Raparigas como Nós
Parte I
Verão
2004
Eu não sei se vou ficar bem assim,
Eu só sei o que vai ser melhor para mim
EXPENSIVE SOUL
OceanofPDF.com
1
Naquele verão, o Estoril tornara-se ponto de passagem obrigatório da noite lisboeta, a alternativa ao centro sufocante com noites mais frescas à beira-mar. Como uma pequena Riviera portuguesa, passava por mim de forma grandiosa com as suas casas senhoriais e pequenos palacetes abandonados e em ruínas, um passado feito de riqueza e ostentação, cujo encanto estava, para mim, já muito longe. Noutros tempos, lembrava-me de ouvir Alice papaguear, tinha sido um dos locais de eleição da aristocracia, convertida em refúgio dos exilados com dinheiro, após a guerra. Hoje estava mais para uma pequena aldeia de sonho de verão, com a linha de comboio que percorria as várias praias, o paredão que nos separava do mar, os jardins do casino que se estendiam pela colina acima, rodeado de hotéis, parques, bares, piscinas, restaurantes, esplanadas e barulho, muito barulho, música, miúdos, a nova geração a assumir o cenário nobre e a reclamá-lo como seu.
Ia no banco de trás do táxi com Alice, a música em pano de fundo e os vidros abertos para deixar entrar o ar que nos enchia o nariz com o cheiro a mar, a férias, a expectativas e prenúncios de tudo o que o verão promete. Estávamos a ouvir uma banda nova na rádio, «é aquela música de que te falei», gritou Alice, o condutor aumentou o volume e começámos a cantar a plenos pulmões, interrompendo o refrão em gargalhadas parvas. Eu não sei se vou ficar bem assim, eu só sei o que vai ser melhor para mim. A marginal passava por nós a correr, do lado esquerdo a extensão de mar quase invisível pelo céu escuro, apenas a luz da marina ao longe mostrava sinais de vida. Do lado direito, apartamentos e mais apartamentos, moradias, hotéis, bombas de gasolina estivais, antigos palacetes decrépitos e restaurantes seguiam-se uns a seguir aos outros à medida que os quilómetros iam passando. Saímos do táxi ao pé do casino. Reconhecíamo-nos uns aos outros nos rostos que passavam por nós, jovens rapazes e raparigas sentados nos passeios e nas cadeiras das esplanadas, muito álcool a circular em braços no ar, os bancos do jardim apinhados, copos atirados para as valetas da estrada, um grupo tocava djembê, a polícia não incomodava ninguém, razão principal para que meio mundo trocasse as discotecas de Lisboa pelo simpático vizinho Estoril. Meia hora de comboio e aterrava-se diretamente no largo dos cafés que, mal caía o sol, se enchia de gente. Bebia-se cerveja, sangria ou vodca, falava-se alto, sem maneiras, mas os donos dos cafés agradeciam as noites barulhentas e bem regadas. No meu caso, era um misto de amor e ódio. Amava o verão, odiava sentir-me sempre uma jarra na decoração. Olhava para as raparigas, um desfile de sandálias de salto alto, vestidos floridos e olhos pintados de preto. Os rapazes de T-shirts justas, pele morena e cabelos descolorados pelo sol. «Estás ótima», disse Alice, antevendo os meus pensamentos. Observei as minhas calças de ganga rasgadas e o meu top curto amarelo. Era tão fácil cair nestas comparações quando toda a gente parecia saída de um catálogo e aquilo que mais me perguntavam resumia-se sempre ao mesmo, «és bifa?» Podia ser, com o meu cabelo castanho claro por baixo dos ombros e a pele pálida como se não tivesse morado ao lado da praia desde que nasci. Que genes teriam os meus pais misturado para eu sair tão desenquadrada da pintura? E já me habituara com afeto ao facto de que nunca seria uma rapariga de vestido curto para quem os rapazes viravam a cabeça, a verdade é que nem sequer sabia se o queria ser. O meu coração pensava que sim, a cabeça abanava em discordância, ser absolutamente normal também era bom. Talvez fosse o tipo de rapariga que os rapazes só apreciavam depois de uma mão cheia de conversas e não de copos, pelo que nunca esperava nada destes sábados à noite. Só queria dançar, nem perdíamos tempo pelos cafés, preliminares para noites de bebedeira e nós queríamos entrar logo na discoteca.
Esperámos até ver um grupo grande entrar e descemos por baixo da estação do comboio atrás deles para atravessar o túnel para o lado do mar. Esta era sempre a pior experiência da noite. Alice continuava a ser a mesma rapariga inocente que me apertava a mão como se isso resolvesse alguma coisa em caso de perigo. E eu, que estava provavelmente tão apavorada quanto ela, tinha sempre de me fingir mais forte do que era, alguma de nós teria de o ser. Há anos que circulavam histórias pavorosas sobre o túnel, lúgubre, sujo, mal iluminado e sem qualquer segurança, tão terríveis quanto as do Tunnel, a discoteca, cujo nome nem sequer era paradoxal. Mas, pelos vistos, não as suficientes para se arranjar outra entrada que não nos obrigasse a passar por ali e era isso, ficar em casa ou mudar de discoteca o que, afinal, nem se colocava em questão porque o verão fazia-se aqui. O truque era passar e seguir sempre em frente, não olhar, não corresponder, não fazer sequer qualquer expressão facial. Toda a gente conhecia alguém que ouvira alguém contar a história de uma rapariga violada no túnel, o que, verdade seja dita, me parecia mais pavoroso do que a história da casa assombrada em frente ao mar. Comparado com isto, quem é que tinha medo do fantasma de uma bailarina caída da falésia? Uns rapazes assobiaram para três raparigas que caminhavam à nossa frente e víamos vários grupos encostados à parede, miúdas sentadas no chão em cima dos casacos, sandálias abandonadas, mãos ocupadas a fazer charros. A festa começava aqui em baixo com garrafas de plástico cheias de misturas coloridas que víamos passar de mão em mão. E isto era o lado bom. Porque fora do túnel principal havia um túnel secundário, mais escuro e pequeno, numa lateral que ia dar à linha do comboio para Lisboa e que a esta hora estava encerrado, o que não fazia grande diferença porque a grade estava sempre partida. E era aí que se vendia e consumia droga pesada, mas nunca me atrevera sequer a olhar para lá, pelo que deixava tudo à mercê da minha jovem imaginação e ao poder que as histórias de violação e drogas tinham na minha mente impressionável. Atravessámos as duas de mão dada a conversar, fingindo uma segurança que não tínhamos, mas era assim que tinha de ser. Por baixo da Riviera elegante, a realidade não tinha assim tanta elegância. Quando chegámos ao outro lado, respirámos de alívio e demos uma gargalhada nervosa. Aqui, de frente para o mar e alojado no primeiro andar de uma esplanada decrépita em madeira, encontrava-se o Tunnel, a discoteca que este ano juntava filas intermináveis de miúdos que se acotovelavam horas à porta, ansiosos por entrar. Lá dentro, a música gritava por uma dezena de colunas estrategicamente viradas para o exterior, que se ouviam por toda a praia, fazendo de banda sonora aos grupos que optavam por se divertir pelo areal face à impossibilidade de cair nas boas graças dos porteiros. Era praticamente impossível ir-se ao Estoril naquele início de verão e não se querer parar ali, ponto de encontro das gentes de Lisboa. Depois de acotoveladas na fila durante uns tediosos três quartos de hora, lá entrámos sem pagar porque o porteiro era amigo do irmão de Alice. Subimos a escadaria até ao terraço, a tentar fugir da enchente de miúdos que se atropelavam pelo espaço. Bebiam, dançavam, cantavam, brindavam e andavam de um lado para o outro de copos no ar, toda uma geração endinheirada cujas centenas de notas desperdiçadas em álcool e entradas para uma discoteca não significavam nada. Não havia espaço por onde se passar, era humanamente impossível encaixotar lá dentro toda a gente da fila. As músicas sucediam-se sem grande lógica, ora um funk brasileiro, ora uma batida americana, e, à medida que andávamos, éramos atropeladas por pessoas que nos pisavam os pés e entornavam bebida em cima. Cheirar a cerveja ou a vodca com whisky fazia parte da experiência social.
