Raparigas como Nós
Capítulo 4
4
Passámos grande parte do nosso tempo sozinhos, também não conhecíamos praticamente ninguém. Ele deveria ter os seus colegas de trabalho mas eu só conhecia Lolla. Um domingo, fomos ao Parque Warner com Lolla e o seu amigo. «No es mi novio como tú e Afonso», disse ela. «Es sólo un amigo», sorrira. «Só um amigo? Digo-te já que andam a dormir juntos», disse Afonso ao meu ouvido enquanto Lolla e o amigo compravam gelados para nós. Mas a palavra namorado caíra com um peso estranho na conversa. Nós não falávamos em rótulos porque falar sobre o que éramos agora implicaria falar do futuro, coisa de que ambos parecíamos querer fugir a todo o custo. Acabara por chegar o momento em que começara a contar os dias que faltavam para me ir embora, onze, dez, nove… Afonso tirou a última semana de agosto de férias para podermos passar mais tempo juntos. E, depois de me ter sentado com Lolla e o coordenador dos intercâmbios do centro para fazer uma avaliação daquelas oito semanas, ficara oficialmente livre para uma última semana em Madrid à minha total liberdade.
— Gostava que conhecesses o meu colega — disse Afonso no meu último sábado, enquanto tomávamos o pequeno-almoço no El Rojano, um dos cafés mais antigos da cidade.
— Tudo bem. — Trinquei uma rosquilla de San Isidro. — Isto é bom. O que é?
— É um doce típico de Madrid. Aqui, em especial, segue mesmo a tradição.
— Porquê?
— Porque este café é como, sei lá, A Brasileira em Lisboa. Foi construído em 1800 e qualquer coisa pelo pasteleiro de uma rainha qualquer que o adorava. Toda a decoração e os materiais foram cedidos pela família real ou algo do género, já não sei bem contar a história. Mas diz-se que próprios móveis foram feitos cá dentro para serem impossíveis de roubar.
— Mas quem iria roubar um balcão? — perguntei, agora a trincar um turrone que não me fascinara por aí além. Sabia a nougat e nunca gostara do sabor. Fiz uma careta e coloquei-o de lado. Afonso pegou nele e continuou a comê-lo.
— Porque eram móveis reais ou assim, o povo poderia querer roubar. E a decoração original continua intacta desde aquela altura, isto é altamente histórico para ti que gostas tanto de História. — Dei uma gargalhada. — E diz-se que aqui se vendem quatrocentos tipos de bolos.
— Não sabia que te interessavas tanto por pastelaria.
— Como podes imaginar, passei muitos meses aqui sozinho sem grande coisa para fazer a não ser explorar os sítios que me sugeriam.
— E o teu colega é fixe?
— Olha, ele é muito divertido. Veio de Aveiro e trabalha no mesmo departamento que eu.
— Costumas estar com ele fora do trabalho?
— Costumamos sair ao fim de semana e beber uns copos com outro amigo dele que também é português. Sabias que há aqui uma comunidade de portugueses em Madrid?
— E o que fazem? Convivem? São tipo testemunhas de Jeová a partilhar os seus conhecimentos aos novos tugas emigrantes?
— Que engraçada. — Fez uma careta. — Há quem partilhe boleias para casa, há quem divida apartamentos, ajude com os documentos e por aí fora. É uma comunidade para os portugueses que estão cá. Muita gente vem trabalhar, como eu, e não conhece ninguém. Entrares num grupo e conheceres outros portugueses é fixe. Vais sentir-te menos sozinha.
— Eu sei, desculpa. Estava só a brincar.
— Eu sei. — Beijou-me no canto da boca.
— Vou almoçar com a Lolla e depois vou ter convosco.
Depois de almoçar com Lolla no terraço do mercado de San Antón, apanhei o metro para a estação La Latina e encontrei-os numa esplanada com cadeiras coloridas e um balde de gelo com várias cervejas lá dentro. Antes de ir ter com eles, caminhara um pouco. Uma das coisas que mais me fascinara em Madrid havia sido mesmo os bairros cheios de ruas, praças e pracetas, sempre com qualquer coisa a acontecer ou até apenas a atividade normal dos moradores que, de alguma forma, me encantara porque era tudo novo, fresco e diferente aos meus olhos. E a La Latina era um desses bairros que me apaixonara, não tanto pela sua vida noturna que nem chegara a conhecer, mas por ser um dos mais antigos e tradicionais bairros de Madrid. Ali ainda existiam restos de muralhas e pequenas igrejas que pareciam estar distribuídas ao acaso pelas ruas. Mas depois também era uma zona jovem e moderna, com o mercado de la Cebada, um dos maiores da cidade, onde parara para comprar kiwis antes de ir ter com Afonso e o seu amigo. Afonso sorriu quando me viu e levantou-se para me abraçar antes de chegar à sua mesa.
