Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 33 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 5

5

 

 

Acordei mais cedo do que estava à espera e sentei-me na varanda da sala a comer cereais e a ouvir o amanhecer com aquele silêncio próprio de Lisboa e de quem tem dois irmãos gémeos ainda a dormir. Deixei um bilhete ao meu pai a dizer que ia caminhar e saí de casa. O termómetro batia os 0 graus, não me lembrava de uma Lisboa tão fria há muito tempo, mas parecera-me uma manhã tão boa como qualquer outra para expurgar lembranças e vencer aquela corrida. Coloquei os auscultadores nos ouvidos e desci a rua até ao Café no Chiado. Ainda estava fechado, sentei-me durante um tempo na berma do passeio e quase conseguia visualizar à minha frente aquele primeiro dia com Afonso. Parecia que fora noutra vida. Passei pelo São Carlos, desci aos Armazéns do Chiado e segui daí para os Restauradores, onde costumávamos beber batidos ao domingo de manhã, sentados na praça a ver os pombos que se lançavam ao chão em busca de restos de migalhas. Parei em frente à estação do Rossio, onde uma vez vimos uma exposição em plena praça central da estação. Respirávamos felicidade naquela tarde de verão em que nos apetecera fugir do calor e entráramos pelas portas antigas da estação. Meti pelas ruas do Chiado onde, tantas vezes, bebêramos chocolate quente com waffles. Passei pelo Hotel do Bairro Alto, onde, algumas vezes, lancháramos no terraço. Adorávamos fingir que éramos turistas e, sentados de pernas cruzadas com o nosso ar meio blasé de quem não estava nada impressionado com a vista de Lisboa, falávamos num inglês cerrado, amávamos fingir ser do norte de Inglaterra e, entre risos, dizer Coffee, please com um sotaque afetado. Lembrava-me de fumar dos seus cigarros com expressão snob porque, só para nós, aquilo tinha piada. Subi as ruas do Bairro Alto, agora vazias e ainda com vestígios de festas de passagem de ano, onde passáramos tantas noites a beber, ele martinis e eu margaritas de limão com sal nas bordas do copo que gostava de lamber. Encontrei um café já aberto e comi uma torrada ao balcão enquanto o velhote falava dos rufias que tinham andado por ali na passagem de ano a dar pontapés aos caixotes de lixo. Segui em direção ao Miradouro de São Pedro de Alcântara e sentei-me numa das cadeiras espalhadas pelo jardim. Olhei para a vista da cidade cinzenta e escura daquela manhã fria, para o Castelo e para a encosta da Mouraria. Conseguia lembrar-me de muitos finais de tarde passados ali naquele verão, alguns com os amigos de Afonso e com Alice, outros só nós os dois. Dias de calor sem horas em que víamos o sol descer por detrás das colinas de Lisboa. Voltei ao Largo Camões e desci a Rua do Alecrim até ao Cais do Sodré e fui até à beira rio. Alguns madrugadores já se encontravam por ali, caminhantes ou adeptos das corridas matinais que aproveitavam a brecha de céu sem chuva para se aventurarem no exercício físico. Apanhei o elétrico 15, que faz o percurso entre o Cais do Sodré e Algés, e parei em Belém. Entrei no Centro Cultural de Belém, mas voltei a sair porque o segurança disse-me, com cara de poucos amigos, que o restaurante ainda estava fechado. Comprei uma sandes num quiosque e sentei-me nos jardins. Passáramos tantos finais de tardes depois dele sair do trabalho ali sentados a ler, a ouvir música, a conversar e a comer gelados. A chuva cedeu por fim e começou a cair em gotas grossas e pesadas. Corri pelo jardim e entrei, em pingos, no Museu dos Coches para me tentar proteger do temporal. Deixei o meu casaco encharcado na receção e deixaram-me entrar sem pagar, talvez tenham tido pena de mim, uma turista solitária a fugir da chuva. Levara Afonso a vários museus, ele não era uma pessoa assim tão adepta da nossa História e seu legado. «Como podes ser português e não conhecer os nossos museus?», perguntara-lhe um dia. Arrastado por mim em domingos de entrada gratuita, ele concordara que não se interessava assim tanto por História. Dera por mim a contar-lhe factos que nem sabia que tinha retido na cabeça, tudo coisas de Alice, que, fascinada por História, me obrigava a ver filmes chatos. Agradeci por me terem guardado o casaco, voltei a vesti-lo, agora húmido, saí do museu e corri até aos Pastéis de Belém. A hora do lanche chegara por fim e o cenário de Belém estava pintado de turistas que, mesmo debaixo de chuva, não arredavam pé. Desisti dos pastéis porque, na verdade, um bolo com canela não valia a pena o tempo de espera na fila, voltei a apanhar o elétrico e saí em Santos. Subi às Janelas Verdes, comprei um croissant e sentei-me num muro do miradouro do Museu Nacional de Arte Antiga com Lisboa aos meus pés. Volta e meia chuviscava, mas era suportável. Aqui estava uma história de amor escrita por todos estes sítios banais que, isolados, não tinham assim grande coisa a dizer, mas, no seu conjunto, contavam os três meses que passáramos juntos. Desci novamente até Santos e fui a pé até ao Cais do Sodré, voltei a a subir a rua do Alecrim e, exausta, parei à porta de casa e sentei-me no degrau da porta do prédio, a última página por virar. Subi a rua, já muito a custo, e sentei-me em frente ao Museu de São Roque. Fora a última vez que vira Afonso. Passara meses a perguntar-me se tinha tomado a decisão certa, poderíamos ter tentado uma relação à distância, é certo, mas valeria a pena arrastar um sofrimento exacerbado pelo tempo a vivermos em países diferentes e que, eventualmente, teria um desfecho ainda mais doloroso do que fora? Agora, à luz da distância emocional com que via as coisas, a carga dramática era menor do que aquela que lhe dera naquele tarde em frente ao Museu. Sabia que tinha tomado a decisão certa porque deixara de procurar pelo seu rosto em todas as esquinas. Aerosmith tocava nos meus ouvidos e, subitamente, já não apertava o botão com força para mudar de música. Já não queria esconder-me de todas estas memórias, iriam fazer parte de mim para sempre. Andara para a frente e dissera-lhes olá, talvez um adeus.