— Alice! Alice! Estamos cá em cima, sobe — ouvimos alguém gritar algures por cima de nós. No terraço, vi o namorado de Alice, Ventura, com o seu grupo de amigos. Alice girou o vestido esvoaçante à minha frente e puxou-me atrás de si. A minha melhor amiga era doce e tímida, o contrário de mim, que falava muito e alto. Do nosso grupo também faziam parte Luísa e Marina, mas estavam de férias com as famílias numa vida perfeitamente delineada que iria terminar, no fim do verão, com a entrada na Faculdade de Medicina. Já eu e Alice, as verdadeiras ovelhas ronhosas, não sabíamos muito bem o que queríamos fazer, como se não ter a vida toda planeada aos dezassete anos fosse assim tão estranho. Talvez fosse porque tínhamos decidido não ir aos exames, coisa que os nossos pais consideraram uma decisão infantil tomada por duas cabeças no ar. Depois de muitos gritos, ameaças e intermináveis conversas entre a minha mãe e os pais de Alice, lá se chegara a um consenso. Iríamos repetir algumas disciplinas e fazer a preparação para os exames nacionais noutra escola. O problema não estava nas nossas notas, só não sabíamos o que queríamos fazer e, subitamente, ter de escolher uma faculdade que representasse todo o nosso futuro parecera-nos assustador. As minhas dúvidas juntaram-se às incertezas de Alice e, juntas, rebelámo-nos contra o sistema. «Escolhe jornalismo», dissera a minha mãe. «O país não precisa de mais jornalistas, são todos uns paus-mandados», dissera o meu pai. A minha mãe ripostara, zangada, «por amor de Deus, lá vens tu com essas conversas, deixa a rapariga escolher um curso que lhe dê um emprego estável». O meu pai desdenhara, como sempre. «Ela não é da informação, ela é como eu, é das artes», concluíra, «o teu caminho é a cultura e a literatura, filha». E depois ficaram surpresos quando não fui aos exames e pedi mais tempo para pensar. Não achava que jornalismo fosse para mim, não me imaginava sequer a falar em frente a câmaras ou a entrevistar pessoas na rua. Quando me imaginava a ter de correr atrás de transeuntes de microfone na mão, tinha vontade de me enfiar num buraco. Mas também sentia que a literatura e as línguas eram muito limitadas, com uma perspetiva de futuro a dar aulas, o que, claramente, nunca iria acontecer. E, no meio disto tudo, só queria que o tempo parasse durante um ano, continuava a sentir-me confusa, talvez um pouco criança. Bem, Alice não. Ela já saltara esta fase e andava a tentar arrastar-me com ela e com o seu namorado adulto cheio de tretas, que lhe enchia a cabeça de ideias.
Da primeira vez que saí com Ventura, ele disse que o meu sotaque era estranho. «Não, o meu sotaque é normal», respondi. Ele riu-se de forma condescendente, o que foi uma surpresa, ainda não estava familiarizada com a sua graça. «É o sotaque de Cascais», concluiu, elucidando-me que, em Lisboa, toda a gente gozava com o sotaque da linha. «É o sotaque dos betos», acrescentou entre gargalhadas. Olhei para Alice, que se limitou a concordar, e eu tive de me render às evidências, eventualmente não era ele que era idiota, eu é que era mesmo estranha. E Alice estava demasiado apaixonada, dava-lhe essa abébia. Por mais estranhas ou diferentes que fôssemos uma da outra, a nossa amizade era coisa séria e ela era aquele tipo de amiga de que todas as raparigas precisam para conseguirem sobreviver à adolescência. Ao contrário de mim, que era pálida o ano inteiro, Alice sempre chamara a atenção pela pele escura e o longo cabelo encaracolado e desalinhado que refletia a sua maneira de ser despreocupada. Crescer com ela fizera-me absorver a sua calma interior, encaixávamos uma na outra com harmonia, como se uma equilibrasse a outra. «És demasiado imprudente», dizia-me ela com frequência. Talvez fosse, porque as ideias mais estúpidas partiam de mim, como quando a incentivei a ir a uma loja duvidosa para furarmos o nariz e, mais tarde, Luísa tivera de ir ao hospital porque o seu nariz ficara do tamanho de uma batata. E no meio de todo o barulho e impulsividade que me eram características, Alice fora sempre o porto onde atracar com calma o meu barco com demasiada energia.
Curiosamente, agora era ela que me puxava, escadas acima, como se sempre tivesse feito parte deste universo de festas e copos no ar. Era engraçado ver Alice encaixar com tanta facilidade, logo ela, cujo pai mal deixava sair de casa quando éramos miúdas sedentas por um pouco de festa. Subimos mais um lanço de escadas e entrámos num terraço branco, cheio de sofás e uma pista no meio. Lá, o ambiente era diferente. Em vez de ouvirmos batidas elétricas e os pum pum pum das músicas de dança, ouviam-se êxitos dos anos oitenta e já ninguém se acotovelava ou dançava de braços no ar em ode ao DJ, como se fôssemos todos demasiado sofisticados para isso.
— Tudo bem? Só chegaram agora? — perguntou Ventura, envolvendo-a com os braços. Tinham-se conhecido há uns meses numa festa a que o irmão dela nos levara e, desde então, viviam uma relação que nunca mais acabava. Ou talvez fosse a minha inveja a falar. Ventura era o nosso primeiro namorado a sério, porque esta relação era quase a três e ele fora obrigado a aceitar-me como parte da equação. O problema, logicamente, era a falta de equilíbrio, o meu lado não lhe via grandes qualidades. Só sabia falar das suas viagens, dos seus amigos, das noitadas que faziam e da vida na universidade, como se isso representasse o santo Graal de se ser alguém nesta escala da vida social. Vestiam-se todos de igual, ouviam música reggae e andavam a correr as discotecas de Lisboa todas as semanas, quintas, sextas e sábados sem falhar, o que significava que Ventura gostava de dizer piadas sobre o facto de nós sermos ainda tão «verdinhas». E gostava de palrar sobre ele mesmo, sem parar, sempre. Nunca o vira fazer uma pergunta a Alice ou a interessar-se por qualquer outra coisa que não fosse o seu mundo e os seus amigos. E tinha dias que me apetecia abanar Alice, fazê-la acordar daquele transe. Via-a sempre hesitante ao pé dele, a tentar fazer tudo o que ele queria, a sair para onde ele ia e a comportar-se como uma versão mais entediante dela mesma. Juntas, ríamo-nos com tudo, dançávamos no quarto ao som de músicas foleiras da nossa adolescência, falávamos alto no cinema, atirávamos amendoins ao ar e tentávamos apanhar com a boca, espalhávamos batatas-fritas no tabuleiro e misturávamos tudo com ketchup até fazer uma papa repugnante, mas deliciosa. Passávamos tardes com Luísa e Marina a ver filmes parvos ou deitadas no jardim ao pé das nossas casas a ouvir música e gostávamos de gozar com Alice por ser uma fonte de factos históricos irrelevantes. E ela sabia rir-se dela própria com gosto, o que era, para mim, a sua melhor qualidade. Curiosamente, quanto mais convivia com ele e os seus amigos, mais me convencia de que, mesmo na universidade, os rapazes continuavam a ser tão idiotas quanto os da nossa idade. Talvez eles é que não se apercebessem disso.
