Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 50 de 59

Páginas do PDF

Raparigas como Nós

Capítulo 3

3

 

 

Algures entre a casa de banho e a varanda, Nando colara-se a mim e, por alguma razão, achara que estava realmente a ter piada.

— Nunca te aconteceu estares na fila do supermercado, naquelas caixas até quinze unidades, e à tua frente está uma velha e ficas a contar as merdas dela e vês que ela tem dezasseis coisas no cesto?

— Não sei — respondi secamente, tinha de arranjar forma de me afastar dele. — Acho que nunca me deu para contar o que a pessoa à minha frente tem. Suponho que toda a gente cumpre a regra das quinze unidades.

— Aí é que te enganas — disse como se tivesse descoberto a pólvora. — As velhas não cumprem e ficam ali a atrapalhar a fila de quem está com pressa e tem poucas coisas para pagar.

— Estar a comprar cervejas e vodca não é propriamente estar-se com pressa — bufei.

Revirei os olhos e virei a para o outro lado, ele não tinha piada nenhuma. Provavelmente nunca tivera e eu só me rira das conversas dele por simpatia, ele sempre fora inconveniente e incomodativo. Quando saí da varanda e voltei a entrar na sala, fui recebida com um bafo quente e uma fumarada que me fez arder os olhos. Deixei o meu copo de plástico numa mesa no canto da sala e olhei em volta à procura de Alice no meio de toda a gente. Agora não conseguia pensar em nenhum motivo para, horas antes, ter achado que vir a uma festa com eles era boa ideia. «É uma festa de final de verão», dissera Alice. «E o Zeca não os vê desde o funeral, tenho medo de que seja tudo meio estranho. Anda comigo por favor», implorara. «O Simão não vai», acrescentara. Mas nada mudara, tudo continuava a ser um pretexto para uma festa. Continuavam a beber, a ouvir música de doidos, a consumir drogas, a fumar e a tornar as suas festas em saunas. Já nem sequer pertencia aqui, sempre fora mais ou menos aceite por estar com Simão. Agora era apenas mais uma miúda de quem ninguém notaria a falta caso fosse embora. A caminho da festa, Zeca dissera que Simão não viria, o que fora uma surpresa. Já nem Marisa fazia parte do cenário e, de certa forma, sentira falta dela. Observei Alice do outro lado da sala a conversar com Zeca, pensei em dar-lhes mais cinco minutos até dizer que me iria embora.

No sofá, estava um rapaz a tocar guitarra por cima da música enquanto fumava um charro. Lembrava-me de já o ter visto algumas vezes e de Simão dizer que era da banda da passagem de ano. E também estivera na Ericeira naquela noite que ainda me assombrava a memória. Havia uma confiança nele que era eletrizante, era o facto de se abstrair de tudo ao seu redor e colocar toda a sua atenção na sua música, o tipo de confiança que sempre me faltara. Ele olhou para mim como se me ouvisse os pensamentos e sorriu. Fez-me um sinal para me aproximar e, porque tudo seria melhor do que ouvir Nando falar, sentei-me ao seu lado. Ele continuou a fazer o mesmo que estava a fazer.

Passaram-se provavelmente cinco minutos e só pensava no que raio estava a fazer ali, nem tinha nada com que ocupar as mãos. Ele percebeu e passou-me um charro, sorri e disse que não com a cabeça. Ele inspirou, fechou os olhos, manteve o fumo dentro dele e depois expirou com força. Apagou-o e afastou o fumo com a mão, pousando a guitarra nas pernas.

— Sabes tocar? — perguntou-me.

— Nem por isso.

— Queres aprender?

— Não sei, foi algo que nunca me passou pela cabeça.

Ele levantou-se.

— Vou buscar uma cerveja. Queres alguma coisa?

— Pode ser sangria.

Ele acenou com a cabeça e afastou-se. Olhei à minha volta e Alice fez-me um sinal, perguntou silenciosamente se estava tudo bem. Acenei que sim e gesticulei que já ia ter com eles. Não o fizera antes porque queria dar-lhes algum tempo sozinhos, ela sempre o fizera comigo. E ela era tão melhor do que eu a integrar-se nos sítios, sempre invejara a sua facilidade de permeabilização. O rapaz da guitarra voltou e sentou-se novamente no sofá ao meu lado e deu-me um copo com uma mistura cor-de-rosa borbulhante lá dentro. Nem sequer me lembrava do nome dele, talvez fosse Ricardo ou Ivo, não sabia ao certo. Mas também não perguntei.

— Tens mais ou menos dez acordes básicos. — Dedilhou as cordas. — Os acordes são a junção de três ou mais notas e, se aprenderes apenas cinco formatos de acordes, já vais saber tocar milhares de músicas.

— Hum, hum. — Acenei com a cabeça. Nunca me interessara muito por guitarra. Lembrei-me de que Afonso queria aprender e tive uma súbita vontade de lhe mandar uma mensagem..