— Este é o Caju. — O famoso Caju fez um aceno de cabeça. Tive a certeza de que era o género de rapaz que se conseguia safar apenas com um aceno de cabeça. Tinha lábios carnudos e um cabelo que lhe caía para os olhos azul-claros, dando-lhe um ar meio enigmático e longe da imagem que fizera dele na minha cabeça. Era giro, mas daquela forma desinteressante de quem acha que basta apenas isso. Continuou a beber a sua cerveja como se nem sequer valesse a pena o esforço de me cumprimentar.
— Olá — respondi, sentando-me na cadeira em frente a eles. Coloquei o saco em cima da mesa.
— Então o almoço? — perguntou Afonso. Deu um gole na sua cerveja.
— Foi fixe. Fomos ao terraço de San Antón. A Lolla insistiu em tirar uma fotografia estúpida em cima de um daqueles porcos coloridos à porta. Até que um tipo apareceu a dizer que os porcos não eram para nos sentarmos. Mas falou de um modo enfastiado, entendes? Como se repetisse a mesma coisa todos os dias. Toda a gente deve fazer o mesmo quando lá vai.
— O Caju virou um porco há uns tempos. Lembras-te de quando lá fomos? — brindou com a sua garrafa na dele.
— Claro. Apanhámos uma borracheira que nem o porco escapou.
— Pronto, aí tens — respondi a rir. — Deviam tirar de lá os porcos.
— A Lolla não quis vir ter connosco?
— Vai ter turno no cinema. Já lá deve estar. Podíamos passar ir lá mais logo, ela disse que estreou um filme espanhol que está a ter boas críticas.
— Sempre vemos um filme onde os atores estão realmente a falar espanhol e não uma dobragem manhosa.
— O que trazes aí? — perguntou Caju, abrindo o meu saco com uma mão. Lembrou-me imediatamente Nando, sempre inconveniente.
— Kiwis que comprei ali no mercado.
— Para quê?
— São kiwis, sei lá, é para comer. — Olhei para Afonso. — Pensei em fazer um sumo, sempre dá para desintoxicar da quantidade de bolos que me obrigaste a comer hoje de manhã.
— À noite, é para beber álcool — interrompeu Caju com uma gargalhada. — Suminhos é para os meninos.
— Kiwis é fixe. Se comesses mais, não tinhas essa pança — disse Afonso. E percebi pelo olhar que me fez que esta tarde não estava a ir pelo caminho que ele imaginara.
Caju bebeu o resto da sua cerveja de uma só vez, bateu com a garrafa na mesa e limpou a boca com as costas da mão
— Bebes uma caña? — perguntou-me, tirando uma nova garrafa do balde de gelo.
— Não, obrigada, não gosto de cerveja.
— Como assim? Não há ninguém no mundo que não goste cerveja. — Explodiu numa gargalhada ruidosa. Olhei-o novamente e pareceu-me muito menos bonito do que quando chegara.
— Acho que há uma infinidade de pessoas que não bebem cerveja — respondeu Afonso por mim.
— Quando se está em Madrid, tem de se beber cañas, faz parte da tradição. É o que estamos aqui a fazer. Quem não bebe, vem cá fazer o quê? Comprar um saquinho de kiwis?
Olhei para Afonso, que sorriu.
— Ignora-o, ele só está a brincar contigo.
— Mas bebes, certo? — Caju retomou a conversa. Estava realmente interessado.
— Não bebo muito.
— Ela gosta de margaritas de limão — interrompeu Afonso, como se tentasse provar-lhe que eu era normal. Ao mesmo tempo, era um pormenor tão banal da noite em que nos conhecêramos que tive vontade de lhe subir pelas pernas.
— Com sal — acrescentei.
— Estava a beber uma quando a conheci. Depois virou a cara e lambeu a borda do copo discretamente, mas eu vi.
— Não lambi nada — respondi entre risos.