— Não, mas ficámos tanto tempo na fila que estivemos para nos ir embora — respondeu-lhe com um beijo na boca. — Preciso de um vodca!
— Eu também — disse ele. — Estou literalmente a morrer de sede.
— Bem, não diria que está literalmente… — sussurrei ao ouvido de Alice.
— Isabel… — Ela revirou os olhos. — Vamos beber.
Ele puxou-a pelo braço e ela, de arrastão, puxou-me a mim.
Fiz um sorriso forçado ao homem do bar e pedi uma margarita de limão. Beber um cocktail fazia-me sentir adulta, mesmo que os meus pais jamais imaginassem que era assim que gastava o pouco dinheiro que me davam. Paguei, regressei para o pé de Alice e encostei-me ao balcão. Por vezes sentia saudades dos tempos em que uma saída à noite era excitante e prelúdio de novas histórias para contar. As calças de ganga davam lugar a calções e a ténis All Star coloridos a condizer, usávamos tops de lycra iguais e esfregávamos purpurinas nas pálpebras. Os quinze anos pareciam ter sido noutra vida, era curioso, até para mim, que agora me sentisse sempre deslocada quando, não há muito tempo, ir à discoteca era o ponto alto da semana. Olhei à minha volta, o terraço do Tunnel parecia uma sala de embarque da classe executiva. Todo branco e prateado, tinha sofás almofadados e vasos com plantas falsas de dois metros que tornavam o piso menos decadente que o de baixo, onde naquele momento toda a gente se atropelava na pista escura e abafada da música electrónica. Reparei em vários pilares brancos espalhados pela sala que pareciam segurar o teto, mas percebi que se tratava apenas de uma tenda branca. Talvez fosse, afinal, a classe económica. Deixei-me contagiar pelas luzes roxas e cor-de-rosa que iluminavam todos estes miúdos que se exibiam em vários estilos ao som ensurdecedor de Whitney Houston, Rolling Stones, Cyndi Lauper ou Madonna. Qualquer coisa era melhor do que música eletrónica.
— Tenho de te apresentar um amigo que vem cá hoje — disse-me Ventura, aproximando-se, numa tentativa simpática de meter conversa. Não podia dizer que fôssemos amigos. Não tínhamos outro tema de conversa a não ser Alice, ele não sabia nada sobre mim e as nossas conversas de ocasião limitavam-se a momentos como este. Falar comigo acabava por ser uma forma de se manter próximo da vida de Alice. Ou então falava-me por educação ou obrigação, não o condenava por isso, eu fazia o mesmo. E, tendo em conta o interminável tempo que passávamos juntas, não se dar comigo talvez lhe arruinasse muitos dos seus planos de sábado à noite, como hoje. Se ele sabia que eu percebia isso, não o sabia dizer, mas não podia simplesmente ignorá-lo e, nem que fosse por Alice, tentava ser simpática. Mesmo que espetar um prego no pé fosse uma experiência mais agradável.
— Não sei se será muito boa ideia. Vamos ficar só assim, ok?
— Ele é porreiro e já lhe falei imensas vezes de ti.
— Escusavas de ter falado — respondi, encolhendo os ombros, e revirei os olhos para Alice como que a fazer pressão para ela o calar.
Ele conseguia revelar o pior de mim, saíam-me coisas destas pela boca como farpas. Mas ele tentava apresentar-me a todos os amigos desde que estava com Alice. «Ele acha que, se eu namorar com um dos seus amigos idiotas, provavelmente vou manter-me ocupada e não ando sempre atrás de vocês», dissera um dia a Alice. Ela rira-se e argumentara que não era nada disso. Acabei por aceitar sair com um baixote. Chamava-se Raul e era simpático, talvez o mais simpático deles todos e, não vou negar, era muito bonito. Tinha o cabelo despenteado, aquele bronzeado típico de Cascais e era fácil de conversar. Mas fomos jantar a quatro, fizemos fondue e o baixote tentou enfiar-me um naco de carne meio em sangue pela boca. Eu só dizia «Calma, amigo», mas ele ria-se e incentiva-me a comer, de garfo no ar e a fazer aviãozinho como se tivesse imensa piada. Eu abri os olhos para Alice, implorei pela sua intervenção, mas ela só se conseguia rir, tapar a boca com as mãos e dar-me pontapés debaixo da mesa. Algures a meio da noite, o baixote começou a tocar-me na perna, primeiro de forma quase subliminar, como se tivesse sido um mero acaso, mas depois a subir a mão do joelho até meio da coxa. Olhei para ele de lado e levantei o sobrolho numa observação óbvia de que aquela mão não estava onde devia. Até podia ser um movimento normal nesta relação social de cortejar na qual eu era um zero à esquerda, mas o meu lado cínico decidira que ele não estava propriamente interessado em mim, mas sim apenas a ver se dava para me levar para a cama. Tive quase a certeza que era irrelevante se fosse eu ou outra rapariga qualquer que estivesse ali. Alice tentou fazer-me crer que não. «Ele já andava a pedir ao Ventura para sairmos juntos há imenso tempo», dissera. Se calhar até tinha interpretado tudo mal e o coitado estava apenas a tentar dar o primeiro passo. Mas no dia seguinte encontrámo-lo com a língua enfiada na boca de outra miúda e ele, vermelho que nem um tomate, ficara sem saber onde se enfiar. Gostava de me ter sentido mais ofendida ou triste, mas a certa altura, entre o aviãozinho de carne e a mão na minha perna, já tinha perdido todo o interesse pelo baixote. Já nem me conseguia lembrar do que me tinha atraído nele em primeiro lugar.
— Epá, relaxa! Ele tem namorada, não te estou a impingir ninguém — gritou por cima da música, piscando o olho para tentar, talvez, soar menos ofensivo do que soou. — Só acho que se vão dar bem porque ele é meio intelectualoide e chato como tu.
Não respondi e dei mais um golo do meu copo, senti que até a margarita perdia a piada com ele a matraquear aos meus ouvidos. Ele conhecia tão pouco de Alice que nem percebia que ela é que era a verdadeira intelectualoide. Só não era com ele porque não a deixava. Olhei para os seus amigos, todos cópias uns dos outros, o que me fazia rir, já que se queixavam de que as raparigas eram todas iguais sem perceberem que padeciam do mesmo mal. Costumava vê-los à porta da escola quando Ventura ia ter com Alice à sexta-feira, mais velhos cheios de ares de quem sabe que está a ser olhado. E eu, Marina e Luísa achávamos hilariante que eles se julgassem tão irresistíveis, mas continuassem à porta de uma escola a ver se as miúdas lhes prestavam atenção. Nessa altura, nós costumávamos debater que, embora em número reduzido, o macho latino ainda continuava a circular por aí e, infelizmente, tinha-se concentrado em pequena amostra no grupo de amigos do namorado de Alice. «Foda-se, os gajos parecem uns Neandertais», dissera, um dia, Luísa. «É tudo uma competição para ver quem dá a melhor foda». E, das poucas conversas que ouvira, conseguia detetar traços daquele habitante das cavernas que, pensava eu, já tinha desaparecido da face da terra. Ou, eventualmente, eu é que nunca conhecera nenhum, já que o meu historial amoroso e sexual era altamente limitado: uma paixão platónica durante anos por um rapaz mais velho da escola que nunca sequer olhara para mim e um namorado com quem perdera a virgindade e que estava mais para irmão porque nos conhecíamos desde miúdos. Enquanto toda a gente andava a dormir com pessoas novas pela primeira vez, eu andava apaixonada por alguém para quem era totalmente invisível. E isto era patético, eu sabia. «Isto é como viver no meio d’A Capital não é?», eu concordava solenemente com Luísa. «Pronto, lá vem ela com o Eça de Queiroz», respondera Alice com um revirar de olhos. Estes eram o tipo de factos, provavelmente também irrelevantes, que eu gostava de papaguear. Quando Rabecaz pergunta a Artur Corvelo a sua opinião sobre o gado, ou seja, nós, as raparigas, explicando-lhe que, no seu caso, o que mais apreciava no femeaço eram as boas carnes, Rabecaz poderia ser Ventura ou outro qualquer. Eram as boas carnes que estes Neandertais apreciavam, eram grosseiros e rudes na sua forma descartável de tratar as miúdas. E era por isso que eu não gostava de Ventura nem dos seus amigos e odiava que dissessem que os rapazes iam sempre ser rapazes. Como se tratar as raparigas com insignificância fosse algo digno de louvar no seu género.
