Raparigas como Nós
Capítulo 8
8
Simão ficara lá para trás na escola, juntamente com os ténis de plataformas, os sacos de gomas do café e as mochilas com peluches pendurados nos fechos. Agora estava de novo aqui, na minha vida, no meu dia-a-dia. As aulas na faculdade recomeçaram e, subitamente, todas as pessoas pareciam alheias, ninguém sabia de nós, da nossa história. «Tens um namorado?», perguntara uma rapariga do meu curso. E era estúpido explicar que era mais do que um namorado, porque ninguém o conhecera, ninguém nos conhecera, e era muito mais do que isso. Só Alice compreendia. E eu queria que nos vissem, queria que toda a gente soubesse desta inacreditável história.
Na primeira vez que me levou a conhecer os seus amigos, estava aterrorizada, era mais do que isso, porque eram os rapazes que já conhecia da escola, agora alguns anos mais velhos do que eu. Se os continuara a ver como os rapazes com quem ele se sentava à porta do bar, não me veriam, também eles, como a miúda de aparelho nos dentes atrás de Simão? Pensar nisto era palerma mas esperava conseguir rir-me com eles quando se falasse neste assunto porque já sabia que alguém o iria fazer.
— Estás a pensar demasiado — disse Simão quando lhe perguntei se eles iriam gozar comigo. — Eles já sabem que estamos juntos, por isso não vai ser surpresa para ninguém.
— Estamos juntos? — Sorri. Cheguei-me mais para ele no carro e pousei uma mão na sua perna.
— Bem, estamos juntos todos os dias desde a passagem de ano. — Olhou para mim de lado e levantou uma sobrancelha. — Se isto não é estar junto, então não sei o que é.
— Podemos estar só numa crise de nostalgia.
— Sim, pode ser — respondeu com uma gargalhada. — Eu, então, estou com uma vontade enorme em me lembrar de quando tinha a cara cheia de borbulhas.
— Não é isso, estamos nostálgicos e sentimo-nos como se fôssemos outra vez jovens, livres e indecentes.
— Só se fores tu. — Começou a fazer a manobra para estacionar o carro. — Mas não me lembro de seres indecente, eras tão certinha. — Sorriu e olhou para mim quando estacionou. — Mas eu estou apaixonado por ti. E isto não é nostalgia.
E foi assim, de forma simples e clara, que olhou para mim e o disse. Não foi precisa uma centena de bilhetes no cacifo, apenas uma frase. Agarrei-me ao seu pescoço e beijei-o com força.
Quando entrei no café, senti-me como se me tivessem atirado de rompante para 1999 porque estavam todos exatamente iguais ao que guardara na minha memória. Nando, de cabelo meio loiro por baixo das orelhas, calças rasgadas nos joelhos e ténis rotos, continuava baixinho e parecia uma criança no meio dos outros. Pedro e Paulo, os irmãos, estavam sentados um ao lado do outro com os capacetes das motas debaixo das cadeiras. Quanto ao meu antigo colega de turma, Nico, quase senti emoção ao vê-lo, como se agora fosse o meu único aliado neste delírio e tivesse de me sentar ao seu lado para garantir proteção. Estava maior e mais corpulento, deu uma gargalhada quando entrámos e abraçou-me. Estavam também outros dois, Ricardo e Ivo, lembrava-me deles da escola, embora pouco ou nada tivéssemos falado. Como se me lesse os pensamentos ou percebesse o meu nervosismo, Simão deu-me a mão.
— Bebes uma? — perguntou-me Pedro, levantando o seu copo de cerveja e pedindo ao empregado mais uma rodada. Eu odiava cerveja, mas queria muito integrar-me.
— Sim, pode ser obrigada.
— Vejam-me estes dois. — Riu-se Paulo. — Quem diria…
— Eu sabia — interrompeu Nico. — Eu sabia que isto ia acontecer mais cedo ou mais tarde.
— Sabias lá tu — respondeu Simão. — Estavas sempre a chateá-la. — Apertou-me a mão, um sinal silencioso para que descontraísse. O facto de perceber como me sentia aqueceu-me a alma. — Não era?
— Sim. — Ri-me, passando a mão pelo cabelo para ter qualquer coisa que fazer com ela. — Na verdade, tratavas-me um bocado mal, Nico.
