Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 34 de 59

Páginas do PDF

Raparigas como Nós

Capítulo 6

6

 

 

Estar com Simão era uma quebra agradável na minha rotina de aulas. Ou talvez fosse um regresso a outros tempos que me traziam memórias saudosas, fosse isso bom ou mau. Sabia que ainda tinha feridas mal cicatrizadas, talvez ainda estivessem um pouco abertas, tapadas com compressas e adesivos. Mas nunca mais me esvaíra em sangue. Se num primeiro momento pouca ou nenhuma importância dera a este acaso do destino, será que, aos meus olhos, Simão continuava agora a ter tão pouca relevância? O seu sentido de humor era contagiante, a sua maneira de ver o mundo de uma forma tão simples, a sua capacidade para gozar consigo próprio e a maneira como se ria de memórias dos tempos da escola que, a mim, criavam algum constrangimento era tão despreocupada. Perguntava-me o que ele veria agora em mim, talvez os rapazes se apaixonem por uma imagem, um corpo, nós não. As raparigas apaixonam-se por toques, gargalhadas, cheiros, vozes e tantas outras emoções associadas a alguém. O seu rosto era agora uma mistura do miúdo que fora com este rapaz estranho e intenso, a sua voz rouca transportava-me para um passado e um presente, a sua presença era quente como um dia de verão e a forma como se ria, como se tivesse novamente quinze anos, enchia-me de afeto. Todos aqueles movimentos banais que fazemos todos os dias tiveram, naquela noite, um novo sabor. Para ele me vesti a pensar na forma como me iria ver. Para ele decidi deixar o cabelo solto e coloquei perfume. De forma inconsciente e sem pensar muito no caso, fora para ele.

 

— Tens de provar este pato — disse, enfiando-me o garfo à frente do nariz. Fui obrigada a engolir o meu bacalhau à pressa.

— Bacalhau com pato não combina bem — respondi, deixando-o enfiar-me o garfo na boca.

— Tudo combina com tudo, nós é que estamos habituados a seguir estas regras gastronómicas parvas que a sociedade nos impõe.

— Existem regras e eu não sabia?

— Comes bacalhau com pato?

— Obviamente que não.

— Vês? Aí tens uma regra. — Pousou os talheres no prato. — O que é que o bacalhau tem contra o pato para não se poderem fundir numa bela miscelânea culinária?

— Isso não faz sentido nenhum. Seria como comeres arroz com massa.

— Eu adoro arroz com massa. — Agarrou-me na mão. Olhei para ele entre uma garfada, pestanejei e desviei o olhar, mas mantive a mão. As relações humanas não trazem manuais de instrução, mas deviam. Todas as sensações associadas à intensidade das nossas memórias tornavam tudo acelerado.

— Quero beijar-te — disse, subitamente.

Engasguei-me e comecei a tossir, largando-lhe a mão para tapar a boca. Ele levantou-se, encheu-me um copo de água e deu-me meia dúzia de palmadas nas costas.

— Meu Deus — riu-se —, é isto que eu te faço apenas por falar num beijo? — Voltou a sentar-se. — Não te quero matar.

— Morrer num restaurante não está na minha lista de possíveis mortes a tolerar. — Bebi um pouco de água.

— Já estás bem?

— Vou sobreviver.

— Acho que um bolo de chocolate vai ajudar-te. — Chamou o empregado, pediu qualquer coisa e levantou-se. — Anda comigo.

— Vamos embora? — questionei, confusa.

— Não necessariamente. — Sorriu e empurrou a minha cadeira. — Vamos só a outro sítio.

Saímos da sala do restaurante e fomos para o terraço com uma varanda em madeira sobre Lisboa. A vista era conveniente com as luzes da cidade abaixo de nós, a linha da ponte 25 de Abril pintada no céu, o Cristo Rei ao longe a saudar-nos. Estava frio e ele pôs-me o casaco nos ombros, nada fomenta mais a aproximação entre duas pessoas que o frio. E é à noite que tudo soa melhor, na penumbra não nos sentimos intimidados. Um empregado chegou com um prato com bolo de chocolate e colocou-o no parapeito da varanda.

— O que foi? — perguntou-me, enquanto partia um bocado de bolo com o garfo e me dava a provar.

