Raparigas como Nós
Capítulo 5
5
Estava deitada na cama a ler quando o meu telemóvel tocou. Era uma mensagem de Afonso.
Afonso: Como foi o teu dia?
Eu: Nada de especial, tive aulas de manhã. E tu?
Afonso: Menina universitária, recebeste o que te enviei?
Eu: Tu estás a meter-me em problemas. A minha mãe começou a chorar, disse que já sonha em ver-me trajada e foi comprar mais dois emblemas para a capa que imagina que vou usar.
Afonso: A tua mãe está sempre a chorar, dá-lhe um desconto.
Eu: Tenho uma novidade.
Afonso: O quê?
Eu: O meu pai ofereceu-me a carta de condução. Daqui a nada já posso conduzir o teu carro.
Afonso: Pronto, vou ficar sem carro!
Eu: Tens tanta piada! E a minha planta? Estás a tratar bem dela?
Afonso: Está aqui bem viva da Silva. Mas tem saudades tuas. Ela diz que tens mais jeito para lhe dar água.
Eu: Diz-lhe que também tenho saudades dela.
Afonso: E de mim?
Eu: Hum… assim, assim.
Afonso: Então se calhar vou cancelar o voo que marquei para sexta-feira.
Eu: A sério?
Afonso: Não sei. Se te sentes assim, assim… se calhar fico cá e vou sair com o Caju.
Eu: Uau! Que divertido! Podem beber cañas e jogar à bola.
Afonso: E beber sumo de kiwi.
Eu: A bebida favorita do Caju! Olha, contei tudo à Alice. Foi um alívio não ter finalmente este segredo a pesar em cima de mim.
Afonso: E ela?
Eu: Já tinha descoberto outra traição que nunca me contou por vergonha. Então não foi assim nada que a chocasse muito. Tens falado com eles?
Afonso: O Dinis veio cá no outro dia e dormiu aqui. Ia ter um voo a partir de Madrid e veio um dia antes. Vais ficar surpreendida com o que te vou contar.
Eu: O quê?
Afonso: Ele e a Xana estão juntos.
Eu: Mas como? Depois de tudo…
Afonso: Os desígnios do amor são estranhos.
Eu: Diz-me que ele não a está a trair.
Afonso: Surpreendentemente, ele está apaixonado por ela.
Eu: Não sei se acredito.
Afonso: No início do ano, ela veio trabalhar para Lisboa. Sabias?
Eu: Sim, falamos às vezes por mensagens e fomos jantar há uns tempos. Agora que me lembro, fomos jantar depois de eu te ter visto em Belém. Fartei-me de dizer mal de ti.
Afonso: Imagino… E a Xana não te falou do Dinis? É que nessa altura já estavam juntos.
Eu: Ela falou imenso de um gajo mas nunca disse que era o Dinis.
Afonso: Ela passou a passagem de ano connosco, não lhe ligou nenhuma. Pelo que percebi, ignorou-o mesmo a noite toda. Eu não prestei atenção porque, como te lembras, estava ocupado a tentar perceber se tu ias aparecer ou não…
Eu: Estavas mesmo muito ocupado.
Afonso: Muito! Ele estava habituado a tê-la sempre ali na prateleira. E isso deve ter mexido lá com os fusíveis da sua cabeça. Quando ele soube que ela tinha vindo para Lisboa trabalhar e que agora vivia cá, começou a tentar entrar em contacto com ela.
Eu: Portanto, ele sentiu-se rejeitado e decidiu voltar a lixar a vida dela?
Afonso: Não, a Xana tinha-o bloqueado. Não queria falar com ele nem ter nada a ver com ele.
Eu: Ele tratou-a como a merda. E escusas de contar o resto porque já me estou a lembrar do que a Xana me contou.
Afonso: O que é que ela te disse?
Eu: Contou que estava apaixonada, que tinha conhecido uma pessoa, que lhe tinha enviado uma flor todos os dias para o trabalho até ela concordar sair com ele.
Afonso: Porra, e isso não é fixe?
Eu: É um pouco obsessivo, não? E fiquei lixada quando me contou.
Afonso: Porquê?
Eu: Porque tinha-te visto com a Alba no jardim. Vocês estavam a olhar um para o outro, sei lá, foi tudo uma grande merda.
