Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 51 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 4

4

 

— Aquilo não aconteceu — disse. Nem sabia porque me estava a justificar.

— Eu sei.

— Ele tentou beijar-me à força, na verdade.

— Imaginei que tivesse sido isso.

— Porquê?

— Porque não és a primeira miúda de quem ele inventa histórias que nunca aconteceram.

— Não te preocupes com isso — concordou Zeca. — Toda a gente sabe que é mentira, mas eles divertem-se com estas merdas. Já sabes que é normal.

Não queria ser a cabra que, aparentemente, já era, mas, ao mesmo tempo, não, nada disto era normal.

— Mas qual é que é o problema deles? — perguntou Alice e nem me deu tempo de responder. — Primeiro, foi o que fizeram no funeral, e agora isto.

— Alice, não… — interrompeu Zeca.

— Não! Não me vou calar. Simão, o que vocês fizeram no funeral foi uma merda que não lembra a ninguém. Tirarem fotografias idiotas enquanto o pai dele estava ser enterrado? A sério?

— Eu sei — suspirou Simão. — Desculpa, puto. Já estava para lá de Bagdad, o dia foi todo uma merda e tínhamos estado a fumar antes.

— Deixa lá — disse Zeca. — Está tudo bem.

— Eu sei que são vossos amigos, mas não compreendo nada disto. — Abanou a cabeça exasperada. Olhei para Alice e tive vontade de rir. Ela estava exatamente a concluir o que eu já concluíra meses antes, a debater-se com as mesmas questões. Talvez ela também estivesse a questionar um pouco o seu próprio julgamento. Afinal, ele era do mesmo grupo. E é como dizem: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Mas seria sempre assim? O que era isto de se ter um grupo de amigos? Não era como se fôssemos todos gémeos siameses, talvez um pouco influenciados pelas pessoas que nos rodeavam, mas não tínhamos de ser iguais a elas. O facto era que Zeca já nem sequer consumia e Afonso pouco ou nada tinha em comum com os amigos, a não ser a circunstância de terem crescido juntos e terem laços de infância. Todos entrámos na vida uns dos outros para deixar qualquer coisa, Alice fazia tanto bem a Zeca quanto ele a ela. Será que ela se apercebia disso? Dessa força invisível que exercia nele e que o fazia tornar-se melhor pessoa? O que teria eu deixado em Simão? Tirando o bronze e o corte de cabelo arrasador, ele parecia-me exatamente igual, como se a minha passagem pela vida dele nada tivesse deixado.

— Nós vamos embora, que esta noite já deu o que tinha a dar. — Zeca deu a mão a Alice. — Vens connosco? — perguntou-me.

— Eu levo-a — respondeu Simão. Alice olhou para mim.

— Está tudo bem. — Ela assentiu e fez-me sinal para lhe telefonar quando chegasse a casa. Acenei com a cabeça.

 

Ficámos parados na rua em silêncio. De repente, pareceu-me que ficara vazia de palavras, como se me tivesse esquecido de como se falava português. Queria dizer-lhe qualquer coisa, mas nem sabia o quê. Ele avançou até à mota e deu-me um capacete, tirou o blusão de dentro do banco e deu-mo para o vestir. Este ritual silencioso cronometrado ao segundo lembrou-me a noite de passagem de ano. Subimos para a mota. Não nos víamos há pouco mais de três meses, mas ele já se tornara quase um estranho. Hesitei um pouco mas envolvi os meus braços na sua cintura e reconheci-o pelo cheiro. O casaco cheirava a ele, ao seu cabelo que já não existia, à sua casa, ao seu perfume, ao cheiro dos cigarros que continuava a fumar, à sua loção da barba, à minha memória. Senti-me a quebrar um pouco por dentro. Porque não são as mudanças que partem o coração, mas sim este quê de familiaridade que continuamos a ver em pessoas que já não nos são nada. Pensei em Afonso enquanto percorríamos a estrada de mota, o que diria disto tudo? Questionei-me se teria de lhe contar e percebi que não. Ele saber desta noite não iria acrescentar nada, a não ser deixá-lo preocupado e com dúvidas infundadas. A mota parou à porta de minha casa, aguardei que desligasse o motor e desmontei. Tirei o capacete e esperei que levantasse o banco para lho entregar. Ele colocou o seu capacete no chão e encostou-se ao portão de mãos nos bolsos.

— Obrigada por aquilo — disse. — Não tinhas de o fazer.

— Claro que tinha. Eles são idiotas e tu és melhor do que aquela merda toda.

Senti uma pequena parte da minha alma a desmoronar. Porque no fim de tudo, ele continuava a conseguir ver-me. Fiquei em silêncio. Havia algo de diferente nele, não conseguia identificar ao certo o que era, mas podia ver que qualquer coisa mudara. E não era o bronze nem o corte de cabelo radical. Era algo nos seus olhos, ele parecia exausto, ou triste, ou ambas as coisas. Perguntei-me se seria a responsável por isso. Tinham passado três meses e, subitamente, senti uma pontada de culpa. Tinham sido três meses bons para mim porque a vida me atirara Afonso pela porta dentro. Mas e os três meses dele? Ele sempre fora especialista em mostrar ao mundo uma versão dele toda certa e despreocupada, sempre de bem com tudo. Quando começara a conhecê-lo melhor, percebera que não era bem o caso. Por trás dessa fachada, ele continuava a ser o mesmo miúdo instável e angustiado. E sempre fora magnífico a controlar as suas expressões faciais, pelo que não sabia o que diabo estava a pensar.

