Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 13 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 3

3

 

 

O dia-a-dia, naquela altura, girava em torno de tudo o que nos acontecia fora das aulas. Como se existisse a escola, o palco principal da nossa existência, e as aulas, qualquer coisa que acontecia também e a que éramos obrigados a ir. Nos intervalos, havia a papelaria do simpático Sr. Gil, ao fundo da rua. Toda a gente lá ia, não só para tirar fotocópias ou comprar gomas e pastilhas elásticas, mas também para conversar e passar o tempo entre as aulas. Sentávamo-nos nas cadeiras em frente ao balcão e ali ficávamos a fazer sala, os rapazes sentavam-se no degrau da porta a fumar ou jogavam à bola no pátio em frente. A papelaria era o palco principal da nossa vida e ele assistia, na primeira fila, a todos aqueles teatros, era alguém que conhecia os rapazes de que gostávamos e que participava nas nossas artimanhas para falar com eles. Também costumávamos passar muito tempo com Filipe, Tomás, Gabriel e outros rapazes da turma. Filipe era primo de Alice e, embora servisse mais para nos chatear, passávamos os fins-de-semana juntos na praia, na sala de jogos ou no parque. Nas tardes livres, íamos para casa de Filipe ver filmes e, à sexta-feira, saíamos todos para as matinés.

 

Uma tarde, numa aula de Educação Visual em que, normalmente, estávamos sempre na conversa, as raparigas começaram a fazer perguntas a Nico sobre mim e Simão.

— Nico, confessa lá se o Simão não sente um fraquinho por ela?

— Achas que sim?

— Confessa lá… Dá para ver. Vá lá, confessa. Sente, não sente?

— Achas que eu sei? Perguntem-lhe a ele…

— Diz lá… Vais dizer que nunca falaram sobre isso?

— Pronto… sim.

Desatámos aos gritos, eu de cara escondida nas mãos, a professora a mandar-nos calar pela última vez. A perspetiva sempre iminente de que, um dia, ele iria simplesmente declarar-se tornava cada dia uma epopeia, todas as pequenas coisas que ele fazia assemelhavam-se a grandes gestos. Mais tarde, na cantina, ele passara à frente de toda a gente e colocara-se a meu lado na fila, alegando que estava comigo. Também lá estava Marisa, uma miúda do grupo de Simão que usava argolas nas orelhas e cabelo comprido, ondulado e de risco ao lado. Ela era exatamente aquilo que eu queria ser, e isso estaria certamente bem espelhado em mim, o que a fazia dar-me, em troca, uma atitude sempre desagradável e comentários maldosos.

— Não me digas que vais ficar aí ao lado da abre-latas? — disse com desdém. Puxou-o para o lado dela e entrelaçou as suas mãos nos braços dele.

— Eu fico onde eu quiser — respondeu Simão, desembaraçando-se dos seus braços com uma gargalhada. — Não mandas em mim.

Um coro de assobios ecoara pela cantina e Simão agarrara-me ao colo e rodopiara, o artista no centro do seu palco, com as senhoras a berrar atrás do balcão para estarmos sossegados. Depois do almoço, Marisa passara por mim e por Alice e dera-nos um encontrão.

— Despacha-te lá a arrumar o tabuleiro, seu bafo metálico — disse. Estava sempre rodeada pelo grupo habitual de raparigas com os olhos pintados de preto e um ar inatingível. O comentário fora certeiro, todas se riram.

Mais tarde, houvera desacatos entre duas raparigas durante o intervalo. Tudo tinha começado porque uma chamara a outra de macaca barulhenta, sendo a primeira branca e a outra negra. Estava um magote de gente a assobiar e a ver. Simão intervira e, com um grito, mandara-as parar com aquilo. Mais rapazes juntaram-se para as separar, a que gritara a ofensa acabara na sala da direção. Como não gostar de Simão? Era simpático e atencioso com todos os miúdos, mais novos ou mais velhos. Fumava atrás dos pavilhões e faltava às aulas, mas tinha um sentido de justiça bastante digno e pouco comum naquela idade.

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