Raparigas como Nós
Capítulo 7
7
Dezembro chegara, finalmente. Estava de férias e voltara para casa da minha mãe. Estava a fazer algumas arrumações, a tirar livros e cadernos, a abrir caixas e a ver as coisas que tinha lá dentro quando encontrei o meu diário do nono ano, o diário de Simão. Folheei as suas páginas, vi as fotografias que lhe tirara naquela visita de estudo enquanto ele tapava a cabeça com o capuz da camisola, vi os desenhos que fazia, os poemas que escrevia. Teria sido bom andar atrás no tempo e dizer àquela rapariguinha de aparelho nos dentes para continuar a fazê-lo, para escrever a Simão porque as coisas iriam acabar bem para eles. Como é que ele estaria? Não me respondera às últimas mensagens. Zeca dissera-me que ele deixara de dar aulas na praia e que o tinha visto poucas vezes no último mês. No ano anterior, por esta altura, estávamos a encontrar-nos e senti uma súbita vontade de falar com ele.
Saí de casa para ir até à praia ter com Zeca e Alice. O inverno estava aí à porta e a praia estava vazia, tirando os os corajosos amantes do mar que, com as golas dos casacos levantadas e as mãos a tiritar dentro dos bolsos, não dispensavam os seus passeios na areia. Tentei ligar para Simão para saber se estava tudo bem, perguntar-lhe o que andava a fazer e dizer-lhe que estava na praia. Talvez ele quisesse lá passar para beber um café. Não o fazia por simpatia, por pena ou por nada de especial. Fazia-o porque gostava dele e porque sabia que ele queria que eu o fizesse, que lhe dissesse um olá de vez em quando. Imaginei-o a chegar na sua mota e a colocar o capacete em cima do banco. Quase conseguia ouvir a sua voz e a gargalhada habitual. O telefone dele estava desligado, talvez tivesse ficado sem bateria, onde quer que estivesse. Deixei uma mensagem de voz a perguntar se ia continuar desaparecido, porque estava na nossa praia e ele não estava lá.
Continuei a andar pelo paredão e já via Alice lá ao fundo sentada numa cadeira da esplanada vazia. Atrás, Zeca estava a falar ao telemóvel com uma mão na testa. O cenário pareceu-me estranho. Vi-o a falar e depois baixou-se como se se quisesse fechar nele próprio e envolveu a cabeça nos seus braços. Acelerei o passo. Quando me aproximei, Alice, que estava de cócoras com ele no chão, levantou-se de um salto e correu até mim. Apertou-me os ombros e fez-me sentar na cadeira onde, antes, estivera sentada.
— Tenho de te contar uma coisa — disse, com a voz trémula. — Tens de me prometer que vais manter a calma.
— O que aconteceu? — Empurrei-a para que me largasse. Ela continuou a fazer força e não me largou os braços. — Estás a preocupar-me! — gritei.
Vi-a trocar um olhar com Zeca e ele aproximou-se, ajoelhou-se no chão à minha frente e colocou as mãos nos meus joelhos.
— Vocês estão a assustar-me! — Tentei levantar-me da cadeira, mas Alice voltou a puxar-me para baixo.
— Isabel — disse Zeca —, aconteceu uma coisa. Foda-se! — gritou. Baixou a cabeça e pousou-a nos meus joelhos. Voltou a olhar para mim. — Não consigo fazer isto. — Levantou-se e começou a andar às voltas com as mãos na cabeça.
— O Simão… — disse Alice, com uma lágrima a cair-lhe pela cara abaixo. — Ele morreu. Ele morreu — repetiu com um soluço a cortar-lhe a voz — de overdose.
Alice deixou de me fazer força nos braços porque eu deixei de fazer força para me levantar. Fiquei quieta durante muito tempo a olhar para o mar à minha frente porque, enquanto não me mexesse, Simão ainda estaria algures por aí. Estaria a chegar na sua mota, viria aqui beber um café. Iria dizer-me que fizera o exame de três dias no mar, correra lindamente e ele passara. Já teria o certificado, iria trabalhar numa embarcação. Iria para as Caraíbas ou para a Jamaica ou para o meio do oceano. Iria passar vinte e um dias debaixo do céu estrelado e iria cantar com os outros marinheiros ou capitães ou como raio se chamavam as pessoas que trabalhavam nas embarcações. E depois iria voltar, iria dizer-me que, finalmente, iria abrir o seu hostel e o seu campo de férias. Iria também dar aulas de vez em quando, porque o bichinho nunca desaparecera, e iria ajudar outros miúdos da mesma forma que o pai de Zeca o ajudara. Iria fazê-los apaixonar-se pelo mar como ele se apaixonara. Podia ir-me embora neste momento e esquecer o que Alice dissera. Se o fizesse, Simão continuaria de alguma forma no mundo. Levantei-me da cadeira e desci as escadas até à areia. Ouvi Alice e Zeca levantarem-se atrás de mim. Comecei a andar ao acaso até chegar onde queria e ajoelhei-me à beira-mar. A areia estava gelada, húmida e molhou-me as calças, a areia que ele pisara tantas vezes. A areia onde o vira a correr de prancha debaixo do braço quando tinha catorze anos. A areia onde me deitara para que ele me visse e me olhasse, imaginando que um dia também me iria querer. A areia onde o vira a beijar Marisa e sentira o meu coração partir-se em milhões de bocados. A mesma areia onde nos sentáramos tantas vezes alguns meses antes, onde caminhávamos quando terminava o turno no bar ao fim de semana, onde o vira a correr com os miúdos durante as aulas. Coloquei as mãos na areia, agarrei nela, torci-a nos meus dedos e atirei-a para a frente em fúria. Repeti o mesmo gesto uma e outra vez, precisava de tirar aquela areia toda dali. Precisava de a atirar para o mar e de atirar com ela a minha dor. Repeti-o até os meus dedos estarem roxos do frio e já não conseguir mexer-me. E então gritei. Gritei de dor, de frustração, de tristeza, de arrependimento, de saudade, de amor, de tudo. Descalcei-me, atirei com as minhas botas para trás juntamente com a minha mala e dobrei as calças de ganga até aos joelhos. Vi Alice a andar na minha direção, mas Zeca agarrou-lhe no braço. Vi-os olhar para mim, vi as lágrimas que lhes desciam pela cara e virei-me para a água para não ver mais. Então entrei no mar, avancei até onde consegui, até a água me ficar pelos joelhos. Senti-a gelada a queimar-me a pele, senti os meu dedos dos pés paralisados pela temperatura baixa. Já não conseguia controlar os dentes que batiam uns nos outros. Comecei a andar para trás em direção a eles que estavam com as minhas coisas nas mãos.
— Ele foi-se — balbuciei, quando Zeca me embrulhou o seu casaco de penas cinzento à volta dos ombros. — Não está em parte alguma porque está no meio do mar. É o capitão do seu navio.
Algures durante todo aquele tempo, Alice deve ter ligado a Afonso porque ele estava imóvel no paredão e correu até nós quando nos viu a subir pela areia. Imaginei-o a sair de casa a voar para ter chegado aqui tão rápido. Deixei que me agarrasse, que me dissesse palavras de conforto, que me pegasse na cara e a encostasse ao seu peito. Deixei-me ficar parada nos seus braços enquanto o meu corpo tremia involuntariamente por ter as pernas encharcadas e congeladas. Ele levou-me para casa da minha mãe. Ouvi-o falar com ela enquanto despia as roupas molhadas na casa de banho. Deixei que a minha mãe entrasse, deixei que enchesse a banheira de água a ferver, deixei que me colocasse dentro da água, que o vapor me envolvesse e que me lavasse o cabelo, a cara e os olhos. Deixei que me dissesse coisas tão triviais como «Não podias ter feito nada» ou «Foste uma coisa boa na vida dele». Mas fiquei o tempo todo a tentar relembrar a minha última conversa com ele. Tentei descodificar o nosso diálogo como se fosse uma charada, como se tivesse havido algum sinal que me tivesse escapado. Saí da banheira e deixei que ela me secasse com uma toalha e me embrulhasse num roupão. Deixei que me levasse para o quarto, que me secasse o cabelo e que me vestisse um camisolão de lã, umas calças de pijama e dois pares de meias grossas. Quando saí do quarto, Afonso estava sentado no sofá. A minha mãe disse-lhe que ia fazer qualquer coisa para todos comermos. Acenei com a cabeça e deixei-me cair nos braços dele.
— Estás bem? — perguntou, enrolando o meu cabelo ainda meio húmido com uma mão.
— Acho que sim. — Fechei os olhos e escondi o rosto no seu pescoço.
— A tua mãe tem razão quando diz que não havia nada que pudesses ter feito. Foi ele que escolheu consumir drogas.
— Eu sei, eu sei, eu sei, mas ainda parece que não é real, entendes? Ainda há um bocado, quando estava na praia, lhe liguei. O telemóvel estava desligado, deixei uma mensagem de voz meio estúpida. Isso foi ainda agora. Há uma hora. Isto não me parece real.
Ele não disse nada, mas continuou a tocar-me no cabelo e a massajar-me os ombros e o pescoço.
— É como se tivesse havido um engano — continuei. — Se calhar não era ele, era outra pessoa. Talvez tenha o telefone desligado porque está no mar em qualquer lado. Pode estar em qualquer parte. O Oceano é infinito e ele já fez isto no passado.
— Foi o irmão que o encontrou em casa inconsciente — disse com cuidado. Estava a tentar desesperadamente encontrar qualquer falha que fosse nesta informação. — O irmão ligou para o 112. Tentaram reanimá-lo, mas já não havia nada a fazer. Ele consumia muitas drogas e tu própria assististe a isso, foi um cocktail fatal. É como se ele fosse um copo de água que vai enchendo, enchendo. E um dia basta uma gota e ele transborda. Esta gota foi hoje. O Zeca está lá em casa com a família dele. Liguei-lhe há pouco e ele contou-me isto. A Alice está a vir para cá agora, juntamente com a Marina e a Luísa. Eu vou ficar aqui também, mas conversa com elas. Vai fazer-te bem.
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