Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 30 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 2

2

 

Lembrava-me plenamente daquela altura como se tivesse sido ontem.

As idas à praia, Simão com a sua amiga das argolas nas orelhas, as férias no Alentejo com Alice. Depois daquele verão, Filipe tornou-se no meu melhor amigo e primeiro namorado. Vivemos todas as primeiras experiências juntos, os primeiros beijos, os primeiros toques, as primeiras descobertas sexuais embaraçosas. As primeiras vezes são sempre estranhas. Quando as aulas recomeçaram, continuámos juntos, eu em Humanidades e ele em Desporto. Simão chumbara novamente mas, ao contrário do que me afligira meses antes, continuara na escola a repetir mais um ano. As lembranças dele naquele período eram muito desfocadas, fora uma altura em que aquele amor fantasioso deixara de ter tanta importância porque estava entusiasmada com Filipe. Por vezes falávamos na escola, mas já era um olá banal, um aceno ou somente uma constatação de que nos víamos um ao outro. Mas Filipe continuava a viver com o fantasma de Simão. Se nos cumprimentávamos no bar, ficava aborrecido e perguntava-me constantemente se ainda pensava nele. Por mais que dissesse que não, a presença de Simão na escola deixava Filipe fora de si. E era simplesmente impossível não nos cruzarmos com ele à porta de um pavilhão ou a almoçar no refeitório. Aquele namorico acabara por não durar muito mais. Filipe preferia jogar à bola com os outros rapazes e eu preferia passar as tardes sem aulas com elas no cinema e a passear pelo Chiado. A meio do ano, Simão saíra da escola e não voltara mais. No verão seguinte, conheci outros rapazes, tive dois ou três romances que nunca passaram de trocas de conversas sem jeito e planos tentadores para encontros na discoteca que acabavam por nunca acontecer.

Eu tinha, então, dezasseis anos e era uma miúda plenamente diferente, tinha cabelos compridos, usava calças à boca de sino e tops por cima do umbigo. Tornara-me numa dessas raparigas de argolas nas orelhas que, anos antes, tanto odiara. Luísa estava a namorar um rapaz mais velho da escola que fora amigo de Simão e, numa sexta-feira, convenceu-me a sair com ela. Nem sequer me passara pela cabeça que ele pudesse ir, não passava tudo de uma memória antiga, uma brincadeira quando alguém perguntava: «Lembras-te de quando eras apaixonada pelo Simão?» E eu ria-me, atirava com o cabelo para trás dos ombros e respondia: «Oh, era tão miúda». Mas quando chegámos à estação de comboios às dez da noite, lá estava Simão sentado no muro juntamente com os outros rapazes. Naquele momento, parecera-me impossível que tivesse gostado de alguém como Filipe quando existia uma pessoa como Simão no mundo. Vi-o abrir os olhos, o cigarro parado a meio caminho nos seus dedos, tal foi a surpresa da minha aparição, o que fez o quadro ficar todo muito mais bonito.

Iria passar uma noite inteira com ele e teríamos obrigatoriamente de falar, somente não sabia o que dizer, nem como agir. Simão passara a noite a aproximar-se de mim e, quando fomos a pé de Santos até ao Cais do Sodré, levou-me às cavalitas porque me doíam os pés das botas com salto que calçara para parecer mais velha. A meio da noite, fomos comer pão com chouriço e acabámos num bar de salsa nas Docas, os rapazes encostados ao balcão enquanto nós dançávamos no meio da pista numa ingénua liberdade, movendo os nossos corpos de forma sensual e inocente. Conseguia ver Simão a observar-me e a lançar-me longos olhares e antecipara, com expetativa, o desfecho daquela noite. Já quase de manhã, fomos a pé até à estação para apanhar o comboio e Simão e eu deixámo-nos ficar para trás no grupo. Percebia que hesitava no que havia de me dizer, olhava para mim de lado e ria-se. Era estranho observá-lo a preocupar-se com as suas ações ao invés de ser eu a passar por isso, como sempre fora. Teria sido assim que ele se sentira comigo durante todo aquele tempo? Com uma sensação de poder inebriante? Sentámo-nos no comboio afastados dos outros, ele enrolara os seus dedos nos meus e fizéramos desenhos no vidro através do vapor da nossa boca. Só conseguia pensar no momento em que, finalmente, me iria beijar, seria eu com ele debaixo do chapéu na areia. Chegámos a Carcavelos e a noite acabara com Simão a dizer que tinha gostado de me ver e a despedir-se dos amigos. Ficara prostrada na estação a vê-lo subir para a mota e arrancar. E toda aquela sensação de poder acabara ali. Mais uma vez, tinha fantasiado com coisas que não iriam acontecer porque, afinal, eu continuava a ser aquela miúda que lhe escrevia cartas de amor. Sentira-me estúpida, sufocada por todos aqueles sentimentos estrangulados dentro de mim.

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