— Então mas pedimos margaritas para ti? — insistiu Caju. — Devem fazer aqui.
— São quatro da tarde.
— E então?
— Não me apetece.
— Como é que te consegues divertir?
Encolhi os ombros e comecei a mexer na minha mala para me ocupar durante um momento.
— Não me tinhas dito que a tua namoradinha portuguesa era tão chatinha — disse para Afonso, dando-lhe uma palmada no braço e tirando mais duas cervejas do balde para eles.
— Não vou beber mais, puto — disse Afonso. — Enquanto vais para casa sozinho ver pornografia no computador, eu e a chatinha temos coisas mais interessantes para fazer. — Levantou as sobrancelhas e piscou-me o olho.
— Foda-se — gritou enquanto se ria, atirando com a outra garrafa novamente para dentro do balde. — Dizeres isso é mesmo à cabrão. Mas saímos hoje, certo? Vai haver uma festa na Gabana e temos bar aberto até às duas. — Olhou para mim como que a pensar em dar-me uma segunda oportunidade na sua preciosa atenção. — Leva a tua amiga Lolla. É gira? Pelo nome deve ser gira. A única Lolla que conheci era uma boa foda.
— Acho que não — respondeu Afonso.
— Vão ficar em casa a beber suminho de kiwi?
— Talvez. — Afonso sorriu. — Bem, vamos embora. — Levantou-se e deu-me a mão. Levantei-me também.
— Gostei de te conhecer — disse a Caju, pegando na mala e no saco.
— Vão lá, pronto — bufou, encostando-se à cadeira. — Vão lá fazer um passeiozinho. Dás-me boleia na segunda para o jogo?
— Meti férias esta semana — disse Afonso. — Não vou ao jogo.
— Meu! — falou alto e gesticulou com as mãos. — «Este cábron sólo hace mierda.»
Afonso deu uma gargalhada.
— Arranja uma namorada!
Saímos da La Latina e Afonso levou-me ao Jardim Botânico, ao lado do Museo del Prado. E em pleno agosto no meio da cidade, era um descanso estar num sítio praticamente vazio que não fazia parte dos roteiros turísticos. Não havia bancos nem espaços para sentar, mas vimos uma infinidade de estufas que reproduziam os climas de outras partes do mundo. Não conseguimos ver tudo, o jardim tinha uma mostra de mais de cinco mil espécies de plantas do mundo inteiro e nós não tínhamos todo esse tempo do mundo.
— Tenho pena de que não tenhas vindo na primavera — disse, já no fim do circuito do jardim.
— Porquê?
— Porque te levava ao sítio mais incrível que descobri aqui há uns meses.
— Foste lá com a Alba?
— Sim.
Acenei com a cabeça e esperei que continuasse.
— É a Quinta de los Molinos que, a partir de março, se transforma numa coisa de outro mundo quando as amendoeiras começam a florescer. Aqui diz-se que, quando os Molinos estão em flor, nos podemos despedir do inverno, mas, na verdade, as amendoeiras são as primeiras árvores a dar flor. E isto não é uma lenda — riu-se —, é mesmo a natureza. O parque fica vestido de roxo e rosa e o cenário é mágico. Parece que estamos no Japão. As pessoas passam lá os fins de semana, fazem piqueniques e leem. Tu ias gostar.
— Também estou a gostar de agosto. — Entrelacei o meu braço no dele e deixei que me conduzisse onde quer que fosse. Com ele, ia a todo o lado.
— Vamos ao Retiro? — perguntou com um sorriso trocista. — Vamos andar nos barcos.
— Não. — Afinal, não ia a todo o lado.
— Vais gostar, a sério. Nunca na história do Retiro houve um barco a virar no lago e ficas a saber que era onde os reis faziam os seus passeios.
— Uau — revirei os olhos —, que interessante. Vou guardar essa para contar à Alice.
Atravessámos a rua e entrámos no parque do Retiro, lotado de turistas, de locais, famílias e crianças, namorados e velhotes a passear a um sábado à tarde. Passámos por um grupo de raparigas a andar de bicicleta, dezenas de pessoas a apanhar sol em fato de banho na relva e, mais adiante, por vários artistas de rua que faziam uma série de malabarismos no meio de uma pequena multidão. Afonso levou-me ao Palácio de Cristal, à Rosaleda com milhares de rosas e o Bosques del Recuerdo.
— Sabes o que é este bosque?
