Raparigas como Nós
Capítulo 13
13
Estava com Alice e Luísa no comboio a caminho de Belém. Elas estavam as duas a tagarelar ao meu lado, mas não me apetecia falar, parecia que toda a minha energia se evaporara para outro sítio qualquer. Talvez tivesse ficado em casa de Simão, também lá deixara a minha esperança — esperança de que ele pudesse ser aquilo que eu acreditava que poderia ser. Que poderíamos ser. Ia com a testa colada ao vidro frio e, volta e meia, olhava para a vista que passava a voar pela janela, balançando com os movimentos do comboio.
— Ele tem uma certa razão, sabes — comentou Alice, dando-me um pontapé na perna para me fazer levantar a cabeça da janela.
— E lembras-te de como era na escola? — interveio Luísa, que estava sentada ao meu lado, o que me forçou a virar a cara. Doía-me o pescoço. — Eles faziam isso, faziam essas coisas estúpidas. Entravam de mota dentro da escola e andavam por cima das mesas no refeitório. Lembras-te de termos ido a correr para a casa da Marina e termos ficado lá com os binóculos para vermos o que é que se passava nas terras? E lá estavam todos encostados ao muro a fumar charros como se isso os tornasse parte de algo que estava fora do alcance dos outros. Como se isso os tornasse superiores.
— E então? — perguntei sem compreender a lógica dela.
— Então, nada mudou — respondeu Alice. — Será que não vês isso?
— Eles continuam a ser miúdos a quererem sentir-se melhor — disse Luísa. — Melhores do que eles próprios, acima de tudo.
— E onde é que eu entro nisso?
— Tu estás constantemente a lembrá-lo de que aquilo que ele faz para se sentir melhor é, afinal, o que o torna pior — respondeu Luísa, entrelaçando o seu braço no meu.
— E ele tem razão em quê? — perguntei a Alice.
— Não podes estar sempre a querer torná-lo em qualquer coisa que imaginas que ele pode ser. — Levantou-se porque estávamos a chegar à estação. — Porque o amor não é lutar por um qualquer troféu que está algures no futuro. O amor é o troféu.
Saímos do comboio e começámos a descer as escadas.
— Saíste-me cá uma especialista em relações — comentei em voz alta.
O jardim de Belém estava cheio de gente que, num feriado de início de maio, quisera apanhar um pouco de sol. Havia famílias com crianças pequenas sentadas em mantas e toalhas na relva, grupos a fazer piqueniques com caixas de salgados, latas de cerveja e sandes nas mãos, miúdos espalhados a beber e a conversar. Era uma espécie de concerto acústico de uma banda qualquer portuguesa que não conhecia mas da qual já ouvira algumas músicas na rádio. Estávamos a andar pelo meio das pessoas à procura de um lugar para nos sentarmos ou a ver se víamos alguém conhecido. Luísa dissera que uns amigos da Universidade também vinham, circulámos à procura deles e a olhar fixamente para as pessoas como se fôssemos chalupas. Parámos para ela lhes telefonar e sentei-me na relva. Alice trouxera uma máquina fotográfica amarela que o pai lhe oferecera e passou-ma para a experimentar. Dava para usar debaixo de água, disse-me várias vezes. Estava com a máquina nas mãos a olhar pelo visor e a fazer zoom ao acaso quando me passou de relance alguém que me fez voltar a olhar, havia qualquer coisa de familiar. Tirei a máquina da cara e levantei-me para ver melhor. Voltei a olhar pelo visor, fiz zoom e comecei a procurar o quer que fosse que me chamara a atenção. E então vi uma T-shirt preta de uma banda que já vira em qualquer lado. Senti o meu estômago a contorcer-se, subi lentamente a câmara e vi-o olhar diretamente para mim. Para a câmara. Para os meus olhos atrás da câmara.
Sentei-me subitamente, virei-me de costas e entreguei a máquina a Alice com o coração a berrar-me no peito.
— O Afonso está ali — disse baixinho, como se ele me pudesse ouvir.
— O quê? — perguntou Alice por cima da música. — Fala mais alto.
— O Afonso, porra — gritei. — Está ali ao fundo. Estava a olhar para mim.
— Quem? — perguntou Luísa, sentando-se. — Eles não me atendem, não devem estar a ouvir as chamadas.
— O Afonso está ali — repeti pela terceira vez, há muito tempo que não dizia o nome dele tantas vezes. — Vi-o pela máquina enquanto estava a fazer zoom. Ele estava a olhar diretamente para mim.
— Se calhar nem te viu — disse Alice. — Podia estar a olhar simplesmente ao acaso.
— Por favor, alguma de vocês pode levantar-se e ver? — pedi, enrolando dramaticamente os braços ao redor dos joelhos. Ele estava ali e sabia exatamente que eu também estava.
— Eu não vou olhar — afirmou Alice. — Provavelmente, está com o Ventura e não me apetece vê-lo. Depois vai começar a chatear-me com as conversas dele e não estou para isso. É que vocês não sabem mas está sempre a mandar-me mensagens.
— Mas podes só ver? — implorei. — Uma de vocês. Só têm de ver onde é que ele está para irmos para outro sítio. Ele está com uma T-shirt preta com umas letras vermelhas.
— Por amor de Deus — gritou Luísa de um salto. — Vou ter de ser eu. Só faltam os binóculos para parecermos novamente três parvas a espiar um grupo de rapazes idiotas.
Ficámos sentadas como duas formiguinhas escondidas enquanto Luísa, de pé e com os óculos de sol na cara, fingia olhar para o palco e abanava a cabeça ao som da música.
— Para começar — voltou a sentar-se e cruzou as pernas na relva —, o Ventura está sentado numa toalha com uma miúda loira deitada em cima dele.
— Como assim? — perguntou Alice, levantando-se num salto.
— E o Afonso está a olhar para cá à tua procura — concluiu, olhando para mim. — Podes ir lá falar com ele ou podes ir embora. A escolha é tua.
— Vamos lá — pediu Alice. — Não acredito que já anda com outra quando ainda ontem me enviou uma mensagem a dizer que não aguentava estar sem mim, o filho da mãe.
— Eu não vou lá — respondi, placidamente.
— Por favor — gritou Alice. — Quero que ele me veja.
— Mas porquê? — perguntei. — Tu não gostas dele.
— Foda-se, Alice, o gajo era péssimo para ti — completou Luísa. — Se está com aquela loira, o problema agora é dela.
— Vocês não percebem — disse Alice, de joelhos na relva. — Não era suposto ele estar com outra gaja feliz e contente como se, afinal, tivesse conseguido esquecer tudo num piscar de olhos. Olhem para mim. Estou um farrapo. Preferia que continuasse infeliz e miserável a mandar-me mensagens. Não vos consigo explicar.
— Tu só sentes falta da ideia que tens dele. Nem sequer eras feliz com ele. Ainda antes de descobrires que ele te… — E calei-me subitamente. Apetecia-me contar-lhe tudo de uma vez, mas não era o momento certo, não neste estado vulnerável. Suspirei. — Que ele ia trabalhar nos aviões — corrigi. Ela nem pareceu notar a subtil mudança de entoação na minha voz. — Tu sentes falta da relação e do conforto que era estar com ele, mas não dele enquanto pessoa.
— E ele é como os amigos. Tem um pau e duas bolas, nem cabeça nem coração — disse Luísa, encolhendo os ombros. Dei uma gargalhada porque ela não podia estar mais certa.
Alice ficou em silêncio a olhar para nós.
— Estou errada? — perguntei.
Ela acenou com a cabeça. Bem me parecia que estava certa. A verdade era bem mais simples, mas difícil de assumir, queremos aquilo que não podemos ter. Enquanto o imaginava com saudades dela, repudiava-o. Vê-lo com outra fazia-a agora sentir-se menosprezada. Olhei para Luísa e percebi que tínhamos de lá ir. Não sabia bem para quê, mas tínhamos de fazer isso por Alice.
— E vamos lá e depois acontece o quê? — perguntou Luísa.
— Não sei — disse Alice. Tirou um espelho da mala para olhar para si. — Só quero que ele me veja para perceber que não sou uma das idiotas a quem ele dá duas cantigas. E sim, eu sei que estou a ser idiota e já sei o que é que vão dizer.
— E quando ele vier falar contigo, vais dizer o quê? — perguntei, levantando-me.
— Vou dizer que fico feliz por vê-lo já bem acompanhado, sei lá, uma treta qualquer — respondeu. — Estou bem? Estou no meu melhor?
— Estás sempre no teu melhor — respondi.
Sentia um nó no estômago e tinha o coração a bater a um milhão de quilómetros por hora. E quando Afonso viesse falar comigo? O que lhe iria dizer? O que iria ele dizer-me? Estaria cá só a passar o feriado ou será que voltara? Continuaria a trabalhar em Madrid? A multidão passou-me à frente dos olhos quase sem a ver. Ouviam-se vozes, risos, gritos e a música continuava a tocar, a banda a cantar e o tempo a passar. Porém, num planeta bem diferente deste onde estava agora em que só ouvia o meu coração a bater como tambores nos meus ouvidos. Estava a vê-lo cada vez mais perto, de costas, a conversar com alguém e, subitamente, tudo se parecia mover em câmara lenta. Tive consciência das saudades que tinha dele, agora que o estava a ver. Como se tivesse tido tudo adormecido dentro de mim e agora estivesse a despertar. Tinha a garganta seca e ele virou-se, viu-me e pareceu nem respirar. Os nossos olhos cruzaram-se durante uma fração de segundos, mas pareceu uma hora ou um dia inteiro. Era como se todo este tempo em que não nos vimos nem soubemos nada um do outro não tivesse acontecido. Como se ainda ontem tivesse estado em casa com ele a fumar com o braço pendurado de fora da janela. Quase conseguia ouvir outra vez a sua gargalhada. Mas não foi a visão de Afonso que me congelou por dentro, foi a rapariga sentada ao seu lado na relva com o braço em redor do seu pescoço e a cabeça no seu ombro. Não foi o facto de ele estar com outra pessoa que me partiu ao meio por dentro. Como é que isso nem sequer me ocorrera? Eu também estava com outra pessoa, as nossas vidas continuaram um sem o outro. Mas quando ela lhe disse qualquer coisa ao ouvido, ele desviou o seu olhar do meu e sorriu para ela. Foi este olhar que me quebrou. Um olhar carregado de qualquer coisa especial subliminar que só existia entre eles os dois. E a forma como olhavam um para o outro e conversavam ao ouvido de cada um fez-me pensar em Simão e em todas estas coisas que sabia que não tínhamos. Não estávamos sequer perto disso, nem iríamos estar daqui a mil anos. Eu estava a ouvir uma banda cantar num jardim e ele estava a dormir de ressaca. Vi os amigos dele a olhar para nós, alguns acenaram e continuaram a fazer o que estavam a fazer como se fôssemos absolutamente irrelevantes. Ventura acenou do chão, onde estava sentado com a rapariga loira, e nem se levantou para falar com Alice. E nós ficámos paradas como palermas naquela situação constrangedora de quem não sabe se deve parar, dizer um olá e beber um cafezinho ou continuar a andar. Voltei a olhar para Afonso, com a cabeça da rapariga encostada ao seu ombro. Ele virou o pescoço, olhou para mim e voltou a olhar para o palco. Não conseguia acreditar que me ia deixar passar por ele e nem sequer se iria dar ao trabalho de se levantar para me dizer olá. Os meus olhos ficaram marejados de lágrimas. Senti o meu coração partir-se novamente em pedaços minúsculos e afiados que se espalharam dentro de mim e se alojaram em todos os meus órgãos, fazendo-me doer cada centímetro do meu corpo. Pelo canto do olho, vi Alice acenar para Ventura e não podia deixar que mais nenhuma de nós fizesse figura de idiota. Ela tinha de passar por cima e continuar a andar, fazê-lo sentir-se irrelevante. Puxei-a por um braço, com Luísa atrás de nós, e andei aos ziguezagues entre as pessoas para o mais longe que conseguia dali. Sentia que estava prestes a explodir em lágrimas ou em gritos ou em pontapés e ninguém me podia ver, ele não me podia ver.
O que não vi foi que, algures a meio da minha fuga aos tropeções, Afonso se levantara e viera atrás de nós. Parei em frente a um bebedouro para tentar acalmar a secura que me queimava a garganta e vi-o. Vi-o parado a alguns metros de nós, vi-o hesitante, vi qualquer coisa nos seus olhos. A mesma coisa que vira na noite em que nos conhecemos. Alice disse-me para falar com ele, mas estava colada ao chão. Deixei que me visse com a cara empapada em lágrimas e os olhos esborratados de preto da máscara de pestanas a descer-me pelas bochechas. Não tinha energia nem para me esconder. Mas ele não veio.
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