— Eu? — respondeu de forma dramática, levantou-se e foi buscar o tabuleiro de cervejas que o empregado colocara no balcão. — Até parece que não gostavas. Andavas sempre atrás de mim a querer saber informações privilegiadas. Até acho que fui o Cupido. — Voltou a sentar-se e colocou o tabuleiro no meio da mesa. — Se isto der em casamento, eu deveria ser o padrinho.
— Que exagero — respondi. Tirei a última cerveja do tabuleiro quase a ferros.
— Que andas a fazer, miúda? — perguntou-me Paulo.
— Estou na faculdade. E vocês?
— A sério? Achas-nos com cara de quem anda na faculdade? — perguntou Nando com um revirar de olhos, esvaziando o copo de cerveja e batendo com ele na mesa.
— O Paulo trabalha numa cena das estradas de Portugal — disse-me Simão, quase como se estivéssemos todos numa entrevista de emprego. — O Nico é cozinheiro num hotel em Cascais, acreditas? O Ricardo e o Ivo são da banda da passagem de ano, o Pedro também está envolvido em música com eles e o Nando não faz nada porque os pais pagam-lhe tudo.
— Que piada. — Nando levantou-se e esmurrou o ombro de Simão. — Estou à espera que o verão chegue para trabalhar.
— Sim, ele é nadador-salvador e só trabalha no verão. No inverno, hiberna como os ursos — disse Pedro. Todos se riram, eu bebi um pequeno gole para ter algo com que me ocupar. Subitamente, não conseguia apagar a memória de que era Nando que ia a conduzir o carro naquela noite, anos antes, e pareceu-me insuportável que todos o continuassem a aturar. Sem o conhecer, já o achava intragável.
— Hoje vamos jantar a casa do Zeca — comentou Nico. — Venham também.
E nesse momento relaxei, o pior já passara. Ninguém fez comentários, ninguém gozou, ninguém fez questão de relembrar os tempos áureos em que colocava cartas de amor no cacifo de Simão como uma pacóvia. Mas esta era também a primeira vez que via Simão no seu habitat natural, com os seus amigos e à vontade. Falavam de futebol, de festas, de raparigas, de música, de motas e outras pessoas. Alguns nomes ia associando a caras, outros não. Eram rapazes a ser rapazes, independentemente de eu estar ali ou não. Ainda assim, sentia faíscas pelo corpo, era como se tivesse finalmente entrado neste universo do qual sempre quisera fazer parte. Quando olhava para ele, voltava a ver a expressão daquele rapaz de que me lembrava e o meu coração voltava a bater mais rápido. Se o tivesse conhecido hoje, neste exato momento, ter-me-ia apaixonado por ele? Não sabia dizer. As relações têm tudo a ver com energias, atração e coisas intangíveis, coisas para lá do nosso controlo. Ainda o sentia a dar-me a mão, tinha o polegar a acariciar-me a palma da mão e, quando olhava para mim, sorria. Conseguia perceber que estava feliz, talvez eu fosse a rapariga que ele sempre esperara conhecer.
À noite, fomos jantar a casa de Zeca, em Carcavelos. Claro que me lembrava dele, moreno, magricela, a espetar chapéus na areia todas as manhãs. Quando chegámos, estavam todos sentados no sofá ao redor de uma mesa cheia de lixo, papéis, maços de cigarros e outras bugigangas. Zeca estava na cozinha mas saíra para nos cumprimentar. Depois de nos mostrar a casa, entrámos na cozinha com ele e apresentou-nos ao seu macaco.
— Como assim, tens um macaco na janela? — perguntei, aproximando-me do bicho.
— Foi a minha irmã que o trouxe e adotei-o — respondeu enquanto tirava duas latas de cerveja do frigorífico. — É o Boris.
— Mas isso é legal? — perguntou Simão, colocando a outra lata em cima do balcão ao invés de ma dar. Deitou-me um olhar e senti-me, de certa forma, acarinhada por ele ter percebido que não gostava de cerveja sem que lho tivesse dito.
— Provavelmente não, mas já aqui está há mais de um ano comigo. — Encostou-se ao balcão e riu-se. — Podes falar com ele e tocar-lhe — disse-me. — Ele é bastante sociável até.
— Não me vai morder ou atacar e arrancar-me os brincos? — perguntei, esticando uma mão.
— Se gostar de ti, vai saltar para o teu ombro.