 

*

 

Já estava de noite quando entrei em casa, passava das seis da tarde. Os gémeos estavam a brincar no quarto, o meu pai e Maria João conversavam deitados no sofá e, quando entrei na sala, deitei-me no outro sofá perto deles. Os gémeos entraram a correr e deixei que me atacassem com tudo o que haviam feito naquele dia, com as suas perguntas e respostas e toda aquela familiaridade a que me habituara, sem a minha mãe, mas igualmente feliz.

Mais tarde subi para o quarto e coloquei um disco de uma nova cantora de jazz, Amy Winehouse, que o meu pai me dera no Natal. You should be stronger than me, começou a sua voz aos primeiros acordes. Enfiei-me na banheira, ansiara por um banho a escaldar o dia todo. Passados uns tempos, ouvi o meu telefone gritar, em cima da secretária onde o deixara de manhã. Desliguei a torneira, enfiei o roupão e saí aos tropeções da casa de banho.

— Estou? — perguntei sem olhar para o visor.

— Isabel? — ouvi uma voz hesitante do outro lado.

— Sim. — Afastei o telefone do ouvido para ver de quem era o número. Não conhecia. — Quem fala?

— O tipo que gosta de miúdas de argolas.

O meu peito estremeceu. A voz dele ao telefone era de outro mundo.

— Olá. — Sentei-me na cama de roupão e o cabelo encharcado a pingar por todo o lado.

— Estava quase a desistir de te ligar.

— Ah, não sabia que eras um desistente.

— Liguei-te a tarde inteira. Já acreditava que me tinhas dado o número errado. — Dei uma gargalhada ao ouvir isto.

— Nunca faria isso.

— Acho que te liguei umas dez vezes, estou a sentir-me um pouco psicopata.

— Depois de te ter escrito uma centena de cartas, o que são dez chamadas?

— Pronto. — Ouvi-o abafar um riso. — É um comportamento normal de psicopatas, então.

— Olha — assumi uma voz séria —, passei o dia fora de casa e não levei sequer o telefone comigo. — Voltei a levantar-me da cama e fui buscar uma toalha para secar o cabelo. — Por isso, é como se esta fosse a primeira vez que ligas porque não vi nenhuma das outras chamadas.

— Então vamos esquecer que elas existiram?

— Combinado. — Comecei a tentar secar o cabelo com uma mão.

— Queria perguntar-te — tossiu para aclarar a voz — se tinhas planos esta noite.

— Tirando ver um filme qualquer e dormir, não pensei em mais nada — respondi em guerra com a toalha e o cabelo.

— Então — hesitou —, vamos jantar?

E fomos.

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