— Então, qual dos teus amigos é que tem namorada e está ali a dar conversa a uma daquelas miúdas? — questionei, depois de olhar para eles naquele jogo estúpido de ver quem escolhia quem.
— Hey, calma! — Levantou as mãos em gesto de paz. — Ele ainda nem sequer chegou — concluiu. Afastou-se e, com Alice atrelada, foi ter com eles ao centro da pista.
Com Luísa e Marina de férias, esta noite não era para dançar, era só para dar apoio moral a Alice. Fui interrompida dos meus pensamentos por uma sequência de puxões e encontrões que culminaram comigo a tropeçar em alguém que me entornou com um copo de vodca em cima. E foi isto. A forma como nos viríamos a conhecer ficaria para sempre fadada a uma banal, frívola e singela noite de verão. Que, no final das contas, talvez não fosse prenúncio de grande coisa.
— Não acredito que a primeira coisa de que te vais lembrar de mim sou eu a pisar-te os pés — disse-me.
— A pisar-me os pés e, pior, a sujar-me as botas — gritei por cima da música.
— Não seja por isso, essa parte posso resolver num instante. — Tirou um guardanapo do balcão, baixou-se e passou-o pelas minhas botas.
— Nem acredito que disse isso — gritei, enquanto sacudia o cabelo para o lado. — São apenas umas botas.
Abanei as mãos como que a tentar exprimir a futilidade que era estar preocupada com uns sapatos sujos.
— Lixem-se as botas! — respondeu ele entre risos, apoiando um cotovelo no balcão e despejando o resto do copo de vodca pela garganta abaixo.
— Lixem-se as botas.
Sorri e virei-me para observar as pessoas que continuavam a dançar na pista. Procurei por Alice e avistei-a ao pé da janela com Ventura.
— Então, o que vais fazer? — perguntou-me, depois de pedir mais uma bebida ao balcão, aproximando-se de mim.
— Como assim?
— Não é suposto apresentares-te? O nosso amigo em comum já me falou muito de ti.
Ah! Então era ele, o famoso amigo.
— Se já falou, não preciso de me apresentar — respondi com um sorriso sarcástico.
— Mas as regras da educação dizem que o deves fazer. — Fez uma careta. — Não é que eu saiba muito sobre regras de etiqueta, evidentemente — contestou, tentando que a frase soasse mordaz, mas, ao mesmo tempo, despretensiosa.
— Etiqueta também não é a minha praia — ri-me. — Evidentemente…
— Então também concordamos que precisas da minha ajuda? Um empurrãozinho para conseguires dizer as palavras mágicas?
— Isso é pouco provável.
— Isso é pouco provável. — Estava a imitar o meu sotaque, fazendo-me parecer emproada.
— Quais é que são as palavras mágicas, afinal? — perguntei, tentando soar mais simpática. — Não era suposto estares a beber e a falar com os teus amigos? Olha para eles, estão todos tão divertidos.
Ele acendeu um cigarro e expirou o fumo para o outro lado.
— O que é pouco provável é que esta noite passe de chata a tolerável se continuar ao pé deles. Falar com pessoas que não conheces não é sempre algo melhor para fazer? Nunca sabes o que é que vai vir dali. Agora com eles, já sabemos que vão conhecer alguém, levá-la para casa e é o felizes para sempre, pelo menos por uma noite.
— Temos uma opinião muito parecida em relação aos teus amigos — respondi, surpreendida —, mas, pelos vistos, não sou uma pessoa desconhecida e não me encaixo nessa filosofia bonita. — Dei uma gargalhada baixinha.
— Estou a falar a sério. — Tocou-me no braço, em género de empurrão. — Não sentes que falas sempre com as mesmas pessoas? Vais aos mesmos sítios? Tens os mesmos amigos?
Pedi uma garrafa de água e voltei a encostar-me ao balcão.
— Ter os mesmos amigos é bom. — Levantei o sobrolho esquerdo. — E não vou aos mesmos sítios. Raramente venho aqui e olha para mim encostada ao balcão a falar com um estranho. Já superámos dois desafios.
— Se tu não és uma desconhecida, eu também não sou um estranho. — E deu uma risada. — Somos tipo amigos virtuais que já se conheciam, mas só hoje se estão a ver pela primeira vez — acrescentou, sorrindo.
— Tens uma visão muito poética das coisas. A única coisa que sei de ti é que és mais um amigo do Ventura, nem sei como é que ele tem tempo para tantos amigos. — Percebia que estava a responder-lhe como se fosse doida. Toquei-lhe no braço para o chamar. — Mas estamos aqui a falar de banalidades, por isso se calhar já somos mesmo amigos. — E levantei a garrafa para fazer um brinde.
Ele riu-se e bateu com o copo na minha água.
— Acho que estamos os dois deslocados e, só para que conste, este é provavelmente o último sítio onde alguém me imagina. Não costumo sair com eles.
Aí estava então explicada a razão de nunca o ter visto no grupo de amigos idiotas do namorado de Alice.
— Se não costumas sair com eles, o que fazes nas duzentas e cinquenta vezes que se embebedam por ano?
— Agora já estamos a ter uma conversa normal. — Virou-se para mim.
— E vou partilhar contigo as palavras mágicas: Olá, muito prazer, sou o Afonso. É fácil, vês?
E estendeu-me a mão.
Afonso. Observei-o por entre os golos que dava na garrafa com a confiança de quem se encontrava na penumbra enigmática de uma discoteca apinhada de gente. Olhei-o de lado. Copo na mão, o cigarro colado no lábio inferior, o maxilar saliente e que definia o rosto quadrado com barba por fazer. O cabelo era despenteado, como se alguém lhe tivesse acabado de passar a mão pela cabeça, e o nariz reto, fino, quase como desenhado a lápis. Quando falava, via-lhe uns dentes que, não sendo completamente direitos, lhe davam um sorriso bonito. Ali, encostado ao balcão, de lado, os seus lábios grossos pareciam encaixar um no outro, prendendo o cigarro languidamente caído. E quando se ria fazia umas covinhas nas bochechas que espreitavam por debaixo da barba por fazer. Considerava o termo «belo» demasiado estúpido e já não tinha idade para pensar que algum rapaz era lindo. As mulheres são bonitas, mas os homens não. Porém, não havia qualquer outro termo que o descrevesse. Não era uma beleza evidente, provavelmente nem olharia para ele duas vezes se o visse na rua. Mas tinha qualquer coisa de felino na forma como se movia, se ria e se inclinava na minha direção despretensiosamente, enquanto se encostava no balcão para manter uma distância segura. Por vezes, cerrava os olhos, apoiava o rosto na mão esquerda e fazia uma expressão sombria. Talvez escondesse alguma timidez. Outras vezes, enquanto me ouvia, fechava os olhos e deitava a fumaça pelas narinas. Mas, quando se ria, a sua gargalhada era fresca e agradável. Ou era assim que me parecia porque subitamente fiquei consciente disto tudo. Vestia umas calças pretas com uma camisa de xadrez azul por cima de uma T-shirt de uma banda qualquer que não conhecia, mas que, pelas roupas, percebia ser dos anos oitenta. Tudo isto lhe dava um ar demasiado heróico para aquilo que provavelmente pretendia. Não me parecia que fosse daqueles rapazes que se arranjavam especialmente para parecerem desleixados. Todo ele emanava um ar de desalinho, mas não era uma indolência propositada. E após um bom par de anos a devorar romances estúpidos, eu sabia que estes rapazes demasiado indecifráveis eram perigosos. Não no sentido lato da palavra, mas aquele tipo de perigo que termina com o nosso coração partido em mil bocados. As histórias de rapazes como ele foram contadas ao longo dos séculos e eu já tinha bagagem suficiente — de leitura, não de vida — para saber que não, obrigadinha, não queria nada disto para mim. Dei mais um golo na água como se fosse a melhor coisa do mundo e apertei-lhe a mão.
