Raparigas como Nós
Capítulo 5
5
Terminei de arrumar tudo na minha mochila e, com o suor a escorrer-me pelas costas, afastei o cabelo da testa e atirei-me para a cama de braços abertos para tentar que me entrasse pelos poros um pouco do frio dos lençóis. Dentro de três horas já estaria no ar a caminho de casa. Era estranho pensar na palavra casa neste momento, porque me sentia em casa em Madrid. Neste apartamento minúsculo na La Latina com uma janela que estava perra e não fechava. Na casa de banho onde mal cabíamos os dois com a parede azul e um armário velho de madeira cheio de toalhas, perfumes e loções de rosto porque Afonso era, afinal, mais vaidoso do que aquilo que gostava de dar a entender. Na sala com o grande sofá creme que ocupava praticamente o espaço todo e onde tantas noites ficáramos acordados até de madrugada a falar como se nunca nos esgotassem as palavras e a vontade de saber mais um do outro. Tinha a sensação de que tinha conhecido mais de Afonso nestas meras quatro semanas a viver com ele praticamente vinte e quatro horas por dia do que nos meses que estivéramos juntos no passado. Isso parecia-me agora uma outra vida, uma outra versão de nós, um prelúdio para aquilo que éramos agora. O seu filme favorito era O Padrinho e gostava, um dia, de ir viver para o campo ou para perto da praia. Sonhava em ter um Jeep, em aprender a tocar guitarra e de fazer uma road trip por Itália, começar pelo norte em Milão e descer por aí — Veneza, Florença, Umbria, Roma, Nápoles, Amalfi, Sicília… Já sabia o seu roteiro de cor. E, afinal, as bandas estranhas que parecia usar nas suas T-shirts eram os Rage Against the Machine, os Muse, os Radiohead e os Artic Monkeys, nomes que nunca me tinham dito nada mas que, agora, ganhavam novos contornos na minha imaginação musical de Afonso. Tivera sempre tantas lembranças de Simão na minha memória à medida que o ia conhecendo, mas, com Afonso, era como estar a conhecê-lo pela primeira vez todos os dias. O restaurante de que mais gostava em Madrid era a La Tasquita de Enfrente e o seu prato de sonho o ensopado de bochecha de porco que me enojava só de olhar. Não conseguia ir para a cama à noite sem tomar um banho antes e, afinal, usava óculos para ler, coisa em que nunca reparara porque também nunca o vira a ler antes. Não gostava de andar de metro com medo de um novo atentado e tinha uma coleção enorme de escovas de dentes porque estava sempre a sonhar que lhe caíam todos os dentes da boca. Agora não fumava, mas tinha um outro vício, doces, que passava a vida a comprar no supermercado da rua e que lhe enchiam duas gavetas da cozinha. Galletas de todos os sabores, tamanhos e formatos, pacotes de bolachas, chocolates, biscoitos recheados. E, afinal, não gostava de jamón. Já eu adorava presunto e poderia comê-lo a toda hora. «O presunto aqui é cultural como o bacalhau em Portugal», dissera. «E eu também odeio bacalhau, é seco, salgado e pastoso na boca.» Mas então, um dia, comprei-lhe bolinhos de bacalhau porque o velhote do café me dissera que tinham pouco peixe e eram bastante apreciados na cidade. Ele comera, repetira e lambera os dedos sem nunca lhe ter dito que acabara de comer bacalhau. Guardei esse segredo comigo porque assim teria mais piada. Não conseguia imaginar a quantidade de vezes que a minha mente iria viajar para aqui quando já cá não estivesse porque ele estava por todo o lado. Não só em Madrid mas em todos estes pequenos pormenores do dia-a-dia que ele voltara a preencher e que iria trazer todos estes revezes à minha realidade sem ele em Portugal.
Saí do quarto com a mochila a arrastar pelo chão. Afonso estava sentado no sofá com ar de quem ia ser obrigado a comer gafanhotos, ou coisa parecida.
— Tenho uma coisa para ti — disse-lhe, encostando a mochila à parede no hall de entrada.
— Vais ficar?
— Isso era bom mas ambos sabemos que não vai acontecer. — Sorri. Tirei um pacote da mochila e sentei-me ao seu lado no sofá.
— Vai ser estranho não estares aqui. — Pôs um braço ao redor dos meus ombros e puxou-me para ele.
— Também vai ser estranho para mim ir embora. — Dei uma gargalhada. — Não vamos dramatizar. As coisas vão compor-se.
Ele encolheu os ombros e respirou fundo.
— Vou a Lisboa no próximo fim de semana. Vou pedir para me darem a sexta-feira de férias para sair daqui na quinta à noite e estarmos mais tempo juntos.
— Mas até lá, e para estares ocupado, comprei-te uma coisa.
Dei-lhe o embrulho de papel pardo. Vi-o retirar cuidadosamente o fio que o prendia.
— Não acredito. — Sorriu com o livro O Padrinho nas mãos. Abriu as páginas e cheirou-as.