— Hum… um bosque?
— Claro, mas tem uma história. — Sorriu. — Antigamente, chamava-se Bosques de los Ausentes, mas, depois dos atentados, passou a ser um monumento de homenagem às vítimas e foram plantadas quase duzentas árvores, uma por cada pessoa que morreu.
— Não fazia ideia. — Parei a olhar à minha volta. — Isto é mesmo incrível.
— E há aqui uma estátua muito famosa.
— Como a do menino em Bruxelas?
— Ok, não tão famosa como a do mijão, mas esta é fixe. É a estátua do Anjo Caído e parece que é uma das únicas no mundo dedicada a satanás.
— E está amaldiçoada ou algo do género?
— Não. — Afonso deu uma gargalhada sonora. — Os miúdos costumam andar de skate e patins nessa zona. Bem — olhou para mim de mãos na cintura e puxou-me pelos braços —, vamos ao lago.
Entrei a medo dentro do barco a remos, era pequeno, azul, instável, abanou quando pousei o pé e não me inspirou confiança. Afonso estendeu-me a mão para me segurar a ele, com um sorriso de orelha a orelha, sentei-me e enrolei os braços ao redor dos joelhos. Ele começou a remar devagar, olhava ora para mim, ora para o percurso que estava a fazer para não bater nos outros barcos apinhados de turistas e crianças a rir e a gritar.
— Não estás com medo, pois não?
— Bem, sim, um pouco.
— Já aguentaste dez minutos e o barco não virou.
Respirei fundo para tentar aliviar a tensão dentro de mim.
— Olha, não te disse antes porque queria que enfrentasses esse medo de barcos e água, mas sabes qual é a profundidade do lago? — Olhei para ele curiosa ao som da sua gargalhada. — Varia entre os 60 centímetros e 1,80 metros. É tão profundo quanto a tua altura.
— Tenho um 1,70 metros.
— Então, se o barco virar e, por azar dos azares, for numa zona profunda, só tens de pousar os pés no fundo do lago e saltar para respirar. Não morres.
— És tão parvo.
— Mas talvez tenhas de ter cuidado porque vivem aqui milhares de peixes. A maioria são carpas, peixes-gato, tartarugas e caranguejos. Podem morder-te as pernas.
Afonso remou para longe e encostou à beira de uma zona do parque que estava mais vazia, saímos e deitámo-nos na relva. Era tão natural e confortável estar deitada ao seu lado, ouvir os barulhos do seu corpo, a sua respiração, sentir o seu cheiro. Lembrava-me de quando se foi embora, do vazio que era dormir na minha cama sozinha depois de tantas noites a dormir na dele. E este é um vazio difícil de quantificar, estamos habituados desde crianças a dormir sozinhos. E um dia aparece alguém que dorme ao nosso lado, puxa os lençóis, dá-nos pontapés com os pés frios e, com azar, até ressona. Mas então apaixonamo-nos e já não nos imaginamos a dormir sozinhos porque essa pessoa deixa de ser um corpo estranho na nossa cama e torna-se na única forma de conseguirmos dormir, com ela ao nosso lado. O tempo passa e já não nos lembramos do que é ter uma cama só para nós. Até que essa pessoa vai embora, a cama volta a ser toda nossa, podemos esticar-nos, puxar os lençóis para o nosso lado, dormir no meio das almofadas mas o consolo da cama desaparece. E vai demorar muito tempo até nos voltarmos a sentir confortáveis na nossa própria cama.
— Não custou muito, pois não? — perguntou, virando-se para mim.
— Só porque, afinal, o lago não é fundo. Tenho medo de morrer, o que é que queres? Se calhar noutra vida morri afogada.
— Não é fundo mas está cheio de mistérios nas suas profundezas.
— Como assim?
— Li que há uns anos tiveram de o esvaziar porque andava a perder água e encontraram coisas surreais lá dentro.
— Que tipo de coisas?
— Cadeiras, barcos, telemóveis, caixotes do lixo, mesas, skates e coisas que as pessoas atiraram para lá ao longo dos anos.
— Se havia barcos é porque eles se afundaram.
— És tão catastrófica! Deviam ser barcos velhos e partidos para terem ido ao fundo.
— Também andaste de barco com a Alba?
— Por acaso, não. Ela só vinha um fim de semana de cada vez. Não dava para fazer assim tanta coisa.