E foi isso que o raio do macaco fez. Encostei-me à bancada da cozinha com o macaco nos ombros, tentei fazer uma pose descontraída para não mostrar o quão incomodada estava com o primata em cima de mim, mas abri os braços numa espécie de tentativa de equilíbrio. Zeca soltou uma gargalhada e o gelo ficou quebrado.
— Então, puto — disse, dando uma palmada no ombro de Simão, acendeu um cigarro e passou-lhe o maço —, voltaste lá dos teus Algarves de vez?
— Agora voltei e vou ficar por cá.
— Mesmo assim, ainda estiveste lá imenso tempo. Já não te via desde quando? — Começou a pensar em voz alta. — Para aí desde aquela festa no ano passado?
— Qual? — perguntou Simão, acendeu um cigarro e expirou o ar para o outro lado, para longe de mim e do macaco. Percebi que este ia ser um daqueles momentos em que ele fumava.
— Não foi desde aquela festa em que o Nico foi dentro?
Simão deu uma gargalhada sonora.
— Já nem me lembrava disso — respondeu. — Sim, acho que foi a última vez que nos vimos. Vim a Lisboa mais vezes mas, sabes como é, durante o curso tentava ficar um pouco ausente disto.
— Simão — levantou as mãos em gesto de paz —, compreendo-te e respeito-te. E, se queres que te diga, concordo contigo. Quando o pessoal se junta, habitualmente a coisa descamba. Também ando cansado e já não estou tantas vezes com eles como antigamente. Estou a tentar acalmar-me um pouco…
— E tu, que tens feito? — perguntou Simão. Abriu a torneira do lava-loiça e apagou o cigarro. Atirou-o pela janela aberta.
— Estamos a fazer obras no bar e a prepará-lo para o verão, mas já sabes que a praia é a minha vida — respondeu.
— É a tua e a minha. — Brindou Simão, levantando a lata. — Este ano vejo se o teu pai precisa de mim para dar aulas.
— Claro que precisa — disse Zeca, acabando de beber o resto do cerveja. — As obras estão mesmo no fim, vamos abrir a escola novamente e já tinha pensado em ligar-te. Já não tens de voltar para baixo?
— Ainda vou ter de fazer um exame no mar e, se passar, all aboard. — Riu-se. — Mas quero começar a trabalhar novamente aqui.
Zeca deu uma gargalhada e olhou para mim
— Vai levar-te a dar a volta ao mundo de barco.
Eu sorri. Certamente que não.
— Aí está um bom plano — disse Simão e puxou-me pela mão para o pé dele.
— Vou terminar aqui os hambúrgueres — disse Zeca, tirando-me o macaco do ombro. — Vão para a sala e estejam à vontade.
Quando saí da cozinha e entrei na sala, conseguia aperceber-me do fumo que lá estava e que, à chegada, talvez me tivesse passado despercebido. Sentados no sofá, todos falavam, riam e fumavam. Observei a panóplia de coisas em cima da mesa. Nando estava a enrolar um charro, havia erva espalhada pela mesa, mortalhas, maços de cigarros meio rasgados, um cachimbo redondo de vidro e isqueiros. Sentámo-nos na ponta do sofá e Simão deu-me a mão. Enquanto Nando começava a passar o charro, Pedro já estava a fazer outro para fumarem quando esse terminasse. Passando por todos, Paulo passou o charro a Simão, que disse que não e continuou a conversar como se nada fosse. Senti uma onda de emoção por ele, por ter dito que não quando provavelmente também lhe apetecia. Olhei-o com uma certa paixão, talvez até demasiado óbvia, como se o visse de um ângulo diferente que ainda não vira. Não era que o estivesse a mudar, pensar isso teria sido demasiado egoísta, mas senti que me respeitava. Ninguém deu muita importância e continuaram como se eu nem estivesse ali.
— O Nico foi preso? — sussurrei ao ouvido dele.
— No dia daquela festa, fomos parados pela polícia e ele tinha muita coisa com ele — respondeu quase num murmúrio ao meu ouvido
— E ficou preso? — perguntei novamente.
— Ficou uns tempos, mas, como era a primeira vez, acabou por sair. Mas também não sei pormenores porque depois voltei para Faro.
— E, mesmo assim, continua a tirar mais coisas da mala? Parece uma farmácia ambulante.
— Uns charros e um cheirinho não fazem mal a ninguém — respondeu, beliscando-me a perna. — Mas não fales sobre isso porque ele não gosta.