Afonso: O mais estúpido é que, quando te vi, perdi todo o controlo. Simplesmente fiquei a olhar para ela, a ouvir o que estava a dizer porque tinha medo que o meu corpo me traísse.
Eu: Tinhas medo de voltar a chorar como no Tunnel? Que querido.
Afonso: Estava na merda, Isabel. Se aquilo deu cabo de ti, eu tive dois anos a darem cabo de mim.
Eu: Eu sei, não vamos falar mais sobre isto. Já passou e trouxe-nos ao dia de hoje.
Afonso: Deixa-me confessar uma coisa.
Eu: Não vem aí coisa boa.
Afonso: Olha, gosto muito de falar por mensagens contigo. É como se estes fossem os nossos alter egos a falar e tivéssemos coragem para dizer coisas secretas.
Eu: Podemos falar dos nossos segredos mais profundos.
Afonso: Acho que não tenho assim tantos segredos profundos que ainda não tenha contado. Conta-me algo teu.
Eu: Hum, uma vez troquei uns beijos com uma rapariga, num verão. Acho que posso gostar também de raparigas. Isso incomoda-te?
Afonso: Acho que não. Voltaste a experimentar?
Eu: Não, conheci um idiota numa discoteca e apaixonei-me por ele.
Afonso: Sorte a dele, então.
Eu: Posso também perguntar-te algo profundo?
Afonso: Sim.
Eu: Porque é que raramente falas do teu pai?
Afonso: Não sei, não tenho grande coisa para dizer porque nunca convivi muito com ele. A minha mãe adorava o meu pai. Mas ele era violento, um idiota sempre furioso com tudo e com todos, que passava mais tempo a trabalhar do que em casa. Talvez tenha sido por isso que morreu cedo. Tinha demasiada fúria dentro dele.
Eu: E a tua irmã?
Afonso: Também não tem grandes memórias com ele. Tens de perceber que ele esteve sempre mais preocupado em montar a sua empresa do que em criar uma família. Para isso estava lá a minha mãe. Houve anos em que nem no Natal esteve em casa.
Eu: Estava onde?
Afonso: Ele traía a minha mãe. Vai-se a ver e devo ter irmãos espalhados por aí que nem sei.
Eu: Não digas isso.
Afonso: Infelizmente, é a verdade. Nunca me vou esquecer de um Natal que passámos sozinhos. Eu e a minha irmã éramos miúdos, não compreendíamos muito bem o que se estava a passar mas lembro-me de ver a minha mãe a chorar no sofá. Era noite de Natal e ele não veio para casa.
Eu: Não sabia disso.
Afonso: Ele nunca foi a uma festa das nossas escolas, nunca esteve presente nos nossos aniversários. Estava sempre fora, sempre ocupado, sempre a viajar. E, quando estava em casa, só discutia, era violento, gritava. Como se tudo o que fizéssemos o incomodasse. Nunca compreendi porque é que a minha mãe não o deixou, porque a nossa vida era, na verdade, bem mais fácil sem ele. E também já estávamos habituados. Percebes agora porque é que não quero ter nada a ver com a empresa do meu pai?
Eu: Acho que sim.
Afonso: Não quero trabalhar lá, não quero um dia vir a ser o dono, como diz a minha mãe, não quero nada.
Eu: Mas se ele morreu, alguém teve de ficar com a empresa não?
Afonso: Ele tem mais dois sócios, mas a parte dele passou para mim e para a minha irmã. Nenhum de nós quer ter nada a ver com aquilo.
Eu: E o que vai acontecer?
Afonso: Provavelmente um deles vai comprar a nossa parte.
Eu: E não queres o dinheiro?
Afonso: Honestamente? Não. Já tenho a casa em Belém. Foi a única coisa que aceitei que a minha mãe me comprasse com o dinheiro dele. Ela ia viver para a casa da minha avó e eu não queria ir para lá.
Eu: Sabes que gosto ainda mais de ti por seres assim, não sabes? Podias simplesmente viver do dinheiro dele. Mas queres trabalhar, queres conseguir as tuas coisas pelo teu próprio mérito.
Afonso: Tenho andado a pensar numa coisa.
Eu: No quê?
Afonso: Acho que vou acabar o curso.
Eu: Acho isso fantástico. Mas sei de uma pessoa que vai gostar ainda mais de ouvir isso.
Afonso: A minha mãe?
Eu: Claro!