— Olá, então, muito prazer. — Sorri, meio encavacada. — Sou a Isabel.
— Eu sei que és — disse ele. E piscou-me o olho.
A última coisa em que pensava quando saíra de casa nessa noite era ficar estranhamente atraída por um estranho. Não me lembrava de o ver com os amigos da faculdade de Ventura que paravam à porta da escola a rir-se para as miúdas mais novas. Também nunca perguntara a Alice a idade de Ventura e, subitamente, senti-me uma péssima amiga, tão pouco interessada nestas coisas que deveriam ser importantes, mas supunha que tivessem dezanove ou vinte anos. Mas alguns pareciam mais velhos e, por isso, mais estúpidos. Voltei a olhar para ele, não parecia ser do tipo de faltar às aulas, embebedar-se e passar a vida em festas como os amigos. Seria um desajustado como eu? E a palavra era tão estúpida que, provavelmente, eu era apenas um lugar-comum, mas gostava de imaginar que também podia ser meio enigmática e estranha, como ele. Nem o conhecia e já lhe dava qualidades infindáveis. Tudo nele parecia espontaneidade e imprudência, a forma como se ria, como me dava toques nos pés com a biqueira dos seus ténis, como me tocava com o braço quando dizia uma piada qualquer. E não sei se acreditava na ideia de que não passava assim tanto tempo com os amigos mas havia qualquer coisa nele. Qualquer coisa que me trazia a mesma sensação de quando tinha catorze anos e, ingenuamente, achava que Simão era toda a minha vida. E percebi que não podia voltar a tornar-me nessa miúda e, com tantas qualidades e reverências, percebi que já o estava a repetir.
Continuávamos parados no mesmo sítio. Volta e meia sentia um certo calor, aquele desconforto que sentimos quando sabemos que alguém nos observa. Sabia que ele me olhava de tempos a tempos, mas, não obstante a vontade em falar com ele, não sabia que mais tinha para lhe dizer. E também não tinha muito jeito para estas coisas, ele pelos vistos também não. Continuei a beber o resto da garrafa de água e sorri para Alice, que, de quando em vez, me acenava do outro lado da pista e me fazia sinais pouco discretos. Não conseguia não revirar os olhos, até porque ele também a estava a ver e, sem dúvida, a gostar tanto da situação quanto eu. Estávamos, de forma constrangedora, encostados ao balcão sem nada dizer um ao outro. Alguém com uns copos a mais veio contra a mim e ele, sem pensar, puxou-me pela cintura e colocou-se estrategicamente à minha frente. Olhou para mim de uma forma tão violenta que o meu coração começou a martelar no peito.
— Preciso de apanhar um bocado de ar — gritei ao ouvido dele. — Está demasiada gente aqui.
— Eu vou contigo — respondeu-me, pousando o copo vazio no balcão e a preparar-se para me acompanhar.
— Não, deixa estar, preciso de fazer uma chamada — menti.
Afastei-me sem lhe dar tempo de me poder seguir. Com o telefone bem apertado entre a orelha e o ombro, exatamente como quem finge aguardar que, do outro lado, alguém atenda a chamada, a minha mente era um redemoinho de pensamentos enquanto ouvia a música ruidosa e pensava que, a ser uma chamada verdadeira, seria impossível ouvir o quer que fosse. Fui até à varanda do Tunnel e fiquei a observar o mar que se estendia à minha frente. Já longe dos olhos dele, arrumei o telefone no bolso. Debrucei-me sobre as traves de madeira, alheia a tudo e todos que, atrás de mim, dançavam alheios ao meu cataclismo. A última coisa de que precisava era uma taquicardia por sentir as mãos dele na minha barriga, um gesto tão banal e, surpreendentemente, tão intenso. Perguntei-me como seria a sua namorada, imaginava que partilhasse a vida com ela. Alguém que, a não estar ali, devia estar a fazer qualquer outra coisa enquanto esperava que ele chegasse a casa. Talvez ela também não gostasse dos seus amigos idiotas. Ou simplesmente não tivesse paciência para bebedeiras ao sábado à noite. Comecei a imaginar como é que ela seria, uma namorada que nunca tinha visto, mas que me parecia mais real do que nunca. Imaginei-a sentada no sofá da casa dele, que também não fazia ideia como era. Será que gostava de ler ou preferia ver televisão? Será que jantavam fora ou mandavam vir comida chinesa e se sentavam no chão do quarto dele com as caixinhas no colo enquanto conversavam sobre o que tinham feito durante o dia? E numa fração de segundo imaginei que ele me podia ter beijado ou que eu podia ser ela, quem quer que ela fosse.
Não foi o facto de ele ter chegado sozinho que me fez olhar para ele, olhar a sério. Não foi a forma como tocou delicadamente no meu braço enquanto falava, como se eu fosse feita de cristal. Não foi a forma como se riu de olhos fechados e cabeça para trás como se mais nada importasse ali. O que me fez decidir voltar para dentro e procurá-lo foi a forma como olhou para mim quando, a caminho da varanda, me virei para trás. Aquele olhar lançou faíscas e fez-me tremer por dentro. Fez-me sentir ridiculamente especial.
Saí da varanda e voltei a subir as escadas para procurar Alice. Ou talvez isso fosse só uma desculpa para voltar a ir ter com ele. Mas não a encontrei onde a deixara vinte minutos antes. Tentei procurar, por entre os focos de luz cor-de-rosa, rostos familiares. Mais adiante, ao pé da porta das casas de banho, percebi que havia alguma agitação e, algures lá no meio, vi o cabelo volumoso de Alice chamar-me a atenção. Comecei a percorrer a pista por entre as pessoas que dançavam e, ao empurrá-las, ouvia-as a vociferar-me asneiras. Apanhei-a por um braço e ela puxou-me para o pé dela. Vários amigos de Ventura rodeavam alguém, falavam todos ao mesmo tempo, gesticulavam num círculo fechado sem deixar ver quem é que, lá no meio, discutia e, mais à frente, outros do grupo falavam com uma rapariga. Era uma telenovela ao vivo, pensei. Podíamos todos sair da escola secundária, mas a escola secundária, aparentemente, nunca saía de nós.
— O que aconteceu? — perguntei, apanhando o cabelo num rabo-de-cavalo. Estava demasiado calor ali dentro para conseguir ter o cabelo colado ao pescoço.
— Onde é que foste? Deixei de te ver de repente — perguntou ela por cima de mim.
— Estava só ali fora a apanhar um bocado de ar. Está muito calor aqui dentro — gritei. — Mas o que é que se passou?
— Nem imaginas! Apareceu uma rapariga de mão dada com um gajo que também é amigo deles. Agora adivinha quem é que ela é. — Fez uma expressão teatral com as mãos no ar e de sorriso nos lábios, à espera que eu adivinhasse esta charada.