Mas os charros continuavam a ser feitos como numa maratona, como se, sem isso, não soubessem o que fazer com as mãos ou o que conversar. Nico foi buscar um pacote de milho frito e deitou-o numa taça, juntamente com amendoins com sal. Passado um bocado, um deles foi a um armário e ligou a aparelhagem. Depois de discutirem o que iríamos ouvir, lá se decidiram por um CD de alguém que não conhecia e que, ao fim de cinco segundos, já me estava a fazer doer a cabeça. Fumo, charros, música eletrónica, comecei a sentir-me deslocada, ansiosa e com vontade de sair dali. Queria abrir uma janela mas não queria parecer mal-educada. Comecei a mexer-me no sofá, a tossicar de vez em quando e a arranjar qualquer coisa com que ocupar a minha mente para me tentar abstrair do fumo, que era cada vez mais denso.
— Estás bem? — perguntou-me Simão, percebendo o meu desconforto.
— Está muito fumo aqui, desculpa, mas está mesmo muito fumo — respondi. Tossi e enfiei o nariz no pescoço dele para tentar cheirar outra coisa.
— Pessoal, abram uma janela porque está uma sauna aqui dentro — gritou Simão, pondo-me um braço ao redor da cintura e puxando-me contra ele.
Nico levantou-se e abriu a janela maior da sala, olharam todos para mim, mas ninguém disse nada. Por mais que tentasse integrar-me, sentia-me mais deslocada do que nunca, uma jarra no meio da sala incomodada com a porcaria do fumo. A música gritava das colunas e Nico estava encostado no sofá a abanar a cabeça ao som das batidas, de olhos fechados à espera que o charro chegasse a ele. Simão disse-me que ia ver se Zeca precisava de ajuda e levantou-se do sofá. Sufoquei a vontade de me levantar atrás dele, mas não queria parecer uma namorada enfadonha que não sabe estar um minuto sozinha. Assim, encostei-me no sofá e fiquei a ouvir o que eles diziam até que fui salva pelo gongo quando alguém tocou à campainha.
Nando levantou-se, baixou a música e foi abrir a porta.
— Olha quem são elas — ouvi-o dizer. — Vieram para jantar?
— Já que não nos convidaram, fizemos questão de aparecer. — Aquela voz era-me familiar, mas não sabia precisar onde é que já a ouvira.
Tentei espreitar mas não conseguia ver a porta.
— Quem é? — gritou Zeca da porta da cozinha.
— É a tua namorada — respondeu Nando.
Foi então que a vi, a Marisa das Argolas continuava viva e recomendava-se, acompanhada de uma das suas antigas amigas fotocópia dos tempos de escola. Continuavam a vestir-se de igual, de casacos felpudos por cima do umbigo, calças de ganga justas, o botão desabotoado e o cós das calças enrolado para fora. Olhou para mim por cima do ombro e continuou a andar. Simão e Zeca entraram na sala e ela deu um beijo a Zeca e abraçou Simão num grande teatro.
— Finalmente que te ponho a vista em cima — disse, olhando para ele de cima abaixo. — O sul anda a fazer-te bem.
— Olá para ti também. — Simão procurou-me com o olhar, mas eu virei a cara para não revirar os olhos. — Mas vocês estão juntos agora? O que é que eu perdi neste ano?
— Pois é, nós andámos todos para a frente, não para trás. — Marisa deu uma gargalhada. Claro que entendera a sua insinuação, provavelmente fora a única.
— É, parece que sim — respondeu Zeca, sorrindo, enquanto ela se enrolava ao seu pescoço como uma cascavel a sibilar de veneno.
— Ela não te está a incomodar, pois não? — Simão voltou a sentar-se ao meu lado colocando-me a mão dentro das suas. — Juro que não sabia que ela vinha.
— Tens noção de como é que ela me tratava na escola? — perguntei. — Ela gozava comigo em frente a toda a gente.
— Não estás a exagerar só porque nos viste juntos? — perguntou com um sorriso. — Quero dizer, acho piada que tenhas ciúmes.
— Claramente, tu não tens as mesmas memórias que eu — respondi placidamente.
Elas as duas sentaram-se do outro lado do sofá, a cochichar ao ouvido uma da outra e a rir. Conseguia perceber que estavam a falar de mim. Era incrível como tudo isto passava despercebido a Simão mesmo que estivesse a acontecer à sua frente.