Afonso: A empresa diz que me paga o curso, acreditas? Fizeram-me essa proposta e fiquei a pensar que, de facto, só tenho a ganhar se o acabar. Sei que, no futuro, não ter o curso terminado vai ser provavelmente uma desvantagem.
Eu: Concordo.
Afonso: Mas eles só mo pagam se o fizer aqui em Madrid. E como não consigo equivalência, tenho de começar tudo de novo.
Eu: E isso é mau?
Afonso: Significa que tenho de ficar aqui, pelo menos, mais quatro anos.
Eu: Bem, logo se vê.
Afonso: Não vou ficar aqui quatro anos.
Eu: Porque dizes isso?
Afonso: Porque não aguento mais estar aqui!
Eu: Mas não gostas do teu trabalho?
Afonso: Claro que gosto, mas, epá, é só um trabalho, percebes?
Eu: Não sei.
Afonso: Posso trabalhar em qualquer lado. Isto é só um emprego. Claro que fiquei entusiasmado ao início. Tinha conseguido um emprego sozinho e ia sair finalmente da empresa do meu pai. Mas se calhar precisei deste tempo para perceber isto.
Eu: Para perceber o quê?
Afonso: Que não faz mais sentido para mim estar aqui quando toda a minha vida está aí.
Eu: Mas estás a trabalhar para o teu futuro.
Afonso: O meu futuro até pode ser a criar cabras no Alentejo.
Eu: Acho que podemos falar sobre isso depois. O que é que disseste que me ias confessar? Isso é que eu quero saber.
Afonso: Cá vai: Já te tinha visto antes daquela noite do Tunnel.
Eu: Impossível.
Afonso: Lembras-te de quando foste com a Alice a uma festa naquele bar em Santos?
Eu: No aniversário do Ventura?
Afonso: Sim. Eu estava lá.
Eu: Não estavas nada. Não me lembro de ti.
Afonso: Porque eu estava com a Madalena e estive mais afastado do grupo.
Eu: As coisas que me contas…
Afonso: Então eu fui ao Tunnel mas não fui tão inocente assim porque já sabia que ias lá estar. E queria ver-te novamente.
Eu: Estavas com a Madalena e querias ver-me? Nem nunca tínhamos falado.
Afonso: Eu sei, mas o que é que queres que te diga? Não é que eu e a Madalena fôssemos o amor da vida um do outro.
Eu: Não era o amor da tua vida, mas estavas para lá a chorar.
Afonso: Nunca te vais esquecer disso, pois não? Estava numa tensão desgraçada, a sentir-me uma merda por não parar de pensar em ti desde a festa do Ventura e de ter ido de propósito para te conhecer e ela aparece-me à frente de mão dada com o outro. Não sei se foi do choque de a ver ou de alívio, percebes?
Eu: Estás a gozar comigo, não estás?
Afonso: Não estou. A primeira vez que te vi, estavas encostada ao jogo de setas a ver a Alice falhar todas as setas que tentava atirar. Estavas com umas calças de ganga rasgadas no joelho e um top cinzento que cruzava ao meio na tua barriga. E estavas sempre a enrolar o dedo na fita do top.
Eu: Não estava nada.
Afonso: É que podes ter a certeza. Eu estava sentado no sofá a ver-te. Não falaste com ninguém. Vi todos eles a passar para lá e para cá, ninguém te prestou sequer atenção. Ninguém falou contigo, ninguém te ofereceu uma bebida. Era como se fosses invisível. Lembro-me de pensar se só eu é que te estava a ver. Como se fosses um fantasma. Só o Ventura e a Alice é que falavam contigo.
Eu: Estou a lembrar-me disso… Não é que isso que me incomodasse, só ia pela Alice, mas eles nunca foram muito simpáticos, na verdade.
Afonso: Se estivesses de vestido curto, eles teriam sido bem simpáticos contigo, acredita. Mas há mais.
Eu: Mais?
Afonso: Passado um bocado, sentei-me no balcão a conversar com um deles. Estávamos a beber uma cerveja e tu aproximaste-te. Pensei que ias pedir qualquer coisa para beber mas paraste em frente àquela jukebox antiga que lá estava. Ficaste ali uma eternidade a olhar e eu só pensava: Por favor, não escolhas nenhuma música estúpida.
Eu: O que é que eu escolhi? Já não me lembro.
Afonso: Uma música dos Clã. E eu pensei: esta miúda é incrível.