— Não podes adorar os filmes sem nunca teres lido o original.
— Como é que o arranjaste? — Era uma versão em português.
— Pedi à minha mãe para comprar e enviar pelo correio para casa da Lolla.
— Então a tua mãe já sabe de nós? — Abraçou-me com força.
— Já sabe mais ou menos.
— E o que é que ela disse?
— «Minha menina, quando chegares temos de ter uma conversa». — Tentei imitar a voz dela, o que o fez rir.
— Para a semana tenho de ir falar com ela.
— Francamente, vais fazer o quê? Pedir-lhe permissão?
— Isso vou pedir ao teu pai. — Sorriu e beijou-me.
Lolla estava à porta da casa de Afonso a fumar um cigarrillo manchado com o vermelho dos seus lábios quando descemos. Conhecê-la fora um bote salva-vidas nesta cidade louca, principalmente porque não conhecia ninguém e, com ela, correra Madrid de uma ponta à outra e passara os meus primeiros tempos entre os seus amigos, dos quais nunca soubera muito mais do que os seus nomes próprios. Falavam alto, rápido e muitas vezes era difícil acompanhar as suas conversas em dialeto espanhol e muito calão à mistura.
— Chica — disse, de lágrimas nos olhos. — ¿Qué voy a hacer sin ti?
— Vas a seguir practicando portugués — respondi, dando-lhe também o embrulho que tinha para ela.
— Como?
— Com o Camilo. — Sorri. Ela abriu o embrulho e tirou a minha edição antiga de Amor de Perdição que também pedira à minha mãe para me enviar.
— Es un escritor portugués?
— Vais gostar do Simão e da Teresa. — Apertei-lhe as mãos com o livro entre as nossas mãos. — Tengo este libro desde que era niña y ahora quiero que sea tuyo.
— Minha amiga… — Deu uma gargalhada misturada com lágrimas. — Prometo que voy a leer. Obrigado por este regalo. Voy a estimarlo.
— Vou estimá-lo — repeti. — Fala em português.
— Vou — sorriu. — estimar-lo.
— Está quase.
Abraçámo-nos durante muito tempo. Depois de promessas de conversas ao telefone, de nos escrevermos e de nos voltarmos a ver quando ela fosse para Lisboa, Lolla deixou-se ficar para trás a acenar com os braços enquanto eu e Afonso nos afastávamos no seu carro.
Encostei a cabeça ao vidro e deixei-me absorver pela paisagem uma última vez. Percorremos as ruas que, nos últimos dois meses, foram minhas e que tão cedo não voltaria a ver. Era difícil acreditar que, semanas antes, também eu corria por estas ruas das quais agora me despedia. Chegara aqui sem qualquer expectativa de nada, nem sequer de gostar da cidade. Era quente, húmida, sufocante, cheia de turistas, prédios altos, lojas de três andares, vozes de mil e uma línguas, mas nunca o português. Queria fugir de mim longe de imaginar que me iria encontrar. Os quinze minutos que demorámos a chegar ao aeroporto foram suficientes para me despedir pela última vez das cores, das formas e dos cheiros da cidade com a qual iria ter de aprender a conviver à distância. Emocionei-me, apetecia-me chorar e rir ao mesmo tempo. Chorar por me despedir novamente de Afonso, mas rir por esta lotaria cósmica que ganhara. Vi-o a olhar para mim, funguei, limpei os olhos e sorri. Colocou-me a mão na perna e, sem despregar os olhos da frente, disse-me para abrir o porta-luvas.
— Achavas que não tinha nada para ti? — perguntou, com um sorriso de orelha a orelha.
— O que é que foste fazer?
— Nada de especial, mas como disseste que atiraste as minhas coisas para o lixo, arranjei-te um pequeno acessório de memória.
Abri o porta-luvas e vi uma pequena caixa retangular do tamanho da minha mão. Peguei nela com cuidado, com medo de a partir ou amolgar ou profanar com a minha falta de jeito para estes momentos.
— Abre-a. — Continuou a olhar para a estrada.
— Calma, deixa-me viver isto, pá.
Ele deu uma gargalhada.
Abri-a devagar. Tinha meia dúzia de fotografias nossas, duas do passado e quatro ou cinco deste verão. Havia uma de nós os dois deitados no sofá da casa dele há dois anos e outra minha de olhos fechados no barquinho do parque do Retiro. Dei uma gargalhada piegas com os olhos marejados de lágrimas. Pousei as fotografias no colo, tirei duas pulseiras da caixa. Eram meio marroquinas com um entrançado colorido, foleiras até dizer chega. Solucei, entre risos. Tirei um frasco minúsculo de amostra de perfume. Abri-o e cheirei-o, era o perfume dele que ficara em minha casa e que atirara para o lixo. Tinha ainda uma folha amachucada e dobrada em cinco ou seis bocados. Abri-a e era um poema que escrevera quando tinha catorze anos ou coisa que o valha e que, de alguma forma que nem sabia explicar, ele tivera com ele até agora. E, por fim, tirei um pequeno leitor de MP3 amarelo com uns auriculares pretos. Olhei para ele.