— Mar, lembras-te da Isabel lá da escola? — perguntou Nico, tentando meter conversa entre nós as duas porque claramente também não tinha as mesmas memórias que eu.
— Claro que me lembro — ronronou de forma simpática. — Só que agora já não tem o abre-latas na boca. Ficaste mais gira, miúda.
Todos se riram como se estivéssemos a ter uma conversa bastante animada e olharam para mim à espera de uma retaliação.
— Pois — respondi. Queria dizer mais qualquer coisa mas não me lembrava de nada. Tinha a garganta seca, a língua a colar e sentia uma raiva a crescer dentro de mim.
— Afinal, todas aquelas declarações de amor deram frutos — disse entre risos. — Ela escrevia cartas de amor e colocava dentro do cacifo do Simão. Era demasiado cómico, lembras-te? — acrescentou para a sua amiga como se fosse uma conversa totalmente banal sobre alguém que não estivesse ali. Ela acenou, olhou para mim e fez um sorriso.
Conseguira ultrapassar toda a fase de apresentações sem que ninguém tocasse nesse assunto ou me gozasse por isso. Tinha de ser ela. Levantou-se, despiu o casaco, acendeu um cigarro e foi fechar a janela. Olhei para Simão, quase a implorar para que fizesse qualquer coisa. Que saltasse do sofá e a empurrasse do parapeito abaixo, por exemplo.
— Deixa a janela aberta para arejar — disse Zeca.
— Está um gelo lá fora — respondeu ela, virando-se de mãos na cintura. — Não estás à espera que fique aqui a congelar, pois não?
— Senta-te em frente ao aquecedor, mas deixa a janela aberta porque nem toda a gente fuma — respondeu e fez-me um sorriso solidário. Naquele momento, adorei-o por isso.
— Como? — Ela hesitou e olhou para mim. — Não estás a querer dizer que temos todos de passar frio porque ela está incomodada com o fumo? — Inclinou-se sobre a janela e fechou as portas de vidro. — O bafo-metálico tem de aprender a estar no grupo se quer fazer parte dele.
Simão reagiu antes sequer de eu ter tido tempo de me levantar.
— Estás a comportar-te como uma atrasada mental — disse, levantando-se do sofá em direção à janela. — E peço-te o favor de parares de usar alcunhas estúpidas. Não queiras saber a que nós temos para ti.
— Tu estás fora um ano, voltas com a tua namoradinha e todos temos de nos sacrificar para que ela se sinta bem? — gritou, sentando-se no sofá de braços cruzados. — Gostava mais dela quando andava atrás de ti feita anormal, porque, pelo menos, não nos incomodava.
Não ouvi o resto da conversa porque me levantei do sofá, agarrei na mala e saí porta fora sem me despedir nem olhar para ninguém. Foi um bocado dramático, mas era é isso ou desatar aos pontapés a tudo. Sejamos honestos, isso nunca iria acontecer, era fugir ou chorar e a primeira opção parecera-me a mais acertada. Quando parei, estava no fim da rua e tinha os pulmões a saltar-me pela boca. Descera oito andares de escadas a correr. Encostei-me à parede de um prédio no fim da rua e sentei-me no chão frio, com a testa nos joelhos. Ele sentou-se ao meu lado e abraçou-me.
— Desculpa — disse, apertando-me dentro dele como se fosse minúscula. — Ela é tão estúpida! — Deu um grito frustrado. — Nem sei que dizer, não estava à espera disto.
— A culpa não é tua. — Deixei sair um soluço e foi o gatilho para começar a chorar. — Mas não sei como é que nunca percebeste que ela sempre me disse merdas destas. Todo o santo dia…
Não era tristeza, antes a fúria que tinha dentro de mim. Por ter sido mais uma vez humilhada por ela. O que lhe fizera para me tratar assim? Porque é que não podia ser uma miúda simpática? Porque é que tinha de ser tão cabra? Como é que alguém tão bonito por fora podia ser tão feio por dentro? Simão virou-me para ficar de frente para ele e abraçou-me com força. Ficámos no chão, comigo dentro dos seus braços a soluçar, enquanto ele ia murmurando coisas que não conseguia perceber, e encostava o seu rosto à minha cabeça. Podíamos ter ficado ali horas, mas começara chover. Ele levantou-se, puxou-me pelo braço e começámos a correr em direção ao carro.
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