Eu: Só pela minha escolha musical?
Afonso: Claro. Estavam lá umas miúdas que não paravam de pôr a tocar merda e tu chegas e pimba, toma lá Clã, uma das melhores bandas portuguesas.
Eu: Mas como é que te lembras disso tudo e não te lembras que estava a tocar Aerosmith na areia?
Afonso: Porque estava finalmente a beijar-te. Tudo o resto desapareceu.
Eu: Aceito a justificação.
Afonso: E eu deveria sentir-me triste por nem sequer me teres visto? É que eu estava a olhar para ti mesmo ali a um metro de distância.
Eu: Estou a rir-me, desculpa! Eu nunca estava muito confortável naquelas festas.
Afonso: Depois disso, tive de me levantar e voltar para o sofá porque estava a odiar a forma como me estava a sentir. Esqueci-me totalmente de que estava com a Madalena. Foi como se ela se tivesse eclipsado do meu cérebro naquele momento.
Eu: Não me digas estas coisas.
Afonso: Porquê?
Eu: Porque me apetece atirar o telemóvel contra a parede e teletransportar-me para aí.
Afonso: Sexta já aí estou. Deixa-me continuar.
Eu: Ainda há mais?
Afonso: Claro! Não há duas sem três. Eles depois foram para uma discoteca, não foi?
Eu: Eu não fui, não me podes ter visto lá.
Afonso: Eu sei. Eu também não. Fui lá deixar a Madalena, que ia com as outras raparigas, e tu estavas lá na rua a falar com a Alice.
Eu: Porque pediram vinte euros e eu disse que não queria gastar aquele dinheiro para entrar numa discoteca onde nem sequer queria ir.
Afonso: Eu sei, o Ventura depois disse-me. Eu fiquei lá à porta a ver se entravas mas estavas só a falar com ela. Eu estava quase a decidir entrar também quando te vi a ir embora.
Eu: Seguiste-me como um psicopata?
Afonso: Foi isso mesmo. Vi-te a ir para a paragem dos táxis no fim da rua. Apetecia-me perguntar-te se querias boleia para algum sítio mas não me conhecias de lado nenhum e teria sido estranho. Estava a ganhar coragem para falar contigo quando chegou um táxi e entraste.
Eu: Porque é que nunca me contaste isto?
Afonso: Não sei, nunca calhou. Quando o Ventura me disse que iam ao Tunnel e que tu ias com a Alice, eu pedi-lhe para nos apresentar. Disse-lhe que era só para ser simpático com a amiga da namorada dele, já que nunca ninguém falava com ela.
Eu: Mas querias só ser simpático?
Afonso: Não, queria mesmo falar contigo. A minha reação física a ti não me preocupava, porque isso é normal, somos todos humanos. Estava era a tentar convencer-me de que não passava disso. Eu estava no bar quando chegaste. Mas, quanto mais me tentava convencer de que era apenas uma atração, mais queria isso.
Eu: Querias o quê?
Afonso: Não sei. Queria olhar para ti de perto e tocar-te, sei lá.. Quando me aproximei, empurraram-te e tu tropeçaste para cima de mim e virei o copo em ti. No segundo em que te agarrei, fiquei maluco.
Eu: Nem imaginas as coisas que me passaram pela cabeça naquela noite.
Afonso: Mas foste lá para fora. Não parecias minimamente interessada, é que nem sequer conseguia perceber nada do teu lado.
Eu: Estou a rir-me com isto tudo. Parece que já foi noutra vida, Afonso, éramos tão miúdos.
Afonso: Isabel, são três da manhã.
Eu: Aqui ainda são duas, mas tenho de ir dormir. Tenho aulas de manhã.
Afonso: Vemo-nos na sexta-feira?
Eu: Chegas a que horas?
Afonso: Pelas seis da tarde. Diz-me onde estás que vou ter contigo quando chegar.
Eu: Vou ficar em casa do meu pai e espero lá por ti para estar mais perto.
Afonso: Combinado! Gostava de entrar em coma até sexta e só acordar no avião para Lisboa.
Eu: És tão fatalista.
Afonso: Goza comigo.
Eu: Não gozo porque estou igual.
Afonso: Achas que não sei? Dorme bem.
Eu: Tu também!
Afonso: Olha.
Eu: Diz.
Afonso: Amo-te.
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