Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 15 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 5

5

 

Entrámos no ano 2000 e nada mudou. O mundo não acabou, não se dera o apocalipse nem nenhum bug do milénio. E, a piorar o meu estado de espírito fatalista, Simão não regressara à escola. Ninguém sabia dele e tivera de ficar sentada nas aulas a fingir uma atenção que não tinha. Finalmente, no final da semana, soube que Simão estava de férias com o pai. Chegara a pensar que nunca mais o iria ver, o que, de certa forma, me fizera questionar o que ele significava. «Já nem me lembro da cara dele», dissera um dia a Alice, como se gostasse não dele, mas da fantasia que representava. Mas dava por mim deitada na cama a olhar para a fotografia que tínhamos surripiado na biblioteca e que, na altura, estava colada numa moldura ao lado da minha cama, a tentar decifrar o seu rosto.

A meio de janeiro, Simão regressou à escola. Estava a descer as escadas quando alguém me chamou, virei-me e ele estava ali, encostado à porta do bar de chapéu branco na cabeça. Chovia torrencialmente, mas ele tinha de chegar com algo que o tornasse, naquele dia, diferente de toda a gente. Sorrira-me e acenara. Todo aquele turbilhão de emoções que nem sabia o que eram voltou em avalanche. No fim do dia, quando ia para casa com Marina, Simão e os rapazes estavam à porta da escola. Nico, sentado na mota dele, puxou-me a mochila e disse aos rapazes que eu me sentava ao lado dele nas aulas. Simão virou-se e cruzou os braços. Eu rira-me e não o desmentira. Eles eram rapazes e nada do que faziam ou diziam era congeminado, pensado ou preparado. Nós acreditávamos que, tal como nós, todos os seus atos tinham algum significado para lá daquilo que queriam transmitir quando, na verdade, nada significava grande coisa. Mas nós víamos desesperadamente ações gloriosas em todos os seus gestos. Eu queria tanto ser objeto de algum plano maior de Simão que todos os seus olhares, cruzares de braços, sorrisos ou piscares de olhos significavam algo escondido que só eu via. Naquele dia, tivera a certeza de que vira algum laivo de irritação naquela observação de Nico. Esperava todos os dias ver algum reconhecimento de que aquilo que nós tínhamos, o quer que fosse, era tão real para ele como para mim.

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