Raparigas como Nós
Capítulo 7
7
Caminhámos a pé porque ele deixara o carro ao pé de minha casa. «Então e a mota?», perguntara-lhe quando o vira chegar. «Tenho andado com o carro do meu irmão», respondera com uma gargalhada, «não te quero a panicar sempre que quiser estar contigo». Panicar era uma palavra curiosa, já que tinha a cabeça num vendaval de pensamentos. Talvez toda a dor que se acumulara dentro de mim me tivesse deixado alerta para os danos que as outras pessoas podem fazer dentro de nós. E estava aterrorizada. Estávamos tão perto um do outro que conseguia cheirá-lo, era suave e fresco, água-de-colónia misturado com restos do sabonete do banho. Já não era aquele cheiro que me lembrava, era uma mistura disso com qualquer coisa nova. Chegámos à porta da minha casa, coloquei a chave no prédio e abri. Parei, sem saber muito bem o que fazer. Queria beijá-lo e o que ele me fazia sentir era desconcertante, queria lançar-me contra ele, mas, ao mesmo tempo, sentia um medo atroz de me despenhar outra vez. Ele facilitou-me a vida porque, no meio destes pensamentos, entrou no prédio, fechou a porta atrás dele e, às escuras, empurrou-me contra a parede e colou a sua boca à minha. Assim que o seu corpo se aproximou do meu, agarrei-lhe os cabelos e fundi-me nele. O beijo estalou, faiscou, fumegou e ele afastou-se de mim e olhou-me nos olhos. Dei-lhe a mão e subimos as escadas a correr como duas crianças.
— O teu pai vai matar-me? — sussurrou quando abri a porta, com ele atrás de mim.
— É provável. Por isso, não fales e não faças nenhum barulho.
— Já estou nervoso — murmurou, sufocando uma gargalhada no meu pescoço.
Fechei a porta muito devagar atrás de nós, avaliando o silêncio da casa. Agradeci mentalmente por, consciente ou não, Maria João me ter dado o quarto do andar de cima, talvez por imaginar que, um dia, iria querer um pouco de privacidade. Esta não seria a privacidade que ela tivera em mente, imaginava, mas eu também nunca fora uma miúda apaixonada a levar rapazes escondidos para casa. A palavra apaixonada a atravessar-me a mente fez-me parar porque ainda não atribuíra nome ao que estava a sentir. Apaixonar-me ou voltar a apaixonar-me por Simão significava desapaixonar-me definitivamente por Afonso. Demorara tanto tempo neste luto interminável sem me aperceber que, por vezes, não terminamos as coisas, não há um desfecho nem nenhuma aprendizagem a fazer, simplesmente seguimos em frente.
Descalcei as botas, disse-lhe para fazer o mesmo e subimos as escadas devagarinho, tentando fazer o mínimo barulho possível. Entrámos no meu quarto e fechei a porta à chave. Atirei o meu casaco e as botas para o canto do quarto e ele fez o mesmo.
— Quarto, este é o Simão. — Ri-me. — Simão, este é o quarto. — Ele olhou em volta, como se tentasse habituar-se ao ambiente.
— Gosto. — Sorriu.
E atirou-me para cima da cama. Inclinei a cabeça para trás, fechei os olhos e deixei que as suas mãos me tocassem enquanto enrolava as pernas à volta do seu corpo. Sentia uma necessidade feroz de lhe tocar, de lhe sentir o corpo e puxei-lhe a camisola pela cabeça. Queria vê-lo por completo, guardar cada memória da sua pele, se isto apenas durasse esta noite, queria ter a certeza de que sentia tudo. Toquei-lhe os braços, as costas e deslizei as minhas mãos pelo seu peito. O coração dele batia com força e estava prestes mergulhar dentro dele. Beijei-o com força até ficar sem fôlego, rodámos na cama até ficar por cima dele e parei. Fitei-o.
— O que foi? — perguntou-me, com os olhos a brilhar.
— Só quero olhar para ti. — Ele virou o rosto e deu uma gargalhada rouca. Percebi que estava nervoso, afinal não era eu a única com todas estas sensações desconhecidas. — Não tens a noção da quantidade de vezes que imaginei isto a acontecer — disse-lhe, baixinho. — Bem, não propriamente isto. Quero dizer, era uma miúda, nem pensava em sexo.
— Pensavas em quê? — perguntou, não tirando os olhos de mim.
— Não sei, pensava nisto a acontecer. Tu e eu. Imaginava isto sem ser isto. Estou a ser confusa?
Ele sorriu.
— Estás a ser mesmo muito confusa.
Após um momento, inclinei-me para a frente e tirei a camisola. Deixei que me olhasse, que me tocasse. Levantou-se e beijou-me. O queixo, a linha do maxilar, o pescoço, os ombros e desceu até ao peito. Conseguia ouvir a sua respiração áspera, sentia o calor do seu hálito na pele e o seu toque tornou-se torturante como se me cortasse todos os músculos por debaixo da pele. Lá fora, começou a cair um dilúvio, o barulho da chuva a bater no vidro da janela deu-me, por um momento, segurança de que o meu pai nunca nos iria ouvir lá em baixo. Levantei-me de cima dele, desapertei as calças de ganga e despi-as. Os seus olhos estavam fixos em mim e tive uma consciência de mim mesma, da minha nudez e do meu corpo enquanto ser humano, enquanto rapariga. Percebi que Simão já não estava tão seguro de si, era novamente aquele rapaz desajeitado de que me lembrava. E que, tal como eu, também não sabia para onde se estava a atirar. Deitei-me ao seu lado, beijei-o na boca e abracei-o com toda a força que consegui antes de me perder com ele.
Acordei antes dele, tomei um banho quente e deitei-me no sofá do quarto a ler um novo romance daqueles de cortar os pulsos, enquanto tomava o pequeno-almoço que trouxera para cima. O meu pai deixara-me um bilhete a avisar que tinham ido com os gémeos patinar no gelo, mas que voltavam para almoçar. E isso deixara-me toda a manhã para tirar Simão de casa sem ser visto. Ele dormia tranquilamente, com a cabeça pousada na minha almofada — na minha almofada! Estava a tentar adiar o momento seguinte, aquele em que iríamos decidir o que seríamos dali para a frente. A consciência aterradora da presença dele na minha cama era uma luta titânica entre o passado e o presente. Enviei uma mensagem a Alice a dizer que Simão estava a dormir na minha almofada. Ela respondeu imediatamente: «Porra, isto está mesmo a acontecer, é mágico. Como te sentes?» Boa questão, pensei. Como fora possível suportar todos estes anos sem nunca o ter beijado? Como é que conseguira viver?
Trincava uma maçã à janela a pensar nestas coisas quando ele me agarrou por trás e me beijou o pescoço.
— Olá — sussurrou no meu ouvido.
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