— Gravei-te todas as músicas que me fazem lembrar de ti e que, ao mesmo tempo, e de uma forma até meio mórbida, continuei a ouvir porque, sei lá, me faziam sentir qualquer coisa.
— E são quantas?
— Umas cem — riu-se. Eu quase estremeci quando o disse.
— Vou ouvir todas. E isto? — Peguei na folha amachucada. — Nem sabia que tinhas isto. Onde é que o encontraste?
— Uma vez, mostraste-me uma caixa com fotografias tuas antigas, lembras-te?
— Quando foste a casa da minha mãe?
— Sim. E estavam lá várias coisas e eu peguei nisto e abri. Quando li, não te sei explicar… São apenas frases infantis sobre um rapaz, mas não sei, tocou-me. E guardei-o comigo porque sabia que, um dia talvez, se perdesses a fé em ti, eu ia querer mostrar-te aquilo que tu não vês, mas, quem está de fora a ler-te, consegue ver.
— Afonso…
— Vês? Tu continuas a não conseguir dizer em voz alta que gostas de escrever. — Parou o carro no parque do aeroporto, desligou o motor e virou-se para mim, apertando-me a mão. — Como é que continuas a detestar falar sobre o que fazes? Achas que não te vi nestes dias? Com o teu bloquinho de notas a escrever coisas. Sempre com o lápis na boca a morder a borracha, a sublinhar frases nos livros e a dobrar páginas. E tu és a única pessoa que não repara em como ficas tão feliz a fazer o que fazes.
Tapei a cara com as mãos e deixei que me puxasse para o seu peito.
— Tens noção de que esse poema estúpido era sobre o Simão?
— Pois, agora percebi que era provável que fossem sobre ele todos aqueles tormentos.
— E ainda gozas, és do pior.
— Não estou a gozar. Mas quero voltar a guardar o papel, se me deixares. Só te queria mostrar que a forma apalermada como te sentias é exatamente como me sinto agora. — Sorriu. Entreguei-lhe o papel, feliz por me ver livre daquela lembrança embaraçosa.
— E as pulseiritas? Queres mesmo voltar a usar uma pulseira?
— Quero.
— A sério? És tão palerma, Afonso.
— Quero apenas lembrar-me que tenho um motivo sempre que olhar para o pulso.
— Um motivo para quê?
Pausa.
— Tu sabes. — Encolheu os ombros.
— Não sei.
Pausa.
— Um motivo…
— Para quê?
Entretanto, passaram anos e séculos e milénios. Os dinossauros andaram por aí a fazer a terra tremer, um asteróide caiu e levou-os à extinção, o Homo Sapiens deu o ar da sua graça, evoluiu, espalhou-se pelo planeta, descobriu continentes, a penicilina, a eletricidade e que a terra era redonda, fez guerras, criou a internet. Todas estas coisas aconteceram enquanto esperava pelo raio do motivo de que estava a falar.
Ele suspirou.
— Um motivo para me ir embora daqui e voltar para Lisboa.
Era o que sempre quisera ouvir, mas, na realidade, não queria que ele abdicasse daquele emprego a fazer algo de que realmente gostava e em que era bom. A sua própria carreira, não a que o pai lhe dera de bandeja, o seu próprio caminho.
— Tens mais um motivo para ficar. — Peguei-lhe nas suas mãos. — Eu espero por ti.
— Mas vamos viver longe um do outro.
— Mas temos o resto da nossa vida para viver perto.
Ele pôs uma mão na parte de trás do meu pescoço e puxou-me para ele, beijou-me com força alheio ao facto de que, quando me tocava, transformava o meu corpo em gelatina.
Entrei no avião, sentei-me no meu lugar, tirei o MP3 da mala para ouvir a nossa banda sonora. Começou a tocar qualquer coisa que nem sabia o que era, mas que me tirou dali: you float like a feather in a beatiful world, and I wish I was special, you’re so fucking special. Não me recordava sequer da cara da pessoa que se sentara ao meu lado, das hospedeiras, do que o piloto dissera ao intercomunicador sobre o atraso, do tempo que ficámos parados na pista à espera para levantar voo. Fechei os olhos e deixei-me embalar pela música, por Afonso, pelo que vivêramos e pelo que nos esperaria daqui para a frente. Não estava triste por me ir embora. Na verdade, tinha saudades de casa, da minha mãe, dos gémeos, de Alice e mesmo do meu pai e das suas conversas excêntricas. Dei por mim a pensar em Zeca e em Alice, em Simão e em tudo o que voltar a casa representava. Comecei mentalmente a fazer planos para o fim de semana seguinte, quando Afonso viesse a Lisboa. E num instante, assim de forma natural, Simão voou dos meus pensamentos e partiu pela janela do avião que rompia as nuvens, para o céu infinito lá longe.
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