— Alguém que foi para a cama com alguém e depois apanhou esse alguém na cama de outro… alguém? Já disse a palavra alguém?
— Ai, que engraçada que estás hoje — gritou. — É, ou era, a namorada daquele com quem estavas a falar, o Afonso.
A música continuava a gritar estridentemente, começou a tocar I Heard it Throught The Gravepine, uma letra ironicamente e perfeitamente adequada ao momento. You could have told me yourlsef that you loved someone else, instead I heard it throught the gravepine, cantava Marvin Gaye, e quando consegui vislumbrar por entre as cabeças o rosto de Afonso, deixei-me ficar em bicos de pés o tempo suficiente para ver que tinha uma lágrima perdida pela bochecha, o que foi, curiosamente, estranho, triste e inusitado ao mesmo tempo. O sorriso, ainda há instantes, tão amplo e natural, desaparecera. Estiquei-me mais. Isto parecia sádico, mas precisava que ele se virasse e reparasse em mim para poder sentir novamente, como antes, qualquer coisa que só existia entre nós. Como se instigado, ele voltou-se mesmo e olhou diretamente para mim. Passaram-se alguns segundos ou talvez um ano, é difícil dizer. Os seus olhos castanhos abriram-se horrorizados e, ao mesmo tempo que ele virou a cara, eu baixei-me por detrás de Alice, envergonhada. Senti-me uma estranha a invadir a privacidade daquele momento insólito. Decidi que estava na hora de ir embora, mas a curiosidade falou mais alto. Precisava de ver como é que ela era. Afastei-me um pouco e, como se não fosse nada comigo, aproximei-me do bar que fazia esquina com a porta da casa de banho. Fingi que esperava por uma bebida e virei-me para poder observar a cena. Ela estava a gritar com um dos amigos de Ventura e, pela posição despreocupada de mãos nos bolsos, percebi que o rapaz alto ao lado dela devia ser o tal com quem tinha vindo. Ele era atraente, não podia dizer que não o fosse, pelo menos para quem gosta do género Ken, até porque ela era do género Barbie. Os dois pareciam estrelas de cinema, não que isso fosse propriamente mau. É aquele tipo de coisas que nós, os que não parecem estrelas de cinema, gostamos de dizer para aligeirar a vida. Naquele momento, havia muito pouca grandeza em mim, mas até eu estava a ter dificuldade em acreditar que alguém podia simplesmente trair o namorado com um amigo dele. Seria isto assim tão normal? Ou todas as pessoas que pertenciam a este clube exclusivo de gente estúpida se limitavam a andar por aí sem nunca falarem sobre o assunto?
Ela vestia uma saia curta vermelha com um top preto que lhe deixava o umbigo de fora e calçava umas sandálias altas de presilhas no tornozelo. Não tinha nada a ver comigo, podia confirmar. O cabelo era comprido, em ondas perfeitas, e as suas mechas cor de chocolate ondulavam em redor do rosto moreno à medida que, enquanto gesticulava fervorosamente, abanava a cabeça. Era como as miúdas populares lá da escola, de argolas enormes nas orelhas e um clube de fãs atrás. Tinha os lábios pintados de cor-de-rosa e as mãos, cheias de anéis coloridos, estavam a rodopiar no ar e mostravam que a discussão acesa estava mesmo prestes a terminar. Tão rápido quanto os meus olhos observavam cada pormenor da discussão, esta terminou e ela desapareceu do meu campo de visão como se se tivesse evaporado. O grupo começou a dispersar e, perante o cenário que acabara de ver, senti-me uma intrusa, pelo que dei a noite por terminada. Voltei a aproximar-me de Alice, que tinha os braços enrolados à volta do tronco de Ventura, que, juntamente com alguns amigos, comentavam a situação como se fossem comentadores de futebol. «Foda-se, a gaja é maluca da cabeça», disse um deles. «Essa é uma forma simpática de dizer que é uma cabra de merda», respondeu outro. Ri-me do comentário, não porque tivesse piada, ri-me porque era mesmo idiota, mas isso deixou Ventura bastante surpreso, o que deu asas à sua habilidade para desferir observações maldosas sobre a coitada da rapariga. Agora já pensava nela como coitada, tal era a minha aversão a tudo o que Ventura dizia ou fazia. Disse a Alice que me ia embora. Depois de me implorar para ficar e eu dizer que não me apetecia, depois de dizer que ia embora comigo, coisa que sabia perfeitamente que ela não queria fazer, e eu dizer para ser ela a ficar, lá chegámos a um consenso. Não queria passar mais nenhum fim de noite ou início de manhã em casa de um deles e, na verdade, só queria ir para casa.
Saí por onde tinha entrado, ainda estavam várias dezenas de pessoas à porta, numa fila infinita, apesar de serem quatro da manhã. Como é que aguentavam horas numa fila enquanto o resto do mundo se divertia lá dentro? Decidi andar no sentido oposto da fila e do túnel. Àquela hora, preferia saltar o muro e atravessar a linha do comboio a correr — mesmo correndo o risco de ser triturada pelo comboio, era mais seguro do que atravessar o túnel sozinha. Tirei o telefone do bolso para enviar uma mensagem a Alice, comecei a escrever que ia saltar a linha para não ir pelo túnel e que esperava por ela do outro lado do paraíso se o comboio me esmagasse. Era uma estúpida piada nossa. Enquanto andava devagar e escrevia a mensagem ao mesmo tempo, esbarrei numa multidão parada na esquina e não consegui passar, tal era a concentração de gente. A música era ensurdecedora, o que camuflava os rapazes que gritavam uns para os outros, empurrando-se numa dança de ameaças. Não queria estar ali, mas o aglomerado de miúdos era cada vez maior e estava presa sem conseguir passar nem voltar para trás. Os seguranças do Tunnel apareceram e eu pensei, ingenuamente, que iriam terminar a discussão, mas estava enganada e cada vez mais presa no magote de gente que não parava de se aproximar. Senti-me como num daqueles pesadelos em que queremos correr mas as pernas não se mexem. Os seguranças, gorilas enfurecidos, pegaram num dos rapazes da discussão e atiraram-no pelo ar. Dois deles esmurraram-no e, com ele já no chão, seguiram-se os pontapés. Conseguia ver cabeça dele a ser chutada contra a parede. De repente, parecia-me que conseguia ouvir o baque seco de cada vez que a cabeça ia de encontro à pedra. Estava a tremer e a tentar furar as pessoas de forma descontrolada, colada a dezenas, se não uma centena, de miúdos amontoados no paredão a ver a confusão como se de um circo se tratasse. E subitamente vi o sangue. Sangue na parede, no chão, na cara do miúdo, na roupa, nos outros rapazes, nas mãos dos gorilas, em todo o lado. Furei toda a gente, empurrei, gritei e implorei para me deixarem passar. No meio do caos, alguém me puxou por um braço e consegui sair dali. Afonso agarrou-me e abraçou-me enquanto me conduzia na direção oposta. Olhámos um para o outro e, por trás do gesto momentaneamente heróico de me tirar dali, era impossível não perceber que estava atrapalhado.
— Obrigada — disse, por fim. — Meu Deus, estão a matar um miúdo ali. — Agora era eu que tinha os olhos em lágrimas e ele continuava a puxar-me e a conduzir-me pelo paredão para longe de tudo aquilo. Parámos mais à frente.
— Como é que foste parar ali? — perguntou-me.
— Só queria atravessar a linha para apanhar um táxi do outro lado. — Respirei fundo para tentar expulsar o medo de dentro de mim.
— Olha, vi-te a descer as escadas e resolvi sair também para ver se te apanhava — disse, de mãos nos bolsos. — Estavas mesmo a pensar ir-te embora sozinha a esta hora? — Sorriu-me. Um sorriso meio constrangido; ainda assim, um sorriso. Suspirei esfreguei a cara com as mãos.