— Tens falado com ela?
— Nem por isso.
— Porquê?
— Porque ela seguiu a vida dela, está em Portugal e eu estou aqui.
— Pois.
— E a nossa fotografia continua na porta do meu frigorífico. — Os seus lábios contraíram-se num sorriso e atirou a cabeça para trás numa gargalhada.
— O que foi?
— Nos últimos meses, estive constantemente a imaginar-te. Chegava ao ponto em que já não sabia se eram memórias ou imaginação. Estava constantemente a voltar atrás, nós a comer piza, nós a jogar bowling, nós a comer gelados em Belém, nós a comprar aquelas pulseiras horrorosas na praia. Ainda a tens?
Senti um aperto no peito, desfizera-me dela num momento de desapego. E desespero, é certo.
— Não tenho. — Tapei a cara com as mãos. — Atirei-a para o lixo.
— Porquê?
— Porque era demasiado doloroso recordar.
— Atiraste tudo o que tinhas meu para o lixo?
— Não. Só algumas coisas que deixaste em minha casa, o teu perfume, os teus post-its colados na parede do meu quarto. Eram as coisas que mais me magoavam porque representavam a tua presença, tu estavas em todo o lado. Mas guardei as nossas fotografias.
— Numa caixa bem escondida, tenho a certeza.
— E debaixo da cama. — Sorri.
— Como é que ele era?
— Quem?
— Olha, quem? — Revirou os olhos. — O Simão.
— Não sei dizer. — Fechei os olhos e coloquei as mãos atrás da cabeça, deitada na relva. — O que é que queres saber?
— Como é que ele apareceu?
— Encontrei-o em Carcavelos, ele tinha ido lá à escola buscar uns papéis.
— E o que é que ele faz?
— Andou a fazer um curso de navegação, queria trabalhar num barco, ser capitão ou algo do género, mas entretanto estava a dar aulas de surf na escola que pertence ao bar do Zeca.
— Como é que era a vossa relação?
— Não achas estranho falar disto?
— Talvez, mas confesso que quero saber.
— Ele é fantástico, a sério. E não digo isto para que tenhas ciúmes. Isso só seria estúpido. — Fiz uma careta. — Mas ele é boa pessoa, preocupa-se com os outros e faz com que, ao pé dele, toda a gente se sinta bem. Olha, o oposto do teu amigo hoje.
— Porquê?
— Hum… — Virei-me de lado e apoiei a cabeça na mão. — Ele foi um bocado idiota. E não digo isto com maldade, não quero que penses que estou sempre a criticar os teus amigos. Mas estava a fazer-me sentir como se fosse uma aberração por não querer beber às quatro da tarde a merda de uma margarita
— Ele é um bocado inconveniente às vezes, eu sei. — Sorriu. — E a tua opinião em relação aos meus amigos é muito idêntica à minha. Já falámos sobre isso. Mas eles são assim, não é que sejam más pessoas. E, apesar de não me identificar em tudo, claro que gosto deles. Crescemos juntos.
— Claro, também não estou a dizer isso.
— Gostavas dos amigos dele?
— Nem por isso.
— Porquê?
— Eles não se embebedavam e não se metiam com gajas, mas consumiam muitas drogas.
— Que tipo de drogas?
— Tudo o que possas imaginar.
— Foda-se.
— Pois.
— E alguma vez experimentaste?
— Claro que não. — Optei por ocultar o episódio em que Marisa me colocara aquela merda no copo.
Ficámos em silêncio durante algum tempo. Pensei em Simão. Como estaria? O que andaria a fazer? Ainda trabalharia no bar com Zeca? Fizera finalmente o tal exame? Antes de vir para Madrid, Zeca dissera-me que Simão perguntava por mim, mas sabia que era melhor não falarmos. Mas estes últimos dois meses sem viver em constante pânico tinham-me feito perceber como a nossa relação era doentia, tóxica e tensa. Vivíamos constantemente a custo para estar um com o outro, ele para tentar mudar e eu para tentar aceitar. E Afonso fizera-me voltar à realidade, encaixávamos tão bem na vida um no outro, vivíamos sem esforço e percebera que era isso que queria para mim, fosse com Afonso ou sozinha.
— Porque é que já não estão juntos? — perguntou, quebrando, por fim, o silêncio.
— Queres a versão curta ou a versão longa?
— A longa — sorriu.
