Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 57 de 59

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Raparigas como Nós

Epílogo

 

 

Dei uma gargalhada quando soube que elas me chamaram, durante tantos anos, de Marisa das Argolas. Sabia que tinham razão. Eu fora exatamente essa miúda, ser desagradável de propósito era um ofício que desempenhava com determinação. Não era o papagaio que estava empoleirado nas minhas orelhas, a dona de todo o poleiro era eu. Foi estranho ler aquele diário idiota de 1999 em que Isabel escrevera sobre Simão e todos nós, mas havia uma certa beleza nessas memórias. «Francamente», pensei enquanto folheava com algum desdém, ainda assim, com emoção, «mas quem é que, no seu perfeito juízo, escreve um diário?», questionei-me. Mas não sabia dizer o que me abalara mais. Ver-me retratada naquele caderno velho e ser parte das memórias de Isabel acabou por ser inesperado. Todavia, foi a memória que ela tinha de mim que me fez pensar no impacto que temos na vida dos outros.

 

Estava agora deitada na cama de Isabel e olhei com afeto para ela sentada na sua secretária. Parecia inacreditável que tivéssemos sido miúdas tão diferentes na escola. Não nutria grande simpatia por ela na altura, ainda que não conseguisse apontar nenhuma razão específica para justificar tamanha antipatia. O problema não era Simão, via-o quase como o irmão que gostaria de ter tido, mas havia algo nela que me lembrava de coisas que ansiava por esquecer. Ele tinha uma forma muito graciosa, adulta até, de lidar com Isabel. Observava-o muitas vezes e sabia que gostava da atenção dela, aquela sensação inebriante de sermos o mundo de alguém, principalmente quando nos sentimos invisíveis no nosso. E Isabel estivera tão emaranhada nas nossas vidas que era difícil não pensar que talvez tivesse sido isso que Simão nos deixara, esta história e esta cumplicidade que nos unira, não obstante as diferenças abismais entre nós.

Durante muito tempo, pensei que nunca iria superar aquela noite em que quase morrera na praia, resultado de um conjunto de decisões idiotas. A memória que retinha mais viva era de acordar naquele quarto de hospital a cheirar a lixívia, éter e tristeza e ver as duas a olhar para mim. Fora como aquela primeira manhã, tantos anos antes, quando acordara num lar no meio do Alentejo com as cabeças de Anita e das outras crianças em cima de mim. Nunca me sentira tão sozinha, vê-las no hospital preencheu um pouco do vazio em que vivia há anos. E naquele momento, soube que tinha batido no fundo. Se Anita me tivesse visto, teria ficado certamente desiludida. Ali estavam elas com Zeca sentado ao lado da cama, os três com uma expressão de enterro na cara. Felizmente, ainda não fora o meu mas, naquela altura, nenhum de nós sabia que, em breve, seria o de Simão.

Quando Isabel me telefonou, depois do funeral, conseguia ouvir Alice do outro lado a rir-se e a incentivá-la a falar. Perguntaram-me se queria ir beber um copo com elas, o que foi estranho, mas foi assim que dei por mim sentada num bar onde, depois de algumas conversas embaraçosas, alguma coisa entre nós nasceu. Isabel e Alice não me salvaram apenas naquela noite na praia. Invadiram a minha vida de uma forma que nem eu sabia que precisava. Porque, naquela altura, acreditava que já tinha perdido tudo, já não havia grande coisa à minha espera, nem casa, nem Anita, nem amigos. Só me restava salvar-me a mim. Cortar com a minha antiga vida, ou cortar com a Marisa das Argolas, foi provavelmente a dádiva que Simão me deixou.

Ninguém o salvou, tivemos de o perder, mas foi a graças a Isabel e a Alice que voltei a encontrar-me. «Agora que já não és uma cabra odiosa, gostava de saber porque é que me tratavas tão mal», perguntou-me Isabel um dia. Eu ri-me, mas como é que lhe poderia explicar que ela me fazia lembrar de Anita? E eu tinha saudades de Anita, pensar nela era como ter um ferro em brasa espetado constantemente no peito. Tratara-a mal durante tanto tempo porque me irritava que ela desejasse tanto a atenção de Simão, na sua ingenuidade de quem não sabia o que era ter atenção indesejada. E eu sentia-me na obrigação de a tirar, era automático, defensivo, estava entranhado em mim, porque, durante muito tempo, fora obrigada a fazê-lo para que Anita fosse invisível.

 

— Tenho uma coisa para ti — disse-me Isabel naquela noite, quando fui ter a casa do pai dela depois do trabalho. Levantou-se da secretária e atirou um caderno preto para cima da cama. — Escreve as coisas que sentes, sobre o acidente na praia, o hospital ou a tua infância.

— Desde quando é que escrever sobre coisas que quero esquecer me vai ajudar? — revirei os olhos.

— Escrever ajuda-nos a superar as coisas difíceis ou a lidar com as emoções, acredita, sou especialista. — Deu uma gargalhada. — Acho que precisas disso.

— Ja-sus. — Levei as mãos à cabeça. — Quando penso que não podes ser mais pateta, tu tiras uma nova ideia da cartola.

 

Claro que entendia o que ela queria dizer. Mas se fizesse uma lista das coisas impossíveis de acontecer — aquelas que uma pessoa dá uma gargalhada só de imaginar, como ganhar a lotaria ou escalar o Everest —, ser amiga daquela miúda irritante de aparelho colorido nos dentes estaria no topo da página e, vejamos, aqui estávamos nós. Se calhar, escrever um diário não seria tão estúpido assim.

Ajeitei-me na cama dela e folheei distraidamente o caderno vazio que tinha nas mãos. Se calhar podia fazer isso, podia contar esta história. Talvez me ajudasse a sarar a ferida aberta que Anita deixara até então.

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