Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 11 de 59

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Raparigas como Nós

Parte II

 

1999

 

Oh where, oh where can my baby be?

The Lord took her away from me

PEARL JAM

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Passei o início da minha vida numa escola de raparigas, o que talvez explique grande parte da minha ingenuidade. Éramos uma turma de raparigas alegres que nunca se preocupava com o facto de não existirem rapazes na escola. Estes afiguravam-se como um outro universo estranho e para lá dos muros da escola. E fora bastante libertador não ter rapazes a dar-nos pontapés, a puxar-nos os cabelos ou a chamar-nos feias. Quando entrei na escola secundária de Carcavelos, o mundo que até então conhecera levou um abanão monumental. Havia mais rapazes do que raparigas. Rapazes que andavam à pancada. Rapazes que gozavam connosco. Rapazes que fumavam nas traseiras da escola. Rapazes que andavam de mota e nos tentavam atropelar. Rapazes que, no verão, nos puxavam as saias enquanto se riam às gargalhadas. Tudo aquilo a que temos direito enquanto crescemos. Lembrava-me bastante bem do primeiro dia de aulas, fora dramático. Estava a viver a maior tristeza que alguma vez sentira e fazia questão de lembrar a minha mãe da dor que me estava a infligir todos os dias. Então conheci Alice, tão perdida quanto eu, as mais novas da turma, as que faziam anos em janeiro. A partir do momento em que fiz amigas, tudo mudou, a dor sarou, imaginava que o coração apertado da minha mãe também tivesse folgado um pouco.

A escola secundária de Carcavelos era constituída por seis grandes pavilhões em cimento, distribuídos três de um lado e três do outro, com um pátio ao meio, um refeitório, um ginásio e dois campos nas traseiras dos pavilhões. Ao seu redor, havia jardins que, na primavera, se tornavam o sítio favorito para acampar nos intervalos.

Durante os dois primeiros anos, fiz amigos, entrei na equipa de basquetebol, nos grupos de teatro e dança e já dormia em casa das minhas novas amigas, tendo-me quase esquecido por completo do meu mundo anterior. Qualquer rapaz que olhasse para nós era a nossa nova paixão e, quando se tem treze anos, qualquer rapaz de dezassete nos parece fascinante. Todos eles se assemelhavam aos nossos olhos como deuses que faziam Educação Física sem T-shirt e, nos intervalos, se encostavam à porta dos pavilhões a fumar e a comer sandes mistas e pães com chouriço e queijo. Nós sentávamo-nos em bancos a olhar para eles e a fazer desenhos nos nossos cadernos coloridos enquanto suspirávamos e imaginávamos como seria quando um deles nos desse um beijo, mesmo sabendo que nunca iria acontecer. Imaginar fazia parte da experiência. Todas estas paixões eram incendiárias e de pouca duração, mas aqui estava a verdadeira essência da infância, tudo isto se passava ao mesmo tempo em que jogávamos à bola na relva da escola, víamos os desenhos animados do Zorro na hora do lanche e usávamos mochilas com bonecos de peluche presos aos fechos.

Enquanto passávamos de crianças a adolescentes, trocámos os rapazes mais velhos e inalcançáveis pelos da nossa idade. Algumas das minhas amigas deram mesmo os seus primeiros beijos na boca e as paixões inflamadas pelos rapazes mais velhos passaram a experiências reais com os da nossa idade e da nossa turma. Começámos a fazer planos em conjunto, no verão já íamos para a praia em grupo, almoçávamos nos cafés de Carcavelos, trocávamos pastilhas elásticas de boca em boca porque isso era, na altura, o mais audaz que se podia fazer e, embora não gostasse de nenhum rapaz do grupo, fazia agora parte deste novo mundo em que, trocar uma pastilha era uma prova de confiança. Chegámos a 1999, entrámos no nono ano e conheci Simão.

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