— Vai ser a média — respirei fundo. — Desde que me lembro, ele sempre consumiu drogas. Já era assim na escola quando era miúdo. Uma vez, eu, a Alice e outras amigas fomos para a varanda do quarto de uma delas com binóculos para ver o que o Simão e os amigos faziam atrás das terras da escola. — Afonso deu uma gargalhada. — Claro que eles ficavam lá encostados ao muro a fumar charros, o que na altura nos deixou horrorizadas. No início do ano, quando começámos a estar juntos, ele parou um pouco ou, pelo menos, foi essa a impressão que tive. Estava cheio de planos e ia fazer um exame, mas, quando começou a trabalhar na praia e a passar mais tempo com os amigos, os seus velhos hábitos também voltaram. Ele tinha passado os últimos anos a trabalhar e a estudar no Algarve e acredito que, fora do seu ambiente, também se conseguisse manter mais ou menos sóbrio ou, pelo menos, com mais regularidade.
— Mas eles fumavam charros, era isso? — interrompeu-me Afonso, desdramatizando, conseguia perceber pelo seu tom — Bem, quem é que nunca o fez? Todos fumávamos na escola e eles ainda fumam às vezes, mas chega a uma altura em que, sei lá, deixas de ter paciência para estar sempre a leste da vida.
— Pronto, a questão é que eles fumam charros diariamente porque não sabem estar de outra forma. — Suspirei. — Fumavam crack, cheiravam coca, tomavam pastilhas e essas merdas.
— Epá, isso já é outro nível.
— Pois…
— E depois? O que aconteceu para terminarem?
— Aconteceram muitas coisas, mas, resumidamente, fomos para a Ericeira, ofereceram-lhe um cachimbo e mais merdas e uma das amigas dele teve uma overdose. Acabei a noite com ela no hospital, ficou tudo bem com ela, mas foi o meu limite.
— E ainda gostas dele? — baixou os olhos.
— Gosto, mas não é esse gostar que estás a pensar. Gosto dele porque faz parte da minha vida, da minha infância, tudo o que vivemos foi intenso e está associado a muitas lembranças…. mas não estou apaixonada por ele.
— Como é que consigo competir com isso?
— Estás a compreender tudo errado, Afonso. — Apertei os seus dedos nos meus. — Eu tinha catorze anos. Mal me conhecia a mim própria, quanto mais a ele. E todos os anos que nos separaram só serviram para construir sentimentos, expectativas erradas e amor idealizado com base em memórias infantis. No momento em que eu e o Simão nos encontrámos, acho que estávamos apaixonados pela ideia de nós e não um pelo outro.
Afonso ficou em silêncio a olhar para as nossas mãos.
— Escuta — puxei o seu queixo para cima para olhar para mim —, quando vim para cá, senti-me aliviada porque foi como se me tivessem tirado um peso de cima dos ombros. Estava exausta de viver constantemente alerta, não por mim, por ele. Senti-me leve e livre pela primeira vez em muito tempo, como se conseguisse finalmente respirar depois de ter estado tanto tempo debaixo de água. Não foi nem sequer um por cento do que senti quando te foste embora. Senti a tua falta todos os dias, todos os segundos, foi dilacerante. — Dei uma gargalhada seca. — Eu apaixonei-me por ti de uma forma real. Não por uma ideia de amor, mas por ti, pelo que tu és, pelo que me davas, pelo que eu era e sou quando estou contigo. De uma forma realista, natural e simples. Não de uma forma fantasiada.
— O que nos vai acontecer quando voltares para Portugal?
— Não sei, mas acho que temos de esperar para ver. — Sorri. — E, desta vez, acho que temos de fazer um esforço por nós.
— Ah sim? — escondeu o rosto nos meus cabelos. — Posso dizer uma coisa?
— O que quiseres.
— Não estou a dizer que te amo mais do que ele. Só sei que te amo melhor. És a porra da mulher da minha vida.
— És tão exagerado. Somos tão novos…
— Vais continuar a ser mesmo quando tiver cinquenta anos.
— E quando eu tiver setenta e a pele caída e a cara cheia de rugas?
— Também. Aí já vamos ter montes de histórias para contar aos nossos netos.
— És doido. — Abracei-me a ele. Deixei que me beijasse e que o resto da tarde passasse como se só nós existíssemos no meio do centro palpitante desta estranha cidade que agora só tinha a cara dele por todo o lado.
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