— Há táxis do outro lado da estação. Não é propriamente uma distância pouco segura.
— Não tens noção das histórias que já ouvi sobre miúdas que decidem andar sozinhas na rua a meio da noite — disse, franzindo a testa.
— Se uma pessoa pensar assim, não sai de casa. — Dei uma gargalhada débil. O momento não era para gargalhadas mas ainda tinha o corpo entorpecido daquilo tudo e o riso saiu-me involuntariamente.
— Eu sei, mas olha para esta confusão. Até os ricos são malucos.
Ficámos em silêncio, no meio do paredão, com a música que se ouvia das colunas da discoteca a gritar por cima de nós. Arrumei o telefone na mala, porque ainda o tinha na mão e cruzei os braços. Na verdade, não sabia o que dizer.
— Queres ir até à areia? — perguntou-me. Queria ir para casa, estava a tentar convencer-me disso, mas quem é que eu queria enganar?
— Sim, podemos dar uma volta. — Sentei-me nos degraus e descalcei as botas. Os meus pés enterraram-se na areia fria e, com as botas nas mãos, segui ao seu lado sem destino aparente. Caminhámos lentamente à beira-mar enquanto, lá em cima, a música continuava a tocar criando uma banda sonora um tanto trocista.
— Foi uma noite interessante — comentou, aparentemente despreocupado mas de olhos fixos em mim. Não sabia se estava a afirmar ou a questionar.
— Bem, foi uma noite diferente, de facto.
Ele suspirou.
— Aquela era a Madalena, a minha namorada. Deves ter percebido. — Sim, eu tinha percebido.
— De certeza que deve haver uma explicação para toda aquela confusão. Não esta da luta… — acrescentei. — Quero dizer, a outra, lá em cima. Desculpa, não tenho jeito nenhum para isto.
Ele riu-se. Já era um bom começo.
— Lembras-te de eu dizer que o Tunnel era o último sítio onde alguém me imaginaria? — Lembrava-me de tudo o que me dissera porque remoera naquilo na última meia hora. Como é que tínhamos passado de encostados no balcão para a areia? Ele fitou-me.
— A minha memória funciona muito bem. — Cocei o nariz. Não tinha sequer arte para conversas constrangedoras.
— Bem, a Madalena jamais imaginou que eu viesse para aqui.
— Então porque é que vieste?
— Hum… — hesitou. — Eles já vinham de qualquer das formas e, como estão sempre a chatear-me, decidi aparecer — respondeu, enquanto olhava para o mar, quase parado àquela hora da madrugada. — Não pensei que a fosse ver, ela disse que ia sair com as amigas.
— Desculpa se estou a fazer muitas perguntas — tossi para clarear a voz —, mas quem é que ele era?
— Tens de parar de pedir desculpa, ok? Não o conheço muito bem, mas acho que, às vezes, sai com eles à noite. E é lá da vossa universidade, nunca o viste?
— Hummmm… — Vacilei com a observação confusa dele. — Eu não ando na universidade.
— Não és da faculdade deles? — perguntou e, repentinamente, parou e virou-se de frente para mim.
— Não — respondi, meio embaraçada. — Ainda estou na escola, quero dizer, já acabei mas vou repetir algumas disciplinas… Olha, não interessa. — Mudei de assunto. — E nenhum dos teus amigos sabia deles os dois?
— Não.
— Tens a certeza? — perguntei. Ele lançou-me um olhar de dúvida. — Desculpa, não quis dizer que eles sabiam e não te contaram. Desculpa. Vou também parar de pedir desculpa.
Ele sorriu.
— Isabel, Isabel… tens que idade? — perguntou, puxando o lábio inferior com os dedos, num gesto mecânico que parecia estar a fazer sem se aperceber. Ouvi-lo dizer o meu nome foi como um foguetão a entrar em órbita, já não havia força da atração terrestre que me puxasse de volta.
— O que é que isso importa? — perguntei, cruzando os braços.
— Não importa nada. — Olhou-me fixamente.
Fiquei em silêncio.
— Não acredito que a namorada do Ventura ainda anda na escola — disse com uma gargalhada sonora. — Ele nunca partilhou esse pequeno pormenor. Desculpa, não há qualquer problema nisso, mas teve piada porque ele está sempre armado ao pingarelho, que faz e acontece e ele isto e ele aquilo.
Tive vontade de rir. Tínhamos opiniões tão idênticas que parecia que conseguia ouvir a voz na minha cabeça.
— Tenho dezassete — respondi, por fim. — E a Alice também — acrescentei, nem que fosse para distribuir o mal pelas aldeias.
— É uma boa idade, já tenho saudades de quando tinha dezassete anos — respondeu trocista. — São amigas há muito tempo?
— Desde miúdas, quando mudei de escola e ficámos na mesma turma. Acabámos por nos tornar muito próximas por fazermos anos em janeiro e sermos as mais novas. — Encolhi os ombros. — Não sei, temos uma relação especial.
— E como é que ela é?
— Inteligente e chata, adora História e está sempre a falar disso e a ver documentários e filmes aborrecidos que me obriga a ver também. — Dei uma gargalhada porque imaginei a cara que ela faria se me ouvisse naquele momento. — Mas também é doce, tem uma aura sempre calma como se, quando estamos com ela, também nos sentíssemos tranquilos.
— É a tua melhor amiga?
— Acho que sim.
— E como é que a definiste como uma melhor amiga?
— Não sei… — Pensei um bocado. — Posso dizer-lhe tudo porque ela nunca me julga. E posso ser eu mesma, seja o que for que isso signifique. Ela sabe que não gosto destas coisas, mas também sabe que venho por ela e que não poderia ser de outra forma. Porque é assim que é a amizade, acho eu. Gostamos uma da outra de qualquer maneira, mesmo quando uma está a fazer coisas que a outra odeia. Ou que a outra não compreende. Olha eu não compreendo o que é que ela vê no Ventura, o gajo é um Neandertal como todos os vossos amigos, mas tenho de respeitar, não é?
— Neandertal? — perguntou, curioso.
Dei uma gargalhada e tapei a cara com as mãos.
— Céus! Não devia estar a dizer-te isso.
— Fala-me mais sobre isso de serem Neandertais.
— É só como nós os chamamos porque, sei lá, são todos meio básicos.
Ele riu-se alto e começou a pontapear a areia com os pés.
— Gosto sempre de saber a forma como as pessoas se relacionam e o que é que as une. São gostos iguais? São hobbies? São interesses idênticos? Ou é porque calharam ficar na mesma turma e sentar-se durante cinco anos na mesma mesa? Por vezes, penso nestas coisas. Será que se tivesse conhecido os Neandertais hoje, seria amigo deles? — Fez uma entoação cómica na palavra Neandertal. — Mas crescemos juntos, gostamos uns dos outros, passamos férias juntos. Mas às vezes também penso que hoje não tenho nada em comum com eles.
— Se calhar, isso também é amizade. O tempo passa, as personalidades mudam, mas nunca deixam de ser amigos.
— Sim, talvez… mas há alturas em que te questionas. Hoje, supostamente, íamos a um concerto, mas alguém se esqueceu de ir buscar os bilhetes. Porque, na verdade, eles queriam era vir para aqui. Como vêm todas as semanas. Eu acabei por vir porque também não tinha nada para fazer…
— Sabes, nada acontece por acaso — disse. — Se calhar tinhas de vir hoje para veres o que acabaste de ver.
Ele parou de andar e sentou-se na areia. Sentei-me ao lado dele.
— Eu sei. — Atirou-me com uma mão cheia de areia para os pés.