— O passo seguinte é conseguires passar de um acorde para outro com agilidade. Ao início parece que os dedos ficam descoordenados, mas é preciso paciência para começar a fazer isto em piloto automático. — Olhou para mim. — Tens unhas grandes?

— Não. — Mostrei-lhe as minhas mãos.

— É difícil posicionar os dedos com unhas grandes porque o ideal é usar a pontinha dos dedos. Queres experimentar?

— Tudo bem. — Peguei na guitarra, nem sequer tinha jeito para isso. Ele levantou-se do sofá e colocou-se atrás de mim.

— Vou mostrar-te o Dó Maior, que é um acorde fácil. — Posicionou os meus dedos no sítio certo. — Estás a ver? Agora, com a outra mão, toca nas cordas para sair o som.

Fiz um som e foi horrível. Lembrei-me das aulas de música na escola e tive vontade de rir porque sempre fora péssima e nunca tivera qualquer coordenação. A professora dissera que nunca vira ninguém com tão pouco ouvido como eu e fui a única que não tocara flauta no espetáculo de Natal do oitavo ano. Eu teria arruinado tudo.

— Olha — tirou-me a guitarra das mãos —, queres vir lá acima? Tenho um livro com ilustrações dos acordes e é mais fácil mostrar-te.

Não tinha qualquer interesse nisto, mas não sabia como dizer que não me apetecia. Era aquele velho hábito em tentar sempre agradar.

— Okay. — Levantei-me atrás dele. — Esta casa é tua? — perguntei enquanto subíamos as escadas.

— Sim. — Abriu-me a porta de um quarto. — Bem, é dos meus pais, mas, dado que eles passam metade do tempo na casa do Algarve, acho que é mais minha do que deles.

O quarto dele cheirava a cigarros e aos restos da piza seca numa caixa em cima da secretária, estava cheio de posters de bandas e tinha três guitarras penduradas na parede. Ele tirou um livro de uma estante e abriu-o em cima da cama.

— Estão aqui os desenhos dos dez acordes principais. Estás a ver o Dó Maior?

— Sim. — Ele colocou a guitarra novamente nas minhas mãos.

— É posicionares basicamente os dedos em fila. É simples.

Posicionei os dedos como mostrava o desenho e voltei a tentar tocar a nota, o som saiu um bocado mais afinado. Tentei o Mi Menor, que só tinha duas notas, era fácil. Fui para o Lá Maior, eram três notas na mesma direção. Já me sentia uma estrela de rock em ascensão.

— Então… — Deitou-se de barriga para cima com as mãos atrás da cabeça. Eu estava sentada na pontinha da cama com a guitarra nas pernas. — Eras a namorada do Simão, não eras?

— Hum, hum. — Para não olhar para ele, continuei a tocar acordes ao acaso.

— Nunca mais te vi com o pessoal. Acabaram há muito tempo?

— Depois daquela festa na Ericeira. — Talvez isto lhe avivasse a memória.

— Ah, sim. — Ele riu-se. — Foi um fim de semana fixe.

— Como? — Parei de tocar e olhei para ele, certamente não tínhamos estado no mesmo fim de semana.

— Foi divertido, sei lá.. Bazaram com o Zeca, não foi?

— Passei a noite com a vossa amiga no hospital.

— Ah, pois foi.

Fiquei em silêncio e voltei a focar a minha atenção nas ilustrações no livro de iniciação à guitarra, mas só queria levantar-me e ir embora.

— Então e que fazes ao certo? — perguntou.

Pensei que vínhamos aqui apenas para ver os estúpidos dos desenhos. Não para um interrogatório.

— Estou na faculdade. E tu?

— Estudar não é para mim, sou músico.

— Pois, já tinha percebido. Lembro-me da passagem de ano, acho que a banda fez sucesso. — Dei um sorriso forçado para ser simpática.

— Estavas lá? — Ele deu uma gargalhada. — Tens de nos ver a tocar a sério porque nessa noite estávamos só a dar música a velhos.

— Tudo bem, um dia pode ser que apareça com o Zeca. — Pousei a guitarra de pé no chão, encostei-a à cama e fiz tenção de me levantar para ele perceber que já estava satisfeita com a aula e iria voltar lá para baixo.

— Espera. — Colocou a mão no meu braço para me fazer sentar de novo. — Não vamos já, estamos bem aqui.

— Na verdade, quando me chamaste, já estava de saída. Amanhã acordo cedo.

— Sempre te achei piada, sabias?.

Olhei para ele surpreendida com a sua estratégia e levantei as sobrancelhas. Subitamente, ele puxou-me e tentou beijar-me. Virei a cara e, com as duas mão, empurrei-lhe o peito para se afastar de mim.

— Acho que me interpretaste mal. — Dei um salto para fora da cama.

Ele puxou-me repentinamente o braço, envolveu-me a cintura e atirou-me para a cama com uma gargalhada. Prendeu-me com uma perna e tentou voltar a beijar-me. Gritei, dei-lhe murros nas costas e virei a cara com toda a força.

— Larga-me — berrei. Ele sentou-se na cama e riu-se surpreendido.