— És mais de doces ou salgados?

— Hum… — fingiu pensar. — Porque é que tenho de escolher?

— Realmente, não sei por que temos de escolher. É daquelas coisas que nos costumam perguntar.

Encostei-me à varanda de frente para ele, com as costas voltadas para o manto de noite atrás de mim.

— Qual é a tua cor favorita? — perguntou-me subitamente.

— Como assim?

— Não sei quase nada de ti — disse. — Conhecemo-nos desde miúdos, mas não sabemos nada um do outro. Podes perguntar-me o que quiseres também.

— Hum… — Pus o cabelo atrás da orelha esquerda para ganhar tempo. — Tipo um jogo de perguntas?

— Ou um verdade ou consequência.

— Já não temos idade para jogar isso.

Ee riu-se e apoiou-se na varanda, de lado, virado para mim.

— Estou à espera da resposta — disse-me.

— A minha cor favorita é o preto.

— Preto? Ninguém tem como cor favorita o preto.

— Porque não? Todas as cores juntas dão preto. E o preto fica bem com tudo e em todas as ocasiões.

— Ok. — Torceu o nariz e revirou os olhos. — É a tua vez.

— Como se chamam os teus pais? — perguntei. — Sempre tive curiosidade nisso, sabias?

— Porquê?

— Porque imaginava coisas tão primárias como estas, do tipo, como se chamam os pais dele? Onde passa o Natal? O que faz ao 3 quando não está na escola?

Ele deixou escapar uma gargalhada sonora

— Helena e António. Estão separados desde que vim para Portugal. Eu vim com a minha mãe e o meu pai ficou em Maputo com o meu irmão mais velho que agora também mora cá. Tens irmãos?

— Agora tenho os gémeos da nova relação do meu pai.

— E os teus pais, como são?

— São normais, acho eu. Sempre achei que fossem infelizes e, pelos vistos, deviam ser porque são mais felizes agora.

— E moras com a tua mãe? — perguntou, dando uma garfada no bolo.

— Agora moro com o meu pai, aqui em Lisboa, para estar mais perto da faculdade. Aos fins de semana, costumo ir para Carcavelos.

— E eles dão-se bem? Quero dizer, devem falar ou assim, não?

— Sim, falam às vezes. As coisas agora estão bem.

— Ao menos não viveram um casamento de fachada como os meus durante uma porrada de anos. — Encolheu os ombros e virou-se de frente para a varanda, com o vento a bater-lhe na cara e a despentear-lhe o cabelo.

— Acho que antigamente as pessoas não tinham muita opção com as relações. — Virei-me também e ficámos lado a lado. — Nós temos mais oportunidades de escolha, eventualmente cometemos menos erros.

— Gostas de cães ou gatos?

— Gatos.

— Porquê? Os cães são os melhores amigos do Homem — resmungou.

— Os cães dão confiança a toda a gente, os gatos são seletivos. Alguma vez foste operado?

— Tiraram-me o apêndice.

— Tenho uma coisa a mais que tu. — Sorri. — Ainda tenho os órgãos todos.

— Fumas?

— Não — respondi. — E eu sei que fumas, mas odeio tabaco, ficas já a saber.

— Eu não fumo, bem, só às vezes. — Sorriu.

— Fiquei chocada por descobrir que vocês fumavam charros, sabias? Naquela altura, era tudo muito excêntrico para nós. — Ele riu-se alto.

— É verdade, íamos todas as tardes fumar para trás da escola. Sabes o que era? Demasiado tempo livre.

— Eu sei.

— Qual é a tua banda favorita?

— Isso é difícil de responder.

— Tem de haver alguma banda que gostes muito e que farias de tudo para ver ao vivo.

— Não gosto muito de bandas, sou mais de cantoras. Gosto de soul e de jazz, gosto de músicas que me façam sentir e pensar.

— E as bandas não fazem isso? Nirvana? Foo Fighters? — perguntou.

— Bem, se estiver a dar na rádio, sou forçada a ouvir.

— Que insulto. — Afastou-se, fingindo um falso choque. — Pior do que não gostares de cães, é não gostares de Nirvana.

 

Puxei-o pelo braço, ele veio no balanço e parou à minha frente. Apoiou as mãos na varanda de madeira atrás de mim, onde eu continuava encostada. Em câmara lenta, vi-o fechar os olhos, inclinar o rosto na minha direção e senti-lhe os lábios nos meus. Primeiro, de forma leve, os lábios dele abriram e senti-lhe a ponta da língua. A sua boca moveu-se contra a minha e fui engolida por um rol de emoções. As mãos dele abraçaram-me as costas, o corpo dele aproximou-se do meu e os seus movimentos despertaram todas as campainhas existentes dentro de mim e há tanto tempo adormecidas. Agarrou-me o rosto e arrumou-me o cabelo atrás das orelhas. Abri os olhos e vi-o a olhar para mim. Senti-me exposta, mas ele puxou-me e beijou-me outra vez, passei os meus braços em torno do seu pescoço e comprimi o meu corpo contra o seu. Ficámos ali, não sei durante quanto tempo, simplesmente com os lábios um no outro. Beijámo-nos como se toda a nossa vida dependesse disso, como se só respirássemos um pelo outro.

— Mas vamos continuar com as perguntas? — perguntei, quando nos afastámos para respirar.

— Com certeza. — Sorriu. Sentámo-nos num sofá no terraço. — Fala-me da tua última relação.

— Que tópico de conversa estranho — comentei. Ele sorriu e incentivou-me a responder. — Ele foi embora — adiantei. — Foi trabalhar para outro país e ficámos por aí.

— E foi decisão mútua? — perguntou, franzindo a testa em sinal de dúvida.

— Sim — disse repentinamente. — Quero dizer, nem por isso. Eu achei que não funcionava. Ele achava que sim. Sei lá… Já passou algum tempo e não falámos mais.

— E se ele voltar?

— A minha vida continuou — respondi, embora essa hipótese nunca me tivesse passado pela cabeça. — E a dele também deve ter continuado.

Ele ficou em silêncio a observar-me.

— Estiveste com mais alguém depois da Vitória? — questionei, curiosa, já que também me perguntara sobre Afonso.

— Hum… — Parou para pensar e começou silenciosamente a contar pelos dedos. Então deu uma gargalhada sonora. — Estava a gozar. A Vitória foi a minha namorada mais longa.

— Como é que ela era? — Na minha imaginação, todas as raparigas se pareciam com a Marisa das Argolas.

— Na verdade, não tínhamos nada em comum. — Sorriu. — Eu gosto de música, de viajar, do mar, e ela era mais de sair à noite, ir à praia para ficar na areia a apanhar banhos de sol. Os opostos atraem-se, não é?

— E falam hoje em dia?

— Às vezes. Ela entretanto voltou porque não se deu bem na Suécia, mas não tenho grandes conversas com ela e raramente a vejo.

— E durante este tempo não estiveste mesmo com mais ninguém? Vá, não acredito nisso.

— Saí com algumas raparigas mas nada de especial.

— E agora aqui estamos. Atrasados uns anos, mas…

— Ainda bem que estamos, Isabel. As coisas acontecem na altura certa.

— Daqui a uma semana já podes ter perdido o interesse. — Entrelacei os meus dedos nos dele. — Eu continuo a ser uma miúda mais nova.

— Ou tu podes ter perdido o interesse porque eu continuo a fumar charros como antigamente e não mudei assim tanto. — Colocou-me o outro braço ao redor dos ombros e puxou-me para si. — Não sabemos o que vai acontecer e acho que já aprendemos isso no passado. Podemos morrer amanhã, ou agora, daqui a cinco segundos. Tipo, agora. Adeus.

— És tão dramático. — Ele puxou-me o rosto na sua direção.

— Acho que sou muito prático e vivo o presente. — Beijou-me. Um beijo rápido, sôfrego, forte. — E agora quero estar contigo. Se isto não tiver de funcionar, não funcionou. Mas não quero deixar de o viver porque não sabemos o que é que vai acontecer. Pensei várias vezes em ti ao longo dos anos, na forma como me fazias sentir, no miúdo que era. Perguntava-me o que andavas a fazer, como serias, como estarias e esse género de coisas. Se calhar, tudo isto foi para nos trazer aqui, agora.

Olhei-o nos olhos e inspirei-o. O seu cheiro fazia-me sentir em casa.

OceanofPDF.com