— Como foi o teu verão? — perguntei.

— Foi normal. Continuei a dar aulas na praia. E a tua viagem?

— Fue muy buena. — Sorri. — E o teu exame?

— Ainda não fiz. — Não sorriu. — Se calhar não vou fazer.

— Porque não?

— Porque não sei se é isso que quero.

— Mas disseste que estavas farto de dar aulas de surf.

— Pois, mas agora também não me apetece sair daqui e ir para um exame no mar.

Não disse nada, ele voltara ao seu habitual registo de se acomodar. Nem sabia se a culpa era toda minha porque já era nisto que ele andava há muitos meses. Se calhar era mesmo assim que ele era, começava as coisas, mas a meio do caminho perdia todo o interesse nelas.

— Olha, Isabel. — Ele respirou fundo como que a ganhar impulso para continuar. — Já sei que estás com ele e fico feliz, a sério. Eu sei que te estava a desfazer aos bocados, sei que te fiz passar por merdas que não mereces. E tu vales muito mais do que isso.

— Simão… — interrompi-o.

— Deixa-me falar, por favor, deixa-me dar uma resposta a tudo o que me escreveste — pediu. Calei-me de imediato. Tinha a garganta seca e o coração num tsunami.

— Foste a melhor coisa que me aconteceu. Fizeste-me sentir tão amado e importante. Fizeste-me perceber como há tanta coisa errada à minha volta. Se alguém fosse capaz de me salvar, serias tu. Eu sei que tentaste. Vi-te a fazer isso todos os dias. E eu queria ser salvo, acredita. Só o facto de tu acreditares e veres tanta coisa boa em mim fazia-me querer mudar. Todos os dias me digo que vou deixar tudo, vou ter uma vida normal. Mas se calhar isto é a minha vida normal, percebes? Tu foste, em todos os aspetos, tudo o que alguém pode querer mas sei que não fazemos bem um ao outro. Porque eu lutava todos os dias contra mim para tentar ser qualquer coisa que não era e acho que nunca fui. Mas saber que tu continuavas, apesar de tudo, a ver tanto em mim quase me fazia crer que poderia ser tudo o que vias.

— E podes! — gritei. — Podes ser tudo!

— Talvez possa, nunca se sabe. Mas tu também podes ser tudo e muito mais. E eu sei que não é comigo.

— Simão… — Ele tapou a minha boca com a mão.

— Queríamos tanto corresponder ao que o outro esperava de nós que vivíamos como loucos. Eu sei que tu estavas exausta, eu também estava. Eu via isso nos teus olhos todos os dias. E isso consumia-me, fazia-me sentir uma merda. E eu queria deixar de sentir isso, então fazia mais merda e tu odiavas. No outro dia, cheirei tanta coca que passei dois dias acordado. Tu terias ficado doente por me ver assim. Tudo isto tem sido a maior dor filha da puta, mas sei que é o melhor para nós. Vais sempre ser aquela Isabel que me escrevia cartas — dei uma gargalhada — e que nem imagina como mudou a minha vida. Mas…

Atirei-me contra ele e apertei a sua cintura com quanta força me era possível. Ouvi-lo fez o meu coração rasgar-se em dois. Metade estava com Afonso, onde sempre estivera. A outra metade estava aqui, despedaçada em milhares de bocados espalhados por todo o chão.

— Também me senti perdida sem ti, acredita — disse, com a cara enterrada no seu peito. — És uma parte de mim que nunca vai desaparecer.

— Mas estavas ainda mais perdida comigo. — Sorriu e tocou-me no cabelo. — E eu sei que ele te faz bem. Infernizei o Zeca até ele me contar. Eu sei que ele te dá tudo o que nunca te vou dar, a segurança, a permanência. Faz-te feliz, vê-se nos teus olhos. Talvez não te apercebas, mas estás a brilhar. E eu já não via isso em ti há muito tempo.

Envolveu os seus braços nas minhas costas e deixou-se ficar com a sua cabeça apoiada na minha. E senti a sua metade do meu coração a cicatrizar-se.

— Não vais desaparecer, pois não? — perguntou-me. — Ou vais viver para lá e nunca mais te vou ver e vamos ser dois estranhos bizarros quando nos encontrarmos por acaso daqui a dez anos nalgum reencontro de antigos alunos da escola?

— Claro que não. Vou estar sempre aqui. Temos uma história maravilhosa. Bem, agora temos duas.

Toquei-lhe no rosto e ele apoiou-o na minha mão. Aproximei-me dele e dei-lhe um beijo nos lábios. Suave, lento e de despedida.

— Posso ligar-te de vez em quando?

— Não — apertei-lhe o braço —, porque eu vou ligar-te.

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