— És das difíceis, estou a ver.

— Qual é que é o teu problema? — rugi. Levantei-me da cama num ápice e atirei com o livro para cima dele. — Não quero nada disto.

— Então porque vieste cá para cima?

— Desculpa?!

— Sim. — Levantou-se da cama, eu comecei a andar em direção à porta. — Não me digas que estavas assim com tanto interesse em ver o meu livro.

— Estava a ser simpática — gritei. — Foda-se, se uma rapariga te diz que não, é não. Acho que não é muito difícil perceber.

— Cabra — ouvi-o dizer atrás de mim.

Saí pela porta fora e desci as escadas de par em par com o coração a rugir. Procurei Alice e Zeca e encontrei-os na varanda a conversar com Nico. Puxei-a por um braço.

— Aquele idiota da banda agarrou-me à força.

— Quem? — Olhou ao nosso redor.

— O gajo desta casa. — Ainda tinha as mãos a tremer. — Atirou-me para a cama, prendeu-me, pensei que me ia violar, foda-se.

— Estás a gozar? — perguntou em choque. — Mas não estavam ali no sofá?

— Ele estava ali a tocar guitarra, chamou-me, começou a falar sobre os acordes, a tentar ensinar-me a tocar, sei lá, estava a ser tudo normal até que me perguntou se queria ir lá acima ver um livro com ilustrações dos acordes porque era mais fácil entender assim.

— E porque é que foste?

— Foda-se, sei lá. Tive vergonha de dizer que não, que me estava nas tintas para a merda dos acordes. Só queria ser simpática.

— E depois?

— Foi isso. Mostrou-me o livro, começou a fazer-me perguntas e a falar sobre tretas e subitamente estava a atirar-me para a cama e a dizer que eu lhe estava a fazer sorrisos e parecia que estava interessada. Ainda me chamou cabra quando comecei a gritar e disse que não queria nada com ele.

— Mas que merda de gajo é o teu amigo, Zeca? — Alice estava desvairada, amei-a ainda mais por isso.

 

Zeca e Nico foram para a cozinha, onde estavam todos à volta da bancada de copos na mão. Ouviu-se uma gargalhada em coro. Zeca olhou para nós e franziu a testa. Vi-o pousar o copo e sair da cozinha.

— Vamos embora — disse, quando chegou ao pé de nós. — Eles já estão com merdas, a noite já deu o que tinha a dar.

Para mim, estavam a ser iguais a todos os dias. Antes de ter tido tempo de nos explicar o quer que fosse, entraram todos na sala.

— Afinal, também te sabes safar — proclamou Nando. — Não és tão mosquinha morta como parecias.

Estaquei no meio da sala com as gargalhadas deles, sentia-me novamente com catorze anos no meio da escola. O idiota da guitarra estava a rir e a beber uma cerveja da lata, encostado à porta.

— O que queres dizer com isso?

— Puto — gritou Zeca, que já me estava a puxar pelo braço —, não comeces com merdas, já chega.

— Mas eu não fiz nada. Estava a dizer que, afinal, ela não era tão santinha.

— Mas não sou santinha porquê? — Soltei-me em fúria dos braços de Zeca.

— Deixem-na, vá! — interrompeu Nico.

— O que é que eu fiz? — gritei. — O que é que lhes foste dizer? — perguntei diretamente ao idiota que se deixara ficar para trás, numa tentativa vã de fingir que não tinha nada a ver com aquilo, o quer que aquilo fosse.

— Eu não disse nada — sorriu e encolheu os ombros — que não tenhas feito — acrescentou. Um coro de risos encheu a divisão.

— Vamos embora — pediu Zeca. Alice pegou nas nossas malas e começou a encaminhar-me para a porta.

— O que é que ele disse? — Parei e perguntei a Nico. — Tu conheces-me.

— Não interessa, esquece, são merdas deles.

— Mas tanto barulho para quê? — interrompeu Nando. — Foda-se, ela só lhe fez um bico quando foram lá para cima, também não é nada de outro mundo.

— O mais perto que o Ivo vai estar de receber um bico de alguém é na sua imaginação. — E a voz que já quase não me lembrava de ouvir dirigiu-se diretamente a ele. — Estás mesmo a superar o recorde de merda que te sai da boca. Isso é que é uma proeza — disse Simão, que entrara na sala de rompante como uma aparição.

Vê-lo foi como levar um pontapé no estômago e ficar subitamente sem ar. Estava bronzeado como se tivesse sido barrado com uma camada de carvão, com a cabeça quase rapada e os olhos mais verdes do que nunca. O que fora ele fazer ao seu bonito cabelo comprido, questionei-me. Parecia-me mais magro, mas se calhar era por não o ver há três meses. Notei que tinha uma pequena tatuagem no pulso, mas não conseguia perceber o que era. Ele avançou até nós, apertou a mão de Zeca e tocaram um no outro com o ombro. Pegou-me pelo braço e levou-me a trote porta fora com Zeca e Alice atrás de nós.

OceanofPDF.com