Fomos deixar as nossas malas à mesa onde Simão e os outros estavam e pousei o meu copo para não estar com ele na mão. Alice pedira-me para ir com ela à casa de banho, que era minúscula. Estavam lá três miúdas debruçadas sobre a bancada dos lavatórios a dividir três linhas de coca com um cartão de multibanco. Fingi uma naturalidade que não tinha, como se ver alguém a cheirar coca fosse normal. Perguntaram-nos se queríamos, Alice entrou no cubículo da casa de banho e eu agradeci, disse que não e comecei a lavar as mãos para ter algo com que me ocupar. E elas lá continuaram. Agradece-se a alguém que nos ofereça droga? Quais seriam as regras de etiqueta? Conseguia vê-las pelo espelho, uma delas baixou-se, tapou uma narina e inspirou a sua linha de pó com um rolinho de papel. Fechou os olhos, atirou a cabeça para trás e começou a abanar o corpo. Depois desatou a rir alto e as outras duas juntaram-se.
Saímos e voltámos para a mesa. O espaço estava abafado, tinha a roupa a colar, peguei no meu copo e fomos para a varanda. Bebi o resto da bebida de um só trago, pousei o copo vazio no muro e fiquei a mordiscar a palhinha. Dois miúdos que se beijavam ao nosso lado desequilibraram-se e o copo caiu lá para baixo, para o vazio do escuro e da areia. A música era incómoda e chata, parecia que as batidas me entravam pelo corpo e me acentuavam os batimentos do coração. Olhei para o relógio e vi que era quase uma da manhã. Comecei mentalmente a contar as horas que iria dormir até ter de acordar para abrir o bar com Zeca. Talvez pudesse convencê-lo a vir para casa comigo e com Alice, dado que iríamos trabalhar no dia seguinte. O táxi poderia deixar-me em casa e eles os dois seguiam caminho. Depois lembrei-me que Alice morava a duas ruas da minha e isto não iria funcionar. Este plano parecia infalível e genial ainda há dois segundos atrás. Contei novamente as horas que teria para dormir. A meio da contagem, comecei a baralhar-me, os números não me faziam grande sentido. Queria contar em voz alta para me concentrar, mas parecia que tinha a língua inchada e colada ao céu da boca. Ouvia Alice a falar comigo, mas a sua voz gritava mais alto que a própria música e tive vontade de me afastar dela para que não me furasse os tímpanos. Comecei a andar para trás e, subitamente, as minhas pernas cederam e caí para o chão como se fosse uma boneca de trapos. Uns miúdos apanharam-me. Ouvi-os a rir, as suas gargalhadas eram ruidosas e precisava de me afastar deles, empurrei-os com força e dei um salto para dentro do bar. Conseguia perceber tudo à minha volta de forma ampliada, estava tudo alto, brilhante e ruidoso. Alice agarrou-me nos ombros e perguntou-me o que se passava. Havia muita gente à nossa volta, a música era de enlouquecer, as luzes tão brilhantes que pareciam que me iriam cegar e tudo abanava debaixo dos meus pés. Tive a sensação de estar dentro de um carrinho de choque a ir contra toda a gente. Comecei a querer derrubar os miúdos que se atravessavam à minha frente. Via-os como pinos de bowling que queria abater com o meu carrinho de choque. E lembrei-me de jogar bowling com Afonso e quis dobrar-me em duas para arrancar esta memória da minha cabeça, furava-me como facas no meio do peito. Alice puxou-me e tentou bloquear cada uma das minhas investidas, enquanto gritava e questionava o que raio se passava comigo. Eu queria responder-lhe que não se passava nada mas, ao mesmo tempo, não me apetecia falar. Apetecia-me dançar e deixar-me levar pela música que, afinal, era incrível. Queria perguntar-lhe se estava a sentir o mesmo que eu, mas tinha tanto calor, a roupa estava a queimar a minha pele, então tirei a T-shirt por cima da cabeça e fiquei só com a parte de cima do biquíni que ainda trazia por baixo da roupa. Pensei que era tão porca quanto aquele miúdo espantoso da nossa escola que nem tomava banho porque continuava a ser sensacional. Vi-o encostado ao balcão com outro rapaz, tinham os dedos entrelaçados e agora percebia porque é que não ligava nenhuma às miúdas. Nem à estúpida da Marisa das Argolas, tão perfeita e extraordinária. Então Simão apareceu e agarrou-me a cara. Vi-o a balbuciar palavras que não conseguia entender. Agarrei-me ao seu pescoço porque me sentia a voar. Ele era tão bonito, tão maravilhoso, onde estaria o seu chapéu das flores havaianas? Precisava do chapéu, queria cheirá-lo e comecei a lamber-lhe o pescoço como lambera o porta-chaves que me dera. Agora era tudo espantoso, conseguia perceber porque é que toda a gente gostava deste sítio. As paredes eram brancas e brilhavam com tanta intensidade que me sentia no meio de uma praia. Senti sede. Tinha tanta sede que tirei a garrafa de água da mão do estúpido do Nando e senti necessidade de beber tudo de uma vez. Atirei a garrafa vazia para cima dele. Vi Simão puxar Marisa por um braço e perguntar-lhe o que tinha feito. Marisa riu-se com uma gargalhada tão alta que me apeteceu abatê-la. Vi-a como um pino idiota de cabelos compridos, aproximei-me dela e puxei-lhe os cabelos, mas mantive as mãos delicadas. Nem era puxar, apenas queria tocar-lhe. Achei que era uma peruca porque ninguém na vida real podia ter aqueles cabelos ondulados e cintilantes. Fui arrastada por Simão e por Alice até à rua, que estava fria e escura. Agora tinha tanto frio que imaginei que iria congelar. Lembrei-me subitamente que poderia correr para aquecer o corpo e foi o que fiz. Desatei a correr pela rua. Ouvi-os a chamar-me, gritavam tão alto que me apeteceu mudar de direção para deixar de ouvir os seus gritos atrás de mim. Virei como um foguete para uma rua lateral e passei pela porta traseira de um restaurante e por um homem que lavava o chão com uma mangueira. Escorreguei nessa água e imaginei que estava a andar sobre a água do mar. Fiquei deitada no meio do chão com o homem a gritar em cima de mim e levantei-me num salto. Conseguia estar de pé sobre o mar, já não tinha medo de barcos. Eu era um barco, eu conseguia flutuar por cima do mar. Simão apareceu esbaforido, agarrou-me e colocou a sua camisola por cima de mim. Tinha os cabelos molhados colados à cara e, subitamente, senti-me tão cansada que parecia que toda a energia se evaporara do meu corpo. Deixei que me agarrasse, deixei que me levasse para onde quer que fosse. Só queria que me tirasse do meio da água, não aguentava mais tanta água. Sentia-me a afogar.
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