Raparigas como Nós
Capítulo 11
11
No início de maio, Simão aparecera na escola com um novo visual. Cabelo curto, óculos de sol e um chapéu azul com flores havaianas brancas. Via-o cada vez mais inacessível e, naquelas semanas, senti o seu cinzentismo mais do que o habitual, ou era apenas eu que o via assim. Todos os dias daquele final de ano seguiram este ritmo, uma espécie de sofrimento por antecipação, imaginava que, com o verão, iria deixar de o ver todos os dias.
Aquele final de ano foi assinalado por greves de alunos um pouco por todo o país, das quais também a nossa escola tentou fazer parte ativamente em eufórica solidariedade. Estávamos no ano 2000 e fechar uma escola era tão fácil como ir à cabine telefónica na esquina da rua, telefonar e fazer uma ameaça de bomba. Foi isso que alguém fez. A meio da manhã, centenas de miúdos foram fechados num dos campos nas traseiras numa excitação gritante. Era justiça, dizíamos. Não sabíamos pelo que lutávamos, apenas gostávamos do caos. Uns jogavam à bola, outros dormiam ao sol com as cabeças nas mochilas, os mais corajosos fumavam calmamente. Na hora do almoço, acabaram por fechar a escola. À saída, Simão correu atrás de mim, levantou-me do chão e enfiou-me o seu chapéu na cabeça. Passei a tarde com o chapéu de Simão colado a mim e, quando não o tinha na cabeça, cheirava-o porque, acreditava, tinha o cheiro dele.
Uns dias depois, Simão estava a mexer no seu cacifo e, quando me viu a descer as escadas, chamou-me e deu-me uma porta-chaves azul com a forma de uma trança. Eu agarrei no objeto como se de algo precioso se tratasse e, com o coração num terramoto, guardei-o na mochila. Em casa, à noite, deitada na cama com o objeto nas mãos, cheirei-o, beijei-o e lambi-o com a ponta da língua como que a tentar absorver dali qualquer coisa. Nem sabia explicar por que razão o fizera, era somente uma fantasia.
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