Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 24 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 14

14

 

Acordei de manhã com o telemóvel a apitar cheio de mensagens. Houvera um acidente depois da festa com uns rapazes da escola e as mensagens começaram a correr em cadeia. Uns diziam que tinha sido de carro, outros de mota. Uns diziam que eram uns rapazes mais velhos, outros diziam que eram amigos de Simão. Senti-me muito estúpida a chorar na noite anterior, como se tudo girasse em torno de nós, como se tudo o que Simão fizesse fosse condicionado por mim, habituada como estava a permear todas estas camadas da vida dele que não conhecia. Nico acabou por, finalmente, responder a uma das minhas dezenas de mensagens. «O Simão esteve envolvido no acidente e o João Tiago morreu», escreveu. Foi tudo assim muito cru, sem grande sentimentalismo, como se tivesse dito que João Tiago fora comprar cigarros ali ao café da esquina. Lembrava-me vagamente desse miúdo, namorava com uma das amigas da Marisa das Argolas. Todavia, recebemos aquela notícia com um grande pesar, como se, subitamente, João Tiago fosse irmão de todos nós. Depois do almoço, encontrei-me com as raparigas da turma e fomos até ao café na rua da escola para ver se estava lá alguém que nos desse mais informações. Era o primeiro dia de férias, mas, tal era a multidão, parecia um dia normal de aulas.

Fora um acidente de carro, soube naquela tarde, Simão ia no banco de trás, partira o braço mas estava bem. Todos me diziam que ele se tinha safado, como se a palavra safado ganhasse então uma nova compreensão. Nando ia a conduzir e saíra ileso, João Tiago ia sem cinto e fora projetado para fora do carro, todos tinham uma panóplia de drogas no sangue. Falara-se em ecstasy, LSD, anfetaminas e heroína, palavras que me eram estranhas, como se frequentasse uma escola totalmente diferente. Já não era só o fumar charros atrás da escola, todos conheciam alguém que já tinha experimentado o resto, falavam disso como quem fala de rebuçados para a tosse. Contaram-nos quem vendia na escola, quem tinha as melhores pastilhas, quem arranjava Valiums antes dos testes. Todos menos Simão, garantiram-me e eu acreditara porque queria muito acreditar.

 

O funeral realizou-se uns dias depois com a escola presente em peso, professores e auxiliares incluídos, uma cena de filme estranhamente mórbida. Estava um calor abafado de início de junho, a relva verde clara e lenta, à falta de uma brisa que nos lembrasse que havia ali vida, e viam-se flores por todo o lado, como uma festa de verão que nos convidara a esquecer para o que estávamos a entrar. Passámos pelo portão do cemitério e percorremos lentamente o caminho de terra até à pequena multidão que se acotovelava. Centenas de miúdos que provavelmente tinham tanta relação com João Tiago como nós, rostos familiares que me lembrava de ver pelos corredores da escola. Mas uma morte mexia com toda a gente. Era algo transcendental, como se estivéssemos todos unidos por um fio invisível, como se o próximo pudesse ser qualquer um de nós. Vi alguns amigos de Simão mais à frente e puxei Alice para ir comigo até lá, precisava de o ver, precisava que ele me visse. Comecei a furar as pessoas e a empurrá-las para que nos deixassem passar, alheia aos «foda-se» que ouvia pelo caminho ou sempre que pisava alguém. E vi-o. Estaquei e fiquei ali, no canto da turba em luto. Tinha o olho direito negro, a boca inchada e o braço ao peito, observei-o como se nunca o tivesse visto. Conseguia vê-lo a falar, a encolher os ombros. Estaria provavelmente a falar sobre o acidente, o porquê, o como. Alguém atrás de mim chamou-o e, quando se virou, viu-me. Deu um passo em frente, como se fosse dizer-me alguma coisa, mas parou, tocou no lábio inchado e acenou-me.

 

*

 

Foi um dia horrível. Os rapazes mais velhos choravam, Simão incluído. Marisa e as amigas, entre elas a namorada de João Tiago, estavam abraçadas a chorar, os professores e funcionários de cabeças baixas, a família dele junto dos amigos. E o silêncio, enquanto o caixão descia para a terra, fora de cortar à faca, era pavoroso, afiado, gritava mais alto do que qualquer grito e quase nos furara os tímpanos. Marisa e as amigas disseram que queriam cantar uma música para se despedirem dele. Um dos rapazes pegou numa viola e os primeiros acordes de Last Kiss ecoaram no silêncio. A namorada dele soluçava entre cada verso e um coro de gente juntara-se à despedida musical.

 

Oh, where oh where can my baby be?

The Lord took her away from me

She’s gone to heaven, so I got to be good

So I can see my baby when I leave this world.

 

Foi arrepiante, intenso, triste e emocionante. Ao mesmo tempo, mágico e doloroso. Porque não importava se tinham sido as drogas, o álcool, o acaso, o destino ou o quer que fosse. Era um miúdo como nós que partira para sempre. E se havia alguma coisa que poderíamos aprender com isto é que a vida é muito frágil, passa por nós delicada e inconstante, escapa-nos das mãos como um grão de areia.

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