— Também já me aconteceu algo parecido no passado — ouvi-me dizer. Queria ter alguma coisa espirituosa para dizer. Na verdade, não sabia o que dizer e dei por mim a deixar escapar uma mentirinha. A minha experiência amorosa com rapazes, ou raparigas, era quase nula.
— Alguém teve a coragem de te trair? — Riu-se, dando-me um toque subtil no braço. Senti o coração a acelerar. Não compreendia este magnetismo, com apenas um toque ele fazia disparar os meus batimentos cardíacos.
— Bem, não foi assim tão parecido. Estive com uma pessoa quando ainda gostava de outra, mas isso já foi há muito tempo.
— Gostar de outra pessoa já é traição. — Voltou a mexer na areia com as mãos. — Acho que pensar em outra pessoa também o é.
— Sim, acho que tens razão.
— Foi a tua última relação? — perguntou-me, olhando de soslaio a avaliar a minha reação.
— Acho que não sou uma pessoa de relações — respondi. Na verdade, as relações é que não queriam nada comigo, até agora tinham sido patéticas. Ou melhor, patética. Singular.
— Não há ninguém que não seja de relações. — Empurrou-me com o ombro. — O ser humano vive para crescer, casar e dar continuidade à espécie. Somos todos animais.
— Okay, não é não ser de relações, mas é difícil conhecer alguém, gostar de alguém… e depois, quando gostamos, fazem-nos isto. — Sorri. — Olha para ti, aqui na areia. Animalesco, não é?
— Então não gostas de relações porque tens medo… — Calou-se por segundos, a pensar. — Isso significa que preferes não as levar a sério?
— Então! — Atirei com um bocado de areia para cima dele. — Por quem me tomas?
— Já nos estamos a entender. — Riu-se. — E gostavas a sério dele? — Fez uma entoação grave no «a sério», o que teve piada, e, ao mesmo tempo, emocionou-me por razões estúpidas.
— De quem? — perguntei. Já perdera o fio à conversa.
— Daquele que gostavas enquanto estavas com outra pessoa.
— Ah, sim. — Fiquei a olhar para o mar. — Mas nem sequer estivemos juntos. Foi uma parvoíce…
— Foi o teu último gostar?
— Talvez. — Enrolei os braços em redor das pernas. Como continuava a manter o olhar fixo em mim, desviei à custa, sentia-me demasiado embaraçada. Queria mudar de assunto. — Estavam juntos há muito tempo?
— Não propriamente. Ela foi viver para minha casa há uns meses — disse, e senti um choque. Viver junto era um outro universo.
— Viver em tua casa? Mas tens que idade? — perguntei, subitamente. — Não me digas que és casado e tens filhos.
— Já tenho netos. — Sorriu. — Já não vivo com os meus pais… — Deixou o assunto a meio. Não senti que devesse forçar.
— Hum… — Cerrei os olhos. — Acho que devia ter atravessado a linha do comboio. — Ele fez um ar de espanto e deu uma gargalhada. — Viverem juntos é muita areia para o meu camião.
— Olha, Isabel, este camião é bem mais simples do que estás a pensar. Ela veio para cá estudar e, há uns meses, o senhorio não renovou o contrato e ela acabou por ficar em minha casa temporariamente porque não tinha para onde ir.
— Então e agora?
— Essa é uma boa questão. Espero que, por esta hora, esteja a caminho e leve todas as suas merdas. — Espreguiçou-se e deitou-se na areia de barriga para cima.
— Temos a missão de fazer tempo, portanto. — Soltei o cabelo e deitei-me ao seu lado na areia.
O céu estava limpo e estrelado. Parecia alheio a tudo, às pessoas, à confusão, ao sangue lá em cima, a nós, dois pontinhos ao longe na areia. A música continuava a gritar vinda da discoteca, no meio de centenas de miúdos que se divertiam, dançavam e bebiam. Parecia que estávamos isolados do mundo, ali deitados com o mar a tocar-nos nos pés. Ficámos em silêncio, mas não era um silêncio constrangedor. Era confortável. Não tínhamos nada para dizer um ao outro, afinal só nos conhecíamos há duas horas, mas senti-lo deitado ao meu lado, com o braço a poucos centímetro do meu, era agradável. Não era estranho, não era desconhecido, era como se esta conversa já tivesse existido algures no passado. Sentia-me como se estivesse a viver um qualquer déjà vu, como se já o tivesse conhecido ou como se soubesse que nos íamos conhecer, como se tudo tivesse sido um grande jogo de paciência até o ter encontrado.
Ele mexeu-se ao meu lado, tirou o maço do bolso, acendeu um cigarro e expirou pelo nariz para o céu, ajeitando-se novamente na areia e colocando o outro braço por trás da cabeça. Olhou para mim e levantou as sobrancelhas, como que examinando agora pela primeira vez a pessoa que tinha ali ao seu lado.
— Olha para nós… — Deu uma gargalhada. — Estamos meio bêbedos.
— Eu não estou bêbeda. — Virei-me para ele e apoiei a cabeça na mão.
— Eu estou, infelizmente. — Olhou para cima para evitar olhar para mim.
— Infelizmente porquê?
— Porque quando estou bêbedo não penso muito bem nas coisas — disse, espreguiçando-se na areia. — Ou se calhar penso demasiado. — Riu-se alto, ainda com o cigarro preso entre os lábios, levantou-se e apoiou os braços nos joelhos. — E se fizermos algo muito estúpido?
— O que é que é estúpido para ti? — perguntei, franzindo a testa.
— Sei lá. — Apagou o cigarro na areia molhada e atirou-o pelo ar para trás de nós. Reprimi a vontade de me levantar e de apanhar a beata da areia. — Atirar papel higiénico às casas dos ricos ali em cima no Estoril. Ou ovos, só para chatear.
— Isso não faz sentido nenhum.
— Vamos fazer isso. — Levantou-se de um salto. — Anda. — Esticou-me a mão.
— Eu não vou fazer isso. — Cruzei os braços atrás das costas para que não me pudesse alcançar. — E não temos papel higiénico. — Ri-me porque… não sabia porquê. Ri-me porque dava-me sempre para rir nas situações desconfortáveis.
— Isso arranja-se — respondeu, puxando-me pela cintura, o que o fez cair por cima de mim.
E subitamente, estávamos deitados na areia gelada. Ele tinha os braços por cima de mim, apoiados na areia, e olhava-me, agora sério. Toda a sua fanfarronice do papel higiénico desaparecera. Sorriu de lado, como que a tentar disfarçar qualquer sinal de embaraço, e deu uma gargalhada meio rouca, deixando-se apoiar lentamente em mim. Estávamos colados um ao outro e o meu coração batia de forma estúpida, tinha a certeza de que ele o podia sentir. No auge dos êxitos dos anos oitenta e noventa que continuavam a passar lá em cima, começou a tocar Crazy dos Aerosmith, uma das minhas bandas favoritas de sempre e para sempre. Não conseguia acreditar que estava a viver aquele tipo de clichê, o que me fez rir, porque a situação era ridícula e insólita. Eu nunca fora o tipo de miúda a quem estas coisas aconteciam. Ele apoiou-se no cotovelo e colocou a outra mão na minha boca para me fazer parar de rir. E beijou-me. Assim, sem mais nem menos. Beijámo-nos ao som de uma daquelas músicas que ouvia em casa sozinha deitada na cama. Durante o resto da vida, não importaria o que estivesse a fazer ou onde, quando ouvisse os primeiros acordes desta música, sabia que iria recordar-me do olhar de Afonso fixado em mim, da sua mão no meu rosto, do meu coração a tremer, do meu corpo a responder-lhe infantilmente. Porque Lisboa está cheia de bares a abarrotar de miúdas bonitas que, num piscar de olhos, se colocariam de gatas a ronronar nas suas pernas. Mas ele viu-me a mim.
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