Raparigas como Nós
Parte V
Outono
2005
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas,
Raras
CLÃ
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1
Senti-me estranha de volta a casa, era como se nada tivesse mudado, continuava tudo no mesmo sítio, mas tudo mudara. Ou eu é que mudara. A felicidade é como um filtro que coloca tudo mais vivo aos nossos olhos. A minha mãe estava com Alice à espera no aeroporto com um cartaz ridículo que me fez parar com gargalhadas a tomar conta do meu corpo. As pessoas atrás esbarraram e empurraram-me para continuar caminho, também elas em busca dos seus cartazes. Levei com uma dose abismal de choradeira como se a minha mãe não me visse há anos. Alice olhou para o meu pulso, com a pulseira de Marisa e de Afonso. «Jesus, também tenho de te comprar uma pulseira ou vou ser excluída do clube», disse. Agarrei-me a ela em gargalhadas e saímos do aeroporto.
— Minha menina — disse a minha mãe quando entrámos no carro —, espero que tenhas aprendido alguma coisa sobre desapego.
— Desapego, mãe? Estás tão emotiva. — Ela virou-se para trás no banco para me encarar, Alice ia ao lado dela.
— Não sei se te lembras de como ficaste há dois anos, mas eu lembro-me muito bem. E não quero voltar a ver-te assim. — Alice virou-se para trás e levantou as sobrancelhas em solidariedade.
— Oh, mãe — revirei os olhos para Alice —, as coisas agora são diferentes.
— Eu gosto do Afonso, tu sabes que sim, mas isto da distância nunca acaba bem e acho que já aprendemos esta lição. — Sabia que ela se referia ao meu pai, que passava semanas fora no seu mundo, o egoísmo de se isolar e afastar da família. — Espero que estejas preparada e consciente disso.
— Não conseguimos prever o que nos vai acontecer, não é?
— Não. Mas podemos evitar repetir o mesmo erro duas vezes. — Apertou-me a mão e sorriu. — E só para que conste, eu gostava do Simão — suspirou e olhou para Alice. — Mas agora é o Afonso, tenho de me habituar a estas modernices.
Se a minha mãe sonhasse sequer como foram os últimos meses com Simão, provavelmente não iria continuar a gostar assim tanto dele e do que ele representava, teria tido um colapso nervoso. Sempre achei que mentimos aos nossos pais para evitar partir-lhes o coração. Lembrava-me das raparigas da escola, sempre bêbedas ao fim de semana, a dizer que dormiam na casa umas das outras. Não mentiam para poder sair, mentiam para que os pais continuassem a olhar para elas como as filhas perfeitas que imaginavam ter em casa. Eu mentira e omitira simplesmente para não magoar a minha mãe. Porque sabia que ela iria sofrer muito mais ao saber o que, de facto, acontecera do que a imaginar que Simão podia, simplesmente, ter-se desinteressado de